Brasília

Croquis do Plano Piloto de Brasília, por Lúcio Costa.

Que isso se dê na cidade de Brasília e aqui no plano-piloto: o espaço que se manteve, ainda que por sua nomeação, no âmbito do desenho (chama-se a cidade de plano-piloto), o espaço inaugurado pelo x ou pela cruz marcados sobre a superfície plana do Planalto Central (no primeiro desenho de Lucio Costa), a cidade flutuante – eterno plano que segue planando sobre o solo, em forma de avião ou pássaro –, a cidade cujas formas lunares dos prédios desenhados por Niemeyer marcam-se de certa melancolia como a de quem viaja à lua procurando civilizá-la desenhando-lhe o futuro, a cidade, enfim, cujo projeto construtivo não previu a habitação daqueles que a construíram, a cidade-monumento onde, por tudo isso, quase tudo é resto – ela, a cidade, que restou projeto, plano-piloto; eles, os cidadãos, que restaram também eles projetos de uma cidadania que só pôde se exercer fora da cidade, em ocupações-satélites. Que, em Brasília, se opere, neste evento, o rito da desconstrução, é, ao menos para mim, uma nomeação algo precisa do Brasil, esta ilha onde é possível sobrescrever, num ato de fala, a resposta de Jacques Derrida ao que seja desconstrução: desconstrução é Brasil.

(Trecho da comunicação apresentada no V Colóquio Escritura: Linguagem e Pensamento, em Brasília.)

Poética do professor de literatura

E já que é de entrevistas que se trata, e já que em breve-breve volto à sala de aula depois de uma semana trabalhando a escuta teórica, me lembro da entrevista que fizemos, eu e um grupo de amigos, com o prof. Alfredo Bosi, também publicada no Jornal Rascunho, e na qual se lê uma espécie de poética do professor de literatura, que penso seguir do modo mais aplicado que posso:

Eu percebi que a leitura, uma leitura expressiva, uma leitura empenhada — como se faz numa oração, em que se dá o coração todo naquilo —, é melhor não fazer se você não tem fé. Você tem que ler aquilo com a alma e com certo entusiasmo. Professor de literatura tem que ter certa vitalidade, entusiasmo, não pode ser muito anêmico, tem que ter algum vigor na sua leitura para que ele contamine, no melhor sentido, para que ele chame à vida. Porque tudo transborda para a vida, por isso a literatura acaba sendo, vamos dizer, uma organização da vida, uma formulação dos nossos sentimentos, de nossas experiências, seja ambígua, seja moderna. […] O leitor que entrar em empatia com esses organizadores da experiência, esses estimuladores, certamente terá uma postura diante da vida mais engajada, mais nobre, mesmo quando pessimista. Mais compassiva. Vocês podem ter uma visão muito negra. A literatura contemporânea tem momentos muito negros, o sujeito fica, assim, aterrado na violência, com desrespeito pelo ser humano. A gente sente que, em geral, atrás daquele pessimismo, daquele ceticismo, há uma revolta, um desejo de que as coisas não sejam como são. Então, você acaba tendo uma posição crítica.

Diálogo impossível

Jacques Derrida e o gato.

Na semana em que se lembram os 10 anos do desaparecimento de Jacques Derrida, na semana em que chego do incrível colóquio Cada vez, o impossível: Derrida (10 anos depois), organizado em Brasília pelo prof. Piero Eyben e onde apresentei comunicação, leio as respostas que o escritor Evando Nascimento escreveu a perguntas minhas e do Rogério Pereira publicadas no Jornal Rascunho. Entrevista importante para quem se interessa pela obra do Evando ou pela literatura contemporânea, ou ainda para quem deseja se perguntar pelos efeitos da filosofia na literatura (já que o Evando foi aluno de Derrida), a conversa com o escritor é um modo de conversar com a literatura, não porque o escritor fale por ela, a literatura; antes porque a escritura, como me disse alguém na cidade de Brasília, é impossível sem diálogo. Não que seja preciso falar dela, tagarelá-la; antes porque, se a escrita é uma marca que permanece, o diálogo é uma fala marcada pela escrita. Pois, como afirmou o Evando na entrevista:

O fato é que, desde os gregos pelo menos, inventores do discurso chamado de “filosofia” (traduzível como amor ao saber), literatura e filosofia sempre se relacionaram. Isso ocorreu de modo às vezes harmonioso, como no caso dos chamados pré-socráticos, às vezes conflituoso, como em Platão. Derrida era um apaixonado pelos dois tipos de discurso. Com Derrida, o discurso literário é elevado à categoria de pensamento. Ele não é o único a fazê-lo, mas o fez sem nenhuma hierarquia entre literatura e filosofia. Diria, ao contrário, que, para algumas questões, a literatura propõe formulações mais contundentes.

