Textos curvos

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Trecho de O livro dos divãs, Tamara Kamenszain

Ainda para a Escola Brasileira de Psicanálise. Da escola para a Escola. Textos endereçados após a leitura de O livro dos divãs, da Tamara Kamenszain, que, a certa página traduzida por Carlito Azevedo e Paloma Vidal, anota: “Hoje sou eu quem pergunta ao Facebook / pelos limites da realidade”. Abra-se o Facebook, lê-se: “No que você está pensando?” Responda-se: “On me pense“. Responda-se: “pensa-se em mim”. Responda-se: Rimbaud. Responda-se: Júlia Moura. Responda-se: Síntique Vital. Responda-se, como Roberto Corrêa dos Santos: “- Muitos eus constituem o pronome curvo – eu“. Eis textos curvos.

Mansas
Me chegam palavras para tirar da mente
O vazio. Elas vêm sempre
Acompanhadas de seus verbetes:
Os reais e os que me são convenientes.

Aflorar é vir à tona, emergir,
Além de uma das minhas palavras favoritas.
Aflorar deveria ser tatuar flor:
“Marquei o afloramento para às 10”;
“Onde você aflorou seu braço?”

E se me perguntam o que penso agora,
Digo que não penso, verto,
Transbordo, como dizem os dicionários,
E lembro de pensar. E não verto mais,
Penso. E não escrevo mais. Penso.

Júlia Moura

Estava pensando completamente diferente do que estou pensando agora, como em uma montanha russa em cada verso meus pensamentos cursavam caminhos tortuosos, mas li: “por isso não opino por isso me escondo por trás da primeira pessoa”. O fato de ser judeu, ou melhor, o fato de ser determinadas coisas me faz temer me revelar e por isso me esconder na primeira pessoa? Quando ela diz: “isso responderia à pergunta de como me sinto: ‘uma garotinha’ diria minha mãe”. A infância representa a perdição, a falta de rumo. Ela estava perdida. No fundo, bem no fundo, todos nós estamos?

Síntique Vital

Algo sobre literatura

Gabriela Almeida, uma das escritoras da Oficina Literária Ato Zero, relata, nesse texto, a história de sua relação com a literatura, desde a infância até hoje, a adolescência. Esse foi um dos objetos textuais que foram lidos para o público presente na mesa organizada pela Escola Brasileira de Psicanálise no dia 13 de junho deste ano, da qual tivemos a honra de participar.

textos curvos.pngEu sempre fui muito chegada às palavras. Não sei o que exatamente nos uniu, talvez amor à primeira vista. Só sei que, desde que aprendi a brincar com as letras, nós nunca mais nos separamos. E esse momento aconteceu bem cedo em minha vida, eu comecei a escrever aos cinco anos, quando produzi meus primeiros textos. Quer dizer, eu já inventava histórias antes disso. Eu sempre gostei de histórias. E de palavras.

Lembro de várias noites em que, antes de dormir, meus pais liam pra mim. Havia vezes em que eram gibis da Turma da Mônica, outras em que eram fábulas do famoso livrão, e também tinha aquelas histórias do livro que ficava numa caixa bem grande escondida dentro da cabeça do papai ou da mamãe. A minha casa sempre foi rodeada de livros e palavras, então não foi muito difícil me apaixonar por tudo isso — mas, sei lá, eu não sei se me apaixonaria por uma casa cheia de números —, ainda mais com tantos incentivos vindos de meus pais, ambos professores de língua portuguesa.

