Escrevendo questões para uma prova de poesia na escola

Capas dos livros de Ricardo Aleixo que basearam a elaboração da prova

A experiência de escrever avaliações formais para turmas de estudantes no ensino básico participa do cotidiano do professor.

As escolas e redes de ensino atribuem maior ou menor autonomia a seus docentes como autores das avaliações.

Quando a autonomia é menor, entende-se que as avaliações redigidas por docentes que não estão naquela sala de aula são um mecanismo de controle da qualidade pedagógica.

Entendo, por outro lado, que uma avaliação precisa ser elaborada em diálogo com o cotidiano escolar. Assim, um professor toma decisões a respeito de temas abordados, níveis de dificuldade das questões e amplitude dos gabaritos de acordo com o seu conhecimento das turmas e dos estudantes.

Recentemente, escrevi três avaliações formais individuais, as famosas “provas”, baseadas em textos recentes da literatura brasileira.

Gostaria de, nesse primeiro post, apresentar uma prova para turmas de oitavo ano do ensino fundamental, na disciplina de Português, que avaliava a poesia como gênero literário.

Parte da prova foi construída com base na obra do poeta Ricardo Aleixo.

Para isso, selecionei dois textos recentes do poeta: um capítulo do seu livro de memórias Sonhei com o anjo da guarda o resto da noite (2022), no qual compara o ofício de poeta na vida adulta com o comportamento tímido durante a infância; e um poema visual publicado em Diário da encruza (2022), composto por uma única oração.

O contexto dos estudantes é pós-pandêmico, de maneira que a turma viveu o quinto e o sexto anos do ensino fundamental remotamente, e apresentou, no sétimo e no oitavo anos, dificuldades na aprendizagem de conceitos gramaticais e na concentração para a leitura de textos longos.

Segue a sequência dos textos e duas questões comentadas.

“Menino calado” (2022), de Ricardo Aleixo

É contar e ver surgir na cara das pessoas a descrença. Ninguém parece acreditar, e mesmo a mim soa estranha a lembrança de que fui um menino de pouca conversa. Como é possível, se hoje eu ganho a vida com a voz ao vivo, em performances, palestras, cursos e oficinas? Só com as pessoas da minha casa eu trocava umas escassas palavras. Porque amava o silêncio, espécie de segunda pele que me protegia do mundo, na mesma proporção em que me desagradava o contínuo vozerio dos adultos das tribos vizinhas da nossa pequena tribo.

Passei anos seguidos considerando a coisa mais normal do mundo a hipótese de viver para sempre calado, até que, lá por volta dos onze anos, bem no tempo em que aprendi a cantar, no colégio, tornei-me um razoável conversador. Minha irmã me contou, dia desses, que ela e eu conversávamos bastante quando éramos pequenos. Acredito, se é ela quem o diz, mas desconfio que a mana exagera um bocado. Observando-a conversar numa festa, por exemplo, é fácil ver como a palavra lhe sai fácil da boca e de todo o seu rosto tão bonito, ao passo que a mais simples conversação, se não chega a ser algo sofrido, me exige um grande esforço, principalmente se preciso convencer a pessoa com quem falo.

Prefiro escutar, e há mesmo algumas boas almas que me garantem que sou bom nisso. Quando me escutam com atenção e genuíno interesse, demonstro sofrer da típica loquacidade dos tímidos e falo, falo e falo sem parar. Em tais situações, não é raro que eu tente inverter os papéis, passando a fazer perguntas às pessoas. Muitas abdicam desse súbito direito à palavra e me lembram que sou, ali, o poeta, e que portanto devo falar. Mas falar o quê, meus deuses e minhas deusas, se cultivo, como todo poeta, a ilusão de que tudo o que tenho a dizer já está dito nos meus poemas?

ALEIXO, Ricardo. Sonhei com o anjo da guarda o resto da noite: Memórias. São Paulo: Todavia, 2022. p. 70-71.

Na primeira questão, procurei orientar a leitura do texto no sentido de estudantes demonstrarem a compreensão de estratégias discursivas mobilizadas para a narração, sendo elas a comparação e a contradição.

