Desenhar a escrita

Ana Hatherly
Ana Hatherly

O trabalho de Ana Hatherly se dá entre a linha tipográfica do verso e a linha manuscrita da mão, por isso nunca consegui ver o trabalho de Ana Hatherly, pois se dá entre a linha tipográfica do verso e a linha manuscrita da mão. Algo como “um palimpsesto / feito de interfaces”, conforme definiu, em poema, a imagem. Poema e imagem que, aliás, são um a inter-face do outro. Quando Ana Hatherly morreu eu não sabia que Ana Hatherly havia deixado boa parte de sua obra invisível. Estava há anos encantado pela pulsação pulsional da “mão inteligente” e depois de ler “A idade da escrita – poema-ensaio” para o público particular que são os alunos e pronunciar silabadamente que a escrita “é POR CAUSA DOS OUTROS”, que a nossa é “a IDADE DA ESCRAVATURA DA ESCRITA”, que “Ainda não sabemos pensar de outro modo”, pude aprender algo sobre ser a escrita “sinônimo de imagem” e, assim, poder ser a escrita um modo de, “escrevendo imagens”, desescrever o tempo. Foi assim que aprendi que nunca consegui ver o trabalho de Ana Hatherly, pois o trabalho de Ana Hatherly se dá entre a linha tipográfica do verso e a linha manuscrita da mão, e por isso quando Ana Hatherly morreu eu não sabia que Ana Hatherly havia deixado boa parte de sua obra invisível.

Foi para aprender a ver a obra invisível de Ana Hatherly que propus aos escritores em oficina, no Colégio, desenharem a escrita e, desenhando-a, escreverem alguma imagem. O desaparecimento biográfico de Ana Hatherly legou, em luto, ali, na cena da oficina, o gesto de sua mão. O tempo foi, talvez, desescrito. Foi, para os escritores em oficina, uma possibilidade de escrever.

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Mariana Freitas
João Pedro Rodrigues
João Pedro Rodrigues
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Pedro Teixeira
Luccas Octaviano
Luccas Octaviano
Paulo V. Santana
Paulo V. Santana
Gabriela Almeida
Gabriela Almeida
Alexandre Magalhães
Alexandre Magalhães
Mariana Pereira
Mariana Pereira

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Isabela Gama
Isabela Gama

O poema ao mesmo tempo

Augusto de Campos
Augusto de Campos

Há quem diga que eu não sei de nada, que ele não sabe de nada e que eles não sabem de nada. Há quem diga que o poeta se repete, há quem diga que o poeta é um gênio. Quanto a mim, fico só lendo e olhando, procurando num poema como o de Augusto de Campos, sua nova homenagem a Mallarmé, escutar como o meu olho, sem saber ler, topa com um NEO poema que, se BEM LER, escapa à leitura daquele que o lê ao vivo, letra a letra. Ao pé da letra, ali, à escuta, ninguém é contemporâneo de poema algum, que só se lê depois de ter sido lido, como poema algum se faz antes de ter sido feito. Que o espaço minguante do poema em forma de tornado tenha levado cada escritor em oficina ao olho do furacão e tenha podido legar rabiscos caligráficos para a memória de um dia na escola em cinco de agosto de dois mil e quinze, às treze horas, na sala de espelhos.

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Paulo Santana
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Síntique Vital
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Alexandre Magalhães
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Gabriela Almeida
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Júlia Moura
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Mariana Freitas

Mario é gay

Agora foi uma série de fait divers que constituem dois poemas do livro de Rodrigo Garcia Lopes, o Experiências extraordinárias, que organizou a produção da oficina de hoje, e a imaginação dos escritores marcou os nomes próprios dos outros artistas com a mancha perversa da banalidade fabricada por uma manchete de revista de fofoca. O gozo de saber-se conhecedor da vida & obra de alguns desses artistas compete, aqui, com o mal estar tão facilmente produzido por uma ou duas frases que inutilmente representam a banalidade da vida de qualquer um. No fim, sendo Mario de Andrade gay ou não, discreto ou não, assumido ou não, sendo Mario de Andrade Mario de Andrade ou não, é algo além do nome próprio Mario de Andrade o que, algum dia, pulsou num corpo e emitiu, em obras, sinais de existência. Sendo o Brasil homofóbico, e é, é bom que Mario de Andrade, póstumo, se assuma, assim como é bom que nudes de Chiquinha Gonzaga, a surdez de John Cage, a higiene do bigode de Leminski, a vida íntima de Banksy etc. venham à tona, antes tarde do que nunca, que é pra isso que serve, também, ficção: para destruir o nunca.

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O que há em comum não é normal

Ainda frequentando o livro de Nathalie Quintane, sobre o qual veio falar o Bruno Domingues, colega e amigo, a oficina dessa vez se fez, como o fez a poeta Nathalie Quintane, imaginando um corpo congenitamente anormal, e imaginando, ainda, numa narrativa, a sobrevivência à anormalidade. Escrever é anormal. E são os incipit desses textos que aqui se podem ler, à revelia dos autores, que assinam cada frase, sob o risco de, ao imaginar o corpo anormal, encontrar-se no lugar-comum e assim, quem sabe, através da linguagem, notar que o que há em comum não é normal.

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Por que desejo escrever literatura?

