Voz e assinatura

A RED_Revista de Ensaios Digitais, editada pela Daniele Versiani, publicou Voz e assinatura, um ensaio visual que reúne parte da produção da Oficina Literária Ato Zero durante o ano zero da oficina, 2014.

A edição de estreia da revista conta também com trabalhos de, entre outros, Eneida Maria de Souza, Marília Rothier Cardoso, Luiz Ruffato, André Vallias e Ana Kiffer.

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Quatro poemas muito similares

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Jiri Valoch

O arquivo da poesia visual é uma caixa de brinquedos: quase cada poema inventa o procedimento a ser, em oficina, refeito pelos escritores lançados à escrita para ser vista. Desenhos, escrita circular, cores, novas línguas na língua, palimpsestos. Os recursos encontrados recorrem à letra e fica evidente a dança do significante. E a manuscritura dos poemas nos mergulha na escola, onde rareiam os recursos técnicos, os computadores disponíveis e o tempo de aula urge em série no entra e sai de cada professor e sua pretensa especialidade. A delicadeza das letras e suas inscrições. A contundência dessa delicadeza. Cada escritor escolheu um poema visual para chamar de seu e o refez ao seu modo. No fim deu no que deu, ou seja, nesses textos costurados pela rede de olhares que se organizou em acampamento hoje, durante 1h30, no Colégio Pedro II de Realengo.

mariana albuquerque
Mariana Albuquerque
danilo sardinha
Danilo Sardinha
mariana batista
Mariana Batista
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Bruna Gonçalves

Adicionar ao dicionário

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Não rimarei a palavra sono / com a incorrespondente palavra outono. / Rimarei com a palavra carne / ou qualquer outra, que todas me convêm. Que palavra define outra palavra como carne define sono e não outono? Adolescente é réu, sonho é lama? Se o dicionário fosse outro dicionário, adolescente era réu, escritor, aluno, se o dicionário fosse o Google, adolescente era morto, detido, aborrescente, bicho, avaliado. Afinal, o que quer um adolescente e como ele sonha? Há jogos em oficina, e há adolescentes a fazê-los: que o jogo do adicionário (este que, escolhida uma palavra, aplica-se-lhe a definição de outra presente no dicionário) remonte o dicionário afetivo de quem, posto em jogo, se realfabetiza.

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Bruna Gonçalves
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Mariana Batista

Contra o Estado de dicionário

augusto de campos
não (1990), Augusto de Campos

Já houve quem dissesse que as palavras habitam um reino surdo, onde, paralisadas, esperam ser escritas. Os poemas, ali, já existem, só que mudos, em estado de dicionário. Acontecimentos, afinidades, aniversários, incidentes pessoais, corpo, sentimento, cidades, natureza, infância, não haveria, de acordo com rumores já escritos, não haveria ainda, nessas coisas, poesia. Publicados, os poemas transformam-se e, a confirmar outros boatos, as palavras, quando ditas, começam a viver nesse dia. O leitor, que as lê, desterra-as, mais uma vez, do reino surdo, e pode escutá-las transformadas, em estado de poema. O poema lido, relido, treslido, corre o risco de voltar ao dicionário, como monumento da cultura. Pois foi contra o Estado de dicionário, contra o reino surdo das palavras, que, sem outra lei que não a que organiza o Estado de poema, a Oficina Ato Zero propôs-se a atualizar um jogo oulipiano, o S + 7, e, folheando vários dicionários, reescrever os versos de Drummond. A cada palavra assinada por Drummond, cada escritor buscou a sétima seguinte no dicionário que consultava: Houaiss, Aulete, Unesp. Era preciso usar o dicionário como uma máquina de sonhar, e a formulação barthesiana, assim pensamos, põe-se a funcionar contra o reino das palavras e em prol do estado de poema, que faz falar.

penetra surdamente na reinvenção dos palavrosos
lá estão os poéticos que esperam ser escriturísticos
estão paramentados, mas não há desestímulo
há calo e frevo no superintendente integral
ei-los sós e mugindo, em estafa de dicotiledôneo