A primeira coisa que eu me lembro de efetivamente escrever, sozinha, foi um livrinho que montei com papéis grampeados, que narrava aventuras vividas por Gabi (eu) e Clifford (meu cachorro). Eu acho que tinha seis anos na época. Fiz uns desenhos pra ilustrar a historinha, e, quando terminei meu trabalho, dei continuidade à série Gabi e Clifford; deviam ser uns quatro livrinhos no total. Quando eu tinha nove anos, escrevi um texto pro concurso de repórteres mirins do Jornal O Globo e fui selecionada. Não sei por que, mas não fiquei surpresa, já esperava conseguir (como eu era convencida!). A partir daí, não só os meus pais, mas todo mundo começou a me reconhecer pela escrita, e (eu não sei como, deve ser algum tipo de mágica) até hoje as pessoas me chamam de “escritora” mesmo nunca tendo lido nenhuma linha sequer minha. Deve ser a minha mãe que fala pra elas.

Eu sempre gostei muito de histórias, como já disse. E pra mim, literatura era basicamente isso até o ano passado. Narrações. A poesia estava lá, mas eu tinha um pouco de… não sei ao certo, talvez medo? Poesia era uma coisa muito difícil. Tinha que ser poeta. Eu era escritora, escritor não é poeta; poeta tem que ver beleza nas coisas e saber transformar isso em poesia. Eu vivia na prosa, na linha contínua. E se caísse nos versos? O abismo no fim de cada frase não era o habitual. A poesia doía. Ficava feia em mim. Eu tinha vergonha da poesia, e era melhor ignorar sua existência do que ter que admitir que eu não dominava as palavras por completo. Porque essa era a verdade, minha relação com as letras não era tão plena quanto eu pensava.

E então veio a pausa.

“O tempo”, falando-se em linguagem de relacionamentos.

Em 2013, eu tive uma ideia “brilhante” para um livro. Brilhante entre aspas porque a definição dessa palavra é atualizada constantemente, em termos de ideias, principalmente na adolescência. Algo que parece brilhante quando se tem 13 anos vira estúpido aos 14, e assim sucessivamente. Mas, voltando ao assunto, eu tive uma ideia. E desenvolvi uma história; escrevi o prólogo e o primeiro capítulo, super entusiasmada. Só que nessa época eu estava sem computador, e era difícil ficar escrevendo tudo à mão, então resolvi esperar. E aí, no meu aniversário de 14 anos, em julho de 2014, ganhei um notebook. Digitei a parte da história que já tinha e fui começar a escrever.

E algo inesperado aconteceu: eu não conseguia escrever. Eu tentava, tentava, mas as palavras não saíam. Não entendia o motivo de tal desgraça, o porquê de minhas amigas me abandonarem subitamente. Fiquei muito triste e desmotivada, até de ler eu tinha parado… Não encontrava mais fôlego pra respirar as palavras. E nesse período parecia que tudo de errado estava acontecendo comigo, o que me deixava mais desmotivada.

Continuei assim por um bom tempo, até o início de 2015, quando houve a culminância de todas as coisas ruins pelas quais estava passando. Minha professora de português do nono ano me chamou pra fazer parte de uma equipe de produção de textos argumentativos que ela ia fazer, com bolsistas. Eu fui fazer a prova animada, disposta a ter qualquer distração possível que me tirasse do sofrimento. Mas, quando cheguei lá, descobri que havia uma outra seleção acontecendo, pra um projeto de literatura. Nossa, como eu fiquei feliz. Aquela era a minha chance de voltar pra casa, de achar minha razão novamente nas palavras. Então respondi correndo às perguntas da professora e parti logo pra redação do outro projeto. “Por que desejo escrever literatura?” era a pergunta, e havia umas vinte e cinco linhas para respondê-la. Eu só me lembro de ser a última a sair da sala e, alguns dias depois, receber uma mensagem do meu amigo Alexandre dizendo que eu tinha ficado em primeiro lugar.

E então começou. A primeira oficina quebrou minhas expectativas. Pelo visto, não ia rolar narração; teria que lidar com a tão temida poesia. E meu primeiro desafio foi pensar em alguma coisa pra escrever nas mãos… Eu surtei. Não estava preparada. Vi as outras pessoas tendo tantas ideias boas — principalmente esse meu amigo, Alexandre, que estava em dúvida entre três frases diferentes — e eu sem pensar em nada. Claro que, no fim das contas, eu acabei pensando, mas foi um desafio muito grande, e não gostei tanto do resultado.

