Pare a investigação agora ou terá problemas

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Quem fala tem culpa. Quem escreve tem culpa. O culpado do crime, ao enviar uma carta para a polícia, o suicida, ao deixar a carta na gaveta da escrivaninha, o pai, ao ensinar por carta a ética a seu filho, têm culpa. Mas o culpado do crime escreve procurando como sempre ocultar as pistas, abdicando da sua caligrafia, e esquecendo-se de que o ato de escrever e recortar dos jornais (que noticiam os seus crimes) as letras (que comunicam de viés a sua culpa) é a prova de sua existência, é o resto de sua singularidade, é a prova do real. Imaginando-se passar quase invisível como um fantasma, o culpado do crime ainda assim escreve, como quem esquece que em escrever em ato existe corpo, matéria, vida. Não há como escapar à letra. Pois é preciso escrever para comunicar um crime anterior ao crime cometido, um crime que comete quem fala. De nada adianta não confessar a culpa. O crime fala por si. Quem fala mata e muda a realidade. E, dessa vez, foi preciso, com letras e palavras dos jornais dos dias 16 e 17 de setembro de 2014, falar na voz do criminoso, pois assim falar restitui-se como um ato: a prova do real para quem se imagina quase morto.

A carta foi composta por onze alunos do ensino médio, cada um é autor de uma frase.
A carta foi composta por onze alunos do ensino médio; cada um é autor de uma frase.

Quando sinto que já sei

O óbvio precisa ser repetido. O óbvio precisa ser visto. O óbvio precisa ser filmado. O óbvio precisa ser experimentado. O óbvio precisa ser registrado. O óbvio precisa ser O óbvio precisa ser apalpado. O óbvio precisa ser seduzido. O óbvio precisa ser intuído. O óbvio precisa ser adivinhado. O óbvio precisa ser defendido.

Machado de la Mancha

Em 1988, fotografado por Bud Lee para a revista Mother Jones.

Na virada do século, Carlos Fuentes trabalhava na composição do ensaio Machado de la Mancha, que foi publicado no México em 2001, pelo Fondo de Cultura Económica. Em outubro de 2000, publicou na Folha de S. Paulo “O milagre de Machado de Assis”, no qual defendia que:

As imitações absurdas do período das independências pautavam-se em uma civilização Nescafé: podíamos ser instantaneamente modernos abolindo o passado, negando a tradição. O gênio de Machado reside exatamente no contrário. Sua obra é permeada por uma convicção: não existe criação sem tradição que a nutra, assim como não existe tradição sem criação que a renove. Mas Machado tampouco contava com o respaldo de uma grande tradição novelesca, nem brasileira nem portuguesa. Contava, sim, com a tradição comum a nós, os hispanófonos do continente; contava com a tradição de La Mancha. Machado recuperou-a; nós a esquecemos. Mas ela também não foi esquecida pela Europa pós-napoleônica, a Europa do grande romance realista e de costumes, psicológico ou naturalista, de Balzac a Zola, de Stendhal a Tolstói? E nossa pretensão de modernidade não foi, em toda a Ibero-América, reflexo dessa corrente realista que chamarei de Waterloo, em contraposição à corrente de La Mancha? Em seu livro “A Arte do Romance”, Milan Kundera lamentou, mais do que ninguém, a mudança de rumo que interrompeu a tradição cervantina -retomada por seus maiores herdeiros, o irlandês Laurence Sterne e o francês Denis Diderot- em favor da tradição realista, que Stendhal descreve como o reflexo captado por um espelho avançando ao longo de uma estrada e que Balzac confirma como o concorrente do registro civil. E o convite ao jogo, ao sonho, ao pensamento, ao tempo, exclama Kundera em um capítulo intitulado “A Desprezada Herança de Cervantes”, onde foi parar? A resposta é, se não miraculosa, surpreendente: foram parar no Rio de Janeiro e renasceram na pena de um mulato carioca pobre, autodidata, que aprendeu francês em uma padaria, que sofria de epilepsia, como Dostoiévski, que era míope, como Tolstói, e que ocultava seu gênio sob um corpo tão frágil como o de outro grande brasileiro, Aleijadinho, também mulato, mas além disso leproso, que trabalhava sozinho e somente à noite, para não ser visto. Mas alguém já não disse, falando do Brasil, que o país cresce à noite, enquanto os brasileiros dormem? Machado não. Ele está bem desperto. Sua prosa é meridiana. Mas também seu mistério: um mistério solar, o de um escritor americano de língua portuguesa e raça mestiça que, solitário como uma estátua barroca mineira do realismo oitocentista, redescobre e reanima a tradição de La Mancha contra a tradição de Waterloo. O que entendo por essas duas tradições?

La Mancha e Waterloo
Historicamente, a tradição de La Mancha é inaugurada por Cervantes como um contratempo da modernidade triunfante, um romance excêntrico da Espanha contra-reformista, obrigado a fundar outra realidade por meio da imaginação e da linguagem, da ironia e da mescla de gêneros. Essa tradição é continuada por Laurence Sterne (1713-1768) com seu “Tristram Shandy”, em que o acento recai sobre o jogo temporal e a poética da digressão, e por “Jacques o Fatalista”, de Denis Diderot (1713-1784), em que a aventura lúdica e poética consiste em oferecer, quase que em cada linha, um repertório de possibilidades, um menu de alternativas para a narração.

