A faca no coração, Le coup au coeur

É de 1975 A faca no coração, livro de Dalton Trevisan cujo título como que mistura (ciente ou não) título e imagem da tela de Magritte. E o conto homônimo ao livro encerra-o, assim:
A faca no coração
– Você rapou o bigode, João. Ficou mais moço.
– Na mesma hora em que ela me deixou. O amor é uma faca no coração. Cada dia se enterra mais fundo, que não deixe de sangrar.
– Esse óculo rachado. Não pode enxergar direito.
– Depois a gente acostuma, não atrapalha tanto.
– Maria, ela não merece você. É bom demais. E os filhos?
– A mais velha me odeia. Dizer que me chamava Paizinho.
– No começo eles tomam o partido da mãe.
– Ao encontrá-la na rua, me virou o rosto: Você é uma filha ingrata. Nada de ingrata. Nem considero o senhor meu pai. Então a culpada foi sua mãe… Sabe o que ela fez? Quis me avançar com a unha afiada.
– A outra filhinha?
– Também do lado da mãe.
– E o filho?
– Esse é o maior inimigo.
– Você, João, uma infância tão feliz. Agora sofrendo esse horror. Dona Cotinha teve a felicidade de não ver.
– Se ela está vendo… Tudo!
– Vendo o quê?
– É espírito forte. Tudo ela vê. Fala comigo em sonho. Sabe o que repete?
– …
– Meu filho, sinto uma pena de você!
– Ó Maria, mal de cada dia.
– Minha cama é só mordida de formiguinha ruiva. Usei tudo que é veneno. Até lavei o soalho. Mas não adiantou.
– É a famosa insônia de viúvo.
– Três da manhã, lá vem o negro desdentado, entra no quarto, deixa uma flor na minha testa.
– E quando você acorda, a flor está ali?
– Como é que adivinhou? Flor é do céu, não é? Quem manda é a velha: Vá cuidar do meu menino, tão sozinho.
– Deve arrumar uma companheira.
– Quem é que vai me querer?
– Quanta mulher, João. Uma viúva, uma desquitada infeliz, tanta professora bonitinha.
– Cada dia – são palavras da Maria – é mais difícil gostar de você.
– Mulher é que não falta.
– Tenho uma em vista. Viúva de trinta anos. Maria praguejou que sozinho não consigo outra.
– Deve mostrar para ela. Pode até escolher.
– Como é que você dobrou a Maria, assim furiosa? – perguntou a pobre velha, antes de morrer. Não dobrei a Maria, eu disse, dobrei os joelhos.
– Mudar a lente rachada não custa. Em vez dessa gravata fúnebre uma de bolinha azul.
– Nunca tomei um copo d’água sem dar a metade para ela, que no fim me fugiu. Na cama o cobertor era todo de Maria. Não tinha um fio e uma agulha para este botão?
– Bem sei que fazia pose para você. Logo ela!
– É refinada feiticeira. Coração comido de bichos, ela tem um buraco no peito. Sabe o que, no dia em que me abandonou?
– …
– Só de traidora degolou o casal de garnisés…
– Nem tremeu a mão de unha dourada.
– … estrangulou o canário no arame da gaiola…
– Não me diga, João!
– … e furou o olho do peixinho vermelho.
– Esqueça a ingrata nos braços de outra.
– Não é feia a viúva. Trinta anos mais moça, apetitosa. Só eu não mereço?
– Assim é que se fala, João.
– Não posso ter dó de mim, daí estou perdido. Acho que me engracei pela viuvinha. O amor é uma corruíra no jardim – de repente ela canta e muda toda a paisagem.
(TREVISAN, Dalton. A faca no coração. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 2005. pp. 135-138.)
1975. Nova Iorque. Henry Miller asleep and awake. Tom Schiller. 35min.
C. G. Jung. 1950. Bolligen, Suíça.
São Luís do Maranhão, 1654. Sermão de Santo Antônio. Padre António Vieira. Leitura: Lisboa, 2013. Maria Bethânia.
‘Narrarte’, curta de Paloma Rocha e Goffredo Telles Neto com Lygia Fagundes Telles
iteratura
hoje, 31 de dezembro de 2014, n’O Globo, o L que falta e faz da literatura uma autodefinidora iteração_literatura também se chama *cochilo do revisor*_e como o revisor de jornal morreu, literatura é (não só por isso) jornal_e minha confusão é pensamento em férias_feliz ano novo em folha, que o próximo ano seja uma iteração deste de modo que saiamos vivos mais vivos assim como os que me podem ler vivos saíram deste ano_(l)iteratura
(publicado no Instagram: @2uiz6uilherme)
Soneto sem arte
Não há arte / sem arte

O governador da Bahia, Rui Costa, abriu seu discurso de posse com “um poema que me foi enviado recentemente por um amigo como forma de incentivo”:
Sonhe com aquilo que você quer ser / porque você possui apenas uma vida / e nela só se tem uma chance / de fazer aquilo que quer
A prefeita de Campos, município do Rio de Janeiro, presenteou em novembro de 2014 a filha, eleita deputada federal pelo estado, com uma imitação de Romero Britto.
Quando, diante do gesto de Rosinha Garotinho, penso em Andy Warhol; quando a citação do governador da Bahia é atribuída à Clarice Lispector, aprendo mais que o-que-se-chama-arte não se diz de um objeto, de uma coisa, nem mesmo de um gesto por si mesmo.
Não há arte sem arte, e é por isso que não há saída a não ser, a cada vez que se a faça, destruí-la. Como é que chama o nome disso? Não há arte sem arte não quer dizer que só há arte quando há arte. Antes, quer dizer que, a cada visão (objeto, gesto) em artes visuais a visão lembra que:
Não há arte / sem arte
No enjambement que, por um relance, nega-a.
Para um panorama da obra de Lygia Fagundes Telles


