Leitores na escola

Estudante apresentando jogo em sala de aula.

Durante essa semana, pude conversar com dois estudantes sensíveis ao trabalho que desenvolvo como professor, e escutar observações críticas sobre as aulas. Esse papo me fez lembrar o trabalho realizado nesse ano letivo de 2022 e elaborar objetivos e resultados alcançados.

Vou usar um exemplo para refletir sobre as aulas que dei no ensino médio nos últimos quatro meses. No começo do ano letivo de 2022, entrevistei um grupo de 52 estudantes da primeira série do ensino médio na escola onde trabalho.

Perfil dos estudantes
A maioria dos estudantes tinha 15 anos no dia da entrevista, mas o grupo inclui pessoas de 14 a 18 anos. Além disso, a maioria reside na região da Zona Norte do município do Rio de Janeiro. São adolescentes, em geral, filhos de pessoas com ensino superior completo; que não trabalham, seja por remuneração ou no cuidado de outra pessoa; e com livros em casa.

Índice de leitura
Considerando os critérios também adotados na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, perguntei aos estudantes se tinham lido um livro, inteiro ou em parte, nos últimos três meses. Num universo de 52 alunos, 40 deles declararam ter lido um livro inteiro ou em parte, em formato físico ou digital, de ficção ou não. Isso corresponde a 77% da amostra.

A princípio, trata-se de um índice maior do que a média brasileira, que na última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada em 2019 e publicada em 2020, estava em 52% da população em geral, com 5 anos ou mais. No entanto, se considerada apenas a faixa etária pesquisada, o resultado em contexto escolar não difere muito do índice nacional, que está em 67% de leitores entre adolescentes de 14 a 17 anos.

Ler literatura
Também procurei saber se o livro recentemente lido era de ficção e se foi lido integralmente. Nesse caso, apenas 13 alunos declararam ter lido um livro inteiro de literatura nos últimos três meses, o que corresponde a 25% do grupo.

Mesmo reconhecendo que a leitura integral do livro pode não ser um critério justo para a fruição leitora, considero-a um aspecto importante a ser considerado na adolescência. Para a maioria dos estudantes, o ensino médio representará a última oportunidade de ler ficção sob mediação de um leitor profissional, em contexto formal de educação.

Além disso, o índice de leitura tende a cair à medida que a idade avança, e a escola consiste na principal instituição de letramento da população. Por isso, criar possibilidades para que a leitura de ficção seja cotidiana entre adolescentes parece decisivo para a democratização da literatura na sociedade em geral. Daí minha preocupação com o resultado.

Desafios na sala de aula
O principal desafio da sala de aula em literatura está na formação de uma rotina de leitura coletiva. Professores precisam lidar com currículos e avaliações que não reconhecem, em geral, a leitura coletiva como a principal prática pedagógica, e condições de trabalho que não remuneram a leitura de textos diversos escritos por seus estudantes.

Além disso, professores são pessoas especializadas em leitura. Por isso, suas rotinas de leitura podem não ser a melhor referência para demais leitores que experimentam e vão experimentar condições de vida adversas à concentração e à imaginação. É preciso curiosidade para compreender as possibilidades da leitura na rotina dos trabalhadores.

É nesse sentido que tenho me engajado na leitura coletiva: troca de impressões, comentário crítico e registro por escrito da leitura. É um ciclo sem fim. Considero este um método de estudo para qualquer teoria abordada pelo currículo estabelecido. É uma tentativa.

Notas para despir o português

No dia 29 de junho de 2022, fiz uma intervenção no Colóquio 100 Anos da Semana de Arte Moderna: Perspectivas Críticas, na Escola de Letras da UNIRIO, a convite da professora Luciana Vilhena, a quem agradeço a confiança. Dividi a mesa com o professor Zeca Ligièro, que apresentou sua perspectiva da performance afro-ameríndia, conceito importante que concebe e desenvolve.

Depois da sua apresentação, propus uma fala a partir de um “poema menor” de Oswald de Andrade:

erro de português

Quando o português chegou
Debaixo d’uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português

1925

ANDRADE, Oswald de. Poesias reunidas. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 183.

A ideia foi explorar a ambiguidade do termo “erro de português”, reivindicada no poema, como método de análise do uso e do ensino de norma-padrão no português brasileiro. Assim, a expressão de senso comum do erro gramatical fica atravessada pelo paradigma da colonialidade, o que perturba as noções de aprendizagem linguística. Como assim?

