Peter Schlemihl

Ilustração de George Cruikshank (1792-1878) para a primeira edição inglesa, em 1823, de ‘A história maravilhosa de Peter Schlemihl’, de Chamisso.

Eu tinha perdido de tal forma o controle que comecei a falar tresloucadamente: dizia que, no fundo, uma sombra não era nada mais do que uma sombra, que se podia viver sem ela e que não valia a pena fazer tal alarido por causa disso. Mas eu sentia muito bem a inconsistência daquilo que dizia e assim interrompi meu discurso sem que o chefe florestal se dignasse a dar-me uma resposta. Acrescentei por fim: “o que se perdeu uma vez, pode-se encontrar de novo em outra ocasião.

(CHAMISSO, Adelbert von. A história maravilhosa de Peter Schlemihl. Tradução de Marcus Vinicius Mazzari. São Paulo: Estação Liberdade, 2003. p. 76.)

Cenas e cortes

Frame de Cinema Paradiso (1988), de Giuseppe Tornatore
Frame de Cinema Paradiso (1988), de Giuseppe Tornatore

A Internet, poucos anos atrás, não combinava tanto com vídeos. E quem tava por fora do circuito de cinemas da Zona Sul da cidade acabava sem ver a metade dos filmes do mundo, ou seja, aqueles que não são produzidos pelos estúdios de Hollywood e às vezes nem falam inglês.

Pois foi assim, sem Internet nem YouTube, que em 2004 e 2005 estive quase todos os fins de semana numa sala escura da Zona Sul da cidade, na ânsia de quem, analfabeto em filmes que não os da Sessão da Tarde ou os Titanic da vida, comia com os olhos as cenas e os cortes durante duas curtas horas. Estava no começo da graduação em Letras, e dividia a vida com uma estudante de arquitetura fascinada desde a infância por filmes de tudo que é tipo. Mas os filmes que mais me tocaram naquele momento eram de um tipo só: indefiníveis para mim.

Lembro de Má Educação, e depois Pedro Almodóvar se tornou lição de qualidade estética. Lembro de Dogville, e depois Lars von Trier se tornou o niilista ao qual teimo em ficar indiferente. Lembro de Elefante, e depois Gus van Sant se tornou o cineasta da juventude num mundo que a mata. Lembro, por fim, de Peixe Grande, e depois Tim Burton se tornou suvenir da infância que não tive, quando não aprendi a pescar grandes peixes a não ser dentro de mim mesmo.

Não sei o quanto esses filmes seguem sendo realmente indefiníveis para mim, mas eles me chegaram num momento da vida muito singular, quando tudo ainda parecia depender somente da minha grande vontade de arte para que as coisas (ah, as coisas, como isso é vago, e isso não diz muita coisa) mudassem. Hoje não. Hoje sou apaixonado pelo cinema do Karin Aïnouz. Pelo cinema do Eduardo Coutinho. Do Wim Wenders, do Werner Herzog. Filmes que machucam, que me deixam sem lugar para percebê-los ou falar, ou sem ter muito o que dizer além da dúvida: eu não sei se gostei, mas isso é foda!

Ou então sou marcado por alguns filmes singulares, como os do extremo oriente, tipo O arco, que narra a estranha história de um homem que vive no seu barco junto com uma linda jovem, que, no entanto, quer descobrir o mundo fora dessa ilha familiar. Um dia, ela toma um bote escondida, liga o motor e segue rumo ao porto, rumo ao mundo. Não tinha visto que ele amarrou o bote a uma corda, e a corda a seu pescoço.

Os filmes são como esse bote. Mas acho que o velho que amarra a corda a seu pescoço também sou eu: se simplesmente cortarmos essa corda, abandonamos o barco e, com ele, uma parte de nós. Resta saber se estamos dispostos a pagar o preço que a arte exige. E o cinema – cenas e cortes – pede o seu preço, e é caro, e é bom.

