Trata-se de uma iniciativa do projeto de extensão Língua, Literatura e Cidadania: Democratizando o Acesso ao Ensino Superior (DEAES), coordenado pela professora Hilma Ferreira, que atua no Colégio de Aplicação da UERJ.
A aula foi mediada pelo professor Bruno Lima, que atua na Faculdade de Formação de Professores da UERJ, e apresentou uma interpretação geral do romance machadiano, para o público adolescente e jovem.
Em novembro de 2023, a II Jornada Internacional de Poesia Visual: Do corpo do signo ao cyber céu, realizada na Universidade Federal Fluminense e na Casa das Rosas, publicou a II Mostra Virtual de Poesia Visual, um site que expõe centenas de poemas visuais recentemente produzidos.
Na mostra, está exposto um poema que compus em 2023 e integra uma breve série de poemas circulares com temática do que se chama de natureza.
O poema está ao lado de outros que foram compostos com inúmeras tecnologias, estilos e temas.
Trata-se de um acervo relevante, pela quantidade e pela diversidade da produção, da poesia visual contemporânea, com ênfase na produção brasileira.
Em abril de 2024, foi lançado, em São Paulo, o número 3 da revista Bufo, dedicada à poesia experimental. Nesse número, participo com o poema “zzzzZZZzzzZZzzzz” (2023), que integra uma breve série de poemas circulares que compus ao longo de 2023 e que tematizam o que se chama de natureza.
zzzzZZZzzzZZzzzz, 2023
A edição, em formato quadrado, apresenta trabalhos de dezenas de poetas e artistas de diversos estados do Brasil, além de Argentina e Peru, e de diversas gerações, e é, por isso, representativa da produção contemporânea em poesia experimental, com ênfase na visualidade.
Fotografia da página de crédito da revista Bufo n. 3.
Para mim, que estudo a poesia experimental, especialmente a poesia visual, e componho poemas também nessa linguagem, é uma alegria perceber o texto que apresentei ao lado de trabalhos tão variados e, alguns, surpreendentes. Essa edição me desafiou a radicalizar os processos de composição.
Mesa 2 do IV Educação ao Rés do Chão, realizada em 2 de julho de 2024.
Em 2 de julho de 2024, apresentei uma experiência em ensino de poesia visual na escola, que desenvolvo desde 2018. Trata-se do desafio, para estudantes, de compor poemas visuais usando uma única palavra. É um gênero de poema visual bastante frequente nessa tradição da poesia experimental, com inúmeros exemplos em língua portuguesa.
Na comunicação, que apresentei a convite da professora Aline Menezes (CPII) e do professor Dennis Castanheira (UFF), desenhei o contexto da proposta pedagógica, em diálogo com saberes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e da prova do ENEM, e com o currículo tradicional da primeira série do ensino médio.
Print da sessão online, com os quatro integrantes da Mesa 2.
Na mesma sessão, o professor Rafael Nogueira (IFRJ) apresentou uma experiência na leitura de HQs com estudantes de ensino médio, e os professores Edvaldo Bispo (UFRN) e Fernando Cordeiro (UFERSA) debateram as comunicações. Fiquei bastante feliz com o convite e o diálogo com os colegas de mesa!
Cartaz de divulgação da comunicação, veiculado no perfil de Instagram do evento.
A resenha a seguir foi publicada em 2019 na revista Desvio, no Rio de Janeiro, por ocasião do lançamento da plaquete Passos e expassos (2019), de Lygia de Azeredo Campos.Em memória à poeta, que conheceu essa resenha e com quem pude me corresponder graças ao texto, republico-a no blog, lembrando da sua morte ocorrida em abril desse ano de 2024.
