Por que desejo escrever literatura?

A Gabriela Almeida é uma das estudantes bolsistas que participam da Iniciação Artística em poesia no Colégio Pedro II, e escreveu esse relato sobre a relação dela com a escrita. Sei bem que os alunos do Colégio não são a regra, mas muitos deles e muitos outros nos fazem repensar o discurso clichê a respeito da falência do ensino básico no Brasil. Então, se liga no estilo da garota!

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Por que desejo escrever literatura? Bom, é ótimo que tenha 20 linhas para dissertar sobre o assunto! Literatura, assim como a arte no geral, é minha grande paixão. Desde pequena, minha casa sempre foi rodeada de livros – afinal, papai e mamãe são professores de língua portuguesa. Eles liam para mim todas as noites (e não só contos de fada: havia Vinícius de Morais, Cecília Meireles e muitos outros) até eu, aos quatro anos, começar a ler sozinha.
A vontade de produzir meu próprio conteúdo surgiu cedo. Lembro-me de quando tinha seis anos e escrevi a história “A Identidade Secreta”, que coloquei em pedaços de papel e ilustrei com meu pai. Mais tarde, aos nove anos, fiz o roteiro do curta-metragem “Assalto à geladeira”, gravado com a filmadora do papai e estrelado por meu primo Thiago.
Quando as professoras do ensino fundamental anunciavam a data da prova de redação, eu entrava em êxtase (sim, eu sei, isso é meio Clarice Lispector em Felicidade Clandestina). Só não achava tão maravilhoso quando mandavam-nos escrever textos argumentativos, embora também os adorasse. Mas narrativas? Envolvia-me tanto que geralmente era a última a sair da sala. É uma pena que esse tipo de texto não seja muito trabalhado no ensino médio (um dos motivos pelos quais achei o projeto brilhante).
Eu tenho meu material literário, porém nunca cheguei a publicar nada. O máximo que fiz foi escrever para o Globinho (falecido caderno infantil do jornal O Globo), quando tinha nove anos. Como disse, literatura é minha paixão. Não escrevo visando publicar, escrevo porque amo, porque sinto prazer nisso. Critico o sistema social, falo sobre amor verdadeiro e felicidade. Amo o que faço e quero fazê-lo para sempre.

Poesia concreta e escrita dialética

POEMA NOVO NO VELHO: POESIA CONCRETA E ESCRITA DIALÉTICA, publicado na Revista Diadorim (Letras Vernáculas/UFRJ)

RESUMO

O ensaio revisita os textos de Augusto de Campos e Roberto Schwarz motivados pela publicação do poema “pós-tudo (1984)”, procurando confirmar a hipótese de que o processo de redemocratização esteve vinculado a uma revisão da atitude vanguardista nas intervenções de Augusto de Campos no campo cultural, acompanhando à sua maneira a iniciativa de seu irmão, Haroldo de Campos. A leitura do poema empreendida por Roberto Schwarz seria, para além da sua atitude polêmica, uma estratégia de deslegitimação cultural de tal mudança de postura, de modo a preservar a interpretação do poema “pós-tudo” de acordo com os princípios estilísticos da poesia concreta, e assim flagrar-lhe uma nota de atraso cultural. Por fim, o debate trouxe à tona, a nosso ver, dois projetos estilísticos para a cultura brasileira, um fundamentado na prosa de Machado de Assis, e o outro, na crença (não sem ironia) no valor utópico das semelhanças casuais entre os significantes da língua, reformuladas poeticamente pelos procedimentos advindos da poesia concreta. Sem residir nem em um nem em outro, o Brasil – se puder ser nomeado – parece oscilar entre os projetos e descansar em seus intervalos.

PALAVRAS-CHAVE: poesia concreta; escrita dialética; pós-tudo.

Dois post-its online: Bataille, Débord

Trecho de A vontade do impossível, de Georges Bataille (1897-1962), traduzido por Fernando Scheibe, seguido de trecho de All the King’s men, de Guy Débord (1931-1994), traduzido por Emiliano Aquino.

A poesia não é mais que um desvio: escapo por ela ao mundo do discurso, ou seja, ao mundo natural (dos objetos): entro por ela numa sorte de túmulo onde, da morte do mundo lógico, nasce a infinidade dos possíveis.

