A poesia gosta que eu esteja incompleta

oficina 2

Mais dois poemas, de Júlia Moura, que escreve “A poesia gosta que eu seja incompleta”, e Claudio Santos, com “Carne com batata”.

A poesia gosta que eu esteja incompleta

Eu chego
No conforto
No silêncio
O dia já foi cumprido
Mas nem metade passou
O caminho já, longo e rotineiro
As lembranças de vozes e sorrisos
Já passaram
E tudo que poderia me ocupar
Já foi
E ficou
Como as imagens confusas da janela do ônibus
Como as pessoas que me esbarram
E suas histórias
E quanto a rotina cansa de sufocar
E o vazio toma conta
Da casa
As palavras vêm se fazem donas
Saem
Do modo que acham melhor
Sem floreios rimas
Esse momento passa
Voltam as rotinas
Lembro dos cálculos
Exatidões que me perseguem
E a poesia que antes se impunha
Se esconde
Por completo, se faz de tímida
Agora estou ocupada, cheia talvez
A poesia gosta
Que eu esteja incompleta
Para preencher
Invadir
E então sair
E se mostrar
Pro mundo

Carne com batata

Carne com batata
faz com que eu
esteja aqui

na oficina, mas
o assunto é
carne com batata

Aquela gosma
que se desprende
da placenta da mãe

Aquela forma quadrúpede que
por meses se fez gorda
andando num pasto, com seus iguais

Já no ponto certo, abatida a bala
pronta para o corte, depois de escalpelada
embalada no plástico, feito de polímeros

projetado outrora por uma série de químicas
5 anos de faculdade para 3 horas de viagem
do campo ao mercado, minha carne portentosa

mercado que não lembro ao certo
mas foi lá que minha mãe comprou
juntamente com as batatas

que foram plantadas no campo
adubadas quimicamente, irrigadas incessantemente
até que fossem colhidas, lavadas, trazidas

por fim, só restou serem vendidas
para dona minha mãe
A noite tem seu cheiro

mas ontem eu só sentia
carne com batata
que por horas numa panela

fez-se apta ao consumo
Hierarquicamente os Santos
foram servidos

primeiro o patriarca depois o seu rebento
por último minha mãe
que preparou tudo mas não produziu nada

O constante subir e descer da mandíbula
triturava a carne, que corria pelo esôfago
em forma de papa triturada

No estômago a papa foi banhada por
líquidos enzimáticos, e nas outras
estruturas digestivas também

No intestino a absorção dos nutrientes que
através de um processo químico
vai gerar para o corpo energia

para pôr o ponto final.

Na sala de espelhos

detalhe do paulo

Não somente um poema não se basta, como também um poema não basta. O poeta repete que a arte existe porque a vida não basta, e se nem vida nem poema bastam então seria o caso de, ao escutar algum poema, assumir a tarefa de torná-lo insuficiente com outro poema, e outro, e outro, e outro, e outro. Escrever sob o impacto dos espelhos, porque pela primeira vez a oficina aconteceu numa sala de espelhos, que havia funcionado como sala de dança no Colégio Pedro II. Escrever sob o impacto dos espelhos, porque dessa vez a oficina homenageou a poeta Marília Garcia, que em 2014 publicou um livro que pôs o leitor de poesia em alerta para os poemas que vêm, o teste de resistores. Escrever sob o impacto dos espelhos, porque na antiga sala de dança, que preserva os espelhos que se refletem provavelmente ao infinito nas suas paredes paralelas, leram-se poemas da Marília Garcia e produziram-se poemas sob o impacto dos poemas da Marília Garcia. Escrever sob o impacto dos espelhos, porque, apesar de os espelhos não terem se estilhaçado, a cena da escrita era a sala de espelhos, e, no entanto, ninguém se olhava através dos espelhos, pois estavam todos muito ocupados, na sala de espelhos, com os poemas.

oficina

Foram vários os poemas acontecidos na oficina do dia 6 de maio, e aos poucos eles serão publicados, a começar por dois dos mais fortes, o do Paulo Santana, Meu namorado é cineasta, e o da Mariana Freitas, Oito.