Enunciado da questão: O texto “Menino calado”, publicado em 2022 e escrito pelo poeta Ricardo Aleixo, pode ser considerado uma crônica que narra o comportamento do autor durante a infância e seus efeitos na vida adulta, como poeta.

Primeiro comando: a) No primeiro parágrafo da crônica, o autor apresenta uma contradição entre a criança que ele foi e o adulto que ele é. Explique que contradição é essa.

Segundo comando: b) No segundo parágrafo, o autor apresenta uma diferença entre seu comportamento e o da irmã. Explique que diferença é essa.

Terceiro comando: c) No terceiro parágrafo, o autor apresenta uma ilusão vivida por todo poeta. Explique que ilusão é essa.

É possível facilmente identificar os trechos do texto que baseiam os comandos da questão.

Por isso, para um estudante de oitavo ano, o desafio não está apenas em identificar o trecho. A partir da releitura, é preciso elaborar uma resposta discursiva parafraseando o trecho em linguagem formal e coerente.

A resposta é avaliada não apenas pela identificação do trecho, mas pela qualidade da sentença elaborada, em relação ao tema e em relação ao estilo do estudante.

Cada resposta discursiva é uma mini-redação, e é avaliada também em aspectos de ortografia e acentuação, formalidade e coesão, entre outros.

Além do texto narrando a timidez na infância, selecionei um poema, também publicado em 2022, construído por um período simples e explorando a visualidade do espaço gráfico.

Trata-se de uma provocação aos poemas em versos rimados tão frequentes na cultura escolar para a infância, de maneira a perturbar o senso comum, às vezes construído com base nas formas tradicionais do poema.

“Tecla tab” (2022), de Ricardo Aleixo

                coloque
                    -se
                      no
          seu
                       lugar
             do outro

ALEIXO, Ricardo. Diário da encruza: Poemas (2015-2022). Salvador: Segundo Selo; lira, 2022. p. 100.

O poema propõe um jogo com a coerência da sentença, tornando indecidível o significado do pronome “seu”, que se refere ao mesmo tempo à segunda e à terceira pessoas, dada a relação ambivalente e contraditória de sentido que estabelece com “do outro”.

Por isso, em lugar de reconhecer elementos formais ou figuras de linguagem que não são essenciais à existência ou ocorrência do poema, como a rima ou a metáfora, propus a atenção à ambiguidade como traço exemplar desse poema, mas não necessariamente de qualquer poema.

Enunciado da questão: O poema “Tecla tab”, publicado em 2022 por Ricardo Aleixo, apresenta uso poético do recurso de tabulação das linhas, presente em teclados de computador com o nome de tecla “Tab”. A sentença formada pelas palavras do poema apresenta sentido ambíguo, ou seja, apresenta dois significados diferentes.

Comando da questão: Explique a ambiguidade presente no poema.

A expectativa de resposta estava na elaboração da ideia de que o “lugar” em que o leitor deve se colocar é, ao mesmo tempo, o seu, leitor, e o do outro.

Mesmo que uma leitura interpretativa possa entender o sujeito e o outro, nesse poema, como categorias em crise, em memória da asserção de Rimbaud (“eu é um outro”), a questão investiga a capacidade de percepção da ambiguidade do texto, que é condição para uma segunda etapa de leitura: a interpretação da subjetividade do texto.

Esses são exemplos de questões que procuram explorar a leitura do texto literário em situação de prova.

O desafio está em elaborar questões facilmente compreendidas pelos estudantes em geral, e que os desafiem a compreender aspectos discursivos do texto.

Isso quer dizer que essas questões não estão preocupadas com o reconhecimento de dados, informações ou significados veiculados pelo texto.

Em vez disso, incentivam atitudes de indagação do texto, provocando a análise estilística (por figuras como contradição, comparação, ambiguidade etc.) e desafiando a elaboração discursiva dessa percepção pelo estudante.