Comecei observando a ausência do termo Modernismo na Base Nacional Comum Curricular, e a presença do termo no Projeto Político Pedagógico Institucional 2017-2020 do Colégio Pedro II, instituição onde atuo. No documento, prevê-se o estudo do Modernismo em diversas disciplinas (Artes, Educação Musical, História e Português) e séries (Nono Ano do Ensino Fundamental, e as três séries do Ensino Médio). Essa distribuição indica possibilidades de trabalho interdisciplinar a partir do currículo vigente.

Além disso, a abordagem do Modernismo pela disciplina de Português sugere que a variação linguística é um traço estético do processo de modernização da literatura brasileira, o que inclui, no documento, as etiquetas de Pré-Modernismo e Modernismo. Assim, os estudos gramaticais ficam relacionados com os estudos de história da cultura, estabelecendo uma relação de intimidade entre conhecer a língua e conhecer a cultura letrada. Essa posição, no entanto, precisa encontrar alguns limites no projeto do Modernismo paulista, sob a perspectiva atual. Desenvolvi dois exemplos.

A crítica de Nei Lopes à representação de Tia Ciata, em Macunaíma, de Mário de Andrade, foi o primeiro. A canção de Nei Lopes, que pode ser escutada aqui, lê o capítulo “Macumba” do livro de 1928 e propõe uma resposta, sob a perspectiva da malandragem carioca, ao uso que o personagem Macunaíma faz da “macumba” de Tia Ciata. O estilo malandro, que pode ser caracterizado, entre outros elementos, pelo trocadilho entre a Tia “pedra-noventa” e o Macunaíma “22”, trocadilho que mobiliza conhecimentos de jogatina e legislação (de acordo com as tecnologias de sobrevivência da cultura da malandragem)… esse estilo fala contra o estilo “amalucado” do texto paulista, pondo em disputa dois dialetos, que representam dois projetos culturais. O debate é longo e gostaria apenas de terminar confirmando essa análise pela grafia do nome do personagem, “Macunaíma”, que consiste num abrasileiramento e, nesse sentido, na nacionalização da transcrição “Makunaima” ou “Makunaimã”, grafias estas que consideram a oralidade das línguas indígenas e a diversidade linguística em território brasileiro. Isso quer dizer que tanto a viagem de Macunaíma ao Rio de Janeiro quanto a grafia do seu nome podem ser lidas como espécies de “erros de português”, com base na canção de Nei Lopes e na linguística das línguas indígenas.

O segundo exemplo abordado na apresentação foi o projeto de gramática do português que Mário de Andrade deixou fragmentado e batizou de “Gramatiquinha”. Embora seja um projeto fragmentário e contraditório, parece possível afirmar que Mário realizou notas gramaticais para a formação de um estilo literário em língua brasileira, o qual buscou realizar em suas obras. O ponto de interesse aqui está na posição do escritor que se entende como criador de gramática, consciente do lugar problemático da língua portuguesa no Brasil. Ou seja, o escritor trabalha para não cometer “erros de português”, em sentido duplo. Ainda assim, trata-se de uma posição que pode ser lida como uma espécie de neurose colonial, distinta, por exemplo, da elaboração que Lélia Gonzalez faz, posteriormente a Mário, do “pretuguês”. Em lugar do trabalho contra os erros de português, por uma língua brasileira por se fazer, aparece, em Lélia, uma língua brasileira historicamente existente e desprezada, e que põe em xeque uma noção de norma-padrão nacional.

Com isso, para um professor que atua no ensino de português nas escolas, o texto modernista parece apontar tanto para a valorização dos dialetos do português no Brasil, quanto para certa incompreensão da diversidade linguística que formou o país e existe nele. O desafio parece estar em:

  • Conhecer a diversidade linguística do país, ou seja, a diversidade gramatical e cultural das línguas indígenas, e a atuação hoje de línguas de origem africana no português.
  • Reconhecer os valores de classe social e racialidade no projeto de abrasileiramento da norma-padrão da língua portuguesa, realizado, inclusive, pelo Modernismo paulista.

Procurei elaborar e resumir brevemente as ideias que propus aos alunos da Escola de Letras da UNIRIO, no evento para o centenário da Semana de Arte Moderna. Foi uma alegria estar com eles.