(Este texto foi provocado pelos alunos que integram o SAT, a Sociedade dos Amigos do Texto que inventamos no Colégio Pedro II de Realengo e se reúne para ver filmes, falar de livros etc.)

O texto mais horripilante de que você é capaz

Desenho de Victor Hugo

Provoquei meus alunos do ensino médio a comporem um texto que provocasse o medo mais intenso de que fossem capazes, com base no exemplo de Victor Hugo que, em Os trabalhadores do mar, descreve uma criatura horripilante numa passagem inesquecível traduzida pelo Machado de Assis no calor da hora. 

Do resultado, fiz uma colagem. E acho bonito ler os fragmentos como um retrato do imaginário do medo no adolescente de agora, este que está (a)diante de nós com frequência.

*

Não tinha forma, cor ou cheiro, o tal do Amor. Cor de vômito.

Bela, estonteante. Seu guarda-chuva, que agora eu conseguia ver nitidamente, era feito de ossos e escorria sangue esverdeado.

Seu veneno contagia até mesmo os que são de sua espécie se espalhando de forma sutil como o aroma das flores. É conhecida como Mente Humana.

Eis que das sombras – ou quem sabe até da luz – surge uma figura encapuzada. A morte é a certeza do acontecer antes mesmo de se concretizar.

O demônio não era semelhante a nenhum monstro de história de terror cuja aparência é deformada, mas se assemelhava a um homem; contudo, aí acabam as semelhanças.

O amor é um processo químico que ocorre na ínsula, localizada no meio do cérebro. Deve ser considerado um dos mais perigosos tormentos que atingem a população mundial, pois é capaz de ter o controle sobre o nosso corpo e interfere diretamente em nosso dia a dia e pode interferir nas faculdades mentais, gerando um processo de dependência e perda total do controle sobre si.

Olhá-los nos olhos é como encarar a própria morte, neles não há luz, só escuridão e desespero.

*

Vi ontem um bicho na escuridão da cidade.

De sua boca com cor de dor, não saía voz (nunca deixaram que saísse).

O cheiro dele era de guerra, guerra de toda uma vida.

O bicho? Não me viu. Eu? O senti. Como senti a fumaça de seu cachimbo, como senti seu cheiro de guerra diária, como senti que a justiça tem um preço que o pobre não pode pagar.

Dossiê Gertrude Stein no Brasil

Gertrude Stein

1957: tradução (conferência)

“Poetry and Grammar”, Mario Faustino

1959: ensaio, tradução (peças)

four saints in three acts (1927) [fragmento]
listen to me (1938) [fragmento]

“Gertrude Stein e a melodia de timbres”, Augusto de Campos

1965: tradução

Três vidas, Brenno Silveira e José Paulo Paes
Editora Cultrix

1974: ensaio, tradução (peças)

four saints in three acts (1927) [fragmento]
listen to me (1938) [fragmento]

“gertrude é uma gertrude”, Augusto de Campos
1974, Suplemento Literário Minas Gerais; 1979, Através, n. 3; 1986, o anticrítico.

ela é uma chata genial
a única q pegou o outro lado da questão
inglês básico mais repetições

[…]

ela descobriu algo
não é dada não é surrealista
é gertrude stein
gertrude é uma gertrude é uma gertrude é uma

[…]

1983a: tradução (autobiografia)

Autobiografia de todo mundo (1936), Júlio Castañon Guimarães
Editora Nova Fronteira

1983b: tradução (autobiografia)

“Melanctha”, Caetano Veloso

Republicado como apêndice a Três vidas, na edição da CosacNaify

1983c: tradução

“Dinheiro”, Waly Salomão e Suzana de Moraes
Folha de S. Paulo, Folhetim

1984: tradução (autobiografia)

Autobiografia de Alice B. Toklas (1932), Milton Persson
Editora L&PM

1990: intradução, tradução (retratos)

a portrait of one (1913)
if i told him. A Completed Portrait of Picasso
george hugnet (1928)
identity: a tale (1936)

“rosa para gertrude”, Augusto de Campos [intradução]

Porta Retratos: Gertrude Stein, Augusto de Campos

Editora Noa Noa

1994: obra, tradução (retrato)

Portrait of Picasso, Suzana de Moraes

Portrait of Gertrude, Adriana Calcanhotto
No CD Fábrica do poema

1996: ensaio, tradução

“Gertrude Stein: sim e não”, Augusto de Campos
Folha de S. Paulo, Mais!