O mundo lógico morre parindo as riquezas da poesia, mas os possíveis evocados são irreais, a morte do mundo real é irreal; tudo é suspeito e fugidio nesta obscuridade relativa: nela posso zombar de mim-mesmo e dos outros. Todo o real é sem valor, e todo valor é irreal. Daí essa fatalidade e essa facilidade de deslizamentos em que ignoro se minto ou se estou louco. Dessa situação pegajosa procede a necessidade da noite.

SCHEIBE, Fernando (Tradutor). A vontade do impossível, de Georges Bataille. Crítica Cultural – Critic, Palhoça, SC, v. 9, n. 2, p. 335-338, jul./dez. 2014.
Guy Débord

A poesia é cada vez mais claramente, enquanto lugar vazio, a antimatéria da sociedade de consumo, porque ela não é uma matéria consumível (segundo os critérios modernos do objeto consumível: equivalente para uma massa passiva de consumidores isolados). A poesia não é nada quando ela é citada, ela pode somente ser desviada (détournée), recolocada em jogo. O conhecimento da poesia antiga é, de outro modo, somente exercício universitário, realçando funções de conjunto do pensamento universitário. A história da poesia é somente, então, uma fuga diante da poesia da história, se entendermos por este termo não a história espetacular dos dirigentes, mas sim a da vida cotidiana, de sua ampliação possível; a história de cada vida individual, de sua realização.

AQUINO, João Emiliano. All the King's men, de Guy Débord. poiesis trabalho & cultura [blog], publicado em janeiro de 2008.

Paul Valéry, Emily Dickinson

A célebre fotografia de Valéry em 1946, por Henri Cartier-Bresson

TEUS PASSOS | Paul Valéry

Em meu silêncio esses teus passos
Soam-me santos, compassados,
E em meu sentir, sem deixar traços,
Prosseguem calmos e calados.

Puro ser, sombra de sons mudos,
Como é suave o teu compasso!
Com que divino dom eu passo
A existir nesses pés desnudos!

Se te ocorrer ao meu escasso
Vazio aplacar o desejo
De ocupar o meu oco espaço
Com o alimento do teu beijo,

Não antecipes a ventura
De ser e não ser teu ex-passo,
Porque eu vivi essa doçura
De exercer meu ser no teu passo.

Poema de Paul Valéry (de Charmes, 1922) traduzido pelo Augusto de Campos, publicado no Musa Rara, com, como sempre, uns versos… como “Prosseguem calmos e calados”, foneticamente clássico, ou “Como é suave o teu compasso!”, que soa bem mais suave do que “Qu’ils sont doux, tes pas retenus !” com seus percussivos, pouco doces “doux, tes pas”.

O poema seguinte é outra tradução de Augusto de Campos, publicada há um ano pela revista Cult, de um poema da Emily Dickinson.

Henri Cartier-Bresson, 1951

[sem título], Emily Dickinson

A minha Vida era uma — Arma —
À Espreita — até que um Dia
Passou o Dono — e Me levou
Em sua companhia —
E agora em Selvas Soberanas —
Caçamos em Terras estranhas —
E sempre que por Ele eu falo
Ressoam as Montanhas —
Sorrio, e a luz cordial que mana
Todo o Vale irradia —
Tal uma face vesuviana
Fluindo de alegria —
E quando à Noite — Ido o Dia —
Eu velo o Sono do meu Mestre —
É mais suave do que Pluma
A Cama que nos resta —
Seu inimigo — é o meu —
Não ousa uma outra vez —
Quem meu Olho-Luz viu
Ou meu Dedo desfez —
Embora eu possa — viver mais
Maior ainda é o Seu poder —
Pois tenho só o de matar,
Sem ter o de — morrer —

Um vídeo no YouTube, um poema de Eucanaã Ferraz, o canto do cometa

FUGA

Escutei o cometa que canta
(no céu-tela de um sítio da web)
passarinho lançando-se doido
doido e cego de pedra e degelo
uma ilíada doida cantasse
de ninguém nenhum fato ou herói
sem sequer uma fibra cardíaca
cuco-meta esquecido do tempo
em mergulho que o tempo não marca
escutei o cadente tenor
pardal pardo de coma difusa
sabiá todo e só matemática
voo esquivo de pauta compacta
e confusa de teclas que nada
executa e no entanto a matéria
manivelas e cordas inventa
e gargantas e teclas descobre
no infinito do palco mais surdo
sem ouvidos e mouco de espírito
a capela e sem uma palavra
o cometa depara seu canto.