“Aspic nipples”

Primeiro rascunho da tradução do poema de Wallace Stevens

Nesses dias, me deparei com a tradução de um pequeno poema de Wallace Stevens que eu não conhecia e fiquei hipnotizado. Os poemas de Wallace Stevens são estranhos, é difícil compor a coerência deles sem a sensação de estar perdendo alguma ou muita coisa na leitura, e ao mesmo tempo lendo-os pareço encontrar um lugar novo de compreensão e imaginação misturadas, que eu não conhecia sem aqueles versos. O pequeno poema que me encontrou nesses dias é desse tipo, e ainda conversa com plantas e árvores, a paisagem vegetal, que me toca especialmente.

Como ando estudando inglês, resolvi tentar a tradução do poema, criando, assim, um modo de lê-lo diferente daquele que encontrei na tradução que li. Acontece que quando fui traduzir, achei difícil decidir pela tradução de uma das palavras, e fui atrás dos comentários aos poemas. Tendo verificado que Paulo Henriques Britto, tradutor de Stevens, não traduziu “In the Carolinas“, o poema que me pegou, e que o tradutor da tradução que eu estava lendo optou pela versão mais inofensiva da palavra em português, me deparei com um enigma, uma tradução aparentemente indecidível, como, na verdade, é toda a tradução, só que mais discretamente.

In the Carolinas

The lilacs wither in the Carolinas.
Already the butterflies flutter above the cabins.
Already the new-born children interpret love
In the voices of mothers.

Timeless mother,
How is it that your aspic nipples
For once vent honey?

The pine-tree sweetens my body.
The white iris beautifie
s me.

O poema foi publicado em 1917 numa revista literária e, depois, em 1923 no livro de estreia de Wallace Stevens, Harmonium. O texto breve faz referência a uma série de plantas que compõem a paisagem das Carolinas (lilases, pinheiro e íris), além de às borboletas, formando um quadro tenso entre flores murchas e plantas de beleza regeneradora. O espanto do poeta, expresso pela pergunta na segunda estrofe, parece resultar do choque entre veneno e remédio, o que mata e o que cura. No tempo sem tempo da mãe, ora ela nutre com mel, ora com alguma outra coisa estranha, que murcha ou envenena.

Essa coisa estranha torna da tradução indecidível. Isso porque o termo “aspic nipples“, de sonoridade sugestiva na aliteração de consoantes oclusivas, p, c, e na assonância da vogal alta aguda, i, nomeia os seios da mãe, caracterizando-os com um termo polissêmico: “aspic“. No dia a dia, esse termo remete a uma receita que não é muito comum no Brasil, uma espécie de gelatina de carne com vegetais, prato principal gelatinoso, como o seio que amamenta, em contraponto com a doçura do mel, que o poeta encontrou nas Carolinas. Mas o termo também remete à lavanda, ou alfazema, espécies de plantas de mesma família, e também a uma espécie de cobra, a víbora.

O espanto do poeta parece se justificar mais pela gelatina de carne do que pela alfazema ou pelo formol, outro significado do termo. Alguns leitores sugerem aí uma referência esquisita à Cleópatra, que encontra a morte depois de deixar uma víbora picar os próprios seios. Dessa maneira, o poema sugere, na contemplação da paisagem e, mesmo, na intromissão da paisagem no poeta (na terceira estrofe), um esquecimento da história, uma sobremesa para humanos. A “mãe sem fim”, por ora, regenera o poeta e seu corpo, nutrindo-o no intervalo da história, do drama, da sobrevivência. Seja gelatina ou víbora, alfazema ou formol, os seios da mãe parecem tranquilizados pelo mel da paisagem das Carolinas.

A tradução, então, não traduz e, por isso, pode ser lida assim: onde se lê “seios de víbora”, leia-se “seios de alfazema”, “tetas de gelatina”, “peitos de formol” etc.

Nas Carolinas

Lilases murcham nas Carolinas.
E borboletas já lépidas sobre cabanas.
E os bebês recém-nascidos já interpretam o amor
Nas vozes das mães.

Mãe sem fim,
Como é que seus seios de víbora
Dessa vez exalam mel?

O pinheiro adocica meu corpo.
A íris branca embeleza-me.