1997: tradução (peça)

Doutor Faustus liga a luz, Fábio Fonseca de Melo

2000: tradução (peças)

Capitão Walter Arnold, Uma Peça (1916)
Quero que isto seja uma peça, Uma Peça (1916)
Vozes de mulheres (1916)
A seguir. Vida e cartas de Marcel Duchamp (1920)
O rei ou alguma coisa (convida-se o público a dançar) (1917)

Júlio Castañon Guimarães
O Percevejo n. 9

2005: ensaio, tradução (peça)

Parte IV. A questão da identidade. Uma peça

“Ver-ouvir Stein”, Inês Cardoso
Inimigo Rumor 17

2006: ensaio, tradução (retratos, peças)

a portrait of one (1913)
if i told him. A Completed Portrait of Picasso
george hugnet (1928)
identity: a tale (1936)
four saints in three acts (1927) [fragmento]
listen to me (1938) [fragmento]

“Gertrude Stein: sim e não”, Augusto de Campos
1996, Folha de S. Paulo, Mais!; 2006, Poesia da recusa.

Como observou Wendy Steiner, a articulação das frases em unidades similares age anti-sintaticamente, tornando difícil a integração de tais frases sem múltiplas leituras ou mesmo análises das relações entre as cláusulas. Essa dissolução da frase, que interfere com as relações de tempo e de espaço, é um indiscutível feito de Gertrude, revelando-se ainda hoje rica de sugestões.

2007: tradução

Homens, Marília Garcia e Valeska de Aguirre
Inimigo Rumor 20

2008: ensaio, tradução

Três vidas, Vanessa Barbara
Posfácio, Flora Süssekind
Editora CosacNaify

2009a: tradução (conferência)

Composição como explicação, Andrea Mateus
Modo de Usar & Co. 2

Aqueles que estão criando a composição moderna autenticamente são naturalmente apenas importantes quando estiverem mortos porque então a composição moderna tendo se tornado passado é classificada e a descrição dela é clássica. Essa é a razão porque o criador da nova composição nas artes é um fora-da-lei até que seja um clássico, entre eles há menos que um instante e é naturalmente muito ruim muito ruim mesmo para o criador mas também muito ruim mesmo para o apreciador, eles todos realmente apreciariam a criação muito melhor logo após ter sido produzida do que quando já é um clássico, mas é perfeitamente simples que não haja nenhum motivo pelo qual os contemporâneos devessem ver, porque não faria nenhuma diferença já que levam suas vidas na nova composição de qualquer forma, e como todos são naturalmente indolentes ora naturalmente não veem. Por essa razão como ao citar Lord Grey é bem certo que as nações não efetivamente ameaçadas estão militarmente em atraso por pelo menos várias gerações e assim esteticamente estão em atraso por mais de muitas gerações e é muito ruim mesmo, e é tão mais excitante e satisfatório para todo mundo se se pode ter contemporâneos, se todos os seus contemporâneos pudessem ser seus contemporâneos.

