Seis parágrafos para ‘Solitária’ (2022), de Eliana Alves Cruz

Capa do romance Solitária (2022), de Eliana Alves Cruz

§ Conheci Eliana Alves Cruz quando ela visitou a escola onde trabalho, no Rio de Janeiro, para conversar com estudantes, a convite de um grupo de colegas professoras. Desde então, sou atento à sua trajetória, mesmo que não leia cada um de seus livros. Minha impressão é que, a cada livro, Eliana procura explorar uma forma do romance atual, construindo uma obra versátil em relação ao gênero, e coesa em relação ao tema. Assim é que livro de memórias, romance histórico ou realismo cotidiano sejam formas diversas para escrever a perspectiva literária das vidas negras no Brasil.

§ Fui ler Solitária (2022) por perceber, em postagens de rede social e conversas de corredor, vários e várias leitoras que admiro elogiando o livro. Assim, cheguei às histórias de Eunice e Mabel, mãe e filha, e das pessoas que acompanham os acontecimentos que fazem Nicinha, que por anos trabalhou e morou como empregada doméstica no apartamento de uma família, cuidar de si mesma, seguindo conselhos de sua mãe. O trabalho como empregada doméstica e o espaço arquitetônico destinado às empregadas domésticas nos apartamentos brasileiros são o tema principal do livro, que com ele aborda vários outros, como o trabalho doméstico análogo à escravidão, as consequências político-afetivas das cotas universitárias, ou o saudosismo da ditadura civil-militar.

§ Embora a história de Eunice, terminada a leitura, tenha me parecido condutora geral da narrativa, é possível considerar que a história de Mabel compete com a da mãe: sua posição de observadora das relações de trabalho e afeto da mãe trabalhadora, sua obstinação por se profissionalizar através do estudo e, principalmente, seu drama ao engravidar na adolescência e contar com a ajuda da patroa de sua mãe movem a história dessa família formada por mãe e filha (e um pai que aparece de surpresa), que conta principalmente com a solidariedade entre trabalhadores do condomínio para conquistar o que deseja.

§ Solitária, assim, para mim, apresenta, como uma de suas principais forças, na medida em que eu, como leitor, posso identificá-las com base na minha história de vida, a narração da arquitetura racista brasileira, ou seja, a produção ficcional de formas sociais reproduzidas pela arquitetura da casa da branquitude do país. Que histórias a planta baixa da sua casa conta? Eliana Alves Cruz desenha um livro para o “quartinho”, os cômodos diminutivos, que, historicamente, diminuíram pessoas e, apesar da crítica, seguem funcionando. O quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, e o quarto da escritora, de Virginia Woolf, são dois paradigmas do livro de Eliana, que oferece uma história de mudança.

§ Quando li Torto arado (2019), de Itamar Vieira Junior, fiquei curioso com a recepção que o livro estava tendo e procurei acompanhar o debate crítico. De fato, o livro recebeu uma leitura que, para mim, se destacava na tentativa de fazer a crítica, ou seja, estabelecer uma posição cultural para a obra. Entre outros pontos, Fabiana Moraes, escrevendo em fevereiro de 2021 no The Intercept Brasil, procurou chamar a atenção para o mercado editorial, na promoção da literatura escrita por pessoas negras tematizando a racialidade, pois os valores do mercado editorial podem atuar na formação dos estilos literários. Assim, um texto literário pode ser mais ou menos propício à comercialização em larga escala. O problema da popularização da obra pelo mercado estaria na exotização da racialidade, a não ser que não houvesse a categoria “literatura negra”, “autores negros” envolvida nessa comercialização. Assim, um leitor branco pode ingenuamente ler “literatura negra” para atestar a humanidade daqueles personagens, daquelas vidas, quando essa pretensa ingenuidade, na verdade, reproduz o racismo: “Não tenho dúvida de que, nesse interesse pela ‘literatura negra’ está incutida também essa vontade aparentemente ingênua de poder”, escreve Fabiana.