Poesia neoconcreta na vertigem do movimento

Sessão de abertura da II Jornada Internacional de Poesia Visual & III Colóquio Caminhos Contemporâneos da Semiótica Visual

Em 23 de novembro de 2023, participei da sessão de abertura da II Jornada Internacional de Poesia Visual (JIPV), que, dessa vez, estava associada ao III Simpósio Caminhos Contemporâneos da Semiótica Visual. Para mim, que participei da I JIPV como comunicador, foi uma honra receber o convite para abordar a “poesia neoconcreta” na abertura de um evento acadêmico significativo para a poesia brasileira.

A sessão aconteceu no Instituto de Letras da UFF, no Campus Gragoatá, e foi transmitida pelas redes sociais. Apresentei ao lado da professora Regina de Souza Gomes, da UFRJ, que abordou a poesia digital no Brasil. Também participaram das mesas nessa sessão Juliana Di Fiori Pondian (UFF), que também organiza a JIPV, Gustavo de Castro (UNESP), Luiz Guilherme Vergara (UFF) e Lucia Teixeira (UFF/UERJ).

Propus uma intervenção que retomou a análise que faço sobre o momento inicial do movimento neoconcreto, no artigo escrito a partir da comunicação a I JIPV: “Teoria da poesia neoconcreta nas trajetórias de Lygia Pape e Ferreira Gullar”. Além disso, desenvolvi uma breve leitura de poemas visuais e livros-poemas de Lygia Pape expostos ou publicados entre 1957 e 1959, no intuito de inserir a sua obra na série da poesia experimental brasileira.

A intervenção que propus, intitulada “Poesia neoconcreta na vertigem do movimento”, inicia na posição 1h45min do vídeo, dura menos de 30min e é seguida de debate com a professora Regina. Desejo colaborar para as formas de leitura da poesia experimental no Brasil, considerando, nessa intervenção, a disputa pelos termos “poesia concreta” e “poesia neoconcreta” e os poemas de Lygia Pape como matéria histórica e estética dessa poesia.

A poesia no Enem 2023

Na prova de Linguagens do Enem 2023, quatro questões consideraram o poema como objeto de reflexão.

Predominaram fragmentos de poemas, o que não deve ser considerado como exemplo para o trabalho em sala de aula.

As questões abordaram Habilidades da Matriz de Referência Enem relacionadas com a teoria das funções da linguagem, a comparação temática entre diferentes textos e, por fim, a leitura de textos líricos, ou seja, a sua compreensão e análise.

Assim, nem todas as questões que consideram poemas como objeto de reflexão abordam conhecimentos literários. Isso também acontece com a prosa narrativa, e não apenas na prova de Linguagens. A prova de Ciências Humanas do Enem, que apresenta questões de História, Geografia, Filosofia e Sociologia, baseia algumas questões em textos literários.

As questões que abordaram conhecimentos literários a partir da leitura dos poemas avaliaram a representação do sentimento amoroso e o estilo de evocação da memória.

Dois temas, portanto, clássicos da tradição lírica foram analisados em um poema modernista, de Mário de Andrade, e outro contemporâneo, de Ana Martins Marques. Em cada caso, era preciso reconhecer valores afetivos como efeito do estilo dos versos, identificando a representação do cotidiano ou a postura de serenidade das vozes líricas.

O conhecimento da história da literatura brasileira e mesmo a identificação da autoria de Mário de Andrade são úteis, mas não indispensáveis, na solução das questões. Assim, a prova favorece leitores de poesia mais experientes na diversidade de estilos da modernidade literária, e não exclui estudantes que não tenham tido acesso a amplo repertório de poesia e podem, por análise e raciocínio, acertar as duas questões.

Isso quer dizer que a poesia é abordada principalmente em função do gênero lírico, ou seja, como um texto cuja voz (também denominada, na prova, como “eu” ou “sujeito”) representa valores sociais e humanos, em estilo singular e historicamente localizado.

Se, conforme considero nesse blog, a prova do Enem pode funcionar como referência curricular para professores da educação básica, então ela avisa, em 2023, assim como nos anos anteriores, que a poesia contemporânea é a janela para a história da poesia, pois atualiza a tradição lírica. Além disso, a leitura do poema implica não a identificação do estilo de época, mas, sim, a compreensão das representações sociais e humanas dos afetos, que emerge do estilo do texto.