Pare a investigação agora ou terá problemas

sexto encontro foto 2

Quem fala tem culpa. Quem escreve tem culpa. O culpado do crime, ao enviar uma carta para a polícia, o suicida, ao deixar a carta na gaveta da escrivaninha, o pai, ao ensinar por carta a ética a seu filho, têm culpa. Mas o culpado do crime escreve procurando como sempre ocultar as pistas, abdicando da sua caligrafia, e esquecendo-se de que o ato de escrever e recortar dos jornais (que noticiam os seus crimes) as letras (que comunicam de viés a sua culpa) é a prova de sua existência, é o resto de sua singularidade, é a prova do real. Imaginando-se passar quase invisível como um fantasma, o culpado do crime ainda assim escreve, como quem esquece que em escrever em ato existe corpo, matéria, vida. Não há como escapar à letra. Pois é preciso escrever para comunicar um crime anterior ao crime cometido, um crime que comete quem fala. De nada adianta não confessar a culpa. O crime fala por si. Quem fala mata e muda a realidade. E, dessa vez, foi preciso, com letras e palavras dos jornais dos dias 16 e 17 de setembro de 2014, falar na voz do criminoso, pois assim falar restitui-se como um ato: a prova do real para quem se imagina quase morto.

A carta foi composta por onze alunos do ensino médio, cada um é autor de uma frase.
A carta foi composta por onze alunos do ensino médio; cada um é autor de uma frase.

Quando sinto que já sei

O óbvio precisa ser repetido. O óbvio precisa ser visto. O óbvio precisa ser filmado. O óbvio precisa ser experimentado. O óbvio precisa ser registrado. O óbvio precisa ser O óbvio precisa ser apalpado. O óbvio precisa ser seduzido. O óbvio precisa ser intuído. O óbvio precisa ser adivinhado. O óbvio precisa ser defendido.

Machado de la Mancha

Em 1988, fotografado por Bud Lee para a revista Mother Jones.

Na virada do século, Carlos Fuentes trabalhava na composição do ensaio Machado de la Mancha, que foi publicado no México em 2001, pelo Fondo de Cultura Económica. Em outubro de 2000, publicou na Folha de S. Paulo “O milagre de Machado de Assis”, no qual defendia que:

As imitações absurdas do período das independências pautavam-se em uma civilização Nescafé: podíamos ser instantaneamente modernos abolindo o passado, negando a tradição. O gênio de Machado reside exatamente no contrário. Sua obra é permeada por uma convicção: não existe criação sem tradição que a nutra, assim como não existe tradição sem criação que a renove. Mas Machado tampouco contava com o respaldo de uma grande tradição novelesca, nem brasileira nem portuguesa. Contava, sim, com a tradição comum a nós, os hispanófonos do continente; contava com a tradição de La Mancha. Machado recuperou-a; nós a esquecemos. Mas ela também não foi esquecida pela Europa pós-napoleônica, a Europa do grande romance realista e de costumes, psicológico ou naturalista, de Balzac a Zola, de Stendhal a Tolstói? E nossa pretensão de modernidade não foi, em toda a Ibero-América, reflexo dessa corrente realista que chamarei de Waterloo, em contraposição à corrente de La Mancha? Em seu livro “A Arte do Romance”, Milan Kundera lamentou, mais do que ninguém, a mudança de rumo que interrompeu a tradição cervantina -retomada por seus maiores herdeiros, o irlandês Laurence Sterne e o francês Denis Diderot- em favor da tradição realista, que Stendhal descreve como o reflexo captado por um espelho avançando ao longo de uma estrada e que Balzac confirma como o concorrente do registro civil. E o convite ao jogo, ao sonho, ao pensamento, ao tempo, exclama Kundera em um capítulo intitulado “A Desprezada Herança de Cervantes”, onde foi parar? A resposta é, se não miraculosa, surpreendente: foram parar no Rio de Janeiro e renasceram na pena de um mulato carioca pobre, autodidata, que aprendeu francês em uma padaria, que sofria de epilepsia, como Dostoiévski, que era míope, como Tolstói, e que ocultava seu gênio sob um corpo tão frágil como o de outro grande brasileiro, Aleijadinho, também mulato, mas além disso leproso, que trabalhava sozinho e somente à noite, para não ser visto. Mas alguém já não disse, falando do Brasil, que o país cresce à noite, enquanto os brasileiros dormem? Machado não. Ele está bem desperto. Sua prosa é meridiana. Mas também seu mistério: um mistério solar, o de um escritor americano de língua portuguesa e raça mestiça que, solitário como uma estátua barroca mineira do realismo oitocentista, redescobre e reanima a tradição de La Mancha contra a tradição de Waterloo. O que entendo por essas duas tradições?

