Com a sua licença

Quanto tempo dura um luto? O quanto um luto incapacita alguém para o trabalho? O quanto tornar-se pai requer a suspensão das atividades profissionais para que se possa trabalhar o pai nascendo em si? Que dor de barriga, dor na coluna ou filho doente são páreo para o apaixonado que adoece de amor? Mas se adoece de amor? Quais licenças são necessárias para contemplar os estados de exceção em que as circunstâncias da vida lançam o trabalhador? Qual é, diante dos imprevistos da vida, o trabalho necessário para que se continue trabalhando, mesmo que para tanto seja necessário interromper por um tempo o tempo de trabalho? Na oficina de hoje, instituíram-se licenças. E se a licença poética põe a perder o tanto de poético que não pede licença para acontecer, assim também a licença de trabalho põe a perder o tanto de trabalho que há em perna quebrada, crise de labirintite, transtorno pós-traumático. E por isso, que se reescrevam as licenças, para que a lei, que torna visível o que não se vê, dê a ver as urgências que teimam em ser adiadas pelo trabalho, como se trabalho não fossem.

Licença aos pedaços
Artigo único. Fica instituído o direito de licença por tempo indeterminado à pessoa que precisa consertar os pedaços do coração.

Licença querido avô
Artigo único. Caso a pessoa possua um avô ou uma avó que tenham o dom de contar longas histórias no horário antes do almoço, assegura-se por este decreto o direito a se atrasar levemente a compromissos legais ou ao local de trabalho, a fim de garantir que a pessoa ouça a lorota até o final.

Licença-medo
Artigo único. Toda vez que a pessoa sentir medo de algo ou principalmente de viver, torna-se isenta de praticar qualquer atividade à qual esteja submetida, inclusive a de se levantar da cama.

Licença-recomeço
Artigo único. Fica estabelecido que todo indivíduo terá o direito a sonhar acordado com os sorrisos e palavras doces dos novos amores por quanto tempo o amor durar.

Licença-spoiler 
Artigo único. Por meio desta declara-se que qualquer pessoa que tenha tido o coração partido e todos os sonhos e expectativas dizimados por conta de spoiler tem direito a permanecer em casa tempo suficiente para que se emende o coração partido.

Licença-partiu
Artigo único. Qualquer filho tem o direito de frequentar festas mesmo sem a permissão dos pais, inclusive o direito de ir e voltar em qualquer horário e com a roupa que quiser.

Licença para a vida 
Artigo único. Fica decretado que todas as pessoas, sem exceção, têm o direito de viver suas vidas às suas próprias maneiras, inclusive o direito de amar livremente e sonhar.

Licença-paixão 
Artigo único. Toda pessoa que se apaixonar tem direito de se declarar, independentemente de sua orientação sexual, e sem que o amado rompa a amizade já existente com o declarante.

Autores: Eduarda Assunção, Isabela Gama, Iuli Duarte, Juliana Rodrigues, Larissa Costa, Luanna Rodrigues, Marcelly Firmino, Ygor Macedo.

(Hoje o nosso registro difere daquele tempo em que Thiago de Melo escreveu os Estatutos do Homem, mas a insistência em legislar contra a lei jogando com as palavras diz algo acerca do odor autoritário que ambos os tempos do Homem se colocam. Por isso, fica-lhe como homenagem a oficina de hoje.)

Há vagas

A poesia é o patinho feio das artes. Eu sou um patinho feio, e leio poesia. E vocês não são patinhos feios, e vocês não leem poesia? As oficinas de Texto e Cidadania da Oficinada Literária estão mais do que esgotadas, mas as de Texto e Poesia, não. Por isso, até amanhã nós da organização receberemos inscrições para as oficinas do Ismar Tirelli Neto, de manhã, e do Heyk Pimenta, à tarde. Basta enviar nome e turma para oficinadaliteraria@gmail.com e se inscrever para uma oficina no contraturno das suas aulas. O blog do Heyk Pimenta: aqui. Um perfil do Ismar Tirelli: aqui.

O meu namorado | Ismar Tirelli Neto

era muito bonito
lembrava

um boneco de cera
de algum cantor famoso

bonito como alguém que volta
porque esqueceu
que precisa voltar porque esqueceu
(cachecol, luvas)
de comprar água sanitária

ó venha meu amor
respirar ao meu lado as montanhas
azuis ademais
esquecemos de comprar
água sanitária

quem em sã consciência
chamaria isso aqui
de “montanha”

seus lábios – devidamente retificados
por gélidos ventos
de agosto – mudam-se agora
em ventrudo móvel
espécie de canastra