O corpo é tema constante desses poemas. Tema e figura. Olhar, envelhecer, transar. O corpo tecido ou talhado pela memória, o poema como corpo enterrado vivo, o osso da poesia atravessado na garganta. Os textos estão manuscritos, os papéis onde se escreveram estão nitidamente recortados na página, ora amarelados pelo tempo, ora pautados, ora rasgados. São poemas escritos entre 1975 e 1981. A memória do corpo antigo, guardada na caligrafia segura, irradia dos poemas há décadas arquivados, e participa do sentido dos textos a demora na publicação, o envelhecimento dos papéis onde se anotou o corpo.
Esse o sentido mais delicado dos poemas de Lygia de Azeredo Campos. Poeta bissexta, mas não inédita, alguns dos textos saíram nas heroicas revistas Código e Artéria, às vezes tendo recebido tratamento tipográfico sobre fundo colorido. A publicação fac-similada, porém, preserva o aspecto de anotação, que, no entanto, não manifesta urgência ou vertigem como os papéis rasgados anotados por Clarice Lispector ou os embrulhos dos maços de cigarro escritos por Antônio Fraga. São, antes, micro-ensaios sobre o corpo e a linguagem, e nos quais a poesia concreta comparece mais como método do que como forma. Lygia conviveu profundamente com os poetas concretos e esses textos revelam tanto a diversidade das poéticas experimentais a partir de poesia concreta, neoconcretismo, poema/processo, quanto também o teor filosófico que marca essas poéticas experimentais sempre próximas dos limites do poema, da linguagem, da experiência.
Lygia, na introdução, identifica uma dualidade entre as “formas visuais” que liberam a sintaxe dos poemas e a “grafia manuscrita” que manifesta despretensão e a sua vivência com a poesia. O poema aparece na página como uma assinatura, com a marca caligráfica singular da autora, agora de corpo ausente. Escreve, por exemplo, a nota de um diário impossível: “adormeço. mereço? / meço as palavras, me- / ço o tempo, envelheço”. O sono acordado durante o qual escreve, como num sonho, produz a metamorfose da poeta em linguagem. O tempo das palavras medido, em versos hexassílabos, fissura a palavra, “me- / ço”, que então engendra um ato falho, ou, no poema, ato construído: “sou o tempo”, “soo o tempo”. O aspecto vivencial (“sou”) existe em função do canto (“soo”), do dizer – e escutar – a língua do poema.
O corpo entre a cabeça e o texto intervém, torcendo a frase em espiral até o centro teórico, a terra: “a cabeça leva loucuras na sua casca caracol que rola e para oca ouvindo a terra”. O vórtice do caracol organiza, no espaço, a loucura da cabeça, figurando o cérebro. Que, no entanto, no texto, é uma espécie de casca, envoltório do espaço vazio, oco, e onde se mora, oca, em contato com a terra. O léxico abstrato (“tempo”) ou destacado do cotidiano (“a cabeça”, “a terra”), a sintaxe e as formas visuais geometrizadas, estão trançados com o vocabulário do corpo, a grafia manuscrita, os papéis amarelos. Os poemas não chegam a tomar forma tipográfica, como se quisessem manter-se em estado gestacional, entre público e privado, publicados e guardados, prontos e inacabados. Lançam, assim, ao poema que Lygia recebeu em homenagem de Augusto de Campos, em 1953, “lygia fingers” – onde “lygia finge ser digital” – um comentário irônico.
Durante o mês de março de 2024, o movimento político de extrema-direita no Brasil elegeu o romance O avesso da pele (2020), de Jeferson Tenório, como objeto de ódio.
O fato de o livro ter sido enviado às escolas pelo Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), em momento de governo do Partido dos Trabalhadores (PT), alimenta a perspectiva de conspiração da esquerda.
Por isso, os governos de Paraná, Mato Grosso do Sul e Goiás trabalharam para retirar o romance de suas escolas públicas de ensino médio.
Em dezembro de 2023, propus um trecho do romance em avaliação formal individual para estudantes de primeira série do ensino médio.