2009b: ensaio, tradução (autobiografia)

A autobiografia de Alice B. Toklas, José Rubens Siqueira
Posfácio, Silviano Santiago
Editora CosacNaify

2010: ensaio, tradução (autobiografia)

Autobiografia de todo mundo, Júlio Castañon Guimarães (tradução revista)
Posfácio, Júlio Castañon Guimarães
Editora CosacNaify

2014a: ensaio, tradução (autobiografia)

The autobiography of Rose (1936)

“Rosa não era uma Dália”, Inês Cardoso Martins Moreira
Portfolio #3

2014b: tradução (Tender Buttons)

“Rosbife”, A. M. J. Crawford e Miguel Martins
Modo de Usar & Co. Online

Dossiê “Verdade tropical: um percurso de nosso tempo”

Roberto Schwarz

O ensaio que Roberto Schwarz dedicou ao livro Verdade tropical, de Caetano Veloso, desencadeou em 2012 uma série de textos, que são mais ou menos esses.

Defasagem linguística

bilhete da rosângelaNão vejo contradições em ensinar, na educação básica, a compreensão de que uma língua é constituída por inúmeras variedades, sendo uma delas eleita, por critérios sociais e não linguísticos, como a norma-padrão, a ser utilizada em contextos profissionais devido a convenções sociais. Aliás, é fundamental, para se compreender a norma-padrão como um aparelho ideológico, percebê-la como uma entre outras variedades gramaticalmente legítimas, sem que isso signifique abrir mão do conhecimento e do domínio da própria norma-padrão, inclusive como instrumento para transformar a realidade linguística do falante por meio de seu trabalho e de suas intervenções sociais (penso que um médico ou uma diarista podem ser tão eficazes no combate ao preconceito linguístico quanto um professor de ensino básico). Agora, restam poucas dúvidas de que este trabalho exige a atualização do professor quanto às gramáticas descritivas da norma-padrão, que têm sido publicadas nos últimos anos no Brasil, de modo que a norma-padrão não signifique, para o aluno, uma defasagem linguística, digamos assim. Ou seja, quanto menos atualizados estivermos, maior será a distância entre a experiência linguística dos alunos e a norma-padrão vigente. Se, ainda, nos dedicarmos ao ensino de alunos inseridos em grupos sociais muito pouco escolarizados (o que é a regra no ensino público), essa defasagem é praticamente inevitável e acaba revelando com maior força o caráter repressor e excludente da norma-padrão, por mais atualizada que esta seja. Assim, de fato, penso que já podemos começar a abrir mão da tradição gramatical normativa e nos apropriarmos dos olhares dos linguistas que têm produzido suas gramáticas da norma-padrão, com base em corpora consistentes e exaustivos. É um começo, e as práticas, como sempre, estão por se fazer.
(Escrito por solicitação da Bruna Alencar, licencianda no CAp-UFRJ.)

A literatura que vem: o paradigma da crise dos gêneros

Os gêneros e as obras

Quando se propõe o posicionamento sobre a crise dos gêneros, cria-se a expectativa de se saber em que momento histórico o professor vai estabelecer os cortes em relação aos três gêneros clássicos com base em obras da modernidade que mesclam os gêneros, ou também a expectativa de que se estabeleça que os gêneros são instrumentos de classificação das obras e não propriedades delas próprias.

Nesse sentido, espera-se do professor que apresente a situação atual dos gêneros com base em seu próprio cânone ou no cânone mais adequado para essa demonstração – e aí seria “ótimo” tomar como exemplo as Galáxias, de Haroldo de Campos, entre outras obras propícias – e ao mesmo tempo que reconheça que em alguma medida as obras nunca “pertenceram” plenamente aos gêneros. Também costuma entrar no discurso o efeito das novas tecnologias sobre a configuração dos gêneros clássicos.

Penso que a coisa toda funciona assim, entre dois limites: há os que abordam a literatura contemporânea com base no modelo dos três gêneros, e consideram as obras de difícil classificação entre gêneros como resultantes típicas da mescla estilística – esta é uma posição característica de uma determinada crítica paulista e teoricamente inspirada na solução de Emil Staiger, como veremos –, e há os que abordam as obras com base nas noções de fronteira ou dissolução dos gêneros, e consideram as obras de difícil classificação como a demonstração de uma literatura que não se deixa classificar – esta é uma posição característica de uma determinada crítica carioca e teoricamente inspirada na lição do pós-estruturalismo.

