A poesia no Enem 2023

Na prova de Linguagens do Enem 2023, quatro questões consideraram o poema como objeto de reflexão.

Predominaram fragmentos de poemas, o que não deve ser considerado como exemplo para o trabalho em sala de aula.

As questões abordaram Habilidades da Matriz de Referência Enem relacionadas com a teoria das funções da linguagem, a comparação temática entre diferentes textos e, por fim, a leitura de textos líricos, ou seja, a sua compreensão e análise.

Assim, nem todas as questões que consideram poemas como objeto de reflexão abordam conhecimentos literários. Isso também acontece com a prosa narrativa, e não apenas na prova de Linguagens. A prova de Ciências Humanas do Enem, que apresenta questões de História, Geografia, Filosofia e Sociologia, baseia algumas questões em textos literários.

As questões que abordaram conhecimentos literários a partir da leitura dos poemas avaliaram a representação do sentimento amoroso e o estilo de evocação da memória.

Dois temas, portanto, clássicos da tradição lírica foram analisados em um poema modernista, de Mário de Andrade, e outro contemporâneo, de Ana Martins Marques. Em cada caso, era preciso reconhecer valores afetivos como efeito do estilo dos versos, identificando a representação do cotidiano ou a postura de serenidade das vozes líricas.

O conhecimento da história da literatura brasileira e mesmo a identificação da autoria de Mário de Andrade são úteis, mas não indispensáveis, na solução das questões. Assim, a prova favorece leitores de poesia mais experientes na diversidade de estilos da modernidade literária, e não exclui estudantes que não tenham tido acesso a amplo repertório de poesia e podem, por análise e raciocínio, acertar as duas questões.

Isso quer dizer que a poesia é abordada principalmente em função do gênero lírico, ou seja, como um texto cuja voz (também denominada, na prova, como “eu” ou “sujeito”) representa valores sociais e humanos, em estilo singular e historicamente localizado.

Se, conforme considero nesse blog, a prova do Enem pode funcionar como referência curricular para professores da educação básica, então ela avisa, em 2023, assim como nos anos anteriores, que a poesia contemporânea é a janela para a história da poesia, pois atualiza a tradição lírica. Além disso, a leitura do poema implica não a identificação do estilo de época, mas, sim, a compreensão das representações sociais e humanas dos afetos, que emerge do estilo do texto.

Então, sob essa perspectiva, uma roda de leitura que aprofunde a compreensão de poemas e detalhe seu estilo pode ser muito mais útil para preparar estudantes para a prova do Enem e formá-los como leitores de poesia, do que a apresentação cronológica de poemas canonizados de acordo com determinado estilo de época.

Esses são alguns aspectos curriculares sobre a poesia que a prova de Linguagens do Enem 2023 sugere.

Expo LABIA

Página de apresentação da Expo LABIA

O Laboratório de Imaginação e Autoria Literária (LABIA) é um grupo de pesquisa cadastrado no CNPq e sediado no Colégio Pedro II, instituto federal de ensino sediado no Rio de Janeiro. Dele fazem parte os professores Juliana Berlim e Luiz Guilherme Ribeiro Barbosa, do Departamento de Português e Literaturas da instituição, e estudantes de ensino médio e ensino fundamental integrantes dos projetos de iniciação científica jr. coordenados pelos professores.

Entre as linhas de pesquisa do grupo, está a elaboração de metodologias de ensino em produção literária na escola, integradas ao currículo proposto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Por isso, recentemente reuni parte da produção literária dos estudantes, com comentários que contextualizam essas experiências em turmas de ensino fundamental e de ensino médio, entre os anos de 2018 e 2023.

Assim, a Expo LABIA: Exposição de poemas foi elaborada para circular na comunidade escolar, recebeu versão impressa exposta em local de grande circulação na escola, e é divulgada online entre colegas de trabalho com o objetivo de disseminar práticas que consideramos exitosas e que dialogam com as propostas pedagógicas desenvolvidas a partir da experiência do Laboratório.