Trata-se de um trecho significativo da obra, pois nele aparece o termo do título, “avesso da pele”, como fala do pai ao filho narrador.
As questões que elaborei avaliam a compreensão ou a interpretação do trecho com base nas noções dos elementos da narrativa, de acordo com o currículo proposto para a série.
Certa vez, quando eu tinha nove anos, você me perguntou quem era Deus. Lembro que estávamos caminhando pela rua, procurando uma sombra para descansar. Estava quente, um calor que não era insuportável mas que nos incomodava. Então, quando encontramos um banco embaixo de uma árvore, você olhou para algumas pombas que ciscavam por ali, naquela praça malcuidada, e me perguntou: Pedro, você sabe quem é Deus? E eu não fazia a mínima ideia do que tinha te feito perguntar uma coisa daquelas para um menino de nove anos. Lembro que recém havia terminado de ler um livro sobre vampiros, lendas e histórias de terror. Então, quando você me perguntou quem era Deus, pensei em dizer: não sei. Acontece que você detestava que eu dissesse não sei, você dizia: filho, nunca podemos saber de tudo, mas, olhe, não responda não sei. Diga então que precisa pensar, que precisa de tempo. No entanto, naquele dia, eu não queria pensar. Estava quente e eu só tinha nove anos. Mas eu lembrei do meu livro sobre lendas de terror e respondi que achava que Deus era um fantasma que morava no céu. E, quando eu disse isso, você me olhou com certo espanto, e vi seu rosto se iluminar com alegria. Como se eu tivesse dito a coisa mais importante do mundo. Talvez hoje eu compreenda por que você ficou comovido com aquela resposta. Conforme fui crescendo, suas perguntas foram ficando mais complexas. E confesso que às vezes eu não queria ser profundo. Eu queria apenas brincar e ser como os outros filhos eram com seus pais. No entanto, agora eu sei que você estava me preparando. Você sempre dizia que os negros tinham de lutar, pois o mundo branco havia nos tirado quase tudo e que pensar era o que nos restava. É necessário preservar o avesso, você me disse. Preservar aquilo que ninguém vê. Porque não demora muito e a cor da pele atravessa nosso corpo e determina nosso modo de estar no mundo. E por mais que sua vida seja medida pela cor, por mais que suas atitudes e modos de viver estejam sob esse domínio, você, de alguma forma, tem de preservar algo que não se encaixa nisso, entende? Pois entre músculos, órgãos e veias existe um lugar só seu, isolado e único. E é nesse lugar que estão os afetos. E são esses afetos que nos mantêm vivos. Lembro que você fazia um grande esforço para ser entendido por mim. Eu era pequeno e talvez não tenha compreendido bem o que você queria dizer, mas, a julgar pela água nos seus olhos, me pareceu importante.
TENÓRIO, Jeferson. O avesso da pele. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 60-61.
Considerei que a leitura do trecho pode não ser fácil para cada um dos meus estudantes de primeira série. Por isso, elaborei uma primeira questão de identificação dos personagens.
O fragmento do romance O avesso da pele (2020), de Jeferson Tenório, consiste numa cena ficcional com dois personagens, narrada em primeira pessoa. Descreva os dois personagens representados, considerando a relação deles entre si e suas características pessoais.
Nas respostas, alguns estudantes consideraram que o narrador estava se referindo à mãe, mas a maioria identificou o pai.
Na questão seguinte, aprofundando a compreensão do trecho, propus a identificação dos tempos narrativos representados no trecho.
O trecho apresenta uma narrativa que representa dois tempos diferentes, o presente e o passado. Descreva a situação correspondente a cada momento da narrativa.
a) O que está acontecendo no presente?
b) O que aconteceu no passado?
Nas respostas, o grau de detalhamento variou bastante.
Por fim, solicitei a interpretação do conselho do pai, baseado no termo “avesso”.
