Contexto para um poema de Marília Garcia

Mas ela gostou da viagem, foi a pergunta de uma aluna depois de ouvir a leitura do poema “No aeroporto Schönefeld de Berlim” de Marília Garcia. Eu resolvi lê-lo em aula não só porque sempre levo as coisas que leio e gosto, mas principalmente porque inventei que fazia parte dos poemas desse livro Um teste de resistores serem lidos e ouvidos fora da modalidade de leitura a-sós-em-casa-sentado-no-sofá. O ruído de fundo – de escola – e a voz pouco delicada, tendo que se projetar pelo espaço em sala de aula, oferecem a inadequação precisa à leitura.

A formação de Silviano Santiago

Fotografia de Maria Tereza Correia publicada em 2006 no Estado de Minas

Hoje pudemos ler na Folha de S. Paulo mais um texto de Silviano Santiago, “Anatomia da formação: literatura brasileira à luz do pós-colonialismo”, que desenvolve com muito maior clareza a ideia já apresentada em outro texto de 2012 publicado no Estado de São Paulo, “Formação e inserção”, que havia lido com desconfiança por conta da unilateralidade da posição do autor, algo como: o meu é que conta, o resto é paranoia e mistificação. Agora, com a visada autobiográfica, fica evidente que Silviano assume para si uma tarefa de mapeamento conceitual do campo da crítica de literatura brasileira ao dar um testemunho da sua formação e apontar para o esgotamento da formação crítica através da formação da literatura brasileira. Sua posição parece se explicitar no final do texto:

Dou-me conta do esgotamento dos vários, diferenciados e notáveis “discursos de formação” que constituíram o paradigma desenvolvimentista como tarefa prioritária no crescimento da jovem nação brasileira.
A exaustão do paradigma não o aliena. Assinala, antes, que ele está a perder a condição de prioritário. Novas condições materiais definem o novo milênio brasileiro. Elas passam a exigir outro feixe amplo e crítico de discursos afins e complementares, que constituirão novo paradigma – o da “inserção” do Brasil no conjunto das nações.
Tendo sido esclarecido (e não resolvido, obviamente) o modo como o sujeito brasileiro se automodelou como cidadão e acomodou nos trópicos a emancipação de uma sociedade jovem e moderna, delega-se hoje ao Estado nacional democrático papel e funções internacionais. Cosmopolita, a nação está habilitada a tomar assento no plenário do planeta. Automodelado, o sujeito discursivo – confessional, artístico ou científico – pode e deve dar-se ao luxo da crítica e da autocrítica em novo paradigma.

Penso mesmo que o (para mim impressionante) romance Mil rosas roubadas segue a trilha dessa revisão da formação de Silviano Santiago, como pude defender neste texto publicado no blog do Instituto Moreira Salles.

 

 

O menino insiste, de Maurício Chamarelli Gutierrez

XIV

Enquanto escrevo, o menino me olha
debruçado sobre a mesa.

Quero lhe explicar
por que escrevo
e por que não espero dessas linhas que sejam poemas,
mas um acerto de contas.
E por que, no fim das contas,
essa questão não importa.
Quero dizer-lhe que escrevo para poder tê-lo próximo e não sucumbir
a seu peso
para mantê-lo, ali, teso, em silêncio

para protelar sua presença, sustentar sua mudez sem me jogar da varanda.

Mas ele me vê
e sabe que, no escuro, sustento a alegria vaidosa de escrever uma série de poemas,
– sim, de poemas (não importa que diga o contrário) –
poemas contando suas visitas e o trabalho que elas me dão
ele sabe o absurdo desenfreado dessa atividade, sabe que com a desculpa de tentar nos manter vivos, me prostituo à mais convencional das soluções, ao mais ridículo dos gestos

sabe que a pessoa que sobrevive ao esforço ambíguo de fazer justiça à sua morte pode, simplesmente, não merecer ser salva.

E ele sabe da minha vergonha.

Não. O menino não sabe nada. Jaz mudo, impassível diante dos estertores ainda mais convencionais e ainda mais ridículos dessas linhas.
Sem pergunta ou explicação, sem acerto de contas, sem se importar com a vergonha ou com os motivos,
ele me olha.

Poema do Maurício Chamarelli Gutierrez, publicado no Blog da Confraria.

Máquina de Escrever Frases

 

Agora a ideia era: escrever uma frase cujo sentido se alterasse ao ser escrita à máquina de escrever. Cada verso do poema foi digitado pelo seu autor, que em geral digitava à máquina pela primeira vez. De modo que a força com que a tecla imprime sobre o papel é o traço mais significativo, a meu ver, desse trabalho. Qual a força necessária para se escrever uma palavra? Quantas calorias os dedos gastam para fazer um poema? E se o esforço para escrever uma letra for descomunal, como ficam os romances? No mundo em que as telas sensíveis dos celulares não apresentam resistência ao toque dos dedos, não exigem a aderência da pele, escrever à máquina pode significar escrever pela primeira vez. Pode significar o Ato Zero. Teatro que nunca narra nada, mal chega ao primeiro ato, escrever pode ser a maneira mais difícil de não sair do lugar. Ou a maneira mais fácil de não ganhar dinheiro. Ou o modo mais inútil de falar.

máquina de escrever frases

 

Depoimento de Antonio Candido

É impressionante ver Antonio Candido falar de sua relação com a literatura, aqui especificamente com a literatura e a cultura alemãs. Quando diz que, “mentindo e tudo”, já leu o Fausto umas 200 vezes, quando lembra curiosidades juvenis sobre a cultura alemã, quando recita de cor uma canção alemã traduzida por Sérgio Buarque de Holanda etc. E a frase é interminável, e o play é imediato.