Meu namorado é cineasta

acordo
engasgado com um poema, cumpro um ritual
– não há espaço para a poesia

ando na rua, pego um ônibus, vejo pessoas
pessoas falantes, sonolentas, arrumadas, bagunçadas
– será que elas têm poesia?
(na boca? na cabeça? na bolsa?)

chego no colégio cedo, vejo colegas preocupados
não por causa disso, poesia, mas pelo teste
que vai acontecer
a primeira aula não acontece, a professora de literatura está doente
– muita poesia tem efeito colateral?

o tempo passa, o teste chega, a ansiedade grita
finalmente escrevo
escrevo números pensados por outras pessoas
escrevo cálculos tão elaborados que são quase poesia
quase
– o que define poesia?

hora do recreio, dia de profissões
(quase) todos vestidos do que “vão ser quando crescer”
meu namorado é cineasta
minha amiga é cineasta
minha outra amiga é fã de música coreana
– há poetas entre médicos, jogadores de futebol, professores, artesãos?

aula seguinte de francês, lemos textos sobre acontecimentos inusitados
quebras de rotina que são como poesia
– é possível uma rotina com poesia?

no fim da aula, encontro meu namorado numa oficina de literatura
ele encontrou poesia, ele ouviu poesia, ele escreveu poesia
lembrei do poema que estava preso na garganta, ele volta a incomodar
– meu namorado é poesia?

almoço do dia: arroz, feijão, carne (sem batata) e conversas
conversas sobre aulas, sobre relacionamentos, sobre faculdade
não sobre poesia
– o que eu sei falar sobre poesia?

depois meu namorado diz que tem algo a me mostrar
o poema Navio Negreiro, do Castro Alves
começo a ler, até que percebo que são seis páginas e paro
esse aqui tem só três
– consigo fazer mais?

chegou a minha vez de fazer a oficina literária
dessa vez é numa sala de espelhos que já viu muitos dançarinos
acho que a literatura encontrou o seu lugar
– existe lugar certo para a poesia?

enquanto ouço meu professor ler poesia, escrevo um poema na cabeça
gosto do poema que ouço
e do efeito que as palavras carregadas pela voz suave têm em mim
– qual a diferença entre ler e ouvir um poema?

começo a escrever este poema
vermelho traduz o meu sangue
a mão que escreve é a mão da punheta
– é biologicamente possível gozar lendo um poema?

estou atrasado, preciso terminar este poema
todo poema tem seu fim
mas a poesia (ou não) está sempre por aí
ainda sinto um incômodo na garganta
o poema que estava (e está) entalado é outro
– como se livrar do peso de algo não escrito?

Oito

somos seis em uma sala
cada um com seu papel
em branco
tarde nublada
céu pronto para chorar
nós somos seis
seis infinitos
particulares
seis tentativas
seis erros
nós somos seis
prova de inglês mais tarde
cansaço nos olhos
nas costas
brigas com minha mãe
mas agora eu sou seis
juntos um amor
e enquanto escrevo
tentativa de escrever
nos tornamos oito
dois estavam perdidos
mas se acharam
acharam o lugar onde se acham
onde se sentem
me sentem
me sinto
mais viva
somos oito
em busca de palavras certas
olhando os espelhos
para reconhecermos a nós mesmos
sou oito
não
sou sete
ela acabou de levantar
foi
qual o seu nome?
não lembro
agora sou sete
esqueço do mundo lá fora
para passear pela minha mente
somos sete
sete posições diferentes
sete ideias
sete acertos
alguns já conseguiram
chegar
onde queriam
ainda caminho
meio insegura
afinal, onde
quero chegar?
acho que aqui
onde estou
onde
estamos
nós sete éramos seis
oito
depois sete
éramos tanta coisa
que pode ser difícil
de lembrar
agora, vejo que
tudo virou poesia
a única coisa que se vê
é o silêncio
cheio de gritos
cheio de mim
e deles
cheio de nós
somos seis
o Paulo foi embora
somos quatro
as meninas disseram tchau
e antes que as pessoas acabem
digo que é hora de terminar
a procura já virou palavra
a borboleta pousou na folha

12 imagens de ’20 poemas para ler no bonde’

Página de ’20 poemas para ser leídos en la tranvia’, com ilustração de Oliverio Girondo

“E encontramos ritmos ao descer a escada, poemas jogados no meio da rua, poemas que recolhemos como quem junta bitucas na calçada.” E se, depois de publicados, os poemas nascem das cinzas dos cigarros das calçadas, então o leitor pode fazer o mesmo com os versos de um livro tão delicioso como 20 poemas para ler no bonde (1922), de Oliverio Girondo, lido e citado na tradução, publicada em 2014, de Fabrício Corsaletti e Samuel Titan Jr. Um catálogo de imagens da poesia de vanguarda.