De qualquer maneira, os gêneros são uma classificação. E, quanto às classificações, conhecemos a lição chamada Michel Foucault, o qual, no prefácio a As palavras e as coisas (1966), toma de empréstimo a “divisão dos animais” em uma enciclopédia chinesa, conforme relatada por Borges – um desses escritores adequados à abordagem da crise dos gêneros. Podemos aplicar o exercício borgiano à situação dos gêneros e propor que

Os gêneros se dividem em: a) romances; b) romances best seller; c) romances da Companhia das Letras; d) Paulo Coelho; e) prosa experimental; f) prosa poética; g) poemas em prosa; h) Francis Ponge; i) pós-poesia; j) obras de que o Alcir Pécora gosta; l) escritas cênicas; m) sonetos; n) sonetoides; o) poemas visuais; p) poemas cabralinos; q) poemas marginais; r) Ana Cristina Cesar…

Há nessa classificação uma salada de categorias, é certo, que poderiam sugerir ausência de rigor, indistinção entre as categorias de gênero, autor, mercadoria… Mas há, ao mesmo tempo, uma desierarquização das categorias que se verifica na circulação da chamada literatura hoje, e se percebe ora devido às dificuldades de classificação de uma obra, ora na eleição de um poeta como paradigma geracional, ora na produção de uma forma literária que redefine a categoria de gênero… De modo que esta lista representa, como classificação, uma outra espécie de  rigor.

E esse rigor só é possível porque, no campo da literatura – enquanto nomeação moderna e recente de uma atividade que não se encontra com esse nome em contextos clássicos –, não há o “lugar-comum” (cf. Foucault) indispensável à formulação das classificações de objetos heterogêneros, de modo a se constituir, na própria classificação apresentada, que é ela mesma – frise-se – um exemplo entre outros de classificação da situação contemporânea, uma “heterotopia” (cf. Foucault), em virtude das categorias heterogêneas. E, quando afirmo que não há o lugar-comum, quero dizer que o campo da literatura – que inclui o discurso sobre a literatura – se define pela crise, “apostando com isso na força criativa do paradoxo e do ‘mal entendido’”, na formulação de Marcos Siscar, no ensaio “O discurso da crise e a democracia por vir”.

Trata-se, nesse caso, de um olhar que encontra seu rigor ao se posicionar entre os “códigos ordenadores” dos gêneros, que hoje são enunciados principalmente por editoras, prêmios literários, jornalismo literário, e as “reflexões sobre a ordem”, que, como tais, questionarão as ordens instituídas. Assim, ao propor uma outra ordem, singular, ou um exemplo da ordem contemporânea, a classificação que proponho parece dizer respeito a um campo intermediário entre os “códigos ordenadores” e as “reflexões sobre a ordem”, que é o da “experiência nua da ordem e de seus modos de ser”, cuja história e cuja investigação Foucault nomeou “arqueologia”. Nesse caso, se estudariam exemplos, ou casos paradigmáticos, ou seja, representativos de uma reordenação dos códigos.

(Giorgio Agamben anota que, em latim, o termo para-deigma correspondia à noção de exemplo, o que é muito diferente da noção normativa do senso comum, como se diz que há uma crise dos paradigmas. Interessa ao filósofo que o exemplo seja o objeto singular que é, ao mesmo tempo, representativo de uma categoria, de modo que o paradigma, enquanto exemplo, constitui um elemento do método arqueológico, como é o caso do estado de exceção, paradigma da democracia, ou do enjambement, paradigma do verso.)