Gabriel Tomé

penetra surdamente no reintroduzir dos paleontólogos
lá estão os problemáticos que esperam ser escrotos
estão paramécios, mas não há desestatização
há calombo e frevo na superlotação integrada
ei-los sós e mudos, em estadunidense de diclorobenzeno

Mariana Batista

penetra surdamente na reinstalação dos palcos
lá estão os poetas que esperam ser escriturais
estão paralíticos, mas não há desestatização
há calombo e frete na superioridade inata
ei-los sós e mudos, em Estado Novo de dicotomização

Danilo Sardinha

A família se ela for um verbete

ilustração de a flor da pele de armando freitas filho de 1975
Ilustração de ‘A flor da pele’, de Armando Freitas Filho

Falar é trabalhar para a destruição do dicionário. As palavras, como se existissem, são listadas num dicionário, e ali dormem em estado de dicionário. Quando se deparou com a tortura, durante da ditadura civil-militar, Armando Freitas Filho precisou reescrever os significados do verbete pele, no poema A flor da pele (1975): 12. Fig. sua própria pessoa violentada; seu próprio corpo escancarado: sentir sua pele rasgada pela minha mão de gancho [q.v.]; ofender a pele, foder você. Roland Barthes, em 1980, pensou o dicionário como uma máquina de sonhar que, se usada à revelia de sua função catalográfica, transforma-se numa coleção de navios: cada palavra, a princípio precisamente descrita, convida ao passeio da imaginação pelos sentidos não escritos. Foi Drummond quem, por exemplo, esculpiu um poema passeando pelos sentidos de um verbete: áporo. Cada palavra, um inseto sem saída. Cada uma: aporia. Então o jogo foi responder à convocação do Instituto Antônio Houaiss, através do projeto Todas as Famílias, para redefinir o verbete família. O estranho familiar inscrito no verbete: porque agora o lexicólogo foi convocado, em coro de vozes, público e virtual, a reescrever e dar termo ao termo. No caso da Oficina Ato Zero, o procedimento seguiu a lição barthesiana: para descrever a coisa, para passar da palavra à coisa, ainda são necessárias outras palavras, e isso ao infinito. Por isso cada escritor em oficina escolheu, para definir família, o significado de outro verbete já descrito no dicionário Houaiss, procedimento que batizei de adicionário: no jogo do adicionário, o lance é adicionar verbetes desorganizando os significados do dicionário, trabalhando, assim, contra o dicionário. E para os escritores em oficina, família é, por ora, apesar, conjunto, inquestionável, retorno, vida.

 

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Júlia Moura
vida_gabriela almeida
Gabriela Almeida
retorno_luiz guilherme
Luiz Guilherme Barbosa
apesar_mariana freitas
Mariana Freitas
inquestionável_alexandre magalhães
Alexandre Magalhães

 

 

Paisagem linguística numa praça em Realengo

tentativa de esgotamento de um local parisiense
Tentativa de esgotamento de um local parisiense, Georges Perec

No dia 18 de outubro de 1974, às 10h30, Georges Perec sentou-se na Tabacaria Saint-Sulpice, em Paris, e começou um Esboço de inventário de algumas coisas estritamente visíveis, assim: Algumas letras do alfabeto, palavras. No dia 20 de abril de 2016, às 10h50, Bruna, Danilo, Guilherme e Mariana sentaram-se numa mesa de damas da pracinha da Igreja, em Realengo, e começaram a transcrever o que de escrito havia em avisos, livros, letreiros, ônibus, camisas, cadernos, pichações, orelhão, as letras que uma praça qualquer da cidade do Rio de Janeiro expõem à leitura pública dos olhos que passam. A paisagem linguística que, do lugar exatamente onde estávamos, foi possível compor, embora também se abastecesse de vozes ou da matéria linguística carregada nos fluxos eletromagnéticos, nas coisas e nas pessoas com quem estávamos na praça, foi grafada em atenção às letras que se desenhavam industrial ou artesanalmente nas superfícies visíveis. Como no poema de Oswald de Andrade, também ele composto a partir da observação dos letreiros de outra periferia da cidade do Rio de Janeiro, nova iguaçu (Confeitaria Três Nações / Importação e Exportação / Açougue Ideal / Leiteria Moderna / Café do Papagaio / Armarinho União / No país sem pecados), a montagem dessa paisagem de letras públicas revela certos usos do alfabeto de que somos capazes quando nos reconhecemos como uma comunidade linguística. É nós. Escrever a comunidade, desenhando-lhe alguma paisagem, para forçar a língua a não comunicar, e a comunidade difira.