12 imagens de 20 poemas para ler no bonde (1922)

Enquanto as velhinhas, com gorrinhos de dormir, entram na nave para se embebedar de orações e para que o silêncio deixe de roer por um instante
o nariz de pedra dos santos.
A manhã sai a passeio na praia polvilhada de sol.
Por oitenta centavos, os fotógrafos vendem os corpos das mulheres que se banham.
De cara maquiada, os edifícios trepam uns por cima dos outros e, quando chegam ao alto, viram o lombo para que as palmeiras lhes deem com o espanador na laje.
No quinto andar, alguém se crucifica ao abrir de par em par uma janela.
Europeus que usam uma escarradeira na cabeça.
Lampiões doentes de icterícia!
Com um braço preso à parede, um lampião apagado tem uma visão convexa da gente que passa de automóvel.
Junto ao meio-fio, um quiosque acaba de tragar uma mulher.
Passa: uma inglesa idêntica a um poste de luz.
E, à noite, a lua que se desagrega no canal simula um enxame de peixes prateados ao redor do anzol.
E enquanto, diante do altar-mor, o sexo das mulheres se molha quando contemplam um crucifixo que sangra por suas sessenta e seis costelas, o padre mastiga uma prece como um pedaço de chewing gum.

Os deitados: o humor perverso das capas do Meia Hora

Tem algumas ideias de aula que quem já foi meu aluno ou estagiário certamente conhece e se lembra. O ritual de quando um escritor desaparece deste mundo e a aula seguinte à sua morte se torna, pelo menos no começo, uma homenagem póstuma, com a leitura de alguma de suas obras. É o que vai acontecer nessa sexta, dia 17, com o Eduardo Galeano e o Gunter Grass, por exemplo. E foi o que já aconteceu nesse ano com o Herberto Helder. Depois de ler um poema dele, uma aluna observou que parecia um texto muito bugado. (A poesia, um bug da língua.) Essas leituras me comovem muito, sempre, pois realmente, com o tempo, passei a encará-las como um ritual de despedida, mais do que como um gesto de divulgação (não sou publicitário, afinal) da obra. É como se cada poema, cada texto recém-póstumo lido, já tivesse sido escrito para ser uma espécie de discurso de velório: o trabalho do luto opera assim em aula, em ato, e a dimensão da cultura viva, aquela sobre a qual os currículos escolares silenciam, se experimenta à escuta adolescente.

Outra ideia de aula a que recorro com frequência é aquela na qual as análises linguísticas se fazem com base na leitura das capas dos jornais do próprio dia da aula. Passo numa banca de jornal qualquer próxima à escola, antes de as aulas começarem, e faço o pedido que espanta e alegra o jornaleiro: Me vê o Meia Hora, o Expresso, o Extra, O Dia e O Globo! Geralmente sem entender a minha suposta ânsia pela leitura dos jornais, o jornaleiro logo se sente à vontade, meu íntimo, afinal supostamente gostamos tanto de jornais, então ele me dá notícias sobre o clima, que tem feito calor apesar do frescor da manhã, que há tantas décadas aquela banca abre tão cedo, que a cidade anda muito violenta etc. E foram assim as aulas dessa segunda-feira, em três turmas do Colégio Pedro II.

As capas do Meia Hora sempre chamam os olhares rápidos e histéricos que querem logo comentar o resultado do jogo de futebol, as consequências de alguma decisão política, a discrepância no preço dos jornais (durante a semana, dos cinco jornais de grande circulação da cidade, controlados por apenas duas empresas de comunicação, o preço de capa varia de R$0,60 a R$3,00). E é durante as aulas que a aula se faz, com base nas notícias que mais interessem à turma, como foi o caso dessa chamada de capa do Meia Hora:

meia hora

E logo começamos a perceber, pouco a pouco, que o humor produzido pela frase principal da chamada não era tão evidente para os leitores em aula, embora todos tivessem rido. Não que tenham rido em falso, mas é possível que tenham rido da situação e do obsceno que ela inclui. E logo começamos a perceber ainda mais que a frase, composta por duas orações, apresenta uma primeira oração em linguagem denotativa, com uma estrutura sintática de sujeito-verbo-complemento, um verbo de ação cujo sujeito é agente, cujo complemento é paciente, ao passo que a segunda oração se constrói com duas camadas de sentido simultaneamente, explorando a ambiguidade do verbo vazar produzida pelo contexto linguístico. É que num sentido mais adequado ao contexto de enunciação (a capa de um jornal), os donos do bingo vazaram, ou seja, escaparam, fugiram, meteram o pé. Assim, não foram presos em flagrante pela PM.

