Entre tantos, um dos aspectos que chama a atenção numa primeira leitura de Rilke shake (2007), livro de estreia de Angélica Freitas, é a coleção de nomes próprios referentes culturais que pode desorientar um leitor sem auxílio do Google. Tâmisa, Kinkakuji, Stradivarius, Karabtchevsky, Polnareff, Trollope, Méditerranée, Lota, Alice Babette etc. São nomes que enganam, pois a sua diferença não está marcada nos poemas como distinção do verso em relação ao papo cotidiano, como é o caso do templo japonês Kinkakuji, que conta com uma réplica em São Paulo, ou da referência ao Stradivarius “nos vários empregos” da palavra.
Não são apenas os nomes próprios que dançam para o leitor nos textos de Rilke shake. Essas palavras são indício do processo de leitura da tradição literária em choque com a cultura global, que parece formar os poemas. Um exemplo breve que pode revelar esse processo é o que aparece na página 15 da edição de 2021 do livro:
agosto a oitava coelhinha da playboy
ou o templo dourado de kinkakuji
ou um gato e um pato num cesto
meu avô não gostava de agosto
dizia agosto mês de desgosto
quando passava dizia agora não morro mais
Pelo paralelismo entre as estrofes, gostaria de observar uma montagem entre a experiência suposta de quem escreve e a experiência do avô em relação ao tempo, à data. O oitavo mês do ano marcado pela imagem da mulher seminua num calendário da revista Playboy convive com a perspectiva de meditação (essa é uma suposição de leitura) num templo zen-budista (no Japão ou em São Paulo? no original ou na réplica?). A diferença entre um gato e um pato é mínima: apenas um fonema.
E, no entanto, apesar dessa relação com o mês de agosto organizada pelas marcas da reificação ou da purificação dos corpos no calendário, ou pela reunião grotesca das espécies animais, como se a diferença entre o calendário masculino e o calendário feminino fosse mínima e decisiva, entre as espécies animais fosse mínima e bizarra, o avô ria e ordenava o tempo: “não gostava de agosto”, como quem faz jus à palavra, numa falsa etimologia, a-gosto, não gosto. Por isso, “agosto” é sinônimo de “desgosto” e atravessá-lo implica sobreviver.
No território do chiste, a poeta escuta na tradição, seja literária, seja familiar, procedimentos para o poema. A questão que se coloca, a meu ver, é que em termos de gêneros textuais a tradição convocada na obra de Angélica Freitas está frequentemente associada com as formas menores, em extensão e em reconhecimento cultural. Assim, o conto de fadas, a piada, a fábula, a canção, o provérbio organizam os poemas como representação da ruptura entre livro e vida, sentido e tradição, verso e fala. E, na sociedade brasileira, essa tradição convocada esteve associada historicamente às mulheres — narradoras domésticas, guardiãs dos saberes cotidianos. Quando rimos lendo Angélica Freitas, rimos da possibilidade do poema em versos sair de si, em transe de gênero.