Toda semana eu ia pra oficina. E cada dia era uma coisa diferente, todas muito interessantes e distintas da ideia de literatura que eu tinha antes. Descobri que não é preciso contar uma história pra fazer literatura. Só é preciso ter desejo de escrever, desejo de transmitir sua arte para o mundo através das palavras. Não são só textos que compõem o que se chama de literatura: música, artes visuais e performances de todo tipo também fazem parte. O meu modo de encarar a própria arte mudou. E quanto mais eu ia às oficinas, mais eu gostava daquilo, mais eu escrevia, mais a minha visão se transformava, mais eu me aproximava do Alexandre, mais a minha vida ia se tornando diferente e mais eu me reconciliava com as palavras.

Chegou, então, o segundo semestre. Eu e Alexandre começamos a namorar. O professor passou uma proposta de trabalho final da oficina, que a gente deveria fazer usando o google ou o jornal impresso como meios de exploração. No começo, não gostei muito. Mas eu tinha que fazer alguma coisa, né. Então sentei no chão do meu quarto num domingo, com uma pilha de jornais no colo. Apertei o play do spotify numa playlist da minha banda nacional preferida, Engenheiros do Hawaii, e fiquei dando uma olhada no conteúdo que tinha em mãos. O jornal é uma coisa bem esquisita. Encontrei notícias de todo tipo (a maioria eram ruins), manchetes bizarras, muitas letras e muitos números.

Esse último elemento me aborreceu um pouco. Eu, particularmente, tenho um sério problema com os números — não sei o motivo, talvez seja só porque eles não são letras. E estava lá, observando o caderno de economia, quando começou a tocar “Números”, uma música que amo. Ela é uma crítica à obsessão da sociedade atual por esses elementos, que levam uma importância tão grande sem serem realmente importantes em muitos casos. A música corria em meus ouvidos enquanto eu fitava o papel, com raiva. Eu queria mudar aquilo. Eu não me importava com a economia, e não achava que merecesse um caderno inteiro de jornal (CHEIO DE NÚMEROS). E veio naturalmente: peguei canetas e fui riscando todos os números que estavam na página, desde a data até os gráficos econômicos. Ao fim, escrevi bem grande a primeira parte do refrão da música. “E eu, o que faço com esses números?”.

Aquilo foi libertador. Percebi que o jornal era meu, e poderia alterá-lo quantas vezes e como quisesse, o que se tornou meu projeto. Quando mostrei ao professor os jornais que tinha feito — que eram esses dos números, um com uma notícia feliz (da família que adotou uma criança que sofria maus-tratos), onde escrevi a segunda parte do refrão (“A medida de amar é amar sem medida”), e outro com várias manchetes coladas e um grande ponto de interrogação, com versos da música “3a do plural” —, ele os definiu como “clipes visuais” dos Engenheiros. Gostei bastante da ideia, o que me levou ao meu jornal mais importante.

Pensei o seguinte: o jornal representa o meu clipe. Posso transmitir o que eu quiser nessa TV, e boicotar todas as transmissões recorrentes. Olhei, olhei, olhei. O jornal não me agradava. Fiquei cansada de ver tanta informação manipulada, notícia trágica e, é claro, números, que decidi que não dava mais. Eu não queria mais jornal, não queria mais clipe. Eu ia tirar do ar. Sabe aquela imagem com várias cores que as televisões velhas exibiam quando estavam pifadas? Ela simbolizava exatamente o que eu queria. Pedi tinta guache pro professor e pintei meu jornal, tirei do ar tudo aquilo que não estava me agradando. Quando mostrei pro Alexandre, ele disse que estava tão lindo e inspirador que queria emoldurar. E o professor teve a mesma reação, com o acréscimo de comentários filosóficos sobre minha obra.