(FERRAZ, Eucanaã. Escuta: poemas. São Paulo: Comapnhia das Letras, 2015.)

Segunda parte do poema "Eis", de 'Escuta: poemas'
Segunda parte do poema “Eis”, de ‘Escuta: poemas’

Gosto de fazer listas e mais ainda de desistir delas

Nathalie Quintane, a poeta do dia de oficina Ato Zero

Bianca de Oliveira, Gabriel Bustilho, Gabriela Almeida, Júlia Moura, Luysa Eduarda, Mariana Barcelos, Mariana Freitas, Paulo Santana, Síntique Vital, Ygor Macedo, o escritores das Observações a seguir, um pastiche das Observações de Nathalie Quintane, aquelas traduzidas por Carlito Azevedo e publicadas na revista Inimigo Rumor, abrindo o número 20 da revista, o último número da revista. Será preciso, como escreveu um dos escritores, será preciso desistir das listas, desistir das listas é mais gostoso ainda que fazê-las, será preciso desistir das listas como se desiste deste poema-lista, será preciso abandonar as listas, deixá-las ao léu na web, para, antes de chegar a desistir da próxima lista, poder fazer a próxima lista, pois desistir, aprendemos hoje com um dos escritores, desistir é condição do fazer, sem desistir da lista não é possível fazer outra lista, e as listas são infinitas naquilo que listam como são infinitas as listas que listam aquilo podem listar, assim como os poemas, os poemas são infinitos naquilo que dizem e em como o dizem assim como são infinitas as possibilidades de poemas que são infinitos naquilo que dizem e em como dizem.

OBSERVAÇÕES

Quando ando descalça chego a sentir uma sensação de alívio.

Até mesmo durante um engarrafamento, percebo que os sons do engarrafamento são um concerto musical.

Quando estou nervosa, eu mordo qualquer objeto que esteja segurando com a mão.

Quase sempre acordo com um galo cantando às sete da manhã, mas ele nunca se encontra na minha casa.

Se minhas unhas estão grandes, escrever se torna uma tarefa difícil.

Quando está muito frio, sinto a pele tatuada ficar mais sensível.

Um cheiro bom fica em minha memória por horas, pois tenho somente cerca de vinte por cento do olfato desenvolvido.

Quando me olho no espelho e fito meus olhos não me lembro dos olhos de ninguém.

Meu equilíbrio é mais inteligente que eu, principalmente quando há música no ambiente.

Quando grito muito, minha garganta fica seca.

Sempre quando gozo, emito sons pela garganta.

Se eu choro, sinto meus olhos arderem.

Ao andar pela rua, às vezes olho para os meus pés para evitar tropeçar.

Sempre que bebo algo muito gelado, minha cabeça dói.

Depois de cortar as unhas dos dedos da mão, torno-me incapaz de me coçar por vários dias.

Quando penso na respiração, automaticamente interrompo a respiração e depois passo a respirar lembrando que respiro.

Sinto prazer ao abrir a geladeira nos dias mais quentes do ano.

Escrevo um poema, posso ser quem eu quiser sem deixar de ser ninguém.

Ao final do dia, antes de dormir, meus pensamentos projetam um resumo do dia.

Quando digito um poema, sinto-me como um fumante sem cigarros.

Ao acordar sempre me culpo por não ter ido dormir mais cedo.

Quando me vejo diante de um espelho vejo aquilo que os meus olhos veem.

Sempre que um caminhão de lixo passa ao meu lado prendo a respiração.

A última parte do meu corpo a ser molhada, no banho, e a cabeça.

Às vezes, ao tirar uma foto junto com outras pessoas, esqueço de sorrir.

Quando estou em pé, não consigo distribuir o peso do corpo igualmente entre meus pés, então jogo o peso do corpo sobre a perna esquerda e o pé direito fica levemente mais para frente.

Quando estou pensando, seguro o lábio inferior da minha boca com o polegar e o indicador da mão esquerda.