Mas é o local da fuga que propicia a ambiguidade do verbo nessa frase: é como se, ao fugirem pelo banheiro, num lance típico de filmes de perseguição hollywoodianos (conforme notou uma aluna numa das aulas), os donos tivessem se transformado na sujeira, no excremento, na merda que vazamos pelos banheiros para os ralos e os vasos. O humor típico das capas do Meia Hora consiste em ridicularizar os suspeitos de cometerem crimes com base num jogo de palavras que seja provocado pelo próprio léxico da notícia (o banheiro, a fuga, logo: vazar). Pois então, num lance moralizador, tais manchetes regulam os valores do bem e do mal, da lei e do crime, da polícia e do bandido, estabelecendo, numa visão maniqueísta, limites claros entre tais posições. Algo semelhante ao que se pode ler noutra notícia de capa do mesmo jornal veiculada nessa semana:

meia hora 2

A estrutura sintática da frase é, num sentido amplo, a mesma que encontramos na notícia do fechamento do bingo: duas orações, ligadas por uma conjunção aditiva, sendo a primeira aquela que noticia o fato, e a segunda aquela que o interpreta, ridicularizando o acusado. De novo é o verbo, acelerar, que aceita a ambiguidade, agora motivada pelo nome do preso.

Pois é esse recurso, que justifica a ridicularização dos acusados pela polícia com base numa fronteira clara entre a lei e o crime, leia-se ente a polícia e o bandido, o bem e o mal, o que também justifica chamadas como a seguinte, também dessa semana:

meia hora 3

De quem nós estamos rindo agora? Da morte. Da morte de quatro, quatro não nomeados: bandidos, pessoas? A sua nomeação está suspensa. São fantasmas de linguagem, são adjetivos substantivados (os quatro não são substantivos). A substantivação do numeral, quatro, talvez se justifique pela caracterização que o verbo já confere, discursivamente, aos quatro: são quatro deitados. Assim como no caso da morte de Cláudia Ferreira da Silva, que era, a princípio, antes da comoção pública, para tais jornais, a arrastada. Os quatro deitados são assim representados pois o sujeito da oração é o bem, é a lei, é o Choque. O Choque não mata, não assassina, não erra: o Choque deita, faz deitar, põe no chão os corpos dos quatro. O sacrifício dos quatro justifica o sacrifício do tom sério, do registro formal, da linguagem pretensamente objetiva do jornalismo, no texto. O texto é sacrificado, e nós rimos disso. Rimos do sacrifício do texto. E o texto sacrificado justifica o sacrifício dos quatro, nem preciso abrir o jornal para saber: quatro jovens, quatro negros, quatro favelados, quatro homens.

Por isso me espantei com a revelação que foi a observação de um aluno sobre a manchete do bingo: por que o jornalista optou por utilizar um e, e não um mas: PM fecha bingo mas donos vazam pelo banheiro? Sobre fundo vermelho, já tínhamos a explicação: Polícia acerta em cheio. Bingo! Mas o bingo da polícia aqui, de acordo com o discurso de capa, não está em oferecer punição aos donos, ou em prendê-los, ou em flagrá-lo. O bingo da polícia (e do jornal, e dos seus leitores) está em pôr em ridículo os donos, está, portanto, em escrachá-los, linchá-los (discursivamente), torná-los merda (discursivamente), tirar-lhes a dignidade (discursivamente, ou seja, de facto), a humanidade, qualquer coisa que afinal, já que cometem crimes, afinal, se rimos desse discurso, concordamos que já não têm.

A carne é triste

Em 2002, Manuel de Freitas. Em 1988, Augusto de Campos. Em 1865, Stéphane Mallarmé. De trás pra frente, ouvir Bach diante do gato à noite, com o poeta português, ler o poema ao som de Bach, sem esperar um poema, um poema que se escreve para nos contar que nem tudo vira livro, que nem tudo se escreve. Ou então, com o poeta brasileiro, evocar Mallarmé ao ouvir, vendo-a, a rima com a TV, os t fazendo as vezes de cruzes em cemitério. Ou então, ainda através de Augusto de Campos em sua tradução de Mallarmé, o poema “Brisa marinha”, do francês, de 1865, o lamento inconsolável do náufrago exaurido pelos livros, invocando ao coração que ouça a canção do mar, seu apelo, seu chamado.