No diálogo entre os personagens, um deles argumenta: “É necessário preservar o avesso”. Considerando o tema das relações étnico-raciais desenvolvido na cena narrativa, explique o argumento do personagem ao defender que é necessário preservar o avesso.
Esse tipo de comando demanda calibrar a correção de acordo com as respostas que aparecem.
Usei como critério de correção a exigência de se comentar a pele e seu avesso, ou seja, os dois elementos metafóricos associados à violência e ao afeto, ao exterior e ao interior, ao estereótipo e à singularidade.
O livro reúne 20 ensaios escritos a partir de um encontro entre autores realizado no primeiro semestre de 2023, quando se dedicaram a pensar poesia em relação com alguma categoria: política, negritude, destroços, imagem, testemunho, indeterminação, autobiografia, crítica, clínica de artista.
As autorias estão vinculadas ao grupo de pesquisa Poesia Brasileira Contemporânea, sediado na Faculdade de Letras da UFRJ. O livro homenageia Josefina Ludmer — por, por exemplo, entender a poesia em diálogo com seus foras — e Roberto Corrêa dos Santos, autor do ensaio de encerramento.
Colaboro, no livro, com o capítulo “Uma aproximação a um poema de Leonardo Fróes”, em que considero a categoria da indeterminação, tal como formulada por Marjorie Perloff, em diálogo contraditório com o poema “Dia de dilúvio” (1995). É uma análise de poema entremeada na revisão da trajetória de um leitor de poesia.
O livro está à venda no site da editora 7letras e também é distribuído em livrarias.
Capas dos livros de Ricardo Aleixo que basearam a elaboração da prova
A experiência de escrever avaliações formais para turmas de estudantes no ensino básico participa do cotidiano do professor.
As escolas e redes de ensino atribuem maior ou menor autonomia a seus docentes como autores das avaliações.
Quando a autonomia é menor, entende-se que as avaliações redigidas por docentes que não estão naquela sala de aula são um mecanismo de controle da qualidade pedagógica.
Entendo, por outro lado, que uma avaliação precisa ser elaborada em diálogo com o cotidiano escolar. Assim, um professor toma decisões a respeito de temas abordados, níveis de dificuldade das questões e amplitude dos gabaritos de acordo com o seu conhecimento das turmas e dos estudantes.
Recentemente, escrevi três avaliações formais individuais, as famosas “provas”, baseadas em textos recentes da literatura brasileira.
Gostaria de, nesse primeiro post, apresentar uma prova para turmas de oitavo ano do ensino fundamental, na disciplina de Português, que avaliava a poesia como gênero literário.
Parte da prova foi construída com base na obra do poeta Ricardo Aleixo.
Para isso, selecionei dois textos recentes do poeta: um capítulo do seu livro de memórias Sonhei com o anjo da guarda o resto da noite (2022), no qual compara o ofício de poeta na vida adulta com o comportamento tímido durante a infância; e um poema visual publicado em Diário da encruza (2022), composto por uma única oração.
O contexto dos estudantes é pós-pandêmico, de maneira que a turma viveu o quinto e o sexto anos do ensino fundamental remotamente, e apresentou, no sétimo e no oitavo anos, dificuldades na aprendizagem de conceitos gramaticais e na concentração para a leitura de textos longos.
Segue a sequência dos textos e duas questões comentadas.
“Menino calado” (2022), de Ricardo Aleixo
É contar e ver surgir na cara das pessoas a descrença. Ninguém parece acreditar, e mesmo a mim soa estranha a lembrança de que fui um menino de pouca conversa. Como é possível, se hoje eu ganho a vida com a voz ao vivo, em performances, palestras, cursos e oficinas? Só com as pessoas da minha casa eu trocava umas escassas palavras. Porque amava o silêncio, espécie de segunda pele que me protegia do mundo, na mesma proporção em que me desagradava o contínuo vozerio dos adultos das tribos vizinhas da nossa pequena tribo.