Se escuto música quando estou junto com um amigo, o fone de ouvido deve estar apenas no ouvido do lado em que meu amigo não se encontra.

Para passar o tempo, mexo no pingente do meu cordão e apoio-o sobre meu nariz.

Quando recebo uma mensagem no celular, espero alguns segundos antes de lê-la, mesmo que o celular esteja aberto na conversa.

Quando minhas unhas estão grandes, minha boca anseia por elas, e meus dentes roem a parte branca, que fica na ponta.

Se me importo com algo, mas tenho que fingir o contrário, dou um leve bocejo com ar de indiferença.

Às vezes, quando prendo o cabelo bem no topo da cabeça, sinto um calafrio na nuca que faz meu corpo inteiro tremer por um segundo.

Quando passo rímel nos olhos, minha boca se abre em formato de “o”.

Quando vou tirar uma selfie, minha testa se enruga.

Só consigo estudar no meu quarto deitada de bruços sobre a cama, na direção contrária à que durmo.

Às vezes, sem nenhum motivo específico, começo a tamborilar os dedos.

Quando estou atrasada para um compromisso, sinto uma inexplicável vontade de fazer xixi.

Quando entro numa biblioteca, respiro bem fundo para poder sentir o cheiro dos livros.

Quando mordo o lábio inferior da boca, às vezes sangra.

Quando mordo a tampa da minha caneta, sinto um gosto salgado.

Quando visto a mochila, sempre a penduro no meu corpo começando pelo ombro direito.

Quando como, o garfo está sempre na mão direita, mas quando corto a carne troco a faca para a mão direita.

Meus óculos caem do meu rosto sempre que tento olhar para o chão.

Gosto de fazer listas, e mais ainda de desistir delas.

Poderia ficar horas desenhando círculos.

Odeio sentir cheiro de tinta de caneta.

Reconheço que estou adormecendo quando os pensamentos e os sonhos se confundem.

Quando acordo de repente, noto que estava dormindo com a boca aberta.

Quando preciso levar todos os livros didáticos para a escola, minhas costas doem.

Percebo que, mesmo que eu estude, não consigo tirar boas notas em física.

Detesto sentir minhas unhas passando sobre a superfície de uma toalha.

Quando bebo água, às vezes inflo as bochechas e molho o lábio inferior para uniformizar a umidade dos lábios.

Na sala de espelhos, eu sou duas escrevendo.

Olhei rapidamente para o espelho e achei que meu reflexo fosse outra pessoa.

Quando não tenho palavras para usar, invento.

Num dia de calor, quando as primeiras gotas da chuva caem sinto cheiro de terra molhada.

Sinto mais frio nos braços do que nas pernas.

A poesia gosta que eu esteja incompleta

oficina 2

Mais dois poemas, de Júlia Moura, que escreve “A poesia gosta que eu seja incompleta”, e Claudio Santos, com “Carne com batata”.

A poesia gosta que eu esteja incompleta

Eu chego
No conforto
No silêncio
O dia já foi cumprido
Mas nem metade passou
O caminho já, longo e rotineiro
As lembranças de vozes e sorrisos
Já passaram
E tudo que poderia me ocupar
Já foi
E ficou
Como as imagens confusas da janela do ônibus
Como as pessoas que me esbarram
E suas histórias
E quanto a rotina cansa de sufocar
E o vazio toma conta
Da casa
As palavras vêm se fazem donas
Saem
Do modo que acham melhor
Sem floreios rimas
Esse momento passa
Voltam as rotinas
Lembro dos cálculos
Exatidões que me perseguem
E a poesia que antes se impunha
Se esconde
Por completo, se faz de tímida
Agora estou ocupada, cheia talvez
A poesia gosta
Que eu esteja incompleta
Para preencher
Invadir
E então sair
E se mostrar
Pro mundo

Carne com batata

Carne com batata
faz com que eu
esteja aqui

na oficina, mas
o assunto é
carne com batata

Aquela gosma
que se desprende
da placenta da mãe

Aquela forma quadrúpede que
por meses se fez gorda
andando num pasto, com seus iguais