Bem, eu só queria dizer que amo literatura e que a oficina mudou definitivamente a minha vida como artista. Eu acho que nunca pensaria em boicotar um jornal, nem mesmo em me aventurar na poesia. E, caso fizesse, com certeza não teria tido tanto conforto e facilidade como tive, graças à oficina.

então hoje a oficina literária ato zero recebeu presentes do paulo

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o paulo santana partiu para estudar letras na usp e foi viver em são paulo
ele terminou no ano passado o ensino médio no colégio pedro ii em realengo
o paulo foi meu aluno em 2014 e desde então participava das oficinas literárias do colégio
até se formar no final de 2015
o trabalho que o paulo fez ano passado me comoveu muito
o poema-livro dele se chama <<meu namorado é cineasta>> mas ainda não está na internet
o paulo está no primeiro período de letras na usp
e começou a trabalhar na editora companhia das letras
então hoje a oficina literária ato zero recebeu presentes do paulo
presentes muito bonitos e potentes
meu deus obrigado paulo pela generosidade
e pelo recado que dá aos atuais escritores da oficina literária ato zero
paulo
esteja sempre por perto de mim e de nós!

Voz e assinatura

A RED_Revista de Ensaios Digitais, editada pela Daniele Versiani, publicou Voz e assinatura, um ensaio visual que reúne parte da produção da Oficina Literária Ato Zero durante o ano zero da oficina, 2014.

A edição de estreia da revista conta também com trabalhos de, entre outros, Eneida Maria de Souza, Marília Rothier Cardoso, Luiz Ruffato, André Vallias e Ana Kiffer.

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Quatro poemas muito similares

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Jiri Valoch

O arquivo da poesia visual é uma caixa de brinquedos: quase cada poema inventa o procedimento a ser, em oficina, refeito pelos escritores lançados à escrita para ser vista. Desenhos, escrita circular, cores, novas línguas na língua, palimpsestos. Os recursos encontrados recorrem à letra e fica evidente a dança do significante. E a manuscritura dos poemas nos mergulha na escola, onde rareiam os recursos técnicos, os computadores disponíveis e o tempo de aula urge em série no entra e sai de cada professor e sua pretensa especialidade. A delicadeza das letras e suas inscrições. A contundência dessa delicadeza. Cada escritor escolheu um poema visual para chamar de seu e o refez ao seu modo. No fim deu no que deu, ou seja, nesses textos costurados pela rede de olhares que se organizou em acampamento hoje, durante 1h30, no Colégio Pedro II de Realengo.

mariana albuquerque
Mariana Albuquerque
danilo sardinha
Danilo Sardinha
mariana batista
Mariana Batista
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Bruna Gonçalves

Adicionar ao dicionário

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Não rimarei a palavra sono / com a incorrespondente palavra outono. / Rimarei com a palavra carne / ou qualquer outra, que todas me convêm. Que palavra define outra palavra como carne define sono e não outono? Adolescente é réu, sonho é lama? Se o dicionário fosse outro dicionário, adolescente era réu, escritor, aluno, se o dicionário fosse o Google, adolescente era morto, detido, aborrescente, bicho, avaliado. Afinal, o que quer um adolescente e como ele sonha? Há jogos em oficina, e há adolescentes a fazê-los: que o jogo do adicionário (este que, escolhida uma palavra, aplica-se-lhe a definição de outra presente no dicionário) remonte o dicionário afetivo de quem, posto em jogo, se realfabetiza.