A tradição de La Mancha é interrompida pela tradição de Waterloo, isto é, pela resposta realista à saga da Revolução Francesa e do império de Bonaparte. A mobilidade social e a afirmação individual servem de inspiração para Stendhal, cujo Sorel lê em segredo a biografia de Napoleão, para Balzac, cujo Rastignac é um Bonaparte dos salões parisienses, e para Dostoiévski, cujo Raskolnikov tem um retrato do grande corso como único adorno de sua mansarda petersburguesa. Romances críticos, é bem verdade, daquilo que os inspira: iniciadas com o crime de Sorel, as carreiras ascendentes da sociedade pós-bonapartista culminam com a falsa glória do arrivista Rastignac e terminam com o crime e a miséria de Raskolnikov.

Entre as duas tradições, Machado de Assis, nascido em 1839 e morto em 1908, revalida a tradição interrompida de La Mancha e permite-nos contrastá-la, de modo muito geral, com a tradição dominante de Waterloo.

A tradição de Waterloo afirma-se como realidade. A tradição de La Mancha sabe-se ficção e, mais ainda, celebra-se como ficção.

Waterloo oferece fatias de vida. La Mancha não tem outra vida afora a de seu texto, feito à medida em que é escrito e é lido.

Waterloo surge do contexto social. La Mancha descende de outros livros.

Waterloo lê o mundo. La Mancha é lida pelo mundo. Waterloo é séria. La Mancha é ridícula. Waterloo baseia-se na experiência: diz o que já sabemos. La Mancha baseia-se na inexperiência: diz o que ignoramos. Os atores de Waterloo são personagens reais. Os de La Mancha, leitores ideais. E, se a história de Waterloo é ativa, a de La Mancha é reflexiva. Tais divisões teóricas podem mostrar-se rígidas, mas as obras mesmas são muito mais fluidas. Por exemplo, uma das características mais notáveis da narração cervantina, a loucura da leitura, origem da ação de “Dom Quixote”, transcende para o plano realista em um romance como “A Abadia de Northanger”; por exemplo, parte da comédia social inglesa de Jane Austen, cuja protagonista, Catherine Moorland, perde o juízo lendo romances góticos; por exemplo, e sobretudo, uma das obras-primas do realismo psicológico, “Madame Bovary”, em que a heroína de Flaubert perde o equilíbrio entre sua realidade social e sua realidade psicológica por ler obras românticas em demasia. E tanto Sorel como Raskolnikov, como já assinalei, são o que são por terem devorado demasiadas páginas sobre a epopéia napoleônica. Mais especificamente, manchego é o fato de um romance saber-se ficção, ser consciente de sua natureza fictícia. “Dom Quixote”, “Tristram Shandy”, “Jacques o Fatalista”, “Brás Cubas”, além de se saberem ficção, celebram sua gênese fictícia. É Dom Quixote em um lugar de La Mancha de cujo nome não quer se lembrar, mas também em uma tipografia de Barcelona em que o personagem de Cervantes visita o lugar mesmo onde sua vida se faz livro, pois Dom Quixote é o primeiro personagem do romance moderno que se sabe escrito, impresso e lido, assim como Tristram Shandy sabe-se escrito por si mesmo, como Brás Cubas sabe que também está sendo escrito por si mesmo, e não por qualquer Brás Cubas, mas por um Brás Cubas morto, que escreve suas memórias no túmulo. Brás Cubas, além disso, pede ser inscrito em uma tradição, a do leitor de “Tristram Shandy”, só que Tristram Shandy, por sua vez, quer-se da tradição de “Dom Quixote”. “Adotei” -diz Brás Cubas do túmulo- “a forma livre de um Sterne”. E Sterne diz, no “Tristram Shandy”, que tomou sua forma “do incomparável cavaleiro de La Mancha, a quem, seja dito de passagem, eu amo mais, a despeito de todas as suas sandices, do que ao maior dos heróis da Antiguidade e por quem mais longe eu iria para fazer uma visita”.

Poetiqueta

 

eu etiqueta

Com uma etiquetadora em punho, escrever. Com uma máquina nas mãos, escrever. Com a inabilidade de quem se acostumou às máquinas dóceis, ao computador, ao celular, escrever com a pressão da etiquetadora, forçar cada letra sobre a tira colorida, descolori-la letra a letra. Só se escreve na vigência da letra. E a musculatura deve trabalhar para que se escreva. Só se escreve para que se afirme: “Eu sou a coisa, coisamente”. Para que se afirme que, no fim de tudo: “Eu, etiqueta”. Para que a escrita não denuncie nada, a não ser a destruição das classificações, das categorias, das homenagens, dos preços, da tipografia. A destruição de tudo o que torna escrever possível. Porque só se escrever por tamanha impossibilidade. 

quinto encontro

Literatura na Educação Infantil: Curso de Extensão

Literatura na Educação Infantil é um curso de extensão voltado para professores do ensino básico, coordenadores pedagógicos, bibliotecários e profissionais de educação em geral que será ministrado pelas professoras Ana Ribeiro e Maria Marta Cerqueira, da Escola Oga Mitá, que oferece o curso. Para quem trabalha ou deseja trabalhar com educação infantil, recomendo muito. O curso acontecerá aos sábados, nos dias 27/9 e 11/10, das 9h às 13h.