Também convocamos os colegas professores de equipe e estudantes integrantes de grupos de leitura e escrita literária na escola, para apresentar textos para a comunidade escolar. Dessa convocação, foi elaborada a segunda parte da Expo LABIA: Exposição de poemas, também afixada nas paredes da escola em espaços de grande circulação, é disponível ao clicar nesse parágrafo.

A Expo LABIA foi apresentada à escola pública onde atuo, no dia 15 de setembro de 2023, e incluiu dois volumes de poemas:

  • Volume 1: Poemas elaborados em situações formais de ensino, como aulas de língua portuguesa no ensino fundamental e no ensino médio, e orientações de iniciação artística e cultural, ou iniciação científica jr.
  • Volume 2: Poemas apresentados para publicação por estudantes e professores, e compostos em condições pessoais de autoria, independentemente das atividades de ensino formal na escola.

Leitores/autores em práticas de letramentos literários

Cabeçalho do artigo publicado.

Durante o ano de 2022, procurei sintetizar num artigo acadêmico o estágio de reflexão e de práticas em ensino de literatura em que me reconheço, como professor na educação básica, pós-pandemia.

O texto foi publicado nesse mês de maio de 2023 na Revista X, do Departamento de Letras Estrangeiras e Modernas, da UFPR, em número atemático, e pode ser acessado por esse link.

No texto, procuro estabelecer uma compreensão sobre as práticas em letramentos literários, revisando alguns textos de referência no tema, com especial atenção às autorias estudantis.

Além disso, também proponho alguns caminhos de pesquisa no campo do ensino de literatura na escola, o que venho tentando realizar na rotina de trabalho em parceria com colegas.

Por fim, o texto contou com a leitura crítica do professor Marcos Scheffel, de Prática de Ensino em Letras-Literaturas, na UFRJ, e de avaliadores e editores da Revista X, a quem agradeço.

Sobre O despertar de tudo

Fotografia do livro comentado.

Não foi simples atravessar as 700 páginas desse ensaio, e ele me tocou por motivos alheios à sua força. O livro parece ter sido escrito em resposta à crise econômica de 2008 e em defesa das táticas políticas de ocupação de espaços públicos que se multiplicaram desde então. Mas não é sobre isso: revisitar a pré-história dos povos humanos, percorrendo uma bibliografia ampla, específica e atualizada na arqueologia desses povos, é uma oportunidade de argumentar em prol da diversidade política da espécie e, mais do que isso, das incontáveis tentativas de produção de relações sociais igualitárias ao longo dessa trajetória.

O que me tocou, no entanto, foi o mundo arqueológico, que eu não conhecia. Culturas como a de Chavín de Huántar, possível ancestral ou, então, resultado do xamanismo amazônico nos andes peruanos, e contemporânea, na cronologia planetária, dos gregos antigos; ou, ainda, as relações variadas e complexas entre heroísmo, burocracia e encantamento, como três formas básicas de produção de poder social, para compreender os povos humanos. Isso tudo mobilizado por um universo de referências que me fez ir atrás de poemas e cantos sumérios e acádios, chineses e japoneses, incas e maias, egípcios e gregos, para procurar relacionar com as passagens do livro.

A força do ensaio de David Graeber e David Wengrow, porém, está na denúncia da ideologia capitalista com base em saberes antropológicos, referenciados na arqueologia, e que começaram a ser elaborados na Europa a partir dos discursos ameríndios relatados ou traduzidos. Graeber e Wengrow parecem defender mesmo que o Iluminismo é uma reação europeia à crítica ameríndia, e que a Revolução Francesa é uma espécie de “indigenização” da sociedade francesa: se eles podem viver de outra maneira, nós também podemos distribuir poderes…

De qualquer maneira, ler grandes livros, longos e aprofundados, é uma experiência significativa para mim, mesmo que eu leve, como dessa vez, cerca de um mês, entre idas e vindas, para atravessar uma obra com estilo estranho ao que costumo frequentar.

