Leituras obrigatórias

Traduzi em 2019 essa crônica de Alejandro Zambra, que abre o livro No leer: Crónicas y ensayos sobre literatura (2018), para trabalhar em sala de aula com meus alunos do ensino médio. Zambra estudou no Instituto Nacional, uma escola pública antiga e prestigiada no Chile, semelhante ao Colégio Pedro II, onde dou aula. O texto, que eu saiba, é inédito em português até hoje, 26 de outubro de 2021.

Ainda me lembro da tarde em que a professora de espanhol virou para o quadro e escreveu as palavras prova, próxima, sexta-feira, Madame, Bovary, Gustave, Flaubert, francês. A cada palavra aumentava o silêncio e no fim somente se escutava o triste rangido do giz. Nós já tínhamos lido romances grossos, quase tão grossos quanto Madame Bovary, mas dessa vez o prazo era impossível: tínhamos apenas uma semana para enfrentar um romance de quatrocentas páginas. Começávamos a nos acostumar, no entanto, a essas surpresas: acabávamos de entrar no Instituto Nacional, tínhamos doze ou treze anos, e já sabíamos que a partir daí todos os livros seriam grossos.

Assim nos ensinaram a ler: à força. Ainda penso que os professores não queriam nos entusiasmar e sim nos convencer, nos afastar para sempre dos livros. Não gastavam saliva falando sobre o prazer da leitura, talvez porque eles tinham perdido esse prazer ou nunca o tinham experimentado realmente: supõe-se que eram bons professores, mas naquele tempo ser bom não era muito mais do que conhecer os manuais.

Como no poema de Parra, os professores vinham loucos com perguntas nada a ver. Mas em pouco tempo já conhecíamos seus truques ou tínhamos truques próprios. Em todas as provas, por exemplo, tinha uma questão de identificação de personagens, que envolvia típicos personagens secundários: quanto mais secundário fosse o personagem maior a possibilidade de nos perguntarem sobre ele, e assim gravávamos os nomes desanimados mas também com a alegria de garantir uma pontuação na prova.

Tinha certa beleza nesse gesto, pois na época éramos justamente isso, personagens secundários, centenas de crianças que cruzavam a cidade equilibrando apenas as mochilas de brim. Os vizinhos do bairro viam o peso e faziam sempre a mesma piada: parece que carrega pedras na mochila. O centro de Santiago nos recebia com bombas de gás lacrimogêneo, mas não levávamos pedras e sim tijolos de Baldor ou de Ville ou de Flaubert.

Madame Bovary era um dos poucos romances que havia na minha casa, então nessa mesma noite comecei a lê-lo, seguindo o método de urgência que tinha me ensinado meu pai: ler as duas primeiras páginas e em seguida as duas últimas, e só então, só depois de saber o começo e o final do romance, continuar lendo sem parar. Se não conseguir terminar, pelo menos já sabe quem é o assassino, dizia meu pai, que pelo que parece só tinha lido livros em que havia algum assassino.

A verdade é que não avancei muito mais na leitura. Gostava de ler, mas a prosa de Flaubert simplesmente me fazia cochilar. Por sorte encontrei, no dia anterior à prova, uma cópia do filme numa locadora em Maipú. Minha mãe tentou me impedir de ver, pois pensava que não era adequado para minha idade, e eu também pensava ou na verdade esperava isso, pois Madame Bovary parecia pornô, todo o francês parecia pornô. O filme era, nesse sentido, decepcionante, mas o vi duas vezes e enchi as folhas de ofício por todos os lados. Tomei nota vermelha, apesar disso, tanto que durante muito tempo associei Madame Bovary a esse vermelho e ao nome do diretor do filme, que a professora escreveu com ponto de exclamação junto com a nota baixa: Vincente Minnelli!

Nunca mais confiei nas versões cinematográficas e desde então acredito que o cinema mente e a literatura não (mas não tenho como demonstrar isso, é claro). Li o romance de Flaubert muito tempo depois, e costumo relê-lo mais ou menos na época do primeiro resfriado do ano. Não é misteriosa a mudança de gosto, pois coisas parecidas acontecem na vida de qualquer leitor. Mas é um milagre que tenhamos sobrevivido a esses professores, que fizeram todo o possível para nos mostrar que ler era a coisa mais chata do mundo.

Maio, 2009.

Fonte: ZAMBRA, Alejandro. No leer: Crónicas y ensayos sobre literatura. Barcelona: Editorial Anagrama, 2018.