Registro por Daniel Grimoni, estudante de Letras na UNIRIO e professor-estagiário no Colégio Pedro II, da mesa Mesa 2 do Colóquio 100 Anos da Semana de Arte Moderna: Perspectivas Críticas

Libres, iguales y felices

Capa da publicação

Em junho de 2022, foi divulgada a publicação do livro Libres, iguales y felices: Cuentos de jóvenes estudiantes del MERCOSUR por una cultura sin violencia hacia las mujeres.

Trata-se de uma iniciativa do Instituto de Políticas Públicas em Direitos Humanos (IPPDH) do MERCOSUL, que convocou estudantes do ensino médio a produzirem um conto que tematizasse as condições sociais e os direitos políticos das mulheres na América do Sul.

Uma estudante que integrou a Oficina Literária Ato Zero, projeto de iniciação artística jr. que coordeno no Colégio Pedro II, foi publicada na antologia. O conto de Joyce Maravilha, intitulado “Então, você tem filhos?”, narra uma entrevista de emprego na qual uma candidata é preterida devido à maternidade.

Por ocasião da publicação, a equipe de comunicação do Colégio Pedro II propôs uma entrevista à Joyce e a mim, que pode ser lida aqui. Na entrevista, falamos sobre o processo de orientação em produção literária desenvolvido na escola.

Agradeço à Joyce pela confiança e pela parceria!

Entrevista com Eliane Robert Moraes

Imagem de divulgação do livro organizado por Eliane Robert Moraes

Em junho de 2022, a professora Eliane Robert Moraes publicou o livro Seleta erótica, de Mário de Andrade. Nele, a professora seleciona e interpreta o corpus de temática erótica na obra de Mário. O livro foi publicado pela editora Ubu, no contexto do centenário da Semana de Arte Moderna.

Na ocasião da publicação, tive a oportunidade de entrevistar Eliane em parceria com Lucas van Hombeeck, que atua no Blog da Biblioteca Virtual do Pensamento Social, onde a entrevista foi publicada. Na entrevista curta, Eliane desenvolve o motivo da literatura erótica, a que dedica sua trajetória de pesquisa:

Não se trata, então, apenas de uma literatura que tem o sexo como tema. Ou, dizendo melhor, o que está em jogo nesse tipo de texto é bem mais que isso: afinal, a matéria sexual pode ser aferida numa infinidade de livros que, pelo simples fato de lançarem mão do tema, não podem ser alinhados entre as obras que compõem uma erótica. Nesta, o que se propõe ao leitor é algo distinto: trata-se de uma escrita que se singulariza por fazer de Eros seu operador fundamental, elegendo-o como mediador exclusivo de seus jogos entre forma e fundo. Por isso mesmo, antes de ser um modo de pensar o sexo, o erotismo literário é um modo de pensar a partir do sexo.

Sobre um poema de Ferreira Gullar que não está nos livros

Trecho inicial do poema inédito de Ferreira Gullar, em reconstituição gráfica de Dalila Aguiar

Em 2020, me deparei com um poema inédito em livro de Ferreira Gullar, que foi publicado nas páginas do Jornal do Brasil em fevereiro de 1957, na véspera da abertura da I Exposição Nacional de Arte Concreta.

O poema longo ocupa uma página inteira do JB e foi anunciado como “trailer” da exposição. Apesar do interesse histórico dessa Exposição, o poema não parece ter sido incorporado nas leituras da poesia concreta.

Ferreira Gullar, o primeiro a mantê-lo inédito, não lembra desse texto singular em seus trabalhos autobiográficos, tampouco os demais integrantes do movimento se referem a ele.

Mesmo assim, o poema parece interessante: inova na organização espacial do verso, dado o contexto, e apresenta uma perspectiva catastrófica da existência, em diálogo com A luta corporal (1954).

Contemporâneo a O formigueiro (1956), o poema concreto e sem título de fevereiro de 57 escreve a derrocada do corpo vivo, consumido pelo fogo do tempo.

O tema gullariano está trabalhado aqui também na mesma época em que o poeta escreveu os versos de O vil metal (1980), título que reuniu, posteriormente, os poemas em verso que escreveu durante o período de engajamento nos movimentos concreto e neoconcreto.

Ainda em 2020, publiquei um breve artigo sobre o poema inédito, procurando compreender seu lugar no tempo em que foi publicado.

Percursos de uma aula para o vestibular

O Vestibular Estadual 2022 proporcionou alguns convites para a proposição de uma aula dedicada a Uma janela em Copacabana, de Luiz Alfredo Garcia-Roza, ficção escolhida para a prova de redação do concurso.