De onde vêm as palavras?

Anotação de aula

Nesse fevereiro de 2023, vou estudar com turmas de primeira série do ensino médio a formação das palavras no português brasileiro e, para iniciar esse trabalho, propus uma aula que resultou, para mim, como anotação, no seguinte texto.

Essa pergunta pode ser respondida de várias formas. A teoria geral da Linguística – a ciência que estuda a linguagem humana – considera as palavras como signos arbitrários de representação do mundo, ou seja, como uma sequência de fonemas que está culturalmente associada a significados determinados. Essa relação entre o signo e a realidade seria estabelecida pela cultura de uma língua. Por exemplo, no Brasil, associamos à sequência de fonemas /’onibus/o veículo rodoviário de transporte coletivo, e esse mesmo elemento da realidade é, em geral, nomeado como “autocarro”, em Portugal, ou “machimbombo”, em Moçambique, como lemos no livro Terra sonâmbula (1992), de Mia Couto. Mas, afinal, de onde veio a palavra “ônibus”, por exemplo? De onde vieram as palavras?

Algumas palavras são muito antigas na língua portuguesa, enquanto outras são mais recentes. Como você sabe, o português é uma língua neolatina, e isso significa que a base do seu Léxico (ou seja, o conjunto de palavras da língua) pode ser encontrada na língua latina, que foi disseminada pelo Império Romano entre os séculos II a.C. e IV d.C. em territórios em torno do Mar Mediterrâneo. Assim é que diversas palavras do português são semelhantes a palavras do Latim Clássico, como é o caso da palavra “música”, que em Latim se registrava simplesmente “musica”, sem o acento agudo. Mas a pergunta continua: e como essa palavra foi parar no Latim?

Pois é! No caso de “música”, conseguimos rastrear. Diversas palavras latinas provieram da língua grega antiga, que era registrada com outro alfabeto. Em Grego Antigo, encontramos a expressão Mουσική τέχνη (algo como “Mousiké téchne”), que pode ser traduzida como a arte das Musas. Por isso, podemos afirmar que a palavra que deu origem à “música” em português foi concebida por povos do sudeste europeu na língua grega antiga, há cerca de 3.000 anos, e estava relacionada com a cultura religiosa desses povos. As Musas, afinal, eram entidades sagradas de belas falas que traziam a linguagem e a memória para os humanos e, além disso, a palavra “musa” participa de um conjunto variado de palavras em grego e latim, em línguas neolatinas e anglo-saxãs, ou até mesmo em línguas faladas na Turquia ou no Irã, que estão relacionadas com a ideia de memória e contêm fonemas /m/, como “mente” e “amnésia”.

Segundo a teoria geral da Linguística, há muitos indícios de que todas essas línguas tiveram origem numa mesma língua extinta, da qual não há documentos escritos, que foi batizada como Protoindo-Europeu (PIE). Assim, uma possível palavra *men- nessa língua hipotética pode ter sido a origem mais longínqua conhecida de um conjunto de palavras do português relacionadas com o campo semântico da memória, e que reúne, hoje, “música” e “comentário”, duas palavras que não estão mais diretamente relacionadas com o sentido da memória. A gente foi muito longe nessa história!

É importante para organizar as ideias especular sobre o passado longínquo, mas para grande parte das palavras da língua podemos dar uma resposta muito mais simples do que a que demos para a “música”. Por exemplo, se olharmos para uma palavra mais recente na língua, como “criptomoeda”, e perguntarmos de onde ela vem, a resposta mais provável é que ela vem de “moeda”, que já é uma palavra no português. No caso de “criptomoeda”, foi acrescentado o morfema “cripto-” antes de “moeda”, e nós reconhecemos esse morfema em outras palavras, como “criptografia”. Agora não precisamos conhecer outras línguas para compreender como a palavra “criptomoeda” foi criada. Percebemos, portanto, que a palavra nova foi composta pela junção da palavra “moeda” com o morfema “cripto-”, que significa escondido ou secreto.