WEINEN, KLAGEN, SORGEN, ZAGEN (BWV 12)

[para o Barnabé, felino]

A carne é triste, mas eu leio pouco,
menos ainda do que o meu gato,
que talvez desculpe um dia
o indemonstrável possessivo
que escrevi sem muita convicção.

Pode-se fazer tanta coisa, à noite.
Ouvir por exemplo Bach
— o pai —, tendo por único
cuidado uma atenção distraída
ao gelo que estala no copo
de vidro indonésio. Sim,
não me parece que eu seja,
para já, «politicamente correcto».

— Ou experimentar o amor,
de novo e sempre o amor,
com frias e esgotadas lágrimas
de lume. E, se o amor não
vem (acontece), posso ir dizê-lo
a ninguém, à porta de bares sombrios,
sem esperar sequer um poema.

Porque nem tudo se escreve,
percebe acordando o gato.
Possa ele também não saber,
neste Inverno, que a carne
é mesmo uma coisa muito triste.

(FREITAS, Manuel de. [sic]. Lisboa: Assírio & Alvim, 2002)


vanguarda-augusto-campos-021
Tvgrama I (1988)

(CAMPOS, Augusto de. Despoesia. São Paulo: Perspectiva, 1994.)


BRISA MARINHA

A carne é triste, sim, e eu li todos os livros.
Fugir! Fugir! Sinto que os pássaros são livres,
Ébrios de se entregar à espuma e aos céus imensos.
Nada, nem os jardins dentro do olhar suspensos,
Impede o coração de submergir no mar
Ó noites! nem a luz deserta a iluminar
Este papel vazio com seu branco anseio,
Nem a jovem mulher que preme o filho ao seio.
Eu partirei! Vapor a balouçar nas vagas,
Ergue a âncora em prol das mais estranhas plagas!

Um Tédio, desolado por cruéis silêncios,
Ainda crê no derradeiro adeus dos lenços!
E é possível que os mastros, entre ondas más,
Rompam-se ao vento sobre os náufragos, sem mas-
Tros, sem mastros, nem ilhas férteis a vogar…
Mas, ó meu peito, ouve a canção que vem do mar!

(CAMPOS, Augusto de; CAMPOS, Haroldo de; PIGNATARI, Décio. Mallarmé. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2002.)

Escrever a mão, II

Um dos trabalhos realizados na oficina do dia 8 de abril requereu uma versão em vídeo. Penso que a relevância desse trabalho, composto pelo Claudio Santos, está em instituir, através da linguagem, a circulação pública do prazer do corpo, ou seja, estabelecer, num ato de linguagem, que o corpo, em suas relações públicas, guarda as marcas íntimas do prazer, e que isso não precisa ser silenciado. No caso de ter sido produzido por um jovem, como o foi, trata-se, portanto, esse trabalho, de um empreendimento de saúde.

Escrever a mão

Escrever a mão, sem crase, sem a preposição entre a mão e o gesto de escrever, sem a pressuposição de que a mão serve para escrever. Escrever a mão: modo de escrever no que escreve, sem que a superfície inscrita deixe de pulsar escrita. A mão, escrita, cumpre o gesto de não escrever. A mão, escrita, cumpre o papel do escritor, aquele que, ao recusar-se à escrita, lança sobre a literatura a sua possibilidade de, ausente, fazer-se texto. I would prefer not to. Como fazer com que a mão, acostumada a segurar o lápis, a caneta, a digitar as teclas do computador, as pontas dos dedos hábeis em digitar as teclas da tela do celular, como fazer com que a mão vire papel, tela, pedra, pele de palavras? Os gestos necessários a essa operação foram realizados por dez alunos na oficina desse oito de abril.

vinícius barreto
vinícius barreto
alexandre magalhães
alexandre magalhães
claudio santos
claudio santos
gabriela almeida
gabriela almeida
júlia moura
júlia moura
luiz guilherme barbosa
luiz guilherme barbosa
luiz guilherme barbosa
luiz guilherme barbosa
mariana barcellos
mariana barcellos
mariana freitas
mariana freitas
paulo santana
paulo santana
roberta de oliveira
roberta de oliveira
síntique vital
síntique vital

Que literatura ensinar na escola?