Já no ponto certo, abatida a bala
pronta para o corte, depois de escalpelada
embalada no plástico, feito de polímeros

projetado outrora por uma série de químicas
5 anos de faculdade para 3 horas de viagem
do campo ao mercado, minha carne portentosa

mercado que não lembro ao certo
mas foi lá que minha mãe comprou
juntamente com as batatas

que foram plantadas no campo
adubadas quimicamente, irrigadas incessantemente
até que fossem colhidas, lavadas, trazidas

por fim, só restou serem vendidas
para dona minha mãe
A noite tem seu cheiro

mas ontem eu só sentia
carne com batata
que por horas numa panela

fez-se apta ao consumo
Hierarquicamente os Santos
foram servidos

primeiro o patriarca depois o seu rebento
por último minha mãe
que preparou tudo mas não produziu nada

O constante subir e descer da mandíbula
triturava a carne, que corria pelo esôfago
em forma de papa triturada

No estômago a papa foi banhada por
líquidos enzimáticos, e nas outras
estruturas digestivas também

No intestino a absorção dos nutrientes que
através de um processo químico
vai gerar para o corpo energia

para pôr o ponto final.

Na sala de espelhos

detalhe do paulo

Não somente um poema não se basta, como também um poema não basta. O poeta repete que a arte existe porque a vida não basta, e se nem vida nem poema bastam então seria o caso de, ao escutar algum poema, assumir a tarefa de torná-lo insuficiente com outro poema, e outro, e outro, e outro, e outro. Escrever sob o impacto dos espelhos, porque pela primeira vez a oficina aconteceu numa sala de espelhos, que havia funcionado como sala de dança no Colégio Pedro II. Escrever sob o impacto dos espelhos, porque dessa vez a oficina homenageou a poeta Marília Garcia, que em 2014 publicou um livro que pôs o leitor de poesia em alerta para os poemas que vêm, o teste de resistores. Escrever sob o impacto dos espelhos, porque na antiga sala de dança, que preserva os espelhos que se refletem provavelmente ao infinito nas suas paredes paralelas, leram-se poemas da Marília Garcia e produziram-se poemas sob o impacto dos poemas da Marília Garcia. Escrever sob o impacto dos espelhos, porque, apesar de os espelhos não terem se estilhaçado, a cena da escrita era a sala de espelhos, e, no entanto, ninguém se olhava através dos espelhos, pois estavam todos muito ocupados, na sala de espelhos, com os poemas.

oficina

Foram vários os poemas acontecidos na oficina do dia 6 de maio, e aos poucos eles serão publicados, a começar por dois dos mais fortes, o do Paulo Santana, Meu namorado é cineasta, e o da Mariana Freitas, Oito.

Meu namorado é cineasta

acordo
engasgado com um poema, cumpro um ritual
– não há espaço para a poesia

ando na rua, pego um ônibus, vejo pessoas
pessoas falantes, sonolentas, arrumadas, bagunçadas
– será que elas têm poesia?
(na boca? na cabeça? na bolsa?)

chego no colégio cedo, vejo colegas preocupados
não por causa disso, poesia, mas pelo teste
que vai acontecer
a primeira aula não acontece, a professora de literatura está doente
– muita poesia tem efeito colateral?

o tempo passa, o teste chega, a ansiedade grita
finalmente escrevo
escrevo números pensados por outras pessoas
escrevo cálculos tão elaborados que são quase poesia
quase
– o que define poesia?

hora do recreio, dia de profissões
(quase) todos vestidos do que “vão ser quando crescer”
meu namorado é cineasta
minha amiga é cineasta
minha outra amiga é fã de música coreana
– há poetas entre médicos, jogadores de futebol, professores, artesãos?

aula seguinte de francês, lemos textos sobre acontecimentos inusitados
quebras de rotina que são como poesia
– é possível uma rotina com poesia?

no fim da aula, encontro meu namorado numa oficina de literatura
ele encontrou poesia, ele ouviu poesia, ele escreveu poesia
lembrei do poema que estava preso na garganta, ele volta a incomodar
– meu namorado é poesia?

almoço do dia: arroz, feijão, carne (sem batata) e conversas
conversas sobre aulas, sobre relacionamentos, sobre faculdade
não sobre poesia
– o que eu sei falar sobre poesia?

depois meu namorado diz que tem algo a me mostrar
o poema Navio Negreiro, do Castro Alves
começo a ler, até que percebo que são seis páginas e paro
esse aqui tem só três
– consigo fazer mais?