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Bruna Gonçalves
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Mariana Batista

Contra o Estado de dicionário

augusto de campos
não (1990), Augusto de Campos

Já houve quem dissesse que as palavras habitam um reino surdo, onde, paralisadas, esperam ser escritas. Os poemas, ali, já existem, só que mudos, em estado de dicionário. Acontecimentos, afinidades, aniversários, incidentes pessoais, corpo, sentimento, cidades, natureza, infância, não haveria, de acordo com rumores já escritos, não haveria ainda, nessas coisas, poesia. Publicados, os poemas transformam-se e, a confirmar outros boatos, as palavras, quando ditas, começam a viver nesse dia. O leitor, que as lê, desterra-as, mais uma vez, do reino surdo, e pode escutá-las transformadas, em estado de poema. O poema lido, relido, treslido, corre o risco de voltar ao dicionário, como monumento da cultura. Pois foi contra o Estado de dicionário, contra o reino surdo das palavras, que, sem outra lei que não a que organiza o Estado de poema, a Oficina Ato Zero propôs-se a atualizar um jogo oulipiano, o S + 7, e, folheando vários dicionários, reescrever os versos de Drummond. A cada palavra assinada por Drummond, cada escritor buscou a sétima seguinte no dicionário que consultava: Houaiss, Aulete, Unesp. Era preciso usar o dicionário como uma máquina de sonhar, e a formulação barthesiana, assim pensamos, põe-se a funcionar contra o reino das palavras e em prol do estado de poema, que faz falar.

penetra surdamente na reinvenção dos palavrosos
lá estão os poéticos que esperam ser escriturísticos
estão paramentados, mas não há desestímulo
há calo e frevo no superintendente integral
ei-los sós e mugindo, em estafa de dicotiledôneo

Gabriel Tomé

penetra surdamente no reintroduzir dos paleontólogos
lá estão os problemáticos que esperam ser escrotos
estão paramécios, mas não há desestatização
há calombo e frevo na superlotação integrada
ei-los sós e mudos, em estadunidense de diclorobenzeno

Mariana Batista

penetra surdamente na reinstalação dos palcos
lá estão os poetas que esperam ser escriturais
estão paralíticos, mas não há desestatização
há calombo e frete na superioridade inata
ei-los sós e mudos, em Estado Novo de dicotomização

Danilo Sardinha

A família se ela for um verbete

ilustração de a flor da pele de armando freitas filho de 1975
Ilustração de ‘A flor da pele’, de Armando Freitas Filho

Falar é trabalhar para a destruição do dicionário. As palavras, como se existissem, são listadas num dicionário, e ali dormem em estado de dicionário. Quando se deparou com a tortura, durante da ditadura civil-militar, Armando Freitas Filho precisou reescrever os significados do verbete pele, no poema A flor da pele (1975): 12. Fig. sua própria pessoa violentada; seu próprio corpo escancarado: sentir sua pele rasgada pela minha mão de gancho [q.v.]; ofender a pele, foder você. Roland Barthes, em 1980, pensou o dicionário como uma máquina de sonhar que, se usada à revelia de sua função catalográfica, transforma-se numa coleção de navios: cada palavra, a princípio precisamente descrita, convida ao passeio da imaginação pelos sentidos não escritos. Foi Drummond quem, por exemplo, esculpiu um poema passeando pelos sentidos de um verbete: áporo. Cada palavra, um inseto sem saída. Cada uma: aporia. Então o jogo foi responder à convocação do Instituto Antônio Houaiss, através do projeto Todas as Famílias, para redefinir o verbete família. O estranho familiar inscrito no verbete: porque agora o lexicólogo foi convocado, em coro de vozes, público e virtual, a reescrever e dar termo ao termo. No caso da Oficina Ato Zero, o procedimento seguiu a lição barthesiana: para descrever a coisa, para passar da palavra à coisa, ainda são necessárias outras palavras, e isso ao infinito. Por isso cada escritor em oficina escolheu, para definir família, o significado de outro verbete já descrito no dicionário Houaiss, procedimento que batizei de adicionário: no jogo do adicionário, o lance é adicionar verbetes desorganizando os significados do dicionário, trabalhando, assim, contra o dicionário. E para os escritores em oficina, família é, por ora, apesar, conjunto, inquestionável, retorno, vida.