Como é o caso dos juízos de Alcir Pécora, que são, a meu ver, um paradigma da literatura contemporânea. Num ensaio que acaba de sair em livro pela editora Iluminuras, organizado pela professora Susana Scramin, “A literatura que não vem”, defendo que Pécora concebe a crítica como o arquivamento da modernidade, no sentido de que cabe ao crítico verificar e esperar o aparecimento de grandes obras – com os valores modernos – para que as eleja e as guarde neste arquivo. Nada impede, segundo o crítico, que não apareçam. Enquanto não aparecem, resta ao leitor crítico a fruição de  uma literatura mascarada:

Poucos autores de literatura contemporânea me dão mais vontade de ler como teóricos tão diferentes entre si como Rorty, Davidson, Cavell, Agamben, Renato Barilli, Perniola, Sloterdijk, Jonathan Lear, Blanchot, Magris, Martha Nussbaum, Boris Groys… […] Fico imaginando se essa não será uma forma de literatura disfarçada. Uma nova máscara da literatura.[1]

O que resta por ser investigado nessa observação é: por que a insistência no disfarce, que guarda um rosto moderno? Por que não uma máscara que se transformasse em rosto? O gênero ensaio, ou a teoria, necessariamente fora da literatura, mantém com ela uma relação de mascaramento, enquanto os gêneros literários constituiriam os rostos da literatura. Qual será o estatuto deste rosto, se ele existe?

“Não sou poeta e estou sem assunto”

Uma das soluções mais adotadas para se pensar os gêneros literários é a proposta de Emil Staiger que, em 1946, em Conceitos fundamentais da Poética, defende não haver obras que pertençam exclusivamente a um gênero, embora haja uma “significação ideal” para cada gênero.

Nossos estudos, ao contrário, levam-nos à conclusão de que qualquer obra autêntica participa em diferentes graus e modos dos três gêneros literários, e de que essa diferença de participação vai explicar a grande multiplicidade de tipos já realizados historicamente.

Restaria pensar qual a necessidade de se manterem as “noções fundamentais” de cada gênero se cada obra se realiza singularmente ao mesclar esses gêneros. Staiger propõe que a seleção deste núcleo ternário dos gêneros se dá por “conveniência terminológica”, o que quer dizer que ele se propõe a compreender a tradição do pensamento acerca dos gêneros e sustentar, a partir dessa compreensão ideal, uma separação entre gêneros e obras, entre as palavras e as coisas que nomeiam.

O problema é que esse horizonte da significação ideal não é tão ideal assim. A estruturação ternária num sistema fechado, para além de refletir uma configuração cristã que não se encontrava entre os gregos, aponta ainda para a simbologia do número três, segundo a qual a repetição de uma repetição só pode configurar um milagre, um acontecimento sobrenatural. Esse ideal não escapa da contingência. Nesse sentido, em vez de rostos os gêneros, para Staiger, são fantasmas das obras, são abstratos, ideais, convenientes.

Assim, a abordagem de Staiger propõe que não há obra que não seja heterogênea quanto aos gêneros, mas ao mesmo tempo propõe a manutenção da categoria ternária do gênero como um horizonte fantasmático. Sinal de que há uma dificuldade especial em se delimitarem os gêneros com base na forma das obras.

Outra estratégia para abordar os gêneros é investigar aqueles que conquistaram alguma autonomia em relação aos três gêneros clássicos, embora devido a essa própria autonomia se desconfie de seu pertencimento ao campo literário. No Brasil, especialmente a crônica, o ensaio e a canção popular. Penso que é fundamental, ao abordar a teoria dos gêneros no contexto brasileiro, considerar um ensaio curto e fundamental de Antonio Candido, chamado “A vida ao rés-do-chão”, cujo começo transcrevo:

A crônica não é um gênero maior. Não se imagina uma literatura feita de grandes cronistas, que lhe dessem o brilho universal dos grandes romancistas, dramaturgos e poetas. Nem se pensaria em atribuir o Prêmio Nobel a um cronista, por melhor que fosse. Portanto, parece mesmo que a crônica é um gênero menor.

Graças a Deus, seria o caso de dizer, porque sendo assim ela fica mais perto de nós. E para muitos pode servir de caminho não apenas para a vida, que ela serve de perto, mas para a literatura.