§ Solitária (2022) catalisa tantos temas importantes da racialidade contemporânea que a narrativa parece ter muito potencial de atuar por identificação com leitores e leitoras que vivam condições de vida subalternizadas, o que significa que a ficção está endereçada, e não é a mim. Pelo menos, não como alguém que se identifique como a protagonista da história, embora o trabalho da leitura envolva mesmo a identificação com o estranho. Um ponto é que, embora vivesse como cidadã numa sociedade democrática, as relações de trabalho de Eunice não se davam com base em valores democráticos, a começar pelo “quartinho” que lhe era destinado para morar. Assim, as posições políticas de Eunice e das pessoas para as quais trabalha não estão em solo comum, embora a institucionalidade defenda a igualdade de direitos. Esse outro país, onde parecia viver Eunice, é o lugar mesmo do racismo, que aparta parte da população da sociabilidade instituída. Mas ele é, precisamente, o país inteiro, pois denuncia a branquitude da letra da lei. Se pude lidar, em algum grau, com a obra de Eliana Alves Cruz, então poderia afirmar que sua literatura, junto com aqueles que convoca, como, entre outros, Cartola e Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Bebeto, representa a emancipação coletiva e popular das pessoas negras, na crítica da arquitetura do “quartinho”, ou seja, dos espaços domésticos, privados e familiares.

A poeta cresce em poetisa

Versão do poema exposta na escola.

O poema de L. N., estudante da turma 904, foi composto em 2021, depois de uma reunião de orientação na Oficina Literária Ato Zero. “Poeta ou poetisa?” é um dos vários poemas que L. vem compondo nos últimos anos e, desde que ingressou na escola, em 2019, vem apresentando à comunidade. Seu trabalho, desenvolvido durante a adolescência, investiga lugares de fala afirmativos da vida, e a poesia mesma aparece como um, entre outros, lugar possível para o drama do reconhecimento social.

Por isso, seus poemas, a exemplo de “Poeta ou poetisa?”, interrogam as possibilidades da poeta, pois o gesto da publicação aparece como distinto da necessidade de escrever. Qual a necessidade de publicar? Em livro? Vender um poema? Ou, então, postar? A resposta, nos poemas de L., não parece simples, e a exposição de “Poeta ou poetisa?” no espaço escolar experimenta uma saída. De qualquer maneira, o poema chega até estudantes e professores, adolescentes e adultos, funcionários e familiares da escola como produto da artesania escolar, composto com papelão reciclado, cartolina colorida e tinta acrílica.

O poema, no projeto de L., acontece como surpresa para quem frequenta a escola. Pendurado numa parede, a princípio as palavras parecem explodir desordenadamente de um centro — a pergunta, a questão do nome, o nome do trabalho: poeta ou poetisa? A vertigem da questão dura pouco, o olhar do leitor organiza linha a linha um texto que atravessa a pergunta e sugere, como resposta, uma metamorfose. A poeta cresce em poetisa e o papel do poema embrulha matéria muito variada, performando o encontro entre a forma e a vida, o texto e o corpo, o verso e a voz.

A obra de L. N., apresentada à escola, convida aqueles que estiverem diante dela ao trabalho de perguntar à linguagem como crescer. A poeta mulher, poeta ou poetisa, a poeta adolescente, estudante, suburbana, a poeta muitas coisas propõe o poema pendurado, pintado, colorido, o poema, também ele, muitas coisas. O poema muitas coisas, ampliado, expandido, performado, é, para mim, como professor e leitor de L., a lição principal da sua experiência com poesia, que levo para o trabalho comum com os poemas em sala de aula.

Versão do poema exposta na escola.

Poeta ou poetisa?

Sou poeta crescendo,
não sou poeta crescida
Quem foi que cresceu em poesia
a ponto de não mais caber nela?