Apresentei a aula, que está resumida neste post aqui do blog, para dois grupos diferentes do projeto de extensão Rodas de Leitura Lélia Gonzalez, coordenado pela professora Hilma Ribeiro, que atua no colégio de aplicação da Uerj. Também conversei sobre o tema numa live no Instagram com o professor Luiz Henrique Lemos, que publica no perfil @prevestibulive (link aqui). Por fim, visitei o Ícone Colégio e Curso, no bairro da Taquara, no Rio de Janeiro, para propor aos alunos de pré-vestibular da professora Carla de Oliveira uma leitura do livro, e também visitei o CAp-UFRJ, onde estudei no ensino médio, e conversei via Google Meet com os alunos da professora Cristiane Madanêlo, que foi minha supervisora de estágio de licenciatura.

Assim, pude conversar com professores e estudantes a respeito da proposta do Vestibular Estadual 2022, elaborado pela Uerj, de adotar um livro de ficção na prova de argumentação. Além das observações que fiz no post de resumo da aula, gostaria de acrescentar que o método de leitura comum do vestibular da Uerj perturba o funcionamento de alguns cursos pré-vestibulares, que se veem na tarefa de prever uma prova e treinar estudantes. Nesse caso, os cursos precisam abordar um texto longo com interpretações diversas, para contemplarem as abordagens possíveis do texto literário.

Agradeço aos colegas professores os convites e a parceria!

Estudar escrever

Ao escrever, como plano de aula, “Estudar escrever”, tocado pelo começo de um novo trabalho, pela memória das aulas que tenho proposto e pela leitura de Gregorio Hernández Zamora, estive como que, como estudante, assistindo as ideias que consigo formular como professor. As formas de estudar práticas sociais que formam subjetividades, como a produção textual, são distintas das práticas escolarizadas e imaginadas pela maioria dos estudantes. Além disso, as experiências de racialidade, gênero e classe social, a frequentação da internet e o trânsito pelas cidades se tornaram, a meu ver, condições para o processo de aprendizagem, pois são vividas dia a dia sob o jugo da barbárie. Que essa aula, uma conversa com um único estudante (carioca, suburbano, classe média), possa se inventar entre as linhas desse plano.

Como se estuda um verbo?
Uma prática, uma forma de convivência?
Participo dessa prática desigual?
Em que posição, projeto?
Como se lançar e publicar
quando tudo parece aparência
e a timeline está ocupada por profissionais de si?
Quem se é na cidade das telas?
A imagem da pele aponta as armas.
Com licença, há condições para gozar?
Como ler enquanto pedala?
Estudar escrever
no plural se diz
estudar-se escrever-se.

Luiz Alfredo Garcia-Roza no vestibular

No dia 14 de fevereiro de 2022, propus uma vídeo-aula para o projeto de extensão Rodas de Leitura Lélia Gonzalez, coordenado pela professora Hilma Ferreira, na Uerj.

A aula foi pensada para estudantes de ensino médio vestibulandos, pois abordou o romance policial Uma janela em Copacabana (2001), de Luiz Alfredo Garcia-Roza, que será abordado na prova de redação do Vestibular Estadual 2022, organizado pela Uerj.

Além de contextualizar a leitura do romance em relação ao vestibular, propus alguns passeios pelo livro, considerando a relação entre a ficção e a cidade do Rio de Janeiro, a história da Filosofia na Europa ou conceitos da Psicanálise.

A ideia é que a leitura pode ser vivida pelos estudantes do ensino médio como uma prática transdisciplinar, e essa vivência aprofunda a relação com o romance e a reflexão necessária para a produção de um texto dissertativo no vestibular.

Agradeço à professora Hilma o convite e a oportunidade!

A literatura na redação da Uerj

Capa do romance escolhido para o Vestibular Estadual 2022

Desde que o Enem se tornou o principal meio de acesso às universidades públicas e às faculdades privadas no país, os vestibulares estaduais têm exercido o papel de contraponto local à prova nacional. Preservando métodos de avaliação de qualidade, como as etapas discursivas nas áreas de conhecimento específicas dos candidatos, e autonomia na abordagem de temas divergentes, dada a sua repercussão localizada, esses vestibulares também representam a atuação de professores universitários sobre a cultura curricular nas escolas dos seus estados.