 

Retornaremos às aulas em 26/04
Tradução de
Fisk, Fisk, Fisk
803 Taquara
A floricultura que decora a chegada do Papa ao Brasil
BQN
Superman
Escola Municipal Nicarágua
SAUDADE DOS AMIGOS
ar-condicionado
A Emoção das Flores
VADIÃO
Oi
Berne → ADA
A Direção

Contra-ato de direitos autorais

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Oswald de Andrade, Serafim Ponte Grande

Assinar contratos de abandono em vez de posse. A impropriedade da autoria de tal maneira organizando cada cláusula, e então o contrato, ele mesmo, vai ruindo em sua autoridade de firmar uma relação justa entre as partes. Mas que partes compactuam num texto onde se lê incessantemente a indecisão de autor a leitor? Ou ainda, acompanhando o rigor de Giorgio Agamben ao tratar da questão: “O autor não está morto, mas pôr-se como autor significa ocupar o lugar de um morto”. As assinaturas do contrato em que, por excesso de rigor e risos, se abandonam os direitos autorais compõem apenas o bando de fantasmas que assombra, desde a escola, os leitores distraídos dos contratos sem cartório. Na escola, assinam-se contratos de abandono. Formar o bando é o ato do qual não há escape, firmar a letra no papel é o contrato que não abandona o bando. Um contra-ato. A máquina de escrever contra-atos de direitos autorais cede, em suas teclas, à força singular dos dedos que, firmando a letra, marcam, na letra, sua ausência. São máquinas contra-atuais os dedos escritores em oficina.

CONTRATO DE CESSÃO DE DIREITOS AUTORAIS_1CONTRATO DE CESSÃO DE DIREITOS AUTORAIS_2

 

 

 

 

 

 

n razões pra escrever

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Em maio de 1969, Barthes publicou, no Corriere della Sera, uma lista breve com as suas “Dez razões para escrever”: “não posso dizer por que nem para que se escreve”. Prazer, descentramento, “dom”, reconhecimento, amizade, tarefa (contra)ideológica, injunção de uma distribuição guerreira, fissura do sistema simbólico, sentidos novos, burla do fetiche da Causa. São razões para a imaginação da escrita, em lista para que escrever aconteça a cada vez solicitando o próximo número, imaginando-o. Quantas linhas tem a obra completa de Barthes? Um emaranhado. Alguém, na primeira oficina do ano, disse: me ponho à beira do abismo e depois não sei. Alguém também disse: o limite só se descobre no risco, depois. Daí a riscar o papel, arriscá-lo em lista de razões para escrever, foi ao que os escritores da oficina se lançaram, no começo, na sala de espelhos, com Barthes, Juliana, Mariana, Mel, Danilo, Bruna e Guilherme: um texto coletivo.

n razões pra escrever

 

para usar o alfabeto

porque não tem como falar

para insultar a realidade

registrar conversas

para desbagunçar minha bagunça e bagunçar logo depois

para propor oficinas

se transpassar

para fugir da realidade e ao mesmo tempo permanecer nela

para banalizar o cotidiano

para fazer do nada alguma coisa

Gustavo Silveira Ribeiro lê Alberto Pucheu

Sobre Mais cotidiano que o cotidiano, de Alberto Pucheu, ensaio de Gustavo Silveira Ribeiro:

Mais cotidiano que o cotidiano, nesse sentido, é a exploração de uma fissura no tempo, uma pequena abertura que possibilita a contemplação de zonas inesperadas no fluxo de acontecimentos que, na sua sucessão contínua e tantas vezes invisível, chamamos tempo presente. O agora, para Pucheu, são os rasgos no tecido homogêneo do tempo, interrupções que permitem imaginar, ainda que na brevidade de um instante, aquilo que o mundo guarda como potência e força de criação.