Passei anos seguidos considerando a coisa mais normal do mundo a hipótese de viver para sempre calado, até que, lá por volta dos onze anos, bem no tempo em que aprendi a cantar, no colégio, tornei-me um razoável conversador. Minha irmã me contou, dia desses, que ela e eu conversávamos bastante quando éramos pequenos. Acredito, se é ela quem o diz, mas desconfio que a mana exagera um bocado. Observando-a conversar numa festa, por exemplo, é fácil ver como a palavra lhe sai fácil da boca e de todo o seu rosto tão bonito, ao passo que a mais simples conversação, se não chega a ser algo sofrido, me exige um grande esforço, principalmente se preciso convencer a pessoa com quem falo.
Prefiro escutar, e há mesmo algumas boas almas que me garantem que sou bom nisso. Quando me escutam com atenção e genuíno interesse, demonstro sofrer da típica loquacidade dos tímidos e falo, falo e falo sem parar. Em tais situações, não é raro que eu tente inverter os papéis, passando a fazer perguntas às pessoas. Muitas abdicam desse súbito direito à palavra e me lembram que sou, ali, o poeta, e que portanto devo falar. Mas falar o quê, meus deuses e minhas deusas, se cultivo, como todo poeta, a ilusão de que tudo o que tenho a dizer já está dito nos meus poemas?
ALEIXO, Ricardo. Sonhei com o anjo da guarda o resto da noite: Memórias. São Paulo: Todavia, 2022. p. 70-71.
Na primeira questão, procurei orientar a leitura do texto no sentido de estudantes demonstrarem a compreensão de estratégias discursivas mobilizadas para a narração, sendo elas a comparação e a contradição.
Enunciado da questão: O texto “Menino calado”, publicado em 2022 e escrito pelo poeta Ricardo Aleixo, pode ser considerado uma crônica que narra o comportamento do autor durante a infância e seus efeitos na vida adulta, como poeta.
Primeiro comando: a) No primeiro parágrafo da crônica, o autor apresenta uma contradição entre a criança que ele foi e o adulto que ele é. Explique que contradição é essa.
Segundo comando: b) No segundo parágrafo, o autor apresenta uma diferença entre seu comportamento e o da irmã. Explique que diferença é essa.
Terceiro comando: c) No terceiro parágrafo, o autor apresenta uma ilusão vivida por todo poeta. Explique que ilusão é essa.
É possível facilmente identificar os trechos do texto que baseiam os comandos da questão.
Por isso, para um estudante de oitavo ano, o desafio não está apenas em identificar o trecho. A partir da releitura, é preciso elaborar uma resposta discursiva parafraseando o trecho em linguagem formal e coerente.
A resposta é avaliada não apenas pela identificação do trecho, mas pela qualidade da sentença elaborada, em relação ao tema e em relação ao estilo do estudante.
Cada resposta discursiva é uma mini-redação, e é avaliada também em aspectos de ortografia e acentuação, formalidade e coesão, entre outros.
Além do texto narrando a timidez na infância, selecionei um poema, também publicado em 2022, construído por um período simples e explorando a visualidade do espaço gráfico.
Trata-se de uma provocação aos poemas em versos rimados tão frequentes na cultura escolar para a infância, de maneira a perturbar o senso comum, às vezes construído com base nas formas tradicionais do poema.
“Tecla tab” (2022), de Ricardo Aleixo
coloque -se no seu lugar do outro
ALEIXO, Ricardo. Diário da encruza: Poemas (2015-2022). Salvador: Segundo Selo; lira, 2022. p. 100.
O poema propõe um jogo com a coerência da sentença, tornando indecidível o significado do pronome “seu”, que se refere ao mesmo tempo à segunda e à terceira pessoas, dada a relação ambivalente e contraditória de sentido que estabelece com “do outro”.