A graça da gramática

Na tarde do dia 18 de outubro de 2021, uma segunda-feira, o perfil @muiedomianhanha publicou no Twitter uma sequência de prints de conversas familiares. O pai da “Carol” ficou muito preocupado quando, num belo dia, acordou para trabalhar e leu no WhatsApp, meio sonâmbulo, a mensagem da filha: “Oiii, não tenho pai”, que tinha sido enviada durante a madrugada. O pai não associou a frase à pergunta que tinha feito à filha na manhã do dia anterior (“Bom dia, Carol tu tens o Watssap do Emanoel?”). Além de ter passado o dia sem resposta, foi dormir sem ter sido atendido pela filha depois de insistir no contato, durante a noite.

Aproveitei esse tuíte, que em cerca de 48h recebeu mais de 260 mil curtidas, para continuar os estudos de morfossintaxe do período simples com meus alunos da segunda série do ensino médio. Partindo do princípio de que as ambiguidades sintáticas são fenômenos interessantes para a compreensão das relações gramaticais na língua (evoé, Noam Chomsky!), e de que estudar morfossintaxe implica tomar consciência dos processos sociais de comunicação (evoé, Mikhail Bakhtin!), a leitura do tuíte da Carol foi acompanhada pelo debate sobre experiência linguística e responsabilidade gramatical. Como assim?

Diversos comentários ao tuíte ressaltaram a ausência de vírgula como causa do mal-entendido. “A vírgula o terror do seu pai”, “a menina que matou a vírgula” ou “a vírgula poderia ter salvado o dia” representam perspectivas normativistas da situação, pois interpretam o engano na comunicação em virtude de uma norma ortográfica. A noção implícita nesses comentários é que o emprego da vírgula de acordo com a norma-padrão da língua evita ambiguidades. Nesse caso, de fato o uso da vírgula em “não tenho, pai” evitaria a ambiguidade da frase em perspectiva letrada. No entanto, supor que o uso da norma-padrão por si só evita ruídos na comunicação é um equívoco, pois esse tipo de evento pode acontecer em qualquer caso.

Mensagem do pai para a mãe da Carol

No Dicionário de Análise do Discurso, Patrick Charaudeau e Dominique Maingueneau propõem que a ambiguidade pode ser observada sob duas perspectivas. Sob perspectiva linguística, a frase do tuíte da Carol apresenta uma ambiguidade sintática, para a qual contribui a ausência da vírgula, observada com base na norma-padrão preconizada para o português brasileiro. Assim, o termo “pai” foi interpretado pelo interlocutor como objeto direto do verbo da oração, ou seja, como objeto da falta: pai é aquilo que ela, a enunciadora da frase, não tem. Apesar disso, a intenção da filha foi usar o termo “pai” como vocativo, ou seja, como chamamento da pessoa com quem se fala. Podemos concluir, então, que a “estrutura de superfície” da frase, a sequência de palavras lida, não revelou “a qual estrutura subjacente corresponde” necessariamente (Charaudeau & Maingueneau, 2012, p. 35).

No entanto, sob outra perspectiva de análise, o que está em jogo na ambiguidade da frase é o sentido implícito motivado pelo contexto de comunicação. A demora em receber uma resposta e o vínculo afetivo de cuidado com a filha parecem ter sido determinantes para a interpretação realizada por “Chico”, o pai. A resposta dada durante a madrugada, depois do longo silêncio durante o dia, e as condições de leitura da mensagem logo depois que acordou são outros fatores que participam do sentido da mensagem enviada pela filha. Sob perspectiva discursiva, o fantasma da vírgula se transforma num mero detalhe da interpretação da frase pelo pai. Dessa maneira, a ambiguidade da frase manifesta o complexo de relações afetivas que participa da comunicação entre Chico e Carol.

Clímax da conversa entre pai e filha

Eu não sei vocês, mas quando eu escrevo para as pessoas que eu mais amo, não gosto muito de usar vírgulas e pontos, prefiro supor que nos entendemos apesar das normas e dos padrões. Como o meme nos ensina, nem sempre a suposição está correta. E essa é a graça, ou a melhor parte dela. A situação de comunicação (uma conversa informal pelo celular) organiza o estilo que podemos usar e essa escolha está marcada pela natureza da relação social que estabelecemos com alguém. Usar ou não a vírgula não está em questão nessa conversa entre pai e filha. Compreender a gramática em perspectiva democrática demanda, a meu ver, apostar na solidariedade entre falantes e afirmar os diversos usos da língua. Afinal, se você for capaz de conversar, debater, pedir, duvidar, reconhecer, não vai ser culpa da vírgula.

