DE COMO, NA SEXTA À NOITE, PASSO A LIMPO UM DIA EM QUE AS ESCUTEI SEMPRE SÓ DO OUTRO LADO DA TELA OU DO TELEFONE

Frame de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, de Pedro Almodóvar
Frame de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, de Pedro Almodóvar

ela estava casada há alguns anos e me contou que, não mais casada, ele pede com insistência e alguma acintosidade para voltar e ela, sem que eu possa compreender por quê, se culpa e adia a recusa ou, quem sabe, no fundo deseja reatar o casamento. sonho com ela, que nos encontramos, felizes como crianças, em outro estado do brasil, e quando acordo escrevo para contar do sonho e de viagens e amores e ela me lembra que se casou com aquela que veio de outro país para morar com ela. ela me escreve para dizer que tenho estado muito longe dos irmãos e da família em geral. ela vê uma foto minha na internet e me escreve e, conversa adiante, me conta que se mudou para outro estado a mais de mil quilômetros de distância deste porque conheceu o amor da vida dela e, prestes a se mudar para um apartamento novo e só deles, já imagina traços do filho que está por vir. ela me escreve para perguntar se pode tirar dúvidas quanto ao uso da língua, se essa posição não me constrange diante dela. ela me liga para uma gostosa e longa conversa contando sobre o dia de canto e aulas que dá, e sobre como lidar com os amigos administrando segredos e afetos em rede. ela me escreve para dizer que quer ler o livro que escrevi mas não o encontra vendendo em lugar algum, preciso então encontrá-la em breve para que essa leitura possa se fazer. ela publica a canção do dorival caymmi e eu durmo com os versos da oração da mãe menininha, tomar conta da gente e de tudo cuidar. ela me procura e escreve e liga prestes a sair com os amigos nessa sexta à noite, depois de um dia bastante difícil sem que eu possa saber exatamente por quê, e se mostra, emocionada e ao lado da voz carinhosa, pulsante e entregue à noite prestes a acontecer sem que, estando ela também a mais de mil quilômetros de distância desta cidade, eu possa sequer supor acompanhá-la.

Unimultiplicidade

O meu aluno Hiago Farias, cineasta, concorre com dois de seus curtas no III Festival Curta na UERJ: Povo Brasileiro. Um dos curtas, Unimultiplicidade, pode ser votado aqui.

“Nós nos perguntamos se fazemos parte de algum projeto de país”

Hoje nO Globo o que há de urgente é o artigo da educadora Yvonne Bezerra de Melo, do Projeto Uerê, no Complexo da Maré, cujas proposições são, entre outras:

A obra de Marcos Chaves, AMARÉCOMPLEXO, projetada no show da Marisa Monte, que vende as camisetas com a frase, contribuindo para o trabalho social na Maré.

1. Cada sociedade estabelece seus limites do que considera violência.

2. Dos 430 alunos, cerca de 70% tiveram algum parente assassinado ou desaparecido.

3. Em áreas de conflito permanente, os bloqueios de cognição atingem proporções alarmantes. Não é à toa que nossas crianças em escolas públicas, em escolas para pobres por esse país afora, têm um desempenho muito aquém do que se poderia esperar num país com um desenvolvimento médio como o Brasil. Os dados educacionais não me deixam mentir.

4. Eu e meus professores nos vemos no desespero de acalmar crianças com convulsões, em pânico, urinando nas calças, perdendo a fala por causa dos tiros que beiravam nossas paredes.

5. Nós nos perguntamos se fazemos parte de algum projeto de país.

6. Ou se o projeto de país e de cidades como temos hoje permite que a violência grasse sem vislumbrar um fim, de modo que teremos brasileiros sem instrução de qualidade, incapazes cognitivamente e em constante dependência.

7. Se o projeto do país é esse, estimular a violência e o ‘‘não’’ à paz, tenho de reconhecer que conseguiram.

8. Tive vontade de chorar quando pensei nos 56.000 assassinatos no ano passado que os governos criminosamente ignoram.

9. Hoje, a Maré está ocupada por 1.800 homens do Exército, além de um batalhão de mais de mil homens da PM. E não há paz. Não é uma questão de números, mas de políticas públicas adequadas de combate à criminalidade, às drogas e armas.

Drummond: verbo ser

De 1973 é o livro Menino antigo, o segundo volume da série Boitempo, onde se lê esse poema em prosa da corrosão do ser do menino que cresce:

VERBO SER

Que vai ser quando crescer? vivem perguntando em redor. Que é ser? É ter um corpo, um jeito, um nome? Tenho os três. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível, ser? Dói? É bom? É triste? Ser: pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas? Repito: ser, ser, ser. Er. R. Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher? Não dá para entender. Não vou ser. Não quero ser. Vou crescer assim mesmo. Sem ser. Esquecer.

(ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e prosa: volume único. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983.)

Um jogo de luz

Ela envia um vídeo à guisa de cartão-postal e o vídeo é feito luz. Vem feito luz, reproduz feito luz, fez-se feito luz.

Eu sonho com uma escola em que tudo fosse laboratorial

Há um ou dois meses, meus alunos Paulo Santana e Beatriz Hermes resolveram me entrevistar sobre a situação e os desejos para a educação numa pesquisa para a disciplina de Sociologia. E eu resolvi falar. E encaro esse vídeo, para além de uma entrevista, como o depoimento de um professor de uma escola pública sobre a escola pública que este professor deseja, com coisas do tipo:

  • Acho que todo mundo que se torna professor de alguma maneira tem uma marca de quem não desejou sair da escola.
  • Eu acho muito difícil enxergar a regulação do corpo, e portanto dos afetos, como um mecanismo pedagógico.
  • A escola cumpre muito mais o seu papel pedagógico se constrói a possibilidade de cada um se vestir como quer e se ver como quer diante do outro, do que regulando isso com base em parâmetros que são estranhos a todos que estão envolvidos, principalmente aos alunos.
  • Eu sonho com uma escola em que tudo fosse laboratorial: em que toda aula fosse aula de laboratório.

UFSC-UFRJ: literatura no Fundão amanhã

Nuno Ramos, Ana Cristina Cesar, Jorge de Lima, Haroldo de Campos, Antonio Cicero, Guimarães Rosa, Jorge Luis Borges, Augusto de Campos, Roberto Schwarz, Dora Ferreira da Silva, Georg Trakl, Else Lasker-Schüller: são os escritores que essa rapaziada da Teoria Literária da UFSC e da UFRJ estudam e vão apresentar amanhã no Fundão, após a primeira aula do prof. Jorge Wolff pela manhã.

procad

O Procad é um convênio do programa de pós-graduação em Literatura da UFSC com os respectivos programas da Unicamp e da UFRJ.

Dos leitores quando eles são poetas

Da sorte de encontrar leitores mais do que atentos e ainda poetas porque percebem traços no que se escreve que o autor pouco suspeitava.

quarta capa

O lançamento de A mão, o olho: uma interpretação da poesia contemporânea será no dia 1 de novembro, às 17h, na Primavera dos Livros (Alameda João do Rio, Museu da República, Catete). Antes, às 14h, haverá uma mesa a reunir a mim, Alberto Pucheu e João Camillo Penna a respeito da literatura contemporânea no Brasil.