Sou poeta em construção,
poeta pensante
Poeta ou poetisa?
Discussão acadêmica demais
pra mim que sou leiga com as palavras

A gramática que me perdoe,
mas todos os errinhos de português
quando bem colocados,
tem sua graça
e seu cheiro doce

Talvez sabor pipoca
explosão,
química,
metamorfose,
expansão

Isso é ser poeta em construção
juntar filosofia e pipoca
em contexto reflexivo
inacabado
Ausentar pontuação
e ser fonte de análise
para os analíticos
de plantão

Poeta aprendendo
a magia da organização de letras
que faz atrair
e atribuir significado
dados
e mudados,
que se renovam e envelhecem
quando vem poeta pra questionar

É, acho que poeta crescendo é isso;
é poeta descobrindo
as várias formas
e sombras
que a arte
da poesia
causa
nas várias formas de existência
e ousar
ao embrulhar tudo
em papel

L. N., 15 anos
Estudante do Ensino Fundamental

A exposição de “Poeta ou poetisa?” é resultado do projeto de iniciação artística jr. Oficina Literária Ato Zero, apoiado pela Pró-Reitoria de Pós-Graduação, Pesquisa, Extensão e Cultura (PROPGPEC). Também colaboraram para a execução do projeto o Departamento de Português, a Biblioteca Hélio Fontes, a Equipe de Português e as Direções Geral e Pedagógica do Campus. A Oficina Literária Ato Zero integra o Laboratório de Autoria e Imaginação Literária (Lábia), fundado em 2022 em parceria com a professora Juliana Berlim.

Kazuo Ishiguro lido na Uerj

No dia 4 de dezembro de 2022, o Vestibular Estadual 2023, organizado pela Uerj, vai abordar, na sua prova de redação, o romance Não me abandone jamais (2005), de Kazuo Ishiguro. Em virtude do trabalho como professor no ensino médio e como professor em aulas particulares, desenvolvi duas propostas de redação aplicadas ao romance, que procuram imitar a abordagem da banca da prova. Sobre a escolha desse livro para a prova, propus uma análise nesse post.

Proposta 1

“Percebo agora”, disse Miss Emily, “que talvez você fique com a impressão de que foram todos mero joguetes. Sem dúvida que sim. Mas pensem um pouco. Vocês foram joguetes de sorte. Na época reinava um certo clima que não existe mais. Vocês precisam aceitar que às vezes é assim que as coisas se desenrolam neste mundo. As opiniões, os sentimentos, uma hora pendem para cá, outra hora para lá. Vocês calharam de crescer durante um determinado período desse processo.” 

“Pode até ser que tenha sido uma tendência que veio e se foi”, disse eu. “Mas, para nós, é a nossa vida.”

ISHIGURO, Kazuo. Não me abandone jamais. Tradução de Beth Vieira. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 318.

Miss Emily justifica a condição de vida de Kathy e seus amigos com base nas circunstâncias da época. No entanto, para a narradora, suas vidas não deveriam ser consideradas “joguetes” no país onde viviam.

A partir da leitura do romance, escreva uma redação dissertativo-argumentativa, com 20 a 30 linhas, em que discuta a seguinte questão:

O que justifica que as opiniões e os sentimentos coletivos possam pender para o controle da vida de uma parte da população?

Seu texto deve atender à norma-padrão da língua portuguesa, conter um título, além de ser inteiramente escrito com caneta, sem apresentar qualquer identificação.

Proposta 2

Ele começou a descrever seus bichos prediletos, mas não consegui me concentrar: quanto mais animado ele ficava, falando sobre suas criações, mais desconforto eu sentia. “Tommy”, eu queria dizer a ele, “você vai acabar sendo ridicularizado por todo mundo de novo. Bichos imaginários? Onde você está com a cabeça?” Só que não disse. Apenas olhei muito cautelosamente para ele e repeti várias vezes: “Mas que bom, Tommy, que notícia boa”.

ISHIGURO, Kazuo. Não me abandone jamais. Tradução de Beth Vieira. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 219.

Em conversa com Tommy, Miss Lucy afirmou que os desenhos realizados por ele eram uma “prova”. Em Não me abandone jamais, de Kazuo Ishiguro, a faculdade humana de imitar a realidade é problematizada tanto na arte quanto na ciência, pois interfere no valor das vidas dos personagens, como no caso de Tommy.