O processo de letramento, que inclui a aprendizagem de regras gramaticais em uso, precisa ser orientado pela ética da comunicação, o que vale dizer: pela construção de um solo comum entre falantes. Concepções gramaticais que, a princípio, identificam no outro a falta, o erro ou o descuido são heranças colonialistas numa sociedade com agudas desigualdades no letramento da população, e não precisam ser perpetuadas pela escola ou pelas universidades. Nem mesmo pelas redes sociais. Reconhecer a graça do mundo (ou da timeline) quando ela acontece como uma “Babel feliz”, para lembrar a imagem de Roland Barthes para o prazer do texto, pode ser uma lição das aulas de português na escola rumo a outros modos de conviver. Gramática e literatura conjugadas: um fazer da democracia.

Nesse texto, fiz referência ao livro Dicionário de análise do discurso (2004), de Patrick Charaudeau e Dominique Maingueneau, publicado no Brasil em 2012 pela editora Contexto, e ao livro O prazer do texto (1973), de Roland Barthes, em edição publicada em 2004 pela editora Perspectiva.

Práticas de produção literária na escola

Frame da live

“Práticas de produção literária na escola” foi o título da live proposta no perfil de Instagram do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid) 2020-2022 na Faculdade de Letras da UFRJ.

Sob mediação de uma das bolsistas do projeto dedicado ao ensino de produção textual, Vitória Luize, a live consiste numa entrevista em que apresento uma abordagem pedagógica da produção literária em contexto escolar.

A ideia é compreender a produção literária como atividade inerente ao currículo e ao planejamento relativos à formação de leitores.

Para isso, é preciso refletir sobre as identidades docentes em relação ao escrever, a autonomia pedagógica dos professores e às práticas de leitura do texto literário.

Cartaz de divulgação

Agradeço às professoras Alessandra Fontes, Cristiane Barbalho, Leonor Werneck, Márcia Morais, Margareth Morais e Paula Alves, que tocam o projeto, e aos estudantes bolsistas — pelo convite e pela atenção.

Leitores da tela azul

Na segunda sessão do Simpósio Temático 4 do Congresso Internacional da Abralic, nesse ano de 2021, propus a comunicação “Leitores da tela azul: literatura e distanciamento social na escola contemporânea”.

Falando a partir de 1h27min de vídeo, apresentei um relato de experiência de leitura da novela O véu erguido, de George Eliot, em quatro turmas de segunda série do ensino médio, na situação de ensino remoto durante a pandemia de covid-19.

A sessão foi composta por cinco comunicações diversas, baseadas em experiências de ensino e pesquisa em escolas espalhadas pelo país. Além disso, o simpósio apresenta professores com diversidade de perspectivas teóricas.

Esse é o resumo da comunicação que propus:

As condições de ensino-aprendizagem durante a emergência sanitária que atravessamos parecem ter reposicionado o texto literário na sala de aula, no sentido de aproximar a sua abordagem da experiência de distanciamento social e mediação tecnológica a que estão submetidos leitoras e leitores em formação. Dadas as condições de acesso via internet à escola ou aos outros espaços de formação pedagógica, as aulas de literatura puderam se defrontar com a diversidade das cenas de leitura domésticas nas casas dos estudantes, e a desigualdade no acesso ao texto literário, problema pouco enfrentado no cotidiano escolar em geral. As estratégias possíveis são diversas, no entanto defendemos uma aproximação inicial ao texto literário por adolescentes e jovens adultos no ensino médio baseada na identificação com a narrativa. Essa comunicação propõe um relato de experiência pedagógica realizada durante os meses de fevereiro a maio de 2021 com estudantes da segunda série do ensino médio numa escola pública do município do Rio de Janeiro, os quais leram a novela O véu erguido, publicada em 1859 pela narradora britânica George Eliot, em diálogo com textos da tradição literária brasileira no século XIX. A análise das crônicas de leitura elaboradas pelos alunos em dois momentos distintos da leitura da novela visa flagrar cenas de leitura diversas em situação pandêmica, e compreender a subjetividade leitora imersa na “fornalha de déficit de atenção” (Türcke, 2015) alimentada pelas mediações tecnológicas, e as “posturas com relação à fragilidade e à impotência humanas” (Nussbaum, 2015) na leitura da trajetória de Latimer, o protagonista melancólico da narrativa. A hipótese de que a literatura pode formar comunidade com a leitura pública do texto será testada nessa análise que, por fim, dialoga com o ensaio de Vincent Jouve, “A leitura como retorno a si: sobre o interesse pedagógico das leituras subjetivas” (2015).