Apesar de a gente ter resgatado a história da língua para explicar a origem da palavra “música”, nós vamos estudar os processos de formação de palavras que nos são contemporâneos, ou seja, que acontecem hoje em dia no português brasileiro. Entre outros objetivos, o estudo da Morfologia Lexical no ensino médio contribui para a formação do vocabulário e a produção de um estilo pessoal de fala e escrita, pois oferece ao falante mais instrumentos de identificação e produção de novas palavras.

Teoria da poesia neoconcreta

Resumo do artigo publicado no catálogo

Em dezembro de 2022, foi publicado o catálogo I Jornada Internacional de Poesia Visual, organizado por Anderson Gomes, Juliana Di Fiori Pondian e Julio Mendonça, e fruto do evento homônimo realizado online em 2020.

O catálogo, editado pela Syrinx, propõe um panorama internacional recente da produção criativa e crítica em poesia visual, reproduzindo, em formato pequeno, centenas de poemas e resumos de comunicação, e oferecendo link para o conjunto de artigos. Além disso, apresenta 15 depoimentos de poetas da visualidade e uma cronologia das mostras brasileiras de poesia visual.

No catálogo, está publicado o resumo da comunicação que apresentei no evento em 2020, e o link para o artigo que escrevi em decorrência da comunicação. No artigo, procuro estabelecer a pertinência da categoria “poesia neoconcreta” na história da poesia experimental brasileira, considerando principalmente trabalhos de Ferreira Gullar e Lygia Pape.

Poesia e pegação

Fragmento da capa de Balbúrdia (2022), de Iago Passos

Iago,

Recebi o seu Balbúrdia hoje e já fiz uma primeira leitura, que delícia o que vocês fizeram! As ilustras do Preto Matheus como círculos de perfil do Insta, por exemplo, logos de rostos, mini leituras dos textos, e a série de textos com vários lapsos e implícitos muito legais, além, claro, do humor todo com o erotismo, não só gostei como me reconheci, me identifiquei.

Página com poema de Iago Passos e ilustração de Preto Matheus

Um poema-livro também, que responde, pelo título, ao ataque político do bolsonarismo, e responde com alegria, diversidade e despretensão, uma lição que aprendi com a poesia marginal, mas que, no seu livro, aparece com um projeto de texto na forma do jogo de linguagem, que ganha vida com o que não diz, com a força da pronominalidade masculina e feminina que não indica necessariamente as identidades de gênero (a outra, quem? a outra pessoa? a outra gay? a outra mulher? a outra personagem? o primeiro, quem? namorado, sexo, beijo, amor?). Enfim, virando o ano quem sabe organizo melhor essas impressões…

Um abraço!

Página com poema de Iago Passos e ilustração de Preto Matheus

Seis parágrafos para ‘Solitária’ (2022), de Eliana Alves Cruz

Capa do romance Solitária (2022), de Eliana Alves Cruz

§ Conheci Eliana Alves Cruz quando ela visitou a escola onde trabalho, no Rio de Janeiro, para conversar com estudantes, a convite de um grupo de colegas professoras. Desde então, sou atento à sua trajetória, mesmo que não leia cada um de seus livros. Minha impressão é que, a cada livro, Eliana procura explorar uma forma do romance atual, construindo uma obra versátil em relação ao gênero, e coesa em relação ao tema. Assim é que livro de memórias, romance histórico ou realismo cotidiano sejam formas diversas para escrever a perspectiva literária das vidas negras no Brasil.

