Um teste de brilho e cor

um teste de brilho e corComo, soubesse das letras sujas de um jornal, lê-lo sem cegar? Como, então, desconfiando das letras interessadas de um jornal, endereçar a leitura? Como, ainda, tendo abandonado a oração matinal, salvá-lo sem mais doutrina? Ou então pendurar a página à visitação pública de olhares trabalhadores, como ainda fazê-lo? Talvez dissesse Gabriela Almeida: pintando-o. Talvez dissesse Gabriela Almeida: um teste de brilho e cor. Talvez dissesse Gabriela Almeida: fora do ar. Talvez dissesse Gabriela Almeida: derrubar a programação.

Desculpe o transtorno estamos em obras

Os escritores em oficina estão dedicados a compor seus trabalhos. Estamos em obras. Desculpe o transtorno.

Quando parou para pensar em como se apropriar da matéria textual do jornal, a Gabriela estava ouvindo música. Escutando a sua banda preferida: Engenheiros do Hawaii. E então a música, que naquele momento era a Gabriela, olhou para o jornal e decidiu começar a reescrevê-lo à força da música.

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Foi nascendo assim a ideia de compor clipes gráficos: a página do jornal sendo a matéria para a montagem das cenas-manchetes, das cenas-rasuras, das cenas-grifos.

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E um dos resultados, em rascunho, tateante:

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Morrer com Brás Cubas

Os alunos do ensino médio integrado ao curso técnico de música do Colégio Pedro II, ao lerem o romance de Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas, foram desafiados a imaginar musicalmente trechos do livro. Nesse vídeo, um trecho do capítulo I, “Óbito do autor”, em que o narrador descreve a “orquestra da morte”, foi o escolhido:

Agora, quero morrer tranquilamente, metodicamente, ouvindo os soluços das damas, as falas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão da chácara, e o som estrídulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fora, à porta de um correeiro. Juro-lhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. De certo ponto em diante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-me no peito, com uns ímpetos de vaga marinha, esvaía-se-me a consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e coisa nenhuma.

A música executada em ambos os vídeos é original.

No segundo vídeo, um trecho do capítulo XLV, “Notas”, em que o narrador expõe as notas (muitas delas sonoras) para um capítulo não escrito, serviu de partitura:

Soluços, lágrimas, casa armada, veludo preto nos portais, um homem que veio vestir o cadáver, outro que tomou a medida do caixão, caixão, essa, tocheiros, convites, convidados que entravam. Lentamente, a passo surdo, e apertavam a mão à família, alguns tristes, todos sérios e calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d’água benta, o fechar do caixão a prego e martelo, seis pessoas que o tomam da essa, e o levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos, soluços e novas lágrimas da família, e vão até o coche fúnebre, e o colocam em cima e traspassam e apertam as correias, o rodar do coche, o rodar dos carros, um a um… Isto que parece um simples inventário, eram notas que eu havia tomado para um capítulo triste e vulgar que não escrevo.

Desenhar a escrita

Ana Hatherly
Ana Hatherly

O trabalho de Ana Hatherly se dá entre a linha tipográfica do verso e a linha manuscrita da mão, por isso nunca consegui ver o trabalho de Ana Hatherly, pois se dá entre a linha tipográfica do verso e a linha manuscrita da mão. Algo como “um palimpsesto / feito de interfaces”, conforme definiu, em poema, a imagem. Poema e imagem que, aliás, são um a inter-face do outro. Quando Ana Hatherly morreu eu não sabia que Ana Hatherly havia deixado boa parte de sua obra invisível. Estava há anos encantado pela pulsação pulsional da “mão inteligente” e depois de ler “A idade da escrita – poema-ensaio” para o público particular que são os alunos e pronunciar silabadamente que a escrita “é POR CAUSA DOS OUTROS”, que a nossa é “a IDADE DA ESCRAVATURA DA ESCRITA”, que “Ainda não sabemos pensar de outro modo”, pude aprender algo sobre ser a escrita “sinônimo de imagem” e, assim, poder ser a escrita um modo de, “escrevendo imagens”, desescrever o tempo. Foi assim que aprendi que nunca consegui ver o trabalho de Ana Hatherly, pois o trabalho de Ana Hatherly se dá entre a linha tipográfica do verso e a linha manuscrita da mão, e por isso quando Ana Hatherly morreu eu não sabia que Ana Hatherly havia deixado boa parte de sua obra invisível.