Escutar quem estuda

A roda de conversa Escutar quem estuda, proposta em parceria com o Sinpro-Rio, foi realizada na manhã do dia 18 de setembro de 2021 e reuniu oito estudantes de educação básica no Rio de Janeiro.

O objetivo principal foi propor diálogos entre experiências estudantis diversas, relatadas para professores e familiares que possam, assim, enriquecer os currículos praticados.

Estudantes de C. E. Infante Dom Henrique, CEFET/RJ, Colégio Pedro II, Educandário Santa Bárbara e Escola Oga Mitá desenvolveram diversos temas, como a saúde e o sono em tempos pandêmicos, as marcas da leitura na vida adolescente, e os sentidos da educação no cotidiano das famílias.

A organização desse evento contou com colaborações da profa. Maria Marta Cerqueira, que atua no Sinpro-Rio, da profa. Jucilene Nogueira, do CEFET/RJ, e da coordenadora pedagógica Beth Saraiva, da Escola Oga Mitá. As famílias dos estudantes menores de 18 anos autorizaram suas participações.

A premissa segundo a qual os currículos praticados devem considerar as condições de aprendizagem dos estudantes implica atitudes de escuta diversificada dos seus discursos. Espero que esse vídeo possa colaborar para a reflexão de alguns colegas professores.

O silêncio da chuva na sala de aula

Logo do podcast Mil e Uma

Em geral, a narrativa policial está presente nas aulas de literatura no ensino fundamental.

Refletir sobre sua abordagem com base na indicação de livros é a proposta da segunda temporada do podcast Mil e Uma, idealizado pelo professor Jorge Marques e disponível nos tocadores de podcast.

Há alguns dias, participei de um episódio dessa temporada, propondo a leitura de O silêncio da chuva, livro de estreia no gênero policial de Luiz Alfredo Garcia-Roza.

Lembrei que o personagem Espinosa, detetive da série de livros, foi estudante do Colégio Pedro II, onde eu e Jorge atuamos como professores.

Esse personagem é xará do filósofo Espinosa: ambos procuram resolver os problemas do mundo sem recorrer a causas extramundanas. Além disso, o carioca Espinosa mora no bairro Peixoto, em Copacabana, e a cartografia desse bairro pode ser considerada retrato do personagem, como se fossem modos da mesma substância, para falar como o xará filósofo.

Também conversamos sobre a função dos prédios do Rio de Janeiro no livro O silêncio da chuva, e como a representação desses prédios se aproxima daquela presente na literatura modernista, como nos poemas de Drummond para prédios cariocas. E sobre outras coisas!

As narrativas policiais podem proporcionar diversas aprendizagens para uma criança e um adolescente, e entre elas está, a meu ver, o letramento semiótico.

Raciocinar com insistência para resolver problemas a partir de índices, símbolos ou ícones enviados por um autor (no caso, um autor de crimes), ou seja, a partir de fragmentos da realidade social, parece uma tarefa formadora da subjetividade de qualquer cidadão letrado sob a perspectiva das ciências humanas.

Locais de uma ficção

O Vestibular Estadual 2022, organizado por uma banca de professores que atuam na Uerj, propõe anualmente uma consulta pública para selecionar os livros de ficção que serão abordados na prova.

Apesar de os livros recomendados serem pouco acessíveis ao público-alvo do Vestibular, a participação no processo de consulta pode ser mediada pelos professores que atuam na educação básica ou em cursos pré-vestibulares.

A leitura de sinopses das obras e de informações sobre os livros (preço de capa, minibio de autores, vídeo-resenhas), acessíveis na internet, é suficiente para a participação nesse plebiscito literário.

O romance policial vencedor na consulta do Vestibular Estadual 2022 foi Uma janela em Copacabana (2001), de Luiz Alfredo Garcia-Roza.

Como a narrativa aborda a corrupção policial no Rio de Janeiro, é de se esperar que a redação do Vestibular proponha uma reflexão sobre ética na segurança pública, em diálogo com o debate eleitoral no Estado previsto para o próximo ano.

Literatura, cidadania e escola se encontram nessa ideia, apesar da carência de políticas públicas que financiem a leitura literária de adolescentes e jovens adultos no país. O PNLD Literário segue seu curso praticamente solitário.

*

Para iniciar o trabalho de leitura de Uma janela em Copacabana com estudantes que acompanho, elaborei um mapa que indica locais na cidade do Rio importantes para a narrativa.