Por isso, em lugar de reconhecer elementos formais ou figuras de linguagem que não são essenciais à existência ou ocorrência do poema, como a rima ou a metáfora, propus a atenção à ambiguidade como traço exemplar desse poema, mas não necessariamente de qualquer poema.
Enunciado da questão: O poema “Tecla tab”, publicado em 2022 por Ricardo Aleixo, apresenta uso poético do recurso de tabulação das linhas, presente em teclados de computador com o nome de tecla “Tab”. A sentença formada pelas palavras do poema apresenta sentido ambíguo, ou seja, apresenta dois significados diferentes.
Comando da questão: Explique a ambiguidade presente no poema.
A expectativa de resposta estava na elaboração da ideia de que o “lugar” em que o leitor deve se colocar é, ao mesmo tempo, o seu, leitor, e o do outro.
Mesmo que uma leitura interpretativa possa entender o sujeito e o outro, nesse poema, como categorias em crise, em memória da asserção de Rimbaud (“eu é um outro”), a questão investiga a capacidade de percepção da ambiguidade do texto, que é condição para uma segunda etapa de leitura: a interpretação da subjetividade do texto.
Esses são exemplos de questões que procuram explorar a leitura do texto literário em situação de prova.
O desafio está em elaborar questões facilmente compreendidas pelos estudantes em geral, e que os desafiem a compreender aspectos discursivos do texto.
Isso quer dizer que essas questões não estão preocupadas com o reconhecimento de dados, informações ou significados veiculados pelo texto.
Em vez disso, incentivam atitudes de indagação do texto, provocando a análise estilística (por figuras como contradição, comparação, ambiguidade etc.) e desafiando a elaboração discursiva dessa percepção pelo estudante.
Primeiro rascunho da tradução do poema de Wallace Stevens
Nesses dias, me deparei com a tradução de um pequeno poema de Wallace Stevens que eu não conhecia e fiquei hipnotizado. Os poemas de Wallace Stevens são estranhos, é difícil compor a coerência deles sem a sensação de estar perdendo alguma ou muita coisa na leitura, e ao mesmo tempo lendo-os pareço encontrar um lugar novo de compreensão e imaginação misturadas, que eu não conhecia sem aqueles versos. O pequeno poema que me encontrou nesses dias é desse tipo, e ainda conversa com plantas e árvores, a paisagem vegetal, que me toca especialmente.
Como ando estudando inglês, resolvi tentar a tradução do poema, criando, assim, um modo de lê-lo diferente daquele que encontrei na tradução que li. Acontece que quando fui traduzir, achei difícil decidir pela tradução de uma das palavras, e fui atrás dos comentários aos poemas. Tendo verificado que Paulo Henriques Britto, tradutor de Stevens, não traduziu “In the Carolinas“, o poema que me pegou, e que o tradutor da tradução que eu estava lendo optou pela versão mais inofensiva da palavra em português, me deparei com um enigma, uma tradução aparentemente indecidível, como, na verdade, é toda a tradução, só que mais discretamente.
In the Carolinas
The lilacs wither in the Carolinas. Already the butterflies flutter above the cabins. Already the new-born children interpret love In the voices of mothers.
Timeless mother, How is it that your aspic nipples For once vent honey?
The pine-tree sweetens my body. The white iris beautifies me.
O poema foi publicado em 1917 numa revista literária e, depois, em 1923 no livro de estreia de Wallace Stevens, Harmonium. O texto breve faz referência a uma série de plantas que compõem a paisagem das Carolinas (lilases, pinheiro e íris), além de às borboletas, formando um quadro tenso entre flores murchas e plantas de beleza regeneradora. O espanto do poeta, expresso pela pergunta na segunda estrofe, parece resultar do choque entre veneno e remédio, o que mata e o que cura. No tempo sem tempo da mãe, ora ela nutre com mel, ora com alguma outra coisa estranha, que murcha ou envenena.