Foi para aprender a ver a obra invisível de Ana Hatherly que propus aos escritores em oficina, no Colégio, desenharem a escrita e, desenhando-a, escreverem alguma imagem. O desaparecimento biográfico de Ana Hatherly legou, em luto, ali, na cena da oficina, o gesto de sua mão. O tempo foi, talvez, desescrito. Foi, para os escritores em oficina, uma possibilidade de escrever.

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Mariana Freitas
João Pedro Rodrigues
João Pedro Rodrigues
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Pedro Teixeira
Luccas Octaviano
Luccas Octaviano
Paulo V. Santana
Paulo V. Santana
Gabriela Almeida
Gabriela Almeida
Alexandre Magalhães
Alexandre Magalhães
Mariana Pereira
Mariana Pereira

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Isabela Gama
Isabela Gama

O poema ao mesmo tempo

Augusto de Campos
Augusto de Campos

Há quem diga que eu não sei de nada, que ele não sabe de nada e que eles não sabem de nada. Há quem diga que o poeta se repete, há quem diga que o poeta é um gênio. Quanto a mim, fico só lendo e olhando, procurando num poema como o de Augusto de Campos, sua nova homenagem a Mallarmé, escutar como o meu olho, sem saber ler, topa com um NEO poema que, se BEM LER, escapa à leitura daquele que o lê ao vivo, letra a letra. Ao pé da letra, ali, à escuta, ninguém é contemporâneo de poema algum, que só se lê depois de ter sido lido, como poema algum se faz antes de ter sido feito. Que o espaço minguante do poema em forma de tornado tenha levado cada escritor em oficina ao olho do furacão e tenha podido legar rabiscos caligráficos para a memória de um dia na escola em cinco de agosto de dois mil e quinze, às treze horas, na sala de espelhos.

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Paulo Santana
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Síntique Vital
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Alexandre Magalhães
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Gabriela Almeida
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Júlia Moura
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Mariana Freitas

Mario é gay

Agora foi uma série de fait divers que constituem dois poemas do livro de Rodrigo Garcia Lopes, o Experiências extraordinárias, que organizou a produção da oficina de hoje, e a imaginação dos escritores marcou os nomes próprios dos outros artistas com a mancha perversa da banalidade fabricada por uma manchete de revista de fofoca. O gozo de saber-se conhecedor da vida & obra de alguns desses artistas compete, aqui, com o mal estar tão facilmente produzido por uma ou duas frases que inutilmente representam a banalidade da vida de qualquer um. No fim, sendo Mario de Andrade gay ou não, discreto ou não, assumido ou não, sendo Mario de Andrade Mario de Andrade ou não, é algo além do nome próprio Mario de Andrade o que, algum dia, pulsou num corpo e emitiu, em obras, sinais de existência. Sendo o Brasil homofóbico, e é, é bom que Mario de Andrade, póstumo, se assuma, assim como é bom que nudes de Chiquinha Gonzaga, a surdez de John Cage, a higiene do bigode de Leminski, a vida íntima de Banksy etc. venham à tona, antes tarde do que nunca, que é pra isso que serve, também, ficção: para destruir o nunca.

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O que há em comum não é normal

Ainda frequentando o livro de Nathalie Quintane, sobre o qual veio falar o Bruno Domingues, colega e amigo, a oficina dessa vez se fez, como o fez a poeta Nathalie Quintane, imaginando um corpo congenitamente anormal, e imaginando, ainda, numa narrativa, a sobrevivência à anormalidade. Escrever é anormal. E são os incipit desses textos que aqui se podem ler, à revelia dos autores, que assinam cada frase, sob o risco de, ao imaginar o corpo anormal, encontrar-se no lugar-comum e assim, quem sabe, através da linguagem, notar que o que há em comum não é normal.

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oficina_paulo santana

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