É o caso de observar que este ensaio opera no horizonte dos três gêneros: “romancistas, dramaturgos e poetas”. A crônica é um quarto elemento, uma perturbação ao esquema, sua excrescência. Sem “brilho universal”, foge ao paradigma da grande literatura. Mas sua marginalidade ao esquema é reconhecida como a sua singularidade: “perto de nós”, “serve de caminho para a literatura”. Subsiste uma ambiguidade, portanto, entre o primeiro e o segundo parágrafos: como gênero literário, ainda que menor, a crônica pertence à literatura; mas como caminho para a literatura, ela não é propriamente literatura.

Ora, um cronista ocupa o espaço no jornal, escreve ritualmente, em número de caracteres determinado… Ele ocupa o espaço da crônica, e, na medida em que o gênero se define pelo espaço tipográfico que ocupa, o que se assinar como crônica passa a ter valor de crônica, a ser lido como crônica. Nesse sentido, na crônica citada pelo próprio Antonio Candido, “Última crônica”, ao Fernando Sabino afirmar “Não sou poeta e estou sem assunto”, o autor demarca o lugar da crônica, definindo-a não como um conjunto de enunciados com uma articulação específica, mas como um lugar de fala, a ser ocupado pelo escritor, ainda que pela recusa a ter assunto ou a ser escritor ou poeta. É nesse sentido, portanto, que proponho a compreensão da categoria de gênero literário: a inscrição, com procedimentos múltiplos, no campo do gênero específico, seja ele a crônica, a poesia, a prosa – e, dentro dela, o romance, o conto… –, o teatro etc.

Em estado de exceção

A crônica foi aqui definida na “Última crônica”. Se tomarmos a lição de Giorgio Agamben, o verso se define pelo fim do verso. O que desejo sugerir é que não pretendo apresentar a situação histórica dos gêneros, mas considerar que cada gênero parece se definir mais claramente, hoje, quando o autor se inscreve na sua crise, no seu estado de exceção da definição. Assim, reconheço – por traços inclusive extraliterários – um poeta como poeta ainda que ele produza obras em prosa, como o fez Francis Ponge, ou um contista como tal ainda que ele componha também em versos, como o faz Dalton Trevisan, ou um dramaturgo como tal ainda que ele produza prosa de ficção, como fez Samuel Beckett. No caso de a diferença se dar na linguagem, um artista plástico será reconhecido como artista ainda que componha excelentes livros de ficção, como é o caso de Nuno Ramos. Aqui se modifica de artista plástico para artista, mas essa já é outra discussão.

Assim, há um espaço de reconhecimento (nos dois sentidos da palavra, de admiração e de identificação da obra) e, ao mesmo tempo, um processo de desidentificação do gênero, de que é exemplar, por exemplo, a obra de Carlito Azevedo, que começa assumindo a pluralidade das formas poéticas da tradição, sobretudo a do século XX – poemas visuais, simbolistas, sonetos, em prosa, modernistas, marginais etc. – e, com Monodrama, produz uma experimentação de gênero literário (“drama”) e de forma, que produz outra força para o seu projeto.

É quando, de acordo com a imagem que Agamben toma de Simone Weil, o artista começa a voar para baixo. Ou seja, há gêneros, que são instituídos pelos gestos do autor. Quanto Dalton Trevisan, num livro de contos, produz um texto em versos, ele está produzindo, por seu gesto, não um poema, mas um conto em versos. Esse movimento de desidentificação da obra com o gênero ao qual pertence, que produz uma exploração dos limites do gênero – o gênero é concebido em crise – é aquele mesmo que “movimenta” a literatura.

