
Além de testemunhar a coroação de Phelipe Coutinho por Rayan, no trono formado por Barros e Robert Renan (ambos da turma que segura o time na defesa), quem esteve em São Januário no primeiro jogo deste ano de 2026 também admirou a bela bicicleta de Thiago Mendes e um gol de Rayan, que na hora ninguém viu se estava impedido, driblando o goleiro. O VAR, que confirmou o gol num momento decisivo do jogo, transformou este em mais um gol do jogador com até 20 anos de idade mais artilheiro do mundo. Ali na hora, no entanto, parecia que o gol tinha sido dado de graça para a torcida, silenciosa e descrente do árbitro que escutava a verdade no ponto eletrônico.
No final do jogo, ovacionado, Rayan recebeu na voz uníssona de doze mil pessoas o pedido dezenas de vezes repetido: Fica! Fica! Fica! Isso porque aquele campo de futebol na zona norte do Rio de Janeiro está nesse momento ligado a campos de futebol ingleses, interessados em pagar centenas de milhões de reais para ver o futebol do moleque, que joga no quintal de casa. Filho de Valkmar, que defendeu o Vasco entre 1995 e 2001, Rayan está realizando não apenas a história do filho que herda do pai o futebol, como também a do moleque que parece saber lidar com a fama, decidindo jogos grandes e, logo depois, vestindo chapeuzinho cônico de papel no aniversário do vascaíno Casimiro, ou rindo francamente em campo do desarme de Thiago Silva em lance decisivo na semifinal da Copa do Brasil.
O nome dele é Rayan, é um nome de moleque também. São poucos milhares de Rayans no Brasil, e o Rio de Janeiro é o estado com a maior quantidade de Rayans, quase todos adolescentes ou crianças, segundo o IBGE. Seu nome dispensa sobrenome, pois não há outro. É o primeiro dos grandes Rayans no futebol brasileiro. Conheceu Roberto Dinamite, de quem recebeu conselhos. É presidido por Pedrinho, joga com Coutinho, a quem coroou no jogo em que foi ovacionado. Há transmissão, há humildade e diversão nisso tudo, num estádio carioca singular, que até agora não se transformou numa arena. Um estádio com gente em pé apertada sob sol ou chuva que canta, e quando canta muito o quintal de subúrbio do time grande vira um negócio que não acontece mais em lugar nenhum.
Num estádio de futebol, a língua enlouquece. Atualmente, em São Januário, ninguém dá boa noite a ninguém sem imediatamente cantar funk: Será que vai ter gol do Rayan hoje? A barreira ali significa menos a fila de jogadores protegendo o gol de uma batida de falta, do que o bairro popular do entorno do campo de futebol que, em meio a rodas de samba, rojões e coros de torcida, participa do jogo como extensão da arquibancada. A força e a ira não são exatamente força e ira, mas grupos organizados com tambores e bandeiras que sustentam o canto da torcida.
Assim também com as pessoas: Santana e Barbosa não são sobrenomes, mas nomes de heróis, como Gui e Caique, nomes de torcedores ilustres. De navegador português vestiram algum rapaz bombado que aperta a mão de cada jogador na chegada ao estádio e corre em ziguezague durante o jogo pulando diante da torcida: o Almirante. Dinamite, e nada de bombas: a pessoa que mais jogou pelo Vasco na história do clube e mais fez gols no campeonato brasileiro e no campeonato carioca na história desses campeonatos. Fico imaginando quem vai pela primeira vez num jogo e escuta ali tantas palavras assim faladas em meio ao barulho da multidão, e descobre uma outra língua para aprender.
No último jogo em São Januário, o pirata chorou. Foi esse o momento de maior entusiasmo da torcida, que aplaudia o pirata, seu choro e sua família. O pirata é argentino e foi a pessoa que mais fez gols no futebol brasileiro em 2025. O pirata, aos 37 anos, passeou pelo campo de São Januário ao lado da esposa e dos dois filhos. Nascido na província de Santa Fé, a mais de quatrocentos quilômetros de Buenos Aires, o pirata jogou no futebol argentino por mais de dez anos, tendo começado a carreira num time de terceira divisão. Tornou-se um dos jogadores mais festejados do país vizinho, impressionando quem gosta de futebol no Brasil pela quantidade de gols e qualidade no cabeceio.
O pirata encontrou um lugar onde aportar por um tempo, e agora segue viagem rumo ao Paraguai.
