(galgar – galgar a)
dolorosa retratação
dos lábios – o travo
de água sanitária
a cabeça uma zurrada
de sintetizadores
os meus amigos

conversavam na sala que
ver com uma ginasta
que no filme
da sessão de meia-noite
partia-se ao meio
ao aterrissar

sofremos um pequeno acidente
na volta para casa
o carro golpeou uma árvore
mas estamos todos bem

eu buscava a giros
cada vez mais bruscos do molinete
trazer de volta à enseada
os anos defronte

meus dedos soltavam-se
um a um

eu não sentia a mais leve coisa

Meu lugar | Heyk Pimenta

faz alguns anos que virei seu secretário
no começo queria
ser jogador
de azar

e não encaçapava
não carteava
nem tarô

tentei os golpes
mas virei seu secretário

digo residência oficial do bispo do rio de janeiro
digo casa de aborto feto feliz
digo depósito de óleo de fígado de bacalhau

e desligam
minha pequena crueldade

separo as manchetes
compro bilhetes
invento fofocas sobre a concorrência

assim você viaja em paz
queria mesmo ganhar um milhão

Oficinada chegando

Nesse sábado os alunos que organizam junto comigo a Oficinada se mobilizaram para preparar o suvenir dos convidados e a decoração do auditório onde acontecerá o evento. Mas é muito organizado esse pessoal!

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Presença

sétimo encontro_presença

Dessa vez a oficina se fez em homenagem a um parágrafo de Jacques Derrida, e basta:

Por definição, uma assinatura escrita implica a não-presença atual ou empírica do signatário. Mas, dir-se-ia, marca também e retém seu ter-sido presente num agora passado, que permanecerá um agora futuro, logo, um agora em geral, na forma transcendental da permanência. Esta permanência geral está de algum modo inscrita, pregada na pontualidade presente, sempre evidente e sempre singular, da forma de assinatura. É essa originalidade enigmática de qualquer rubrica.

(“Assinatura Acontecimento Contexto”, in Limited Inc. Tradução de Constança Marcondes Cesar. Campinas: Papirus, 1991. p. 35.)

Efeito-Brasília

sétimo encontro_cartão postal frente e verso
Clique no cartão-postal para lê-lo.

Assim como se diz que se nutre um amor platônico ao se amar a ideia da coisa, pode-se muito bem falar de um amor derridiano ao se amar um centro que não é um centro, como Brasília. E foi de lá que enviei um cartão-postal para os meus alunos (leitores de Brás Cubas) que só chegou ao destino muito depois de eu já ter retornado da cidade, hoje, quando se completam os dez anos da morte de Jacques Derrida, o pensamento que me levou até ao símbolo da arte construtiva no Brasil. O cartão-postal, que é um ensaio, é uma performance. A carta chega sempre atrasada. Mas esteve presente hoje, nas aulas, trazendo a mensagem de um fantasma que há uns dez dias a escreveu a centenas de quilômetros daqui e soube amar sílabas de m-a-r na cidade plana e seca onde o nariz sangra.

Nietzsche é o pai da vida

Num trabalho de leitura, quatro de minhas alunas (Carol, Iuli, Beatriz, Luanna) improvisaram uma conversa irônica e divertida sobre a relação da obra do Nietzsche com Memórias póstumas de Brás Cubas.

Programação da Oficinada

cartaz da oficinada

Na semana que vem acontece a Oficinada Literária, evento que organizo junto com o Tiago Cavalcante e a Bia Petri no Colégio Pedro II. No campus Realengo, já temos programação!

Programação

Oficinas de Texto e Cidadania
Dia 13 de outubro

(Des)construção da notícia de 10h20 às 11h50 | 15 vagas
Oficina ministrada por Aline Sant’Anna. Jornalista, cursa o mestrado em Comunicação na UERJ. Propõe uma oficina de conteúdo livre a partir da análise crítica das mídias de informação.

Oficina da voz de 13h às 14h30 | 15 vagas
Oficina ministrada por Maria Clara Bubna, graduanda em Direito pela UERJ e autora do Manifesto pela Voz ou sobre o Silêncio. Propõe uma oficina que reflita sobre a importância das declarações, textuais ou não, no processo de afirmação pessoal ou política.

Oficinas de Texto e Poesia
Dia 14 de outubro

Ismar Tirelli Neto de 10h20 às 11h50 | 30 vagas
Oficina ministrada pelo poeta Ismar Tirelli Neto, autor dos livros de poesia Synchronoscopio e Ramerrão.

Heyk Pimenta de 13h às 14h30 | 30 vagas
Oficina ministrada pelo poeta Heyk Pimenta, autor de livro de poemas pela Coleção Kraft, da editora Cozinha Experimental, organizador da Oficina Experimental de Poesia, no Imperator, e mestrando em Teoria Literária pela UFRJ.

Informações

Onde será? No auditório do Bloco C.

Quem pode? Alunos do ensino médio.

Quando podem? No contraturno.

Como podem? Enviando o nome e a turma para oficinadaliteraria@gmail.com.