Nesse sentido, será possível formular a hipótese segundo a qual uma obra se inscreve no gênero do qual participa sob um estado de exceção do gênero; ou seja, como participa do gênero pelo gesto do autor, a rigor a obra não contribui, com seus enunciados, para definir o gênero. Assim, não estamos mais nem num contexto clássico no qual nos orientamos pelos parâmetros dos gêneros oferecidos pela tradição, nem mesmo num contexto de vanguardas no qual a experimentação com os gêneros modifica a compreensão que temos de cada um: assim, sabemos que um poema, a rigor, pode não ser composto por versos e ainda assim ser um poema, assim como um conto, a rigor, pode ser composto por versos e ainda assim ser um conto. Talvez seja por isso que Giorgio Agamben tenha proposto que o verso só possa se definir, diante da prosa, por uma exceção como o enjambement. O período pós-vanguarda em que vivemos institui um estado de exceção para a definição dos gêneros. E, segundo a formulação de Walter Benjamin, a tradição dos oprimidos ensina que o estado de exceção é a regra. Reconheço gêneros, mas defino-os por uma assinatura, por um gesto, por uma enunciação.

La ausencia de autorÉ por isso que posso falar de um poema como este (ao lado), do poeta chileno Juan Luis Martinez, sem me espantar que não pareça um poema, ou que se utilize do procedimento criado por Marcel Duchamp de deslocar um objeto encontrado qualquer para o contexto do, neste caso, poema. Gênero: poesia. Não sei se lírico. (Essa é uma discussão a ser feita. Diz-se: gênero lírico, o gênero da poesia.) O poeta copia a ficha de empréstimos do seu livro de título francês, catalogado em uma biblioteca de um instituto de promoção da cultura francesa. Título que se reflete no estado da ficha, vazia, sem leitores, silenciosa, mas um silêncio que se quebra ao trazer à tona esse documento invisível, no qual o livro infame se choca com um código ordenador. O autor dá o testemunho, aqui, do seu livro, de fato publicado em 1976. É este um poema do gênero como crise, em todos os sentidos. Mas sobretudo no sentido de que o lugar de fala do poeta – um lugar de fala no gênero – desloca-se a cada vez que enuncia as obras, e, dessa maneira, é como o princípio da incerteza de Heisenberg, quanto mais luz se lança sobre a partícula mais ela se desloca.

Assim, seja para os gêneros propriamente literários (o lírico, da poesia; o épico, da prosa de ficção; o dramático, do texto cênico), seja para gêneros à margem (a crônica, o ensaio) que reivindiquem literariedade, o estado de exceção é a regra.


[1] “A hipótese da crise (Impasses da literatura contemporânea)”, publicado em 23 de abril de 2011 no caderno Prosa & Verso, do jornal carioca O Globo, como desdobramento do debate, promovido pelo Instituto Moreira Salles e publicado, em vídeo, em 4 de abril de 2011 no blog do instituto.

Bibliografia

Agamben, Giorgio. “Exemplo”. In: A comunidade que vem. Tradução de António Guerreiro. Lisboa: Presença, 1993.

Barbosa, Luiz Guilherme. “A literatura que não vem: crítica literária, narrativa e testemunho nas intervenções de Alcir Pécora”. In: Scramin, Susana (Org.). O contemporâneo na crítica literária. São Paulo: Iluminuras, 2013.

Candido, Antonio. “A vida ao rés-do-chão”. In: Recortes. 3 ed. rev. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2004.

Martinez, Juan Luis. El poeta anónimo (o el eterno presente de Juan Luis Martinez). São Paulo: Cosac Naify, 2012. (Fac-símile)

Pécora, Alcir. “A hipótese da crise (Impasses da literatura contemporânea)”, publicado em 23 de abril de 2011 no caderno Prosa & Verso, do jornal carioca O Globo, como desdobramento do debate, promovido pelo Instituto Moreira Salles e publicado, em vídeo, em 4 de abril de 2011 no blog do instituto.

Staiger, Emil. Conceitos fundamentais da Poética. Tradução de Celeste Aída Galeão. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975.

(Este texto consiste nas anotações que organizaram a prova-aula para professor substituto de Teoria da Literatura na UFRJ, em concurso de janeiro de 2013.)