
§ Conheci Eliana Alves Cruz quando ela visitou a escola onde trabalho, no Rio de Janeiro, para conversar com estudantes, a convite de um grupo de colegas professoras. Desde então, sou atento à sua trajetória, mesmo que não leia cada um de seus livros. Minha impressão é que, a cada livro, Eliana procura explorar uma forma do romance atual, construindo uma obra versátil em relação ao gênero, e coesa em relação ao tema. Assim é que livro de memórias, romance histórico ou realismo cotidiano sejam formas diversas para escrever a perspectiva literária das vidas negras no Brasil.
§ Fui ler Solitária (2022) por perceber, em postagens de rede social e conversas de corredor, vários e várias leitoras que admiro elogiando o livro. Assim, cheguei às histórias de Eunice e Mabel, mãe e filha, e das pessoas que acompanham os acontecimentos que fazem Nicinha, que por anos trabalhou e morou como empregada doméstica no apartamento de uma família, cuidar de si mesma, seguindo conselhos de sua mãe. O trabalho como empregada doméstica e o espaço arquitetônico destinado às empregadas domésticas nos apartamentos brasileiros são o tema principal do livro, que com ele aborda vários outros, como o trabalho doméstico análogo à escravidão, as consequências político-afetivas das cotas universitárias, ou o saudosismo da ditadura civil-militar.
§ Embora a história de Eunice, terminada a leitura, tenha me parecido condutora geral da narrativa, é possível considerar que a história de Mabel compete com a da mãe: sua posição de observadora das relações de trabalho e afeto da mãe trabalhadora, sua obstinação por se profissionalizar através do estudo e, principalmente, seu drama ao engravidar na adolescência e contar com a ajuda da patroa de sua mãe movem a história dessa família formada por mãe e filha (e um pai que aparece de surpresa), que conta principalmente com a solidariedade entre trabalhadores do condomínio para conquistar o que deseja.
§ Solitária, assim, para mim, apresenta, como uma de suas principais forças, na medida em que eu, como leitor, posso identificá-las com base na minha história de vida, a narração da arquitetura racista brasileira, ou seja, a produção ficcional de formas sociais reproduzidas pela arquitetura da casa da branquitude do país. Que histórias a planta baixa da sua casa conta? Eliana Alves Cruz desenha um livro para o “quartinho”, os cômodos diminutivos, que, historicamente, diminuíram pessoas e, apesar da crítica, seguem funcionando. O quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, e o quarto da escritora, de Virginia Woolf, são dois paradigmas do livro de Eliana, que oferece uma história de mudança.
§ Quando li Torto arado (2019), de Itamar Vieira Junior, fiquei curioso com a recepção que o livro estava tendo e procurei acompanhar o debate crítico. De fato, o livro recebeu uma leitura que, para mim, se destacava na tentativa de fazer a crítica, ou seja, estabelecer uma posição cultural para a obra. Entre outros pontos, Fabiana Moraes, escrevendo em fevereiro de 2021 no The Intercept Brasil, procurou chamar a atenção para o mercado editorial, na promoção da literatura escrita por pessoas negras tematizando a racialidade, pois os valores do mercado editorial podem atuar na formação dos estilos literários. Assim, um texto literário pode ser mais ou menos propício à comercialização em larga escala. O problema da popularização da obra pelo mercado estaria na exotização da racialidade, a não ser que não houvesse a categoria “literatura negra”, “autores negros” envolvida nessa comercialização. Assim, um leitor branco pode ingenuamente ler “literatura negra” para atestar a humanidade daqueles personagens, daquelas vidas, quando essa pretensa ingenuidade, na verdade, reproduz o racismo: “Não tenho dúvida de que, nesse interesse pela ‘literatura negra’ está incutida também essa vontade aparentemente ingênua de poder”, escreve Fabiana.
§ Solitária (2022) catalisa tantos temas importantes da racialidade contemporânea que a narrativa parece ter muito potencial de atuar por identificação com leitores e leitoras que vivam condições de vida subalternizadas, o que significa que a ficção está endereçada, e não é a mim. Pelo menos, não como alguém que se identifique como a protagonista da história, embora o trabalho da leitura envolva mesmo a identificação com o estranho. Um ponto é que, embora vivesse como cidadã numa sociedade democrática, as relações de trabalho de Eunice não se davam com base em valores democráticos, a começar pelo “quartinho” que lhe era destinado para morar. Assim, as posições políticas de Eunice e das pessoas para as quais trabalha não estão em solo comum, embora a institucionalidade defenda a igualdade de direitos. Esse outro país, onde parecia viver Eunice, é o lugar mesmo do racismo, que aparta parte da população da sociabilidade instituída. Mas ele é, precisamente, o país inteiro, pois denuncia a branquitude da letra da lei. Se pude lidar, em algum grau, com a obra de Eliana Alves Cruz, então poderia afirmar que sua literatura, junto com aqueles que convoca, como, entre outros, Cartola e Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Bebeto, representa a emancipação coletiva e popular das pessoas negras, na crítica da arquitetura do “quartinho”, ou seja, dos espaços domésticos, privados e familiares.