  • Ana Ribeiro: dinamizadora da Biblioteca da Escola Oga Mitá, especialista em Educação Infantil (PUC-Rio) e pós-graduada em Literatura Infantil e Juvenil (UFRJ).
  • Maria Marta Cerqueira: Professora do Ensino Fundamental I da Escola Oga Mitá, psicopedagoga (PUC-Rio).

Inscrições e informações: (21) 3271-1916.

Arte inespecífica e mundos em comum, por Florencia Garramuño

No dia 25 de agosto não pude estar presente a essa palestra da Florencia Garramuño na UFRJ, Campus Praia Vermelha, mas podemos ouvi-la agora no vídeo deste evento, o Encenações Contemporâneas. Tratou, a Florencia, de Rosangela Rennó (Espelho diário) e Mario Bellatin (Lecciones para una liebre muerta). 

O afeto do poeta

Sobre esse livro, a resenha no Jornal Rascunho:

Editorialmente, a criação de coleções piratas, antologias, blogs e o apagamento da autoria individual em poemas escritos a quatro ou mais mãos são sinais de circulação do afeto que muitas vezes não se preservam com a profissionalização do poeta: “Afinal de contas a pergunta: podem, os afetos, ser profissionais?”. Poeticamente, a citação operada como profanação da memória (em Cristobo) e como citação afetiva (em Marília) desestabilizam a identidade do poema presente e do poeta ou poema citados, fazendo do encontro uma experiência-chave para a composição e a leitura do poema.
No que é decisiva, Luciana põe em circulação o afeto, que ela identifica como constitutivo da cena de leitura do poema contemporâneo, mas restam poucas dúvidas de que a poesia atual emaranha uma rede muito mais complicada. É preciso que, a partir da leitura, se reafirmem outros paradigmas afetivos para a poesia, pois, em se tratando de afetos, mesmo a noção de paradigma não admite o valor de regra, e ganha, como no livro de Luciana, o valor de “mais um”.

Contexto para um poema de Marília Garcia

Mas ela gostou da viagem, foi a pergunta de uma aluna depois de ouvir a leitura do poema “No aeroporto Schönefeld de Berlim” de Marília Garcia. Eu resolvi lê-lo em aula não só porque sempre levo as coisas que leio e gosto, mas principalmente porque inventei que fazia parte dos poemas desse livro Um teste de resistores serem lidos e ouvidos fora da modalidade de leitura a-sós-em-casa-sentado-no-sofá. O ruído de fundo – de escola – e a voz pouco delicada, tendo que se projetar pelo espaço em sala de aula, oferecem a inadequação precisa à leitura.

A formação de Silviano Santiago

Fotografia de Maria Tereza Correia publicada em 2006 no Estado de Minas

Hoje pudemos ler na Folha de S. Paulo mais um texto de Silviano Santiago, “Anatomia da formação: literatura brasileira à luz do pós-colonialismo”, que desenvolve com muito maior clareza a ideia já apresentada em outro texto de 2012 publicado no Estado de São Paulo, “Formação e inserção”, que havia lido com desconfiança por conta da unilateralidade da posição do autor, algo como: o meu é que conta, o resto é paranoia e mistificação. Agora, com a visada autobiográfica, fica evidente que Silviano assume para si uma tarefa de mapeamento conceitual do campo da crítica de literatura brasileira ao dar um testemunho da sua formação e apontar para o esgotamento da formação crítica através da formação da literatura brasileira. Sua posição parece se explicitar no final do texto:

Dou-me conta do esgotamento dos vários, diferenciados e notáveis “discursos de formação” que constituíram o paradigma desenvolvimentista como tarefa prioritária no crescimento da jovem nação brasileira.
A exaustão do paradigma não o aliena. Assinala, antes, que ele está a perder a condição de prioritário. Novas condições materiais definem o novo milênio brasileiro. Elas passam a exigir outro feixe amplo e crítico de discursos afins e complementares, que constituirão novo paradigma – o da “inserção” do Brasil no conjunto das nações.
Tendo sido esclarecido (e não resolvido, obviamente) o modo como o sujeito brasileiro se automodelou como cidadão e acomodou nos trópicos a emancipação de uma sociedade jovem e moderna, delega-se hoje ao Estado nacional democrático papel e funções internacionais. Cosmopolita, a nação está habilitada a tomar assento no plenário do planeta. Automodelado, o sujeito discursivo – confessional, artístico ou científico – pode e deve dar-se ao luxo da crítica e da autocrítica em novo paradigma.

Penso mesmo que o (para mim impressionante) romance Mil rosas roubadas segue a trilha dessa revisão da formação de Silviano Santiago, como pude defender neste texto publicado no blog do Instituto Moreira Salles.