“Chris, o cachorro, escutando o gramofone, na Antártica”, por Herbert Ponting, c. 1911

Trata-se de vozes contra-hegemônicas no contexto escolar. Escutemos os ecos possíveis de um cotidiano futuro.

1. Que literatura ensinar na escola, Roland Barthes?

1973: O prazer do texto é esse momento em que meu corpo vai seguir suas próprias ideias – pois meu corpo não tem as mesmas ideias que eu.

2. Que literatura ensinar na escola, Giorgio Agamben?

1977: Ainda precisa ser investigado, na perspectiva de uma fundação crítica das ciências humanas, que da ironia romântica, exatamente com os Schlegel, tenha podido brotar uma atitude autenticamente filológica e científica (que deu, entre outras coisas, um impulso essencial à linguística europeia). Se nas ciências do homem sujeito e objeto necessariamente se identificam, então a ideia de uma ciência sem objeto não é um paradoxo jocoso, mas talvez a tarefa mais séria que, em nosso tempo, continua confiada ao pensamento. O que o perpétuo afiar de facas de uma metodologia que nada mais tem a cortar busca hoje, cada vez mais frequentemente, dissimular, ou seja, a consciência de que o objeto que devia ser aprendido frustrou, no final, o conhecimento, acaba reivindicado pela crítica como o seu caráter específico próprio. Assim como toda autêntica quête, a quête da crítica não consiste em reencontrar o próprio objeto, mas em garantir as condições da sua inacessibilidade.

3. Que literatura ensinar na escola, Jacques Derrida? 

1992: Se todo texto literário joga e negocia a suspensão da ingenuidade referencial, da referencialidade tética (não da referência ou da relação intencional em geral), cada texto o faz de modo diferente e singular. Se não há essência da literatura, ou seja, identidade a si da coisa literária, se o que se anuncia ou se promete como literatura nunca se apresenta como tal, isso quer dizer, entre outras coisas, que uma literatura que falasse apenas da literatura ou uma obra que fosse puramente autorreferencial se anularia de imediato. O senhor dirá que talvez seja isso que está acontecendo. Nesse caso, é essa experiência de aniquilação do nada, com o nome de literatura, que interessa a nosso desejo. Experiência do Ser, nada mais, nada menos, à beira do metafísico [au bord du métaphysique], a literatura talvez se mantenha à beira de tudo, quase mais além de tudo, inclusive de si própria. É a coisa mais interessante do mundo, talvez mais interessante do que o mundo, razão pela qual, se não é idêntica a si mesma, o que se anuncia e se recusa com o nome de literatura não pode ser identificado a nenhum outro discurso. Nunca será científica, filosófica, coloquial.

4. Que literatura ensinar na escola, Gilles Deleuze?

1993: A literatura é delírio e, a esse título, seu destino se decide entre dois polos do delírio. O delírio é uma doença, a doença por excelência a cada vez que erige uma raça pretensamente pura e dominante. Mas ele é a medida da saúde quando invoca essa raça bastarda oprimida que não para de agitar-se sob as dominações, de resistir a tudo o que esmaga e aprisiona e de, como processo, abrir um sulco para si na literatura. Também aí um estado doentio ameaça sempre interromper o processo ou o devir; e se reencontra a mesma ambiguidade que se nota no caso da saúde e do atletismo, o risco constante de que um delírio de dominação se misture ao delírio bastardo e arraste a literatura em direção a um fascismo larvado, a uma doença contra a qual ela luta, pronta para diagnosticá-la em si mesma e para lutar contra si mesma. Fim último da literatura: pôr em evidência no delírio essa criação de uma saúde, ou essa invenção de um povo, isto é, uma possibilidade de vida. Escrever por esse povo que falta… (“por” significa “em intenção de” e não “em lugar de”).

AGAMBEN, Giorgio. [1977] Estâncias: A palavra e o fantasma na cultura ocidental. Tradução de Selvino J. Assmann. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007. p. 10-11.

BARTHES, Roland. [1973] O prazer do texto. Tradução de J. Guinsburg. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 2004. p. 24.

DELEUZE, Gilles. [1993] Crítica e clínica. Tradução de Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1997. p. 15.

DERRIDA, Jacques. [1992] Essa estranha instituição chamada literatura: Uma entrevista com Jacques Derrida. Tradução de Marileide Dias Esqueda. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014.