§ Fui ler Solitária (2022) por perceber, em postagens de rede social e conversas de corredor, vários e várias leitoras que admiro elogiando o livro. Assim, cheguei às histórias de Eunice e Mabel, mãe e filha, e das pessoas que acompanham os acontecimentos que fazem Nicinha, que por anos trabalhou e morou como empregada doméstica no apartamento de uma família, cuidar de si mesma, seguindo conselhos de sua mãe. O trabalho como empregada doméstica e o espaço arquitetônico destinado às empregadas domésticas nos apartamentos brasileiros são o tema principal do livro, que com ele aborda vários outros, como o trabalho doméstico análogo à escravidão, as consequências político-afetivas das cotas universitárias, ou o saudosismo da ditadura civil-militar.

§ Embora a história de Eunice, terminada a leitura, tenha me parecido condutora geral da narrativa, é possível considerar que a história de Mabel compete com a da mãe: sua posição de observadora das relações de trabalho e afeto da mãe trabalhadora, sua obstinação por se profissionalizar através do estudo e, principalmente, seu drama ao engravidar na adolescência e contar com a ajuda da patroa de sua mãe movem a história dessa família formada por mãe e filha (e um pai que aparece de surpresa), que conta principalmente com a solidariedade entre trabalhadores do condomínio para conquistar o que deseja.

§ Solitária, assim, para mim, apresenta, como uma de suas principais forças, na medida em que eu, como leitor, posso identificá-las com base na minha história de vida, a narração da arquitetura racista brasileira, ou seja, a produção ficcional de formas sociais reproduzidas pela arquitetura da casa da branquitude do país. Que histórias a planta baixa da sua casa conta? Eliana Alves Cruz desenha um livro para o “quartinho”, os cômodos diminutivos, que, historicamente, diminuíram pessoas e, apesar da crítica, seguem funcionando. O quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, e o quarto da escritora, de Virginia Woolf, são dois paradigmas do livro de Eliana, que oferece uma história de mudança.

§ Quando li Torto arado (2019), de Itamar Vieira Junior, fiquei curioso com a recepção que o livro estava tendo e procurei acompanhar o debate crítico. De fato, o livro recebeu uma leitura que, para mim, se destacava na tentativa de fazer a crítica, ou seja, estabelecer uma posição cultural para a obra. Entre outros pontos, Fabiana Moraes, escrevendo em fevereiro de 2021 no The Intercept Brasil, procurou chamar a atenção para o mercado editorial, na promoção da literatura escrita por pessoas negras tematizando a racialidade, pois os valores do mercado editorial podem atuar na formação dos estilos literários. Assim, um texto literário pode ser mais ou menos propício à comercialização em larga escala. O problema da popularização da obra pelo mercado estaria na exotização da racialidade, a não ser que não houvesse a categoria “literatura negra”, “autores negros” envolvida nessa comercialização. Assim, um leitor branco pode ingenuamente ler “literatura negra” para atestar a humanidade daqueles personagens, daquelas vidas, quando essa pretensa ingenuidade, na verdade, reproduz o racismo: “Não tenho dúvida de que, nesse interesse pela ‘literatura negra’ está incutida também essa vontade aparentemente ingênua de poder”, escreve Fabiana.

§ Solitária (2022) catalisa tantos temas importantes da racialidade contemporânea que a narrativa parece ter muito potencial de atuar por identificação com leitores e leitoras que vivam condições de vida subalternizadas, o que significa que a ficção está endereçada, e não é a mim. Pelo menos, não como alguém que se identifique como a protagonista da história, embora o trabalho da leitura envolva mesmo a identificação com o estranho. Um ponto é que, embora vivesse como cidadã numa sociedade democrática, as relações de trabalho de Eunice não se davam com base em valores democráticos, a começar pelo “quartinho” que lhe era destinado para morar. Assim, as posições políticas de Eunice e das pessoas para as quais trabalha não estão em solo comum, embora a institucionalidade defenda a igualdade de direitos. Esse outro país, onde parecia viver Eunice, é o lugar mesmo do racismo, que aparta parte da população da sociabilidade instituída. Mas ele é, precisamente, o país inteiro, pois denuncia a branquitude da letra da lei. Se pude lidar, em algum grau, com a obra de Eliana Alves Cruz, então poderia afirmar que sua literatura, junto com aqueles que convoca, como, entre outros, Cartola e Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Bebeto, representa a emancipação coletiva e popular das pessoas negras, na crítica da arquitetura do “quartinho”, ou seja, dos espaços domésticos, privados e familiares.

A poeta cresce em poetisa

Versão do poema exposta na escola.

O poema de L. N., estudante da turma 904, foi composto em 2021, depois de uma reunião de orientação na Oficina Literária Ato Zero. “Poeta ou poetisa?” é um dos vários poemas que L. vem compondo nos últimos anos e, desde que ingressou na escola, em 2019, vem apresentando à comunidade. Seu trabalho, desenvolvido durante a adolescência, investiga lugares de fala afirmativos da vida, e a poesia mesma aparece como um, entre outros, lugar possível para o drama do reconhecimento social.

Por isso, seus poemas, a exemplo de “Poeta ou poetisa?”, interrogam as possibilidades da poeta, pois o gesto da publicação aparece como distinto da necessidade de escrever. Qual a necessidade de publicar? Em livro? Vender um poema? Ou, então, postar? A resposta, nos poemas de L., não parece simples, e a exposição de “Poeta ou poetisa?” no espaço escolar experimenta uma saída. De qualquer maneira, o poema chega até estudantes e professores, adolescentes e adultos, funcionários e familiares da escola como produto da artesania escolar, composto com papelão reciclado, cartolina colorida e tinta acrílica.

O poema, no projeto de L., acontece como surpresa para quem frequenta a escola. Pendurado numa parede, a princípio as palavras parecem explodir desordenadamente de um centro — a pergunta, a questão do nome, o nome do trabalho: poeta ou poetisa? A vertigem da questão dura pouco, o olhar do leitor organiza linha a linha um texto que atravessa a pergunta e sugere, como resposta, uma metamorfose. A poeta cresce em poetisa e o papel do poema embrulha matéria muito variada, performando o encontro entre a forma e a vida, o texto e o corpo, o verso e a voz.

A obra de L. N., apresentada à escola, convida aqueles que estiverem diante dela ao trabalho de perguntar à linguagem como crescer. A poeta mulher, poeta ou poetisa, a poeta adolescente, estudante, suburbana, a poeta muitas coisas propõe o poema pendurado, pintado, colorido, o poema, também ele, muitas coisas. O poema muitas coisas, ampliado, expandido, performado, é, para mim, como professor e leitor de L., a lição principal da sua experiência com poesia, que levo para o trabalho comum com os poemas em sala de aula.

Versão do poema exposta na escola.

Poeta ou poetisa?

Sou poeta crescendo,
não sou poeta crescida
Quem foi que cresceu em poesia
a ponto de não mais caber nela?

Sou poeta em construção,
poeta pensante
Poeta ou poetisa?
Discussão acadêmica demais
pra mim que sou leiga com as palavras

A gramática que me perdoe,
mas todos os errinhos de português
quando bem colocados,
tem sua graça
e seu cheiro doce

Talvez sabor pipoca
explosão,
química,
metamorfose,
expansão

Isso é ser poeta em construção
juntar filosofia e pipoca
em contexto reflexivo
inacabado
Ausentar pontuação
e ser fonte de análise
para os analíticos
de plantão

Poeta aprendendo
a magia da organização de letras
que faz atrair
e atribuir significado
dados
e mudados,
que se renovam e envelhecem
quando vem poeta pra questionar

É, acho que poeta crescendo é isso;
é poeta descobrindo
as várias formas
e sombras
que a arte
da poesia
causa
nas várias formas de existência
e ousar
ao embrulhar tudo
em papel

L. N., 15 anos
Estudante do Ensino Fundamental

A exposição de “Poeta ou poetisa?” é resultado do projeto de iniciação artística jr. Oficina Literária Ato Zero, apoiado pela Pró-Reitoria de Pós-Graduação, Pesquisa, Extensão e Cultura (PROPGPEC). Também colaboraram para a execução do projeto o Departamento de Português, a Biblioteca Hélio Fontes, a Equipe de Português e as Direções Geral e Pedagógica do Campus. A Oficina Literária Ato Zero integra o Laboratório de Autoria e Imaginação Literária (Lábia), fundado em 2022 em parceria com a professora Juliana Berlim.

Kazuo Ishiguro lido na Uerj

No dia 4 de dezembro de 2022, o Vestibular Estadual 2023, organizado pela Uerj, vai abordar, na sua prova de redação, o romance Não me abandone jamais (2005), de Kazuo Ishiguro. Em virtude do trabalho como professor no ensino médio e como professor em aulas particulares, desenvolvi duas propostas de redação aplicadas ao romance, que procuram imitar a abordagem da banca da prova. Sobre a escolha desse livro para a prova, propus uma análise nesse post.

Proposta 1

“Percebo agora”, disse Miss Emily, “que talvez você fique com a impressão de que foram todos mero joguetes. Sem dúvida que sim. Mas pensem um pouco. Vocês foram joguetes de sorte. Na época reinava um certo clima que não existe mais. Vocês precisam aceitar que às vezes é assim que as coisas se desenrolam neste mundo. As opiniões, os sentimentos, uma hora pendem para cá, outra hora para lá. Vocês calharam de crescer durante um determinado período desse processo.” 

“Pode até ser que tenha sido uma tendência que veio e se foi”, disse eu. “Mas, para nós, é a nossa vida.”

ISHIGURO, Kazuo. Não me abandone jamais. Tradução de Beth Vieira. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 318.

Miss Emily justifica a condição de vida de Kathy e seus amigos com base nas circunstâncias da época. No entanto, para a narradora, suas vidas não deveriam ser consideradas “joguetes” no país onde viviam.

A partir da leitura do romance, escreva uma redação dissertativo-argumentativa, com 20 a 30 linhas, em que discuta a seguinte questão:

O que justifica que as opiniões e os sentimentos coletivos possam pender para o controle da vida de uma parte da população?

Seu texto deve atender à norma-padrão da língua portuguesa, conter um título, além de ser inteiramente escrito com caneta, sem apresentar qualquer identificação.

Proposta 2

Ele começou a descrever seus bichos prediletos, mas não consegui me concentrar: quanto mais animado ele ficava, falando sobre suas criações, mais desconforto eu sentia. “Tommy”, eu queria dizer a ele, “você vai acabar sendo ridicularizado por todo mundo de novo. Bichos imaginários? Onde você está com a cabeça?” Só que não disse. Apenas olhei muito cautelosamente para ele e repeti várias vezes: “Mas que bom, Tommy, que notícia boa”.

ISHIGURO, Kazuo. Não me abandone jamais. Tradução de Beth Vieira. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 219.

Em conversa com Tommy, Miss Lucy afirmou que os desenhos realizados por ele eram uma “prova”. Em Não me abandone jamais, de Kazuo Ishiguro, a faculdade humana de imitar a realidade é problematizada tanto na arte quanto na ciência, pois interfere no valor das vidas dos personagens, como no caso de Tommy.

A partir da leitura do romance, escreva uma redação dissertativo-argumentativa, com 20 a 30 linhas, em que discuta a seguinte questão:

Em função do modo como imitam a realidade, arte e ciência são capazes de desumanizar as pessoas?

Seu texto deve atender à norma-padrão da língua portuguesa, conter um título, além de ser inteiramente escrito com caneta, sem apresentar qualquer identificação.