O menino insiste, de Maurício Chamarelli Gutierrez
XIV
Enquanto escrevo, o menino me olha
debruçado sobre a mesa.
Quero lhe explicar
por que escrevo
e por que não espero dessas linhas que sejam poemas,
mas um acerto de contas.
E por que, no fim das contas,
essa questão não importa.
Quero dizer-lhe que escrevo para poder tê-lo próximo e não sucumbir
a seu peso
para mantê-lo, ali, teso, em silêncio
para protelar sua presença, sustentar sua mudez sem me jogar da varanda.
Mas ele me vê
e sabe que, no escuro, sustento a alegria vaidosa de escrever uma série de poemas,
– sim, de poemas (não importa que diga o contrário) –
poemas contando suas visitas e o trabalho que elas me dão
ele sabe o absurdo desenfreado dessa atividade, sabe que com a desculpa de tentar nos manter vivos, me prostituo à mais convencional das soluções, ao mais ridículo dos gestos
sabe que a pessoa que sobrevive ao esforço ambíguo de fazer justiça à sua morte pode, simplesmente, não merecer ser salva.
E ele sabe da minha vergonha.
Não. O menino não sabe nada. Jaz mudo, impassível diante dos estertores ainda mais convencionais e ainda mais ridículos dessas linhas.
Sem pergunta ou explicação, sem acerto de contas, sem se importar com a vergonha ou com os motivos,
ele me olha.
Poema do Maurício Chamarelli Gutierrez, publicado no Blog da Confraria.
Máquina de Escrever Frases
Agora a ideia era: escrever uma frase cujo sentido se alterasse ao ser escrita à máquina de escrever. Cada verso do poema foi digitado pelo seu autor, que em geral digitava à máquina pela primeira vez. De modo que a força com que a tecla imprime sobre o papel é o traço mais significativo, a meu ver, desse trabalho. Qual a força necessária para se escrever uma palavra? Quantas calorias os dedos gastam para fazer um poema? E se o esforço para escrever uma letra for descomunal, como ficam os romances? No mundo em que as telas sensíveis dos celulares não apresentam resistência ao toque dos dedos, não exigem a aderência da pele, escrever à máquina pode significar escrever pela primeira vez. Pode significar o Ato Zero. Teatro que nunca narra nada, mal chega ao primeiro ato, escrever pode ser a maneira mais difícil de não sair do lugar. Ou a maneira mais fácil de não ganhar dinheiro. Ou o modo mais inútil de falar.
Mariana Aydar cantando Nuno Ramos/Clima
‘Relation in time’ [1977], Marina Abramovic e Ulay
Depoimento de Antonio Candido
É impressionante ver Antonio Candido falar de sua relação com a literatura, aqui especificamente com a literatura e a cultura alemãs. Quando diz que, “mentindo e tudo”, já leu o Fausto umas 200 vezes, quando lembra curiosidades juvenis sobre a cultura alemã, quando recita de cor uma canção alemã traduzida por Sérgio Buarque de Holanda etc. E a frase é interminável, e o play é imediato.
Revistas modernistas e de vanguarda

Um site que reúne para download revistas das vanguardas do mundo todo: aqui.
Nota sobre escola, famílias e desejo
‘Hands scraping’ [1968], Richard Serra
Manual de Leitura de Iracema
No terceiro encontro para a Oficinada, o lance era profanar Iracema. Cada um recebeu uma página cortada de uma edição do livro de José de Alencar, e a regra era ou desenhar sobre as palavras de Alencar ou apagar as suas palavras para sobrar apenas um outro texto. Escrever desenhando: desdenhar o texto. Escrever cortando: desescrever, descriar. Entrei no jogo. Um trabalho contra a interpretação: um ato. Ato Zero. E mostro aqui oito das vinte e três páginas do livro aberto que o grupo compôs.