 

conjunto_júlia moura
Júlia Moura
vida_gabriela almeida
Gabriela Almeida
retorno_luiz guilherme
Luiz Guilherme Barbosa
apesar_mariana freitas
Mariana Freitas
inquestionável_alexandre magalhães
Alexandre Magalhães

 

 

Paisagem linguística numa praça em Realengo

tentativa de esgotamento de um local parisiense
Tentativa de esgotamento de um local parisiense, Georges Perec

No dia 18 de outubro de 1974, às 10h30, Georges Perec sentou-se na Tabacaria Saint-Sulpice, em Paris, e começou um Esboço de inventário de algumas coisas estritamente visíveis, assim: Algumas letras do alfabeto, palavras. No dia 20 de abril de 2016, às 10h50, Bruna, Danilo, Guilherme e Mariana sentaram-se numa mesa de damas da pracinha da Igreja, em Realengo, e começaram a transcrever o que de escrito havia em avisos, livros, letreiros, ônibus, camisas, cadernos, pichações, orelhão, as letras que uma praça qualquer da cidade do Rio de Janeiro expõem à leitura pública dos olhos que passam. A paisagem linguística que, do lugar exatamente onde estávamos, foi possível compor, embora também se abastecesse de vozes ou da matéria linguística carregada nos fluxos eletromagnéticos, nas coisas e nas pessoas com quem estávamos na praça, foi grafada em atenção às letras que se desenhavam industrial ou artesanalmente nas superfícies visíveis. Como no poema de Oswald de Andrade, também ele composto a partir da observação dos letreiros de outra periferia da cidade do Rio de Janeiro, nova iguaçu (Confeitaria Três Nações / Importação e Exportação / Açougue Ideal / Leiteria Moderna / Café do Papagaio / Armarinho União / No país sem pecados), a montagem dessa paisagem de letras públicas revela certos usos do alfabeto de que somos capazes quando nos reconhecemos como uma comunidade linguística. É nós. Escrever a comunidade, desenhando-lhe alguma paisagem, para forçar a língua a não comunicar, e a comunidade difira.

 

Retornaremos às aulas em 26/04
Tradução de
Fisk, Fisk, Fisk
803 Taquara
A floricultura que decora a chegada do Papa ao Brasil
BQN
Superman
Escola Municipal Nicarágua
SAUDADE DOS AMIGOS
ar-condicionado
A Emoção das Flores
VADIÃO
Oi
Berne → ADA
A Direção

Contra-ato de direitos autorais

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Oswald de Andrade, Serafim Ponte Grande

Assinar contratos de abandono em vez de posse. A impropriedade da autoria de tal maneira organizando cada cláusula, e então o contrato, ele mesmo, vai ruindo em sua autoridade de firmar uma relação justa entre as partes. Mas que partes compactuam num texto onde se lê incessantemente a indecisão de autor a leitor? Ou ainda, acompanhando o rigor de Giorgio Agamben ao tratar da questão: “O autor não está morto, mas pôr-se como autor significa ocupar o lugar de um morto”. As assinaturas do contrato em que, por excesso de rigor e risos, se abandonam os direitos autorais compõem apenas o bando de fantasmas que assombra, desde a escola, os leitores distraídos dos contratos sem cartório. Na escola, assinam-se contratos de abandono. Formar o bando é o ato do qual não há escape, firmar a letra no papel é o contrato que não abandona o bando. Um contra-ato. A máquina de escrever contra-atos de direitos autorais cede, em suas teclas, à força singular dos dedos que, firmando a letra, marcam, na letra, sua ausência. São máquinas contra-atuais os dedos escritores em oficina.

CONTRATO DE CESSÃO DE DIREITOS AUTORAIS_1CONTRATO DE CESSÃO DE DIREITOS AUTORAIS_2