Então, sob essa perspectiva, uma roda de leitura que aprofunde a compreensão de poemas e detalhe seu estilo pode ser muito mais útil para preparar estudantes para a prova do Enem e formá-los como leitores de poesia, do que a apresentação cronológica de poemas canonizados de acordo com determinado estilo de época.

Esses são alguns aspectos curriculares sobre a poesia que a prova de Linguagens do Enem 2023 sugere.

Expo LABIA

Página de apresentação da Expo LABIA

O Laboratório de Imaginação e Autoria Literária (LABIA) é um grupo de pesquisa cadastrado no CNPq e sediado no Colégio Pedro II, instituto federal de ensino sediado no Rio de Janeiro. Dele fazem parte os professores Juliana Berlim e Luiz Guilherme Ribeiro Barbosa, do Departamento de Português e Literaturas da instituição, e estudantes de ensino médio e ensino fundamental integrantes dos projetos de iniciação científica jr. coordenados pelos professores.

Entre as linhas de pesquisa do grupo, está a elaboração de metodologias de ensino em produção literária na escola, integradas ao currículo proposto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Por isso, recentemente reuni parte da produção literária dos estudantes, com comentários que contextualizam essas experiências em turmas de ensino fundamental e de ensino médio, entre os anos de 2018 e 2023.

Assim, a Expo LABIA: Exposição de poemas foi elaborada para circular na comunidade escolar, recebeu versão impressa exposta em local de grande circulação na escola, e é divulgada online entre colegas de trabalho com o objetivo de disseminar práticas que consideramos exitosas e que dialogam com as propostas pedagógicas desenvolvidas a partir da experiência do Laboratório.

Também convocamos os colegas professores de equipe e estudantes integrantes de grupos de leitura e escrita literária na escola, para apresentar textos para a comunidade escolar. Dessa convocação, foi elaborada a segunda parte da Expo LABIA: Exposição de poemas, também afixada nas paredes da escola em espaços de grande circulação, é disponível ao clicar nesse parágrafo.

A Expo LABIA foi apresentada à escola pública onde atuo, no dia 15 de setembro de 2023, e incluiu dois volumes de poemas:

  • Volume 1: Poemas elaborados em situações formais de ensino, como aulas de língua portuguesa no ensino fundamental e no ensino médio, e orientações de iniciação artística e cultural, ou iniciação científica jr.
  • Volume 2: Poemas apresentados para publicação por estudantes e professores, e compostos em condições pessoais de autoria, independentemente das atividades de ensino formal na escola.

Leitores/autores em práticas de letramentos literários

Cabeçalho do artigo publicado.

Durante o ano de 2022, procurei sintetizar num artigo acadêmico o estágio de reflexão e de práticas em ensino de literatura em que me reconheço, como professor na educação básica, pós-pandemia.

O texto foi publicado nesse mês de maio de 2023 na Revista X, do Departamento de Letras Estrangeiras e Modernas, da UFPR, em número atemático, e pode ser acessado por esse link.

No texto, procuro estabelecer uma compreensão sobre as práticas em letramentos literários, revisando alguns textos de referência no tema, com especial atenção às autorias estudantis.

Além disso, também proponho alguns caminhos de pesquisa no campo do ensino de literatura na escola, o que venho tentando realizar na rotina de trabalho em parceria com colegas.

Por fim, o texto contou com a leitura crítica do professor Marcos Scheffel, de Prática de Ensino em Letras-Literaturas, na UFRJ, e de avaliadores e editores da Revista X, a quem agradeço.

Sobre O despertar de tudo

Fotografia do livro comentado.

Não foi simples atravessar as 700 páginas desse ensaio, e ele me tocou por motivos alheios à sua força. O livro parece ter sido escrito em resposta à crise econômica de 2008 e em defesa das táticas políticas de ocupação de espaços públicos que se multiplicaram desde então. Mas não é sobre isso: revisitar a pré-história dos povos humanos, percorrendo uma bibliografia ampla, específica e atualizada na arqueologia desses povos, é uma oportunidade de argumentar em prol da diversidade política da espécie e, mais do que isso, das incontáveis tentativas de produção de relações sociais igualitárias ao longo dessa trajetória.