Até quando? Até sexta-feira, dia 10 de outubro.

Brasília

Croquis do Plano Piloto de Brasília, por Lúcio Costa.

Que isso se dê na cidade de Brasília e aqui no plano-piloto: o espaço que se manteve, ainda que por sua nomeação, no âmbito do desenho (chama-se a cidade de plano-piloto), o espaço inaugurado pelo x ou pela cruz marcados sobre a superfície plana do Planalto Central (no primeiro desenho de Lucio Costa), a cidade flutuante – eterno plano que segue planando sobre o solo, em forma de avião ou pássaro –, a cidade cujas formas lunares dos prédios desenhados por Niemeyer marcam-se de certa melancolia como a de quem viaja à lua procurando civilizá-la desenhando-lhe o futuro, a cidade, enfim, cujo projeto construtivo não previu a habitação daqueles que a construíram, a cidade-monumento onde, por tudo isso, quase tudo é resto – ela, a cidade, que restou projeto, plano-piloto; eles, os cidadãos, que restaram também eles projetos de uma cidadania que só pôde se exercer fora da cidade, em ocupações-satélites. Que, em Brasília, se opere, neste evento, o rito da desconstrução, é, ao menos para mim, uma nomeação algo precisa do Brasil, esta ilha onde é possível sobrescrever, num ato de fala, a resposta de Jacques Derrida ao que seja desconstrução: desconstrução é Brasil.

(Trecho da comunicação apresentada no V Colóquio Escritura: Linguagem e Pensamento, em Brasília.)

Poética do professor de literatura

E já que é de entrevistas que se trata, e já que em breve-breve volto à sala de aula depois de uma semana trabalhando a escuta teórica, me lembro da entrevista que fizemos, eu e um grupo de amigos, com o prof. Alfredo Bosi, também publicada no Jornal Rascunho, e na qual se lê uma espécie de poética do professor de literatura, que penso seguir do modo mais aplicado que posso:

Eu percebi que a leitura, uma leitura expressiva, uma leitura empenhada — como se faz numa oração, em que se dá o coração todo naquilo —, é melhor não fazer se você não tem fé. Você tem que ler aquilo com a alma e com certo entusiasmo. Professor de literatura tem que ter certa vitalidade, entusiasmo, não pode ser muito anêmico, tem que ter algum vigor na sua leitura para que ele contamine, no melhor sentido, para que ele chame à vida. Porque tudo transborda para a vida, por isso a literatura acaba sendo, vamos dizer, uma organização da vida, uma formulação dos nossos sentimentos, de nossas experiências, seja ambígua, seja moderna. […] O leitor que entrar em empatia com esses organizadores da experiência, esses estimuladores, certamente terá uma postura diante da vida mais engajada, mais nobre, mesmo quando pessimista. Mais compassiva. Vocês podem ter uma visão muito negra. A literatura contemporânea tem momentos muito negros, o sujeito fica, assim, aterrado na violência, com desrespeito pelo ser humano. A gente sente que, em geral, atrás daquele pessimismo, daquele ceticismo, há uma revolta, um desejo de que as coisas não sejam como são. Então, você acaba tendo uma posição crítica.

Diálogo impossível

Jacques Derrida e o gato.

Na semana em que se lembram os 10 anos do desaparecimento de Jacques Derrida, na semana em que chego do incrível colóquio Cada vez, o impossível: Derrida (10 anos depois), organizado em Brasília pelo prof. Piero Eyben e onde apresentei comunicação, leio as respostas que o escritor Evando Nascimento escreveu a perguntas minhas e do Rogério Pereira publicadas no Jornal Rascunho. Entrevista importante para quem se interessa pela obra do Evando ou pela literatura contemporânea, ou ainda para quem deseja se perguntar pelos efeitos da filosofia na literatura (já que o Evando foi aluno de Derrida), a conversa com o escritor é um modo de conversar com a literatura, não porque o escritor fale por ela, a literatura; antes porque a escritura, como me disse alguém na cidade de Brasília, é impossível sem diálogo. Não que seja preciso falar dela, tagarelá-la; antes porque, se a escrita é uma marca que permanece, o diálogo é uma fala marcada pela escrita. Pois, como afirmou o Evando na entrevista:

O fato é que, desde os gregos pelo menos, inventores do discurso chamado de “filosofia” (traduzível como amor ao saber), literatura e filosofia sempre se relacionaram. Isso ocorreu de modo às vezes harmonioso, como no caso dos chamados pré-socráticos, às vezes conflituoso, como em Platão. Derrida era um apaixonado pelos dois tipos de discurso. Com Derrida, o discurso literário é elevado à categoria de pensamento. Ele não é o único a fazê-lo, mas o fez sem nenhuma hierarquia entre literatura e filosofia. Diria, ao contrário, que, para algumas questões, a literatura propõe formulações mais contundentes.