Trata-se de um procedimento geográfico que pode colaborar na compreensão da narrativa e na experiência urbana do estudante, especialmente em tempos de transporte caro e pandemia solta.

O mapa também revela um lugar-comum da cultura carioca. A representação em detalhes de territórios da Zona Sul da cidade, em detrimentos dos espaços periféricos, está consagrada na cultura, com repercussão inclusive na TV e no cinema.

Enfim, mapear os locais de uma ficção na capital do Estado onde se vive pode ser um recurso interessante para uma abordagem interdisciplinar do romance e para construir uma prática de leitura ficcional sob perspectiva cidadã.

Educação: conhecimento para a liberdade

O evento reuniu três professores para abordar três modos de educação: a pedagogia da ancestralidade, apresentada por Tereza Onä, a educação popular, apresentada por Eleonora Ziller, e o ensino construtivista, conceito com o qual dialoguei.

Tereza apresentou uma série de tecnologias ancestrais que são ensinadas nas escolas e em projetos sociais no Complexo da Maré, bairro vizinho ao campus Fundão da UFRJ, sede do Centro de Tecnologia da universidade, que organizou essa live.

Eleonora narrou a relação entre a UFRJ e a Maré, e entre a UFRJ e municípios do interior do Rio de Janeiro, mostrando como a universidade tem se engajado na popularização dos seus conhecimentos por meio de projetos de extensão.

Eu apresentei os efeitos das ocupações secundaristas para as concepções de currículo na escola, mostrando exemplos do trabalho com literatura, especialmente a leitura de Machado de Assis por estudantes do ensino médio.

É um vídeo rico em narrativa de experiências e também revela uma rede de trabalhadores em educação, já que todos os convidados tinham alguma relação profissional pregressa.

À margem do rio escuro

Desenho do bairro no Google Maps

O bairro onde nasci foi desenhado na mesa de algum arquiteto. Demorei a entender como as ruas paralelas e as quadras regulares à margem do rio Meriti também me desenharam. Bairro-jardim com as ruas asfaltadas, eram chamadas de rua dezoito, primeira casa, rua dezessete, onde vive minha avó, rua três, última casa. Mas as ruas tinham nomes que eu gostava de aprender a falar. Estudei na Rua Debussy, morei na Sebastian Bach e joguei bola na Franz Liszt. Todos diziam: Baque, Debussi, Liste, e preferiam os números, que explicavam o ordenamento do bairro. 

Jardim América conta a história da música erudita e europeia nas placas das ruas onde se escutava funk e pagode no final do século. Os aviões que desciam a Serra dos Órgãos para pousar no Tom Jobim passavam rasantes no quintal de casa. Quintal de cimento ou de cacos de telha, as roupas estendidas no varal de arame, alguma cadeira de fios de plástico e as flores tristes e baldias pela varanda. Na calçada do vizinho estava plantada uma velha amendoeira que dava muita sombra e folhas secas. Seu Fidélis contava que a tinha plantado adolescente e eu entendi depois aquela amendoeira como sua parceira solitária no itinerário da leveza. Eu queria aprender a tocar guitarra, não sabia ainda que minha família era vizinha de Nelson Cavaquinho. 

Para uma criança, o bairro tem o tamanho da cidade inteira. Jardim América foi meu Rio de Janeiro e ele era modernista e suburbano. A casa que meu avô construiu para morar com minha avó que o diga. Projetou um terraço de ponta a ponta do terreno, a casa térrea estreita e recuada, um vão fresco e verde na entrada da casa (e as garrafas quebradas enterradas no alto do muro para nenhum aventureiro pular). Depois um tio sentiu falta de sombra no terraço e instalou telhas de amianto. A prefeitura ordenou as calçadas do bairro e cobriu com cimento as pedras portuguesas que imitavam as ondas de Burle Marx na orla de Copacabana. A sacada aérea e a entrada litorânea desapareceram e a casa na Rua Robert Schumann ficou mais distante da infância.

Um dia conheci Brasília, uma cidade desenhada. Fui a trabalho e descobri alguma coisa, porque voltei para casa sentindo alguma coisa diferente. Como em Brasília, o desenho de algum arquiteto traçou a rua onde minha mãe conheceu meu pai. As ruas onde andei de bicicleta e joguei bola. As praças onde desfilei de bate-bola. Mas, ao contrário de Brasília, não conheço os arquitetos que desenharam a cidade da minha infância, porque são multidão. Continuo a esculpir essa cidade à base de pagode no último volume domingo de manhã.