La Mancha e Waterloo
Historicamente, a tradição de La Mancha é inaugurada por Cervantes como um contratempo da modernidade triunfante, um romance excêntrico da Espanha contra-reformista, obrigado a fundar outra realidade por meio da imaginação e da linguagem, da ironia e da mescla de gêneros. Essa tradição é continuada por Laurence Sterne (1713-1768) com seu “Tristram Shandy”, em que o acento recai sobre o jogo temporal e a poética da digressão, e por “Jacques o Fatalista”, de Denis Diderot (1713-1784), em que a aventura lúdica e poética consiste em oferecer, quase que em cada linha, um repertório de possibilidades, um menu de alternativas para a narração.

A tradição de La Mancha é interrompida pela tradição de Waterloo, isto é, pela resposta realista à saga da Revolução Francesa e do império de Bonaparte. A mobilidade social e a afirmação individual servem de inspiração para Stendhal, cujo Sorel lê em segredo a biografia de Napoleão, para Balzac, cujo Rastignac é um Bonaparte dos salões parisienses, e para Dostoiévski, cujo Raskolnikov tem um retrato do grande corso como único adorno de sua mansarda petersburguesa. Romances críticos, é bem verdade, daquilo que os inspira: iniciadas com o crime de Sorel, as carreiras ascendentes da sociedade pós-bonapartista culminam com a falsa glória do arrivista Rastignac e terminam com o crime e a miséria de Raskolnikov.

Entre as duas tradições, Machado de Assis, nascido em 1839 e morto em 1908, revalida a tradição interrompida de La Mancha e permite-nos contrastá-la, de modo muito geral, com a tradição dominante de Waterloo.

A tradição de Waterloo afirma-se como realidade. A tradição de La Mancha sabe-se ficção e, mais ainda, celebra-se como ficção.

Waterloo oferece fatias de vida. La Mancha não tem outra vida afora a de seu texto, feito à medida em que é escrito e é lido.

Waterloo surge do contexto social. La Mancha descende de outros livros.

Waterloo lê o mundo. La Mancha é lida pelo mundo. Waterloo é séria. La Mancha é ridícula. Waterloo baseia-se na experiência: diz o que já sabemos. La Mancha baseia-se na inexperiência: diz o que ignoramos. Os atores de Waterloo são personagens reais. Os de La Mancha, leitores ideais. E, se a história de Waterloo é ativa, a de La Mancha é reflexiva. Tais divisões teóricas podem mostrar-se rígidas, mas as obras mesmas são muito mais fluidas. Por exemplo, uma das características mais notáveis da narração cervantina, a loucura da leitura, origem da ação de “Dom Quixote”, transcende para o plano realista em um romance como “A Abadia de Northanger”; por exemplo, parte da comédia social inglesa de Jane Austen, cuja protagonista, Catherine Moorland, perde o juízo lendo romances góticos; por exemplo, e sobretudo, uma das obras-primas do realismo psicológico, “Madame Bovary”, em que a heroína de Flaubert perde o equilíbrio entre sua realidade social e sua realidade psicológica por ler obras românticas em demasia. E tanto Sorel como Raskolnikov, como já assinalei, são o que são por terem devorado demasiadas páginas sobre a epopéia napoleônica. Mais especificamente, manchego é o fato de um romance saber-se ficção, ser consciente de sua natureza fictícia. “Dom Quixote”, “Tristram Shandy”, “Jacques o Fatalista”, “Brás Cubas”, além de se saberem ficção, celebram sua gênese fictícia. É Dom Quixote em um lugar de La Mancha de cujo nome não quer se lembrar, mas também em uma tipografia de Barcelona em que o personagem de Cervantes visita o lugar mesmo onde sua vida se faz livro, pois Dom Quixote é o primeiro personagem do romance moderno que se sabe escrito, impresso e lido, assim como Tristram Shandy sabe-se escrito por si mesmo, como Brás Cubas sabe que também está sendo escrito por si mesmo, e não por qualquer Brás Cubas, mas por um Brás Cubas morto, que escreve suas memórias no túmulo. Brás Cubas, além disso, pede ser inscrito em uma tradição, a do leitor de “Tristram Shandy”, só que Tristram Shandy, por sua vez, quer-se da tradição de “Dom Quixote”. “Adotei” -diz Brás Cubas do túmulo- “a forma livre de um Sterne”. E Sterne diz, no “Tristram Shandy”, que tomou sua forma “do incomparável cavaleiro de La Mancha, a quem, seja dito de passagem, eu amo mais, a despeito de todas as suas sandices, do que ao maior dos heróis da Antiguidade e por quem mais longe eu iria para fazer uma visita”.