A Gabriela Almeida é uma das estudantes bolsistas que participam da Iniciação Artística em poesia no Colégio Pedro II, e escreveu esse relato sobre a relação dela com a escrita. Sei bem que os alunos do Colégio não são a regra, mas muitos deles e muitos outros nos fazem repensar o discurso clichê a respeito da falência do ensino básico no Brasil. Então, se liga no estilo da garota!

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Por que desejo escrever literatura? Bom, é ótimo que tenha 20 linhas para dissertar sobre o assunto! Literatura, assim como a arte no geral, é minha grande paixão. Desde pequena, minha casa sempre foi rodeada de livros – afinal, papai e mamãe são professores de língua portuguesa. Eles liam para mim todas as noites (e não só contos de fada: havia Vinícius de Morais, Cecília Meireles e muitos outros) até eu, aos quatro anos, começar a ler sozinha.
A vontade de produzir meu próprio conteúdo surgiu cedo. Lembro-me de quando tinha seis anos e escrevi a história “A Identidade Secreta”, que coloquei em pedaços de papel e ilustrei com meu pai. Mais tarde, aos nove anos, fiz o roteiro do curta-metragem “Assalto à geladeira”, gravado com a filmadora do papai e estrelado por meu primo Thiago.
Quando as professoras do ensino fundamental anunciavam a data da prova de redação, eu entrava em êxtase (sim, eu sei, isso é meio Clarice Lispector em Felicidade Clandestina). Só não achava tão maravilhoso quando mandavam-nos escrever textos argumentativos, embora também os adorasse. Mas narrativas? Envolvia-me tanto que geralmente era a última a sair da sala. É uma pena que esse tipo de texto não seja muito trabalhado no ensino médio (um dos motivos pelos quais achei o projeto brilhante).
Eu tenho meu material literário, porém nunca cheguei a publicar nada. O máximo que fiz foi escrever para o Globinho (falecido caderno infantil do jornal O Globo), quando tinha nove anos. Como disse, literatura é minha paixão. Não escrevo visando publicar, escrevo porque amo, porque sinto prazer nisso. Critico o sistema social, falo sobre amor verdadeiro e felicidade. Amo o que faço e quero fazê-lo para sempre.

Poesia concreta e escrita dialética

POEMA NOVO NO VELHO: POESIA CONCRETA E ESCRITA DIALÉTICA, publicado na Revista Diadorim (Letras Vernáculas/UFRJ)

RESUMO

O ensaio revisita os textos de Augusto de Campos e Roberto Schwarz motivados pela publicação do poema “pós-tudo (1984)”, procurando confirmar a hipótese de que o processo de redemocratização esteve vinculado a uma revisão da atitude vanguardista nas intervenções de Augusto de Campos no campo cultural, acompanhando à sua maneira a iniciativa de seu irmão, Haroldo de Campos. A leitura do poema empreendida por Roberto Schwarz seria, para além da sua atitude polêmica, uma estratégia de deslegitimação cultural de tal mudança de postura, de modo a preservar a interpretação do poema “pós-tudo” de acordo com os princípios estilísticos da poesia concreta, e assim flagrar-lhe uma nota de atraso cultural. Por fim, o debate trouxe à tona, a nosso ver, dois projetos estilísticos para a cultura brasileira, um fundamentado na prosa de Machado de Assis, e o outro, na crença (não sem ironia) no valor utópico das semelhanças casuais entre os significantes da língua, reformuladas poeticamente pelos procedimentos advindos da poesia concreta. Sem residir nem em um nem em outro, o Brasil – se puder ser nomeado – parece oscilar entre os projetos e descansar em seus intervalos.

PALAVRAS-CHAVE: poesia concreta; escrita dialética; pós-tudo.

Dois post-its online: Bataille, Débord

Trecho de A vontade do impossível, de Georges Bataille (1897-1962), traduzido por Fernando Scheibe, seguido de trecho de All the King’s men, de Guy Débord (1931-1994), traduzido por Emiliano Aquino.

A poesia não é mais que um desvio: escapo por ela ao mundo do discurso, ou seja, ao mundo natural (dos objetos): entro por ela numa sorte de túmulo onde, da morte do mundo lógico, nasce a infinidade dos possíveis.

O mundo lógico morre parindo as riquezas da poesia, mas os possíveis evocados são irreais, a morte do mundo real é irreal; tudo é suspeito e fugidio nesta obscuridade relativa: nela posso zombar de mim-mesmo e dos outros. Todo o real é sem valor, e todo valor é irreal. Daí essa fatalidade e essa facilidade de deslizamentos em que ignoro se minto ou se estou louco. Dessa situação pegajosa procede a necessidade da noite.

SCHEIBE, Fernando (Tradutor). A vontade do impossível, de Georges Bataille. Crítica Cultural – Critic, Palhoça, SC, v. 9, n. 2, p. 335-338, jul./dez. 2014.
Guy Débord

A poesia é cada vez mais claramente, enquanto lugar vazio, a antimatéria da sociedade de consumo, porque ela não é uma matéria consumível (segundo os critérios modernos do objeto consumível: equivalente para uma massa passiva de consumidores isolados). A poesia não é nada quando ela é citada, ela pode somente ser desviada (détournée), recolocada em jogo. O conhecimento da poesia antