
Nesse fevereiro de 2023, vou estudar com turmas de primeira série do ensino médio a formação das palavras no português brasileiro e, para iniciar esse trabalho, propus uma aula que resultou, para mim, como anotação, no seguinte texto.
Essa pergunta pode ser respondida de várias formas. A teoria geral da Linguística – a ciência que estuda a linguagem humana – considera as palavras como signos arbitrários de representação do mundo, ou seja, como uma sequência de fonemas que está culturalmente associada a significados determinados. Essa relação entre o signo e a realidade seria estabelecida pela cultura de uma língua. Por exemplo, no Brasil, associamos à sequência de fonemas /’onibus/o veículo rodoviário de transporte coletivo, e esse mesmo elemento da realidade é, em geral, nomeado como “autocarro”, em Portugal, ou “machimbombo”, em Moçambique, como lemos no livro Terra sonâmbula (1992), de Mia Couto. Mas, afinal, de onde veio a palavra “ônibus”, por exemplo? De onde vieram as palavras?
Algumas palavras são muito antigas na língua portuguesa, enquanto outras são mais recentes. Como você sabe, o português é uma língua neolatina, e isso significa que a base do seu Léxico (ou seja, o conjunto de palavras da língua) pode ser encontrada na língua latina, que foi disseminada pelo Império Romano entre os séculos II a.C. e IV d.C. em territórios em torno do Mar Mediterrâneo. Assim é que diversas palavras do português são semelhantes a palavras do Latim Clássico, como é o caso da palavra “música”, que em Latim se registrava simplesmente “musica”, sem o acento agudo. Mas a pergunta continua: e como essa palavra foi parar no Latim?
Pois é! No caso de “música”, conseguimos rastrear. Diversas palavras latinas provieram da língua grega antiga, que era registrada com outro alfabeto. Em Grego Antigo, encontramos a expressão “Mουσική τέχνη” (algo como “Mousiké téchne”), que pode ser traduzida como a arte das Musas. Por isso, podemos afirmar que a palavra que deu origem à “música” em português foi concebida por povos do sudeste europeu na língua grega antiga, há cerca de 3.000 anos, e estava relacionada com a cultura religiosa desses povos. As Musas, afinal, eram entidades sagradas de belas falas que traziam a linguagem e a memória para os humanos e, além disso, a palavra “musa” participa de um conjunto variado de palavras em grego e latim, em línguas neolatinas e anglo-saxãs, ou até mesmo em línguas faladas na Turquia ou no Irã, que estão relacionadas com a ideia de memória e contêm fonemas /m/, como “mente” e “amnésia”.
Segundo a teoria geral da Linguística, há muitos indícios de que todas essas línguas tiveram origem numa mesma língua extinta, da qual não há documentos escritos, que foi batizada como Protoindo-Europeu (PIE). Assim, uma possível palavra *men- nessa língua hipotética pode ter sido a origem mais longínqua conhecida de um conjunto de palavras do português relacionadas com o campo semântico da memória, e que reúne, hoje, “música” e “comentário”, duas palavras que não estão mais diretamente relacionadas com o sentido da memória. A gente foi muito longe nessa história!
É importante para organizar as ideias especular sobre o passado longínquo, mas para grande parte das palavras da língua podemos dar uma resposta muito mais simples do que a que demos para a “música”. Por exemplo, se olharmos para uma palavra mais recente na língua, como “criptomoeda”, e perguntarmos de onde ela vem, a resposta mais provável é que ela vem de “moeda”, que já é uma palavra no português. No caso de “criptomoeda”, foi acrescentado o morfema “cripto-” antes de “moeda”, e nós reconhecemos esse morfema em outras palavras, como “criptografia”. Agora não precisamos conhecer outras línguas para compreender como a palavra “criptomoeda” foi criada. Percebemos, portanto, que a palavra nova foi composta pela junção da palavra “moeda” com o morfema “cripto-”, que significa escondido ou secreto.
Apesar de a gente ter resgatado a história da língua para explicar a origem da palavra “música”, nós vamos estudar os processos de formação de palavras que nos são contemporâneos, ou seja, que acontecem hoje em dia no português brasileiro. Entre outros objetivos, o estudo da Morfologia Lexical no ensino médio contribui para a formação do vocabulário e a produção de um estilo pessoal de fala e escrita, pois oferece ao falante mais instrumentos de identificação e produção de novas palavras.