No caso do Rio de Janeiro, o Vestibular Estadual, organizado pelo Departamento de Seleção Acadêmica da Uerj, passou a propor uma consulta pública para a escolha das leituras literárias necessárias às provas. Embora essa consulta não pareça estar incorporada ao cotidiano das escolas que conheço, ela convida estudantes e comunidades escolares a se mobilizarem na escolha dos livros a serem lidos. O processo de leitura, no entanto, está limitado a estudantes e famílias com recursos para acessar as obras escolhidas, sejam recursos financeiros ou filantrópicos, já que algumas obras não estão em domínio público.

Além disso, no caso da Uerj, mesmo que se reconheça o esforço em propor livros contemporâneos e em gêneros variados, parece haver alguma indiferença em relação à justa diversidade de autorias das obras. Os livros escolhidos são abordados em perspectiva interdisciplinar, especialmente aquele que se torna objeto do tema da redação. Entre esses livros, por exemplo, foram escolhidos em votação os seguintes nos últimos anos:

Resultado de escolhas realizadas sob consulta pública, a lista das obras abordadas na redação pode ser considerada, retrospectivamente, como variada em relação à data de publicação, que contempla os últimos 120 anos de literatura, ao local de publicação, pois inclui uma obra produzida em língua inglesa, e ao gênero do romance, que contempla ficção científica e narrativa policial. É flagrante que não haja diversidade de gênero na autoria, e quanto à racialidade a variação não parece representar um esforço de equidade.

Os temas propostos pela prova de redação a partir da leitura dos romances estão relacionados com reflexões éticas que podem considerar a ficção como objeto. Contrapõem-se, assim, aos temas da prova do Enem, que entendem o texto dissertativo como meio de intervenção social, pois inclui uma proposta de intervenção a ser elaborada para o contexto nacional. Trata-se de perspectivas distintas de cidadania, que parecem advir de tradições teóricas também distintas de reflexão em produção textual. As perspectivas consideram a literatura como objeto de reflexão para temas de Ética ou a realidade nacional para a elaboração de proposta de intervenção social.

  • Vestibular Estadual 2018: Dom Casmurro, de Machado de Assis
    A verdade pode ser estabelecida com base em uma única perspectiva?
  • Vestibular Estadual 2019: O seminarista, de Rubem Fonseca
    É justificável cometer um crime para vingar outro crime?
  • Vestibular Estadual 2020: Vidas secas, de Graciliano Ramos
    O que leva pessoas, em condições semelhantes às de Fabiano, a se considerarem inferiores às demais?
  • Vestibular Estadual 2021: 1984, de George Orwell
    A mentira programada é uma arma política válida para conquistar o poder e sustentá-lo?

Verdade e perspectiva, crime e justificação, pessoa e valor, mentira e política… Os temas propostos para a redação procuram relacionar duas noções que suscitam polêmica a partir da leitura dos romances. No caso do romance escolhido para o Vestibular Estadual 2022, o principal tema polêmico parece ser a corrução policial. Em Uma janela em Copacabana, de Luiz Alfredo Garcia-Roza, o delegado protagonista investiga o assassinato de policiais relacionado com esquemas corruptos no bairro. Embora a narrativa também aborde, sob perspectiva polêmica, a relação de gênero entre mulheres e homens, o tema da corrupção policial no livro está relacionado às motivações dos crimes investigados e dialoga com o contexto político-eleitoral do Estado do Rio de Janeiro. O ocupação territorial pelas milícias formadas por agentes ou ex-agentes de segurança pública é considerado um tema urgente para as eleições estaduais de 2022.

Entre os trechos da narrativa que expõem a polêmica, este talvez seja o mais evidente:

Quero ressaltar que, independentemente da origem e dos fins, não há boa propina. Propina não é complemento salarial. Propina é suborno. Quem aceita suborno, assim como quem subornou, é corrupto. E corrupção, além de ser um problema legal, é um problema ético. Quando ela impede que se leve a cabo a investigação do assassinato dos próprios colegas, o problema se torna extremamente crítico.

GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Uma janela em Copacabana. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 197.

Ao investigar o assassinato de policiais em Copacabana, o delegado Espinosa se depara com uma rede de corrupção formada pelos próprios policiais da sua delegacia. O enunciado da prova de redação do Vestibular Estadual de 2022 pode seguir a tendência:

A partir da leitura do romance, escreva uma redação dissertativa-argumentativa, com 20 a 30 linhas, em que discuta a seguinte questão:

A corrupção nas forças policiais interfere na segurança da população exercida pelo Estado?

