A faca no coração, Le coup au coeur

Le Coup au Coeur (1952), René Magritte

É de 1975 A faca no coração, livro de Dalton Trevisan cujo título como que mistura (ciente ou não) título e imagem da tela de Magritte. E o conto homônimo ao livro encerra-o, assim:

A faca no coração

– Você rapou o bigode, João. Ficou mais moço.

– Na mesma hora em que ela me deixou. O amor é uma faca no coração. Cada dia se enterra mais fundo, que não deixe de sangrar.

– Esse óculo rachado. Não pode enxergar direito.

– Depois a gente acostuma, não atrapalha tanto.

– Maria, ela não merece você. É bom demais. E os filhos?

– A mais velha me odeia. Dizer que me chamava Paizinho.

– No começo eles tomam o partido da mãe.

– Ao encontrá-la na rua, me virou o rosto: Você é uma filha ingrata. Nada de ingrata. Nem considero o senhor meu pai. Então a culpada foi sua mãe… Sabe o que ela fez? Quis me avançar com a unha afiada.

– A outra filhinha?

– Também do lado da mãe.

– E o filho?

– Esse é o maior inimigo.

– Você, João, uma infância tão feliz. Agora sofrendo esse horror. Dona Cotinha teve a felicidade de não ver.

– Se ela está vendo… Tudo!

– Vendo o quê?

– É espírito forte. Tudo ela vê. Fala comigo em sonho. Sabe o que repete?

– …

Meu filho, sinto uma pena de você!

– Ó Maria, mal de cada dia.

– Minha cama é só mordida de formiguinha ruiva. Usei tudo que é veneno. Até lavei o soalho. Mas não adiantou.

– É a famosa insônia de viúvo.

– Três da manhã, lá vem o negro desdentado, entra no quarto, deixa uma flor na minha testa.

– E quando você acorda, a flor está ali?

– Como é que adivinhou? Flor é do céu, não é? Quem manda é a velha: Vá cuidar do meu menino, tão sozinho.

– Deve arrumar uma companheira.

– Quem é que vai me querer?

– Quanta mulher, João. Uma viúva, uma desquitada infeliz, tanta professora bonitinha.

Cada dia – são palavras da Maria – é mais difícil gostar de você.

– Mulher é que não falta.

– Tenho uma em vista. Viúva de trinta anos. Maria praguejou que sozinho não consigo outra.

– Deve mostrar para ela. Pode até escolher.

Como é que você dobrou a Maria, assim furiosa? – perguntou a pobre velha, antes de morrer. Não dobrei a Maria, eu disse, dobrei os joelhos.

– Mudar a lente rachada não custa. Em vez dessa gravata fúnebre uma de bolinha azul.

– Nunca tomei um copo d’água sem dar a metade para ela, que no fim me fugiu. Na cama o cobertor era todo de Maria. Não tinha um fio e uma agulha para este botão?

– Bem sei que fazia pose para você. Logo ela!

– É refinada feiticeira. Coração comido de bichos, ela tem um buraco no peito. Sabe o que, no dia em que me abandonou?

– …

– Só de traidora degolou o casal de garnisés…

– Nem tremeu a mão de unha dourada.

– … estrangulou o canário no arame da gaiola…

– Não me diga, João!

– … e furou o olho do peixinho vermelho.

– Esqueça a ingrata nos braços de outra.

– Não é feia a viúva. Trinta anos mais moça, apetitosa. Só eu não mereço?

– Assim é que se fala, João.

– Não posso ter dó de mim, daí estou perdido. Acho que me engracei pela viuvinha. O amor é uma corruíra no jardim – de repente ela canta e muda toda a paisagem.

(TREVISAN, Dalton. A faca no coração. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 2005. pp. 135-138.)

iteratura

iteratura

hoje, 31 de dezembro de 2014, n’O Globo, o L que falta e faz da literatura uma autodefinidora iteração_literatura também se chama *cochilo do revisor*_e como o revisor de jornal morreu, literatura é (não só por isso) jornal_e minha confusão é pensamento em férias_feliz ano novo em folha, que o próximo ano seja uma iteração deste de modo que saiamos vivos mais vivos assim como os que me podem ler vivos saíram deste ano_(l)iteratura

(publicado no Instagram: @2uiz6uilherme)

Não há arte / sem arte

Clarissa Garotinho, eleita deputada federal pelo Rio de Janeiro, recebe de presente de Natal da mãe, Rosinha Garotinho, prefeita de Campos, seu presente de Natal
Clarissa Garotinho, eleita deputada federal pelo Rio de Janeiro, recebe de presente uma imitação de Romero Britto pintada pela mãe, Rosinha Garotinho, prefeita de Campos

O governador da Bahia, Rui Costa, abriu seu discurso de posse com “um poema que me foi enviado recentemente por um amigo como forma de incentivo”:

Sonhe com aquilo que você quer ser / porque você possui apenas uma vida / e nela só se tem uma chance / de fazer aquilo que quer

A prefeita de Campos, município do Rio de Janeiro, presenteou em novembro de 2014 a filha, eleita deputada federal pelo estado, com uma imitação de Romero Britto.

Quando, diante do gesto de Rosinha Garotinho, penso em Andy Warhol; quando a citação do governador da Bahia é atribuída à Clarice Lispector, aprendo mais que o-que-se-chama-arte não se diz de um objeto, de uma coisa, nem mesmo de um gesto por si mesmo.

Não há arte sem arte, e é por isso que não há saída a não ser, a cada vez que se a faça, destruí-la. Como é que chama o nome disso? Não há arte sem arte não quer dizer que só há arte quando há arte. Antes, quer dizer que, a cada visão (objeto, gesto) em artes visuais a visão lembra que:

Não há arte / sem arte

No enjambement que, por um relance, nega-a.