O que me tocou, no entanto, foi o mundo arqueológico, que eu não conhecia. Culturas como a de Chavín de Huántar, possível ancestral ou, então, resultado do xamanismo amazônico nos andes peruanos, e contemporânea, na cronologia planetária, dos gregos antigos; ou, ainda, as relações variadas e complexas entre heroísmo, burocracia e encantamento, como três formas básicas de produção de poder social, para compreender os povos humanos. Isso tudo mobilizado por um universo de referências que me fez ir atrás de poemas e cantos sumérios e acádios, chineses e japoneses, incas e maias, egípcios e gregos, para procurar relacionar com as passagens do livro.

A força do ensaio de David Graeber e David Wengrow, porém, está na denúncia da ideologia capitalista com base em saberes antropológicos, referenciados na arqueologia, e que começaram a ser elaborados na Europa a partir dos discursos ameríndios relatados ou traduzidos. Graeber e Wengrow parecem defender mesmo que o Iluminismo é uma reação europeia à crítica ameríndia, e que a Revolução Francesa é uma espécie de “indigenização” da sociedade francesa: se eles podem viver de outra maneira, nós também podemos distribuir poderes…

De qualquer maneira, ler grandes livros, longos e aprofundados, é uma experiência significativa para mim, mesmo que eu leve, como dessa vez, cerca de um mês, entre idas e vindas, para atravessar uma obra com estilo estranho ao que costumo frequentar.

De onde vêm as palavras?

Anotação de aula

Nesse fevereiro de 2023, vou estudar com turmas de primeira série do ensino médio a formação das palavras no português brasileiro e, para iniciar esse trabalho, propus uma aula que resultou, para mim, como anotação, no seguinte texto.

Essa pergunta pode ser respondida de várias formas. A teoria geral da Linguística – a ciência que estuda a linguagem humana – considera as palavras como signos arbitrários de representação do mundo, ou seja, como uma sequência de fonemas que está culturalmente associada a significados determinados. Essa relação entre o signo e a realidade seria estabelecida pela cultura de uma língua. Por exemplo, no Brasil, associamos à sequência de fonemas /’onibus/o veículo rodoviário de transporte coletivo, e esse mesmo elemento da realidade é, em geral, nomeado como “autocarro”, em Portugal, ou “machimbombo”, em Moçambique, como lemos no livro Terra sonâmbula (1992), de Mia Couto. Mas, afinal, de onde veio a palavra “ônibus”, por exemplo? De onde vieram as palavras?

Algumas palavras são muito antigas na língua portuguesa, enquanto outras são mais recentes. Como você sabe, o português é uma língua neolatina, e isso significa que a base do seu Léxico (ou seja, o conjunto de palavras da língua) pode ser encontrada na língua latina, que foi disseminada pelo Império Romano entre os séculos II a.C. e IV d.C. em territórios em torno do Mar Mediterrâneo. Assim é que diversas palavras do português são semelhantes a palavras do Latim Clássico, como é o caso da palavra “música”, que em Latim se registrava simplesmente “musica”, sem o acento agudo. Mas a pergunta continua: e como essa palavra foi parar no Latim?

Pois é! No caso de “música”, conseguimos rastrear. Diversas palavras latinas provieram da língua grega antiga, que era registrada com outro alfabeto. Em Grego Antigo, encontramos a expressão Mουσική τέχνη (algo como “Mousiké téchne”), que pode ser traduzida como a arte das Musas. Por isso, podemos afirmar que a palavra que deu origem à “música” em português foi concebida por povos do sudeste europeu na língua grega antiga, há cerca de 3.000 anos, e estava relacionada com a cultura religiosa desses povos. As Musas, afinal, eram entidades sagradas de belas falas que traziam a linguagem e a memória para os humanos e, além disso, a palavra “musa” participa de um conjunto variado de palavras em grego e latim, em línguas neolatinas e anglo-saxãs, ou até mesmo em línguas faladas na Turquia ou no Irã, que estão relacionadas com a ideia de memória e contêm fonemas /m/, como “mente” e “amnésia”.

