
O texto a seguir é um fragmento do ensaio “Abrir os livros na escola: Cenas de leitura”, publicado em junho de 2025 na revista Dobra: Literatura Artes Design, da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. O ensaio completo pode ser acessado aqui.
Gostaria de tirar da estante uma obra recente e carregá-la comigo até a escola. A obra de uma poeta estreante aos 86 anos. Os poemas escritos entre os 20 e os 70 anos de idade, e esparsamente publicados em periódicos literários, foram reunidos por leitores admiradores, sem a marca do ano em que foram escritos. Os três volumes da Poesia Reunida contam uma história da poesia brasileira. E não é recomendável lê-los esquecendo a demora em publicá-los. Algum poema mais de sessenta anos inédito convida a mais de três minutos de leitura. Os poemas assinados por Maria do Carmo Ferreira são lidos com intervalo indeterminado de anos entre a concepção e a publicação. O vagar entre o fazer e o aparecer.
Mais que vagar, o risco de desaparecer. Carminha, como se chama num dos poemas, não parece ter se engajado na publicação, concedendo a organização da obra a dois leitores, que a realizaram por temas. A poesia reunida entregue ao público abre em série de autorretratos, um dos quais em ironia com a tradição romana do nome Carmo. Os oráculos de Carmenta, deusa do parto, eram as carmina, em versos. Mas: “Este verbete em mim não diz não sabe a que é” (Ferreira, 2024a, p. 17). Tudo resumido, “Tudo cabendo em não e em sim senão comigo”, se nomeia “mulher” e resolve em “grande diminutiva” a apresentação: “pergaminho-fetal daqui a dois mil e um / quando, aos 63, se ainda viva (sozinha) / perguntarem de mim, direi/dirão: Carminha” (Ferreira, 2024a, p. 17).
Na poesia de Maria do Carmo, é frequente que o mais banal se diga em alexandrinos e sintaxe cheia de arestas. “Cognominato” procura o mito do nome, que, recusado, “a perder pé de mins”, perde e acha em si o sim e o não no nome de mulher, Car’minha. Nomear-se via recusa também acontece noutro poema da seção inicial, que narra a demora em publicar: “Aos quarenta e dois anos soo inédita / estrela decadente ao rés do chão” (Ferreira, 2024a, p. 21). Os trocadilhos incessantes multiplicam a escrita, que é constantemente significada em duplo: soo, sou; decadente, cadente; estrela, vedete. Relembrando os tempos juvenis de vedete cega à procura de si, a poeta conclui: “Tornei-me objeto. Abjeta. Prefixada / à guisa de artefato eu disse NÃO” (Ferreira, 2024a, p. 21). Perdida no labirinto do eu, ela, no fim do poema, “eu recolhida às pressas já no prelo”, entrega o livro aos leitores: “desertora de mim. Desativada” (Ferreira, 2024a, p. 21).
Os poemas imaginam um leitor em parafuso, em paradoxo. Ler as palavras da mulher desativada, que se ativam, duplicam, multiplicam a cada instante na leitura. Ela diz não “à guisa de artefato”, sua presença acontece na recusa espetacular, especulada em palavras. A obra de décadas guarda experiências coletivas da poesia brasileira, como o hábito cultivado por tantos poetas de, nas décadas de 1970 e 1980, ligar para o telefone de Carlos Drummond de Andrade, que, conta-se, atendia gentilmente. “Telecarlos” narra a ligação, em 1978 ou 1979, da poeta ao poeta, de quem escutou a palavra-chave: “aguenta” (Ferreira, 2024b, p. 73).
No poema, a obra e as coisas de Carlos são maneiras de aguentar. Cartas trocadas na juventude, “desde os meus dezessete”, livros autografados, “De carona em seu Halley”, e o acerto de contas final, o encontro na rua de Copacabana: “Entre aids e apartheids, / você me reconhece” (Ferreira, 2024b, p. 73-4). A troca banal de palavras anuncia a separação:
E falamos de nada
como se, como sempre.
Sem poesia sem piadas,
vamos nos esfolando
na memória calçada
de outro tempo suspenso.
E de repente, rimos
(no último andamento)
de amarelinhas sombras.
E já nos despedimos:
como um menino antigo
e uma menina tonta.(Ferreira, 2024b, p. 75)
Imitando a mancha gráfica de tantos poemas narrativos de Drummond dos anos 1940, em estrofe única e versos curtos, a poeta contrapõe à figura drummondiana da memória, o “menino antigo”, a sua figura derrisória, a “menina tonta”. “Telecarlos” torna-se tecnologia de suporte da vida banal, em livro, telefone e conversa fiada. A vida por um ou mais fios, de telefone, conversa ou verso, não se desencanta nos poemas de Carminha. Tampouco parece que as palavras encantam, mas procuram restituir uma fala. Há um fracasso em cada poema no trabalho de dizer. A música do poema toca o real, mas é impossível que se desgrude do sentido das palavras.
Num poema limiar, a poeta compõe com perfeição e singeleza a linguagem da sua poesia. Enumerando em metro regular nomeações bíblicas de Deus, primeiro o poema monta uma quadra em rimas toantes ou quase, e variação rítmica apenas no terceiro verso, perturbando a regra e anunciando o final restaurador: “Rosa de Saron / Sol da Meia-Noite / Leão de Judá / Bálsamo de Galaad” (Ferreira, 2024c, p. 148). O tetragrama, como nomeia o título do poema, falha em nomear, inclusive pela multiplicidade de nomes. A segunda estrofe, contraface da primeira, comenta a inutilidade da tentativa, e, ao mesmo tempo, continua-a em linguagem coloquial: “Quem há de prover-te / um songbook / um som, que seja, / oh Inominável!” (Ferreira, 2024c, p. 148).
Numa súplica, o poema revela o castigo de Babel, mistura as línguas, mas aproxima os sons: “um songbook”; “um som, que seja”. O livro de canções não se faz, a poesia é pura música balbuciada, ficamos com os sentidos tão precários, nosso limite para tocar um real inexprimível. Ler Maria do Carmo Ferreira, chegando na escola, põe aviso no poema: é trabalho sério, trabalho trabalhoso de se fazer e de se ler, trabalho de fracasso. Sua escrita duplica as palavras, escrevendo o que se imprime na página e também entre a página e um leitor. Brincando com o inevitável, pode ensinar a ritualizar a leitura, a começar pela pergunta da demora: como ler essas palavras que se guardaram durante uma vida antes de se publicarem? O que se escreveria que fosse impostável em redes sociais e guardaria durante a vida toda?
Referências
Ferreira, M. C. (2024a). Poesia reunida [1966-2009]: livro um: Cave Carmen. Goiânia: Martelo.
Ferreira, M. C. (2024b). Poesia reunida [1966-2009]: livro dois: Coram populo. Goiânia: Martelo.
Ferreira, M. C. (2024c). Poesia reunida [1966-2009]: livro três: Quantum satis. Goiânia: Martelo.
