Poetiqueta

 

eu etiqueta

Com uma etiquetadora em punho, escrever. Com uma máquina nas mãos, escrever. Com a inabilidade de quem se acostumou às máquinas dóceis, ao computador, ao celular, escrever com a pressão da etiquetadora, forçar cada letra sobre a tira colorida, descolori-la letra a letra. Só se escreve na vigência da letra. E a musculatura deve trabalhar para que se escreva. Só se escreve para que se afirme: “Eu sou a coisa, coisamente”. Para que se afirme que, no fim de tudo: “Eu, etiqueta”. Para que a escrita não denuncie nada, a não ser a destruição das classificações, das categorias, das homenagens, dos preços, da tipografia. A destruição de tudo o que torna escrever possível. Porque só se escrever por tamanha impossibilidade. 

quinto encontro

Literatura na Educação Infantil: Curso de Extensão

Literatura na Educação Infantil é um curso de extensão voltado para professores do ensino básico, coordenadores pedagógicos, bibliotecários e profissionais de educação em geral que será ministrado pelas professoras Ana Ribeiro e Maria Marta Cerqueira, da Escola Oga Mitá, que oferece o curso. Para quem trabalha ou deseja trabalhar com educação infantil, recomendo muito. O curso acontecerá aos sábados, nos dias 27/9 e 11/10, das 9h às 13h.

  • Ana Ribeiro: dinamizadora da Biblioteca da Escola Oga Mitá, especialista em Educação Infantil (PUC-Rio) e pós-graduada em Literatura Infantil e Juvenil (UFRJ).
  • Maria Marta Cerqueira: Professora do Ensino Fundamental I da Escola Oga Mitá, psicopedagoga (PUC-Rio).

Inscrições e informações: (21) 3271-1916.

Arte inespecífica e mundos em comum, por Florencia Garramuño

No dia 25 de agosto não pude estar presente a essa palestra da Florencia Garramuño na UFRJ, Campus Praia Vermelha, mas podemos ouvi-la agora no vídeo deste evento, o Encenações Contemporâneas. Tratou, a Florencia, de Rosangela Rennó (Espelho diário) e Mario Bellatin (Lecciones para una liebre muerta). 

O afeto do poeta

Sobre esse livro, a resenha no Jornal Rascunho:

Editorialmente, a criação de coleções piratas, antologias, blogs e o apagamento da autoria individual em poemas escritos a quatro ou mais mãos são sinais de circulação do afeto que muitas vezes não se preservam com a profissionalização do poeta: “Afinal de contas a pergunta: podem, os afetos, ser profissionais?”. Poeticamente, a citação operada como profanação da memória (em Cristobo) e como citação afetiva (em Marília) desestabilizam a identidade do poema presente e do poeta ou poema citados, fazendo do encontro uma experiência-chave para a composição e a leitura do poema.
No que é decisiva, Luciana põe em circulação o afeto, que ela identifica como constitutivo da cena de leitura do poema contemporâneo, mas restam poucas dúvidas de que a poesia atual emaranha uma rede muito mais complicada. É preciso que, a partir da leitura, se reafirmem outros paradigmas afetivos para a poesia, pois, em se tratando de afetos, mesmo a noção de paradigma não admite o valor de regra, e ganha, como no livro de Luciana, o valor de “mais um”.