A partir da leitura do romance, escreva uma redação dissertativo-argumentativa, com 20 a 30 linhas, em que discuta a seguinte questão:

Em função do modo como imitam a realidade, arte e ciência são capazes de desumanizar as pessoas?

Seu texto deve atender à norma-padrão da língua portuguesa, conter um título, além de ser inteiramente escrito com caneta, sem apresentar qualquer identificação.

Texto, argumentação e gramática no Enem

Além das 15 questões da prova de Linguagens do Enem 2022 que estavam baseadas em textos literários, as outras questões que abordam as Habilidades referentes à disciplina escolar de Língua Portuguesa estão principalmente baseadas em três grupos de texto: cartazes publicitários (cinco questões), notícias ou reportagens (quatro questões) e textos de opinião (quatro questões).

A leitura desses textos é avaliada de duas maneiras: ou se convocam teorias da linguagem, como as funções da linguagem, os tipos e gêneros textuais, e a realidade linguística do Brasil; ou, então, se considera a argumentação nesses textos.

A Competência de área 6 da Matriz de Referência Enem reúne os estudos iniciais de língua portuguesa no ensino médio, tradicionalmente localizados na primeira série. Trata-se da abordagem da teoria dos gêneros e tipos textuais, concebida inicialmente por Mikhail Bakhtin; da teoria das funções da linguagem, de acordo com Roman Jakobson; e da realidade linguística brasileira, que envolve a perspectiva multicultural do português brasileiro, em diálogo com línguas indígenas e afro-brasileiras, e a diversidade linguística do país, o que contempla, além das línguas indígenas e afro-brasileiras, as línguas de imigração e Libras, especialmente.

Assim, a cada ano encontramos questões que demandam identificação de funções da linguagem, de acordo com a teoria de Roman Jakobson, como foi o caso da Questão 26 da prova Azul, que solicitou a identificação de um verso de uma canção de Chico Buarque (“Assentamento”) que manifestasse função emotiva. Também comparecem anualmente as questões acerca da realidade linguística, como a Questão 28, que abordou o risco de extinção de línguas indígenas e o trabalho de recuperação e preservação dessas línguas.

No entanto, predominam nas questões das teorias da linguagem aquelas que abordam a tipologia ou o gênero dos textos. Foram cinco questões que avaliaram identificação de gêneros textuais, como resenha e inventário, ou a qualidade da sequência textual, principalmente a distinção entre informação e argumentação. Considerando as habilidades da Matriz de Referência, a habilidade mais requerida é a análise dos textos literários, seguida pela análise de tipos ou gêneros dos textos.

A Competência de área 7, dedicada a avaliar a argumentação textual, avalia as habilidades de leitura dos argumentos e das estratégias argumentativas do texto, além da comparação dos argumentos entre textos e da relação entre imagem e texto verbal em textos mistos.

Na prova de 2022, a habilidade referente à comparação entre textos se destacou, pois foi objeto de três questões, especialmente a questão que, entre meus alunos, foi considerada a mais inusitada. A questão avalia a relação argumentativa entre uma campanha publicitária de adoção de animais e a crônica sobre a vida de um cão comunitário. Assim, seria preciso inferir uma contradição entre o Texto II e o Texto I, caso se confirme o gabarito no item A.

Questão da prova de Linguagens, Caderno Azul, do Enem 2022.

Em relação aos conhecimentos gramaticais e suas habilidades correspondentes, que incluem a teoria da variação linguística, e usos de variedades e da norma-padrão em contexto, poderia dizer que, no Enem 2022, apenas duas questões se dedicaram diretamente ao tema, o qual, no entanto, compareceu como saber necessário para a resolução de pelo menos outras três questões, entre as 45 da prova de Linguagens.