Seu texto deve atender à norma padrão da língua portuguesa, conter um título, além de ser inteiramente escrito com caneta.

Não sei se pude fazer uma boa formulação da questão, de acordo com o estilo apresentado pela comissão de Vestibular nos últimos anos. De qualquer maneira, o teor da questão a ser colocada pode não se distanciar muito da perspectiva elaborada nesse texto, baseada na análise das últimas propostas. Fica essa análise, resultado da preparação de aulas para o ensino médio, como sugestão de material didático e proposta de diálogo com professores e estudantes interessados no tema.

Teoria da poesia neoconcreta

Em novembro de 2021, apresentei comunicação no excelente evento I Jornada Internacional de Poesia Visual, organizado por Anderson Gomes, Juliana Di Fiori Pondian, Julio Mendonça, Omar Khouri e Antonio Vicente Seraphim Pietroforte. O evento aconteceu principalmente online e foi sediado no Centro de Referência Haroldo de Campos da Casa das Rosas, em São Paulo, e contou com apoio de Unesp e USP.

Na Mesa 17 de comunicações, apresentei parte da pesquisa que culminou no livro Poesia neoconcreta, publicado neste 2021 pela editora Azougue e organizado por mim em parceria com Renato Rezende e Sergio Cohn. Dividi a mesa com Luis Fernando Silva Sandes (“A formação artística dos poetas do concretismo paulista”) e a amiga Marina Ribeiro Mattar (“Além de Noigandres: o movimento da poesia Concreta brasileiro construído através de suas relações internacionais”).

O resumo da comunicação “Teoria da poesia neoconcreta nas trajetórias de Ferreira Gullar e Lygia Pape”, proposto para a Jornada, é o seguinte:

A publicação no Suplemento Literário do Jornal do Brasil (SDJB), em junho de 1957, do artigo “Poesia concreta: Experiência intuitiva”, assinado por Ferreira Gullar, Oliveira Bastos e Reynaldo Jardim, assinalou, sob olhar retrospectivo, o começo de uma trajetória de elaboração coletiva do que se pode nomear como “poesia neoconcreta”. Embora o “Manifesto neoconcreto” viesse a ser publicado em março de 1959 e a sua redação tenha sido motivada pelas reuniões do grupo de artistas posteriores à exposição de Lygia Clark em São Paulo, no final de 1958, as divergências de ideias no interior do movimento da poesia concreta suscitadas pelo artigo de 1957 manifestam modos diversos de conceber não apenas a poesia, como também a construção de um movimento de vanguarda. Embora se possa considerar as realizações da poesia neoconcreta em termos de invenção de formas (livro-poema, poema espacial, balé neoconcreto), gostaria de, nesta comunicação, acompanhar duas trajetórias poéticas distintas no contexto do movimento neoconcreto: as de Ferreira Gullar e Lygia Pape. Assim, a leitura do poema “FOGO”, inédito em livro e publicado por Gullar em fevereiro de 1957 nas páginas do SDJB, em comparação com os “poemas-luz” exibidos por Pape no mesmo ano em Petrópolis, põem em cena o movimento e o corpo, e a desobediência aos preceitos concretos como práticas que vão culminar no “Poema enterrado”, de Gullar, e no “Livro da criação”, de Pape, elaborados em 1960 como diferentes destinações de um movimento artístico a um só tempo multi- e interdisciplinar. Com isso, pretendemos considerar as “rupturas” promovidas pelas realizações poéticas de ambos os artistas, na época, em diálogo com a leitura de Ronaldo Brito acerca do movimento neoconcreto e em comparação com aquelas promovidas pelo grupo Noigandres durante o mesmo período.

Esta pesquisa desenvolve questões que elaborei na dissertação de mestrado e no livro A mão, o olho: Uma interpretação da poesia contemporânea (Editora Oficina Raquel, 2014), e seguem paralelamente às práticas e estudos em ensino de literatura, que desenvolvo a partir da atuação como professor no Colégio Pedro II, e em poesia e natureza, suscitadas pela tese de doutorado em Teoria Literária, na UFRJ, dedicada à obra de Leonardo Fróes.

São vários e excelentes os vídeos publicados no canal de YouTube da I Jornada Internacional de Poesia Visual.