chegou a minha vez de fazer a oficina literária
dessa vez é numa sala de espelhos que já viu muitos dançarinos
acho que a literatura encontrou o seu lugar
– existe lugar certo para a poesia?

enquanto ouço meu professor ler poesia, escrevo um poema na cabeça
gosto do poema que ouço
e do efeito que as palavras carregadas pela voz suave têm em mim
– qual a diferença entre ler e ouvir um poema?

começo a escrever este poema
vermelho traduz o meu sangue
a mão que escreve é a mão da punheta
– é biologicamente possível gozar lendo um poema?

estou atrasado, preciso terminar este poema
todo poema tem seu fim
mas a poesia (ou não) está sempre por aí
ainda sinto um incômodo na garganta
o poema que estava (e está) entalado é outro
– como se livrar do peso de algo não escrito?

Oito

somos seis em uma sala
cada um com seu papel
em branco
tarde nublada
céu pronto para chorar
nós somos seis
seis infinitos
particulares
seis tentativas
seis erros
nós somos seis
prova de inglês mais tarde
cansaço nos olhos
nas costas
brigas com minha mãe
mas agora eu sou seis
juntos um amor
e enquanto escrevo
tentativa de escrever
nos tornamos oito
dois estavam perdidos
mas se acharam
acharam o lugar onde se acham
onde se sentem
me sentem
me sinto
mais viva
somos oito
em busca de palavras certas
olhando os espelhos
para reconhecermos a nós mesmos
sou oito
não
sou sete
ela acabou de levantar
foi
qual o seu nome?
não lembro
agora sou sete
esqueço do mundo lá fora
para passear pela minha mente
somos sete
sete posições diferentes
sete ideias
sete acertos
alguns já conseguiram
chegar
onde queriam
ainda caminho
meio insegura
afinal, onde
quero chegar?
acho que aqui
onde estou
onde
estamos
nós sete éramos seis
oito
depois sete
éramos tanta coisa
que pode ser difícil
de lembrar
agora, vejo que
tudo virou poesia
a única coisa que se vê
é o silêncio
cheio de gritos
cheio de mim
e deles
cheio de nós
somos seis
o Paulo foi embora
somos quatro
as meninas disseram tchau
e antes que as pessoas acabem
digo que é hora de terminar
a procura já virou palavra
a borboleta pousou na folha

12 imagens de ’20 poemas para ler no bonde’

Página de ’20 poemas para ser leídos en la tranvia’, com ilustração de Oliverio Girondo

“E encontramos ritmos ao descer a escada, poemas jogados no meio da rua, poemas que recolhemos como quem junta bitucas na calçada.” E se, depois de publicados, os poemas nascem das cinzas dos cigarros das calçadas, então o leitor pode fazer o mesmo com os versos de um livro tão delicioso como 20 poemas para ler no bonde (1922), de Oliverio Girondo, lido e citado na tradução, publicada em 2014, de Fabrício Corsaletti e Samuel Titan Jr. Um catálogo de imagens da poesia de vanguarda.

12 imagens de 20 poemas para ler no bonde (1922)

Enquanto as velhinhas, com gorrinhos de dormir, entram na nave para se embebedar de orações e para que o silêncio deixe de roer por um instante
o nariz de pedra dos santos.
A manhã sai a passeio na praia polvilhada de sol.
Por oitenta centavos, os fotógrafos vendem os corpos das mulheres que se banham.
De cara maquiada, os edifícios trepam uns por cima dos outros e, quando chegam ao alto, viram o lombo para que as palmeiras lhes deem com o espanador na laje.
No quinto andar, alguém se crucifica ao abrir de par em par uma janela.
Europeus que usam uma escarradeira na cabeça.
Lampiões doentes de icterícia!
Com um braço preso à parede, um lampião apagado tem uma visão convexa da gente que passa de automóvel.
Junto ao meio-fio, um quiosque acaba de tragar uma mulher.
Passa: uma inglesa idêntica a um poste de luz.
E, à noite, a lua que se desagrega no canal simula um enxame de peixes prateados ao redor do anzol.
E enquanto, diante do altar-mor, o sexo das mulheres se molha quando contemplam um crucifixo que sangra por suas sessenta e seis costelas, o padre mastiga uma prece como um pedaço de chewing gum.