Assim, o objeto da Questão 12, baseada no fragmento de uma crônica de Luis Fernando Verissimo, é a inadequação do uso da norma-padrão por um personagem do texto. Era preciso reconhecer que o contexto de comunicação consiste num fator determinante para o uso da norma-padrão, que, por isso, não deve ser usada em qualquer situação. 

Outra questão pressupôs conhecimento da noção de adequação linguística, a Questão 24. Seu objeto foi a intencionalidade do texto ao empregar um exemplo determinado, por isso eu diria que se trata de uma questão que tem como objeto a argumentação. Porém, o tema do artigo de opinião que baseia a questão era a adequação linguística, e o exemplo abordado pelo enunciado da questão serve à defesa da “adequação da linguagem à situação de comunicação”, conforme enuncia o item que provavelmente responde (o gabarito oficial ainda não foi divulgado).

Outra questão envolveu a comparação entre fragmentos do professor José Luiz Fiorin e de um artigo de opinião, a respeito do sistema lexical. Ao abordar o racismo decantado em itens lexicais do português, a Questão 14 avaliou diretamente a relação argumentativa entre dois textos, tematizando, porém, as implicações étnico-raciais do léxico da língua.

Por fim, uma questão sobre literatura demandou conhecimento gramatical. Ao propor a análise do estilo do romance O fim (2013), de Fernanda Torres, a Questão 18 entendeu que o ritmo do texto está marcado pelo revezamento entre sentenças nominais e sentenças verbais. 

Assim, poderia afirmar que a prova de Linguagens do Enem não tem como objeto as regras gramaticais da norma-padrão do português brasileiro, privilegiando, em vez disso, a compreensão e a interpretação textual, especialmente em textos argumentativos e literários. O conhecimento gramatical é avaliado em perspectiva transversal às questões, e cabe à prova de Redação do Enem a avaliação direta do uso das regras gramaticais de acordo com a norma culta brasileira e o estilo formal de comunicação.

A literatura no Enem 2022

Diogo Defante em entrevista com participante do Enem 2022, na Uerj.

Entre as 45 questões da prova de Linguagens do Enem 2022 e à exceção das questões em línguas estrangeiras, 15 delas estavam baseadas em textos literários. 

Assim, um terço da prova demanda a leitura de textos literários, sendo que a prova contempla questões das disciplinas escolares: Língua Portuguesa, Língua Estrangeira, Educação Física, Artes Visuais, Educação Musical e Informática.

Considerando a Matriz de Referência Enem, documento curricular que rege a prova, a habilidade mais requisitada nas questões com literatura é o reconhecimento e a análise de textos com base na teoria dos gêneros literários, descrita na Habilidade 16. Foram sete questões de análise literária baseada na teoria dos gêneros, das quais apenas uma foi dedicada ao gênero lírico. 

Além destas, outras três questões demandaram conhecimento de história da literatura brasileira (Habilidade 15), a saber: a literatura abolicionista romântica, de Maria Firmina dos Reis; a base científica do estilo naturalista, em Dona Guidinha do Poço, de Manuel de Oliveira Paiva; e o estilo na representação de migrantes no Romance de 30, em A bagaceira, de José Américo de Almeida.

As demais questões se ativeram aos temas do texto literário, de acordo com a Habilidade 17, ou a diversos conceitos não-literários, como as funções da linguagem de Jakobson, a noção de adequação linguística e a identificação de gêneros textuais.

Em relação à biblioteca formada pelos textos literários da prova, ela inclui obras de Maria Firmina, Oliveira Paiva e Machado de Assis; Coelho Netto e João do Rio; José Américo de Almeida e Cornélio Penna; Clarice, Carolina e Chico Buarque; Luís Fernando Verissimo, Fernanda Torres e Adriana Falcão. São poemas, letras de canção, crônicas, contos e romances que avaliam aspectos como estilos irônicos ou líricos, fluxos de consciência, estilo paratático, metalinguagem e, inclusive, representações literárias do carnaval carioca. 