Segundo a teoria geral da Linguística, há muitos indícios de que todas essas línguas tiveram origem numa mesma língua extinta, da qual não há documentos escritos, que foi batizada como Protoindo-Europeu (PIE). Assim, uma possível palavra *men- nessa língua hipotética pode ter sido a origem mais longínqua conhecida de um conjunto de palavras do português relacionadas com o campo semântico da memória, e que reúne, hoje, “música” e “comentário”, duas palavras que não estão mais diretamente relacionadas com o sentido da memória. A gente foi muito longe nessa história!

É importante para organizar as ideias especular sobre o passado longínquo, mas para grande parte das palavras da língua podemos dar uma resposta muito mais simples do que a que demos para a “música”. Por exemplo, se olharmos para uma palavra mais recente na língua, como “criptomoeda”, e perguntarmos de onde ela vem, a resposta mais provável é que ela vem de “moeda”, que já é uma palavra no português. No caso de “criptomoeda”, foi acrescentado o morfema “cripto-” antes de “moeda”, e nós reconhecemos esse morfema em outras palavras, como “criptografia”. Agora não precisamos conhecer outras línguas para compreender como a palavra “criptomoeda” foi criada. Percebemos, portanto, que a palavra nova foi composta pela junção da palavra “moeda” com o morfema “cripto-”, que significa escondido ou secreto.

Apesar de a gente ter resgatado a história da língua para explicar a origem da palavra “música”, nós vamos estudar os processos de formação de palavras que nos são contemporâneos, ou seja, que acontecem hoje em dia no português brasileiro. Entre outros objetivos, o estudo da Morfologia Lexical no ensino médio contribui para a formação do vocabulário e a produção de um estilo pessoal de fala e escrita, pois oferece ao falante mais instrumentos de identificação e produção de novas palavras.

Teoria da poesia neoconcreta

Resumo do artigo publicado no catálogo

Em dezembro de 2022, foi publicado o catálogo I Jornada Internacional de Poesia Visual, organizado por Anderson Gomes, Juliana Di Fiori Pondian e Julio Mendonça, e fruto do evento homônimo realizado online em 2020.

O catálogo, editado pela Syrinx, propõe um panorama internacional recente da produção criativa e crítica em poesia visual, reproduzindo, em formato pequeno, centenas de poemas e resumos de comunicação, e oferecendo link para o conjunto de artigos. Além disso, apresenta 15 depoimentos de poetas da visualidade e uma cronologia das mostras brasileiras de poesia visual.

No catálogo, está publicado o resumo da comunicação que apresentei no evento em 2020, e o link para o artigo que escrevi em decorrência da comunicação. No artigo, procuro estabelecer a pertinência da categoria “poesia neoconcreta” na história da poesia experimental brasileira, considerando principalmente trabalhos de Ferreira Gullar e Lygia Pape.

Poesia e pegação

Fragmento da capa de Balbúrdia (2022), de Iago Passos

Iago,

Recebi o seu Balbúrdia hoje e já fiz uma primeira leitura, que delícia o que vocês fizeram! As ilustras do Preto Matheus como círculos de perfil do Insta, por exemplo, logos de rostos, mini leituras dos textos, e a série de textos com vários lapsos e implícitos muito legais, além, claro, do humor todo com o erotismo, não só gostei como me reconheci, me identifiquei.

Página com poema de Iago Passos e ilustração de Preto Matheus

Um poema-livro também, que responde, pelo título, ao ataque político do bolsonarismo, e responde com alegria, diversidade e despretensão, uma lição que aprendi com a poesia marginal, mas que, no seu livro, aparece com um projeto de texto na forma do jogo de linguagem, que ganha vida com o que não diz, com a força da pronominalidade masculina e feminina que não indica necessariamente as identidades de gênero (a outra, quem? a outra pessoa? a outra gay? a outra mulher? a outra personagem? o primeiro, quem? namorado, sexo, beijo, amor?). Enfim, virando o ano quem sabe organizo melhor essas impressões…

Um abraço!

Página com poema de Iago Passos e ilustração de Preto Matheus