Essa coisa estranha torna da tradução indecidível. Isso porque o termo “aspic nipples“, de sonoridade sugestiva na aliteração de consoantes oclusivas, p, c, e na assonância da vogal alta aguda, i, nomeia os seios da mãe, caracterizando-os com um termo polissêmico: “aspic“. No dia a dia, esse termo remete a uma receita que não é muito comum no Brasil, uma espécie de gelatina de carne com vegetais, prato principal gelatinoso, como o seio que amamenta, em contraponto com a doçura do mel, que o poeta encontrou nas Carolinas. Mas o termo também remete à lavanda, ou alfazema, espécies de plantas de mesma família, e também a uma espécie de cobra, a víbora.
O espanto do poeta parece se justificar mais pela gelatina de carne do que pela alfazema ou pelo formol, outro significado do termo. Alguns leitores sugerem aí uma referência esquisita à Cleópatra, que encontra a morte depois de deixar uma víbora picar os próprios seios. Dessa maneira, o poema sugere, na contemplação da paisagem e, mesmo, na intromissão da paisagem no poeta (na terceira estrofe), um esquecimento da história, uma sobremesa para humanos. A “mãe sem fim”, por ora, regenera o poeta e seu corpo, nutrindo-o no intervalo da história, do drama, da sobrevivência. Seja gelatina ou víbora, alfazema ou formol, os seios da mãe parecem tranquilizados pelo mel da paisagem das Carolinas.
A tradução, então, não traduz e, por isso, pode ser lida assim: onde se lê “seios de víbora”, leia-se “seios de alfazema”, “tetas de gelatina”, “peitos de formol” etc.
Nas Carolinas
Lilases murcham nas Carolinas. E borboletas já lépidas sobre cabanas. E os bebês recém-nascidos já interpretam o amor Nas vozes das mães.
Mãe sem fim, Como é que seus seios de víbora Dessa vez exalam mel?
O pinheiro adocica meu corpo. A íris branca embeleza-me.
Sessão de abertura da II Jornada Internacional de Poesia Visual & III Colóquio Caminhos Contemporâneos da Semiótica Visual
Em 23 de novembro de 2023, participei da sessão de abertura da II Jornada Internacional de Poesia Visual (JIPV), que, dessa vez, estava associada ao III Simpósio Caminhos Contemporâneos da Semiótica Visual. Para mim, que participei da I JIPV como comunicador, foi uma honra receber o convite para abordar a “poesia neoconcreta” na abertura de um evento acadêmico significativo para a poesia brasileira.
A sessão aconteceu no Instituto de Letras da UFF, no Campus Gragoatá, e foi transmitida pelas redes sociais. Apresentei ao lado da professora Regina de Souza Gomes, da UFRJ, que abordou a poesia digital no Brasil. Também participaram das mesas nessa sessão Juliana Di Fiori Pondian (UFF), que também organiza a JIPV, Gustavo de Castro (UNESP), Luiz Guilherme Vergara (UFF) e Lucia Teixeira (UFF/UERJ).
Propus uma intervenção que retomou a análise que faço sobre o momento inicial do movimento neoconcreto, no artigo escrito a partir da comunicação a I JIPV: “Teoria da poesia neoconcreta nas trajetórias de Lygia Pape e Ferreira Gullar”. Além disso, desenvolvi uma breve leitura de poemas visuais e livros-poemas de Lygia Pape expostos ou publicados entre 1957 e 1959, no intuito de inserir a sua obra na série da poesia experimental brasileira.
A intervenção que propus, intitulada “Poesia neoconcreta na vertigem do movimento”, inicia na posição 1h45min do vídeo, dura menos de 30min e é seguida de debate com a professora Regina. Desejo colaborar para as formas de leitura da poesia experimental no Brasil, considerando, nessa intervenção, a disputa pelos termos “poesia concreta” e “poesia neoconcreta” e os poemas de Lygia Pape como matéria histórica e estética dessa poesia.