Nesse sentido, seguem ausentes da prova questões que tematizem a produção cultural no contexto da ditadura civil-militar. Além disso, houve pouca abordagem da poesia nessa edição, ao passo que a crônica foi avaliada em três ocasiões. Também os textos contemporâneos talvez tenham perdido espaço nos últimos três ou quatro anos, e maior apreço a textos novecentistas esteja em voga, embora eu precise quantificar a análise para qualificar essa conclusão. 

A prova do Enem apresenta inúmeras limitações na abordagem da literatura, pois está baseada numa perspectiva instrumental da leitura literária. Por outro lado, encontra enorme penetração no país, pois dialoga com boa parte das escolas de ensino médio e publica para milhões de pessoas um texto literário. Daí o seu interesse para quem atua dia a dia na educação básica.

Annie Ernaux: notinha de leitura

Exemplar da tradução de O lugar (2021).

A escrita nasce desse problema: como narrar um pai supostamente antiliterário. O estilo de Ernaux associa Bourdieu a Lacan, escreve para contornar a ferida entre pai e filha, que ocuparam lugares sociais e, portanto, produziram linguagens distintas. Como escrever o pai que não foi Proust, incompatível? A linguagem dói, então foi preciso refazer a literatura. Convocar Jean Genet, ironizar O pai Goriot, de Balzac, e escrever o seu próprio Contra Proust. As madeleines de Ernaux são opacas, não brilham na memória, que se escava com pazinha. E, no entanto, é uma homenagem: como poderia escrever Proust se tivesse nascido filha de um operário.

O lugar do pai não está ali desde sempre, mas foi produzido pelo pai ao longo de sua história, em diferença a outros lugares da família do pai, da cidade do pai. Ao trazê-lo para o livro, Ernaux olha o pai sob a visada dos seus lugares, dele e dela, e propõe à literatura a procura de outro lugar em que pai e filha possam ler um ao outro. O lugar (2021) é um tombeau. Um livro pode ser um lugar onde o pai sobrevive, perdura. Nesse caso, a memória que a narradora apresenta do pai é matéria de análise, com o rigor de quem, escrevendo-a, sabe que a anatomia da memória não repara a perda. Assim, como leitor, estive diante de um lugar, não do pai da narradora.

Uma aluna distraída

Poema de Lu Menezes publicado em primeira versão em 1988 e, na versão da imagem, em 1996.

Lu Menezes publica muitos de seus poemas com a mancha gráfica centralizada na página, como também fazem outros poetas, a exemplo de Antonio Cicero. Suponho que, entre outros fatores, a composição do poema em computador pessoal adquirido inicialmente nos anos 1990, quando tanto Lu Menezes quanto Antonio Cicero disseminam o procedimento nos seus poemas, tenha sido um motivos para adotarem a apresentação textual centralizada. O resultado é, entre outros, a sugestão de caligramas, ou seja, de manchas gráficas cujos desenhos figuram objetos ou seres de contorno simétrico.

É o caso, a meu ver, da “flor exemplar” (título da primeira versão do poema de Lu Menezes) que a aluna-poeta cria, em ôntica ilusão de ótica. O verso que nomeia a imagem imaginada durante a aula (“o nicho roxo no ar”) está rodeado por estrofes cujos desenhos insinuam a gradação de ondas de energia. A flor exemplar, criada a partir do exemplo docente da flor, altera a organização do discurso tanto da primeira estrofe, prosaico, quanto do professor, desértico, e floresce à espreita. A flor epífita (ou, na linguagem da aluna, “epifenomênica”) é o poema da cor da flor, poema, como plantas, oportunista que nasce enraizado na aula de Filosofia, ou melhor, colore a aula por desvio de atenção.

Parece, então, que, no poema, a poesia investiga os limites da linguagem pedagógica, tornando o exemplo, exemplar e, por isso, reflorestando o deserto, imaginando o ser das coisas, jogando com o discurso lógico. O humor da cena da aluna distraída, que desenha na imaginação e no papel a flor exemplificada pelo professor, sugere que, em perspectiva poética, a exigência de atenção à aula inclui a possibilidade da distração. A poeta, distraidamente atenta à matéria, anota a lição, cita o professor, imagina e desenha, continuando, com a flor, a reflexão, e se desviando, com humor, da estrita finalidade da aula de Filosofia.

O poema foi reproduzido a partir da página 205 da edição de Labor de sondar [1977-2022], reunião dos poemas de Lu Menezes publicada pela coleção Círculo de Poemas.

Entre a recusa e a metáfora

Escolas têm sido curiosos lugares de produção e significação da literatura. Além da representação que as obras podem fazer do espaço ou da memória escolar, escolas são a principal oportunidade de democratização do texto literário no Brasil, já que se trata de instituições de letramento de acesso gratuito e frequentação compulsória, e disseminadas pelo território nacional. Entre inúmeros acontecimentos que a vida literária proporciona à escola, a presença nela de ficcionistas e poetas é um que às vezes reúne vida escolar e obra literária. Quando isso ocorre, quando a escola visitada atua como força na produção de uma obra, então fica mais evidente que as escolas podem ser vistas como instituições literárias, espaços de leitura e produção de literatura, de formação para a vida cultural, inclusive literária. Em 2019, ficou conhecida uma anedota contada por Sérgio Vaz, poeta de São Paulo, ao visitar uma unidade da Fundação Casa, espaço educativo para jovens infratores.

A recepção que a poesia teve entre os jovens decorreu da sua nomeação pelo poeta: isso é poesia, e isso vocês conhecem e gostam. Estabelecer uma relação de continuidade entre a canção e o poema é uma estratégia de identificação e, portanto, de inclusão de ouvintes ou leitores no campo da literatura, embora se deva considerar que a visita do poeta, nomeado como poeta, por si só representa, na escola, uma perturbação na rotina que abre espaço para novas nomeações. Em trabalho recente, Nicolas Behr propôs uma continuidade entre a recusa de um estudante e a escrita do poema, ao se deparar com alguém que, diante da pergunta sobre poesia, rechaçou:

Conta o poeta que ele estava batendo papo em uma escola quando a professora saiu da sala e ele perguntou aos alunos:

– O que é poesia pra vocês?

Um, rapidamente, respondeu:
– Poesia é um saco!

Texto na contracapa do livro Poesia é um saco (2021), de Nicolas Behr.

Nasce, da resposta, uma série de 47 poemas iniciados com variações do verso “poesia é um saco”. A transformação da resposta resistente do estudante num verso gerador de poesia configura um procedimento estético e pedagógico. Como procedimento pedagógico, o livro Poesia é um saco (2021), de Nicolas Behr, nomeia poesia pela declaração de gosto do estudante, que, entre a recusa e a metáfora, criou a chance dos poemas. O primeiro poema da série sugere, como a princípio qualquer outro, o valor do livro em relação ao encontro entre poeta e estudante na escola.

Poema de abertura do livro Poesia é um saco (2021), de Nicolas Behr.

Uma primeira resposta ensaiada pelo poeta, entre as quase 50 outras respostas presentes no livro, além de considerar por vários lados a palavra “saco” usada pelo estudante, indica o poema como lugar paradoxal de ausência e presença, afirmação e recusa, memória e esquecimento. Como se o poema respondesse ao estudante algo do tipo: “olha o que você está perdendo” (ao que o estudante ainda assim poderia retorquir: “tudo bem”), mas também como se o poema incluísse a possibilidade afetiva enunciada pelo estudante e dissesse: “sim, você está certo, a poesia é justamente um saco”.

Poeta na sala de aula escolar não divide turmas entre quem gosta, quem não gosta de poesia, mas torna a sala de aula um espaço em que a poesia pode acontecer, seja pela leitura ou pela escrita. De objeto de estudo a acontecimento estético, o poema na sala de aula, segundo a lição de Nicolas Behr, irrompe nas fronteiras do letramento, quando alguma pessoa letrada enuncia contra a literatura. Nesse caso, lemos um poeta que, de seu lugar, lidou com o lugar de professores de literatura na educação básica.

A injunção do poema

Poema/processo de Moacy Cirne, com as cores invertidas, publicado em Um panfleto para Godard (1986)

Num texto como esse, colagem de rasgos ou recortes de jornalismo industrial em tempos pré-digitais, o enunciado legível, a ser montado pelo olho do leitor, não consiste exatamente numa palavra de ordem: “Não pare na pista dos sonhos perdidos”. O teor imperativo, num livro que se entende como “panfleto”, em poemas que se entendem como “poemafletos”, emoldura restos de notícias de guerra mediadas por ONU, Nações Unidas, Genebra, termos-chave que aparecem nos papelitos que, como numa explosão, espocam do centro visual do poema. O refrão visual do texto legenda conflitos geopolíticos que explodem no labirinto da informação, uma série de signos carregados de significação metafórica, organização didática que aparece à segunda leitura, caso um leitor decida indagar o caco-texto, texto a princípio agressivo, repulsivo. A geopolítica e a informação, dois temas caros ao poema/processo, tática poético-política de combate às mitologias, cerceiam a imaginação, pois, como mitologias, organizam o território possível da revolta e da ação políticas. A página que apresenta o processo do poema organiza, então, um diagrama de afetos do poeta diante do mundo, uma pista para o sonho sob a perspectiva do consumidor de informações. A frase montada pelo leitor, fechando o circuito do processo explosivo do texto, está dramaticamente enunciada por alguém que, inflamado pela informação, vislumbra os limites do mundo informado. O traço imperativo da frase, aliás um verso simetricamente ritmado (“não PAre na PISta dos SOnhos perDIdos”), é uma visão do poeta.

Embora tão pouco conhecido, o movimento do poema/processo discute, entre outros pontos, os efeitos sensíveis da cultura da informação, tema crucial no debate brasileiro contemporâneo. Esse é um entre tantos outros motivos do interesse da reedição de Um panfleto para Godard (1986), de Moacy Cirne, pela Muganga Edições, tocada em Natal, RN, por Ayrton Alves Badriah e Victor H. Azevedo.

“Casulo”, de Claudia Roquette-Pinto

Imagem da capa do livro

Em Alma corsária (2022), os poemas que observam, lamentam ou celebram o corpo e a passagem do tempo no corpo parecem encarar os afetos mais radicais do livro, escrito ao longo de mais de uma década. No entanto, e talvez mesmo por isso, os exercícios de observação da paisagem natural (ajardinada ou carioca) ensaiam uma riqueza cotidiana que encontra, a meu ver, no poema “Enquanto você dorme” expressão dramática em relação com o gaio saber de quem, dormindo, participa da realidade. Essa espécie de integração da pessoa com a paisagem mediada pelo poema extrapola a expressão mesma do poema, que se organiza como paisagem verbal efêmera, vislumbre e deslumbre daquele momento guardado em palavras que, apesar disso, não guardam o momento. Assim é que um poema como “Casulo”, em repetição frondosa de “folhas” no final dos versos decassílabos ou quase, se aproxima de seu fim afinando os versos, mais estreitos como, em geral, um caule em relação à folhagem, quando a poeta se deita na madeira dura de um banco. O balbucio aliterativo das folhas, que “arfam”, consiste na duração do “casulo”, lugar de metamorfose onde o sujeito, diferindo-se, se esquece.

CASULO

Debaixo de uma catedral de folhas,
sem saber nem precisar quem a erguera,
sob a anêmona do vento nas folhas
e o que respira agora pela primeira
vez, eu me deito, contemplando as folhas,
a espinha reta de encontro à madeira
dura e encerada de um banco.
Manhã alta.
Em meio a tantas folhas
o coração, livre de escolhas,
a um só tempo cheio e nulo.
Nada me falta,
enquanto arfam as folhas.
Agora e neste aqui,
pleno casulo.

ROQUETTE-PINTO, Cláudia. Alma corsária. São Paulo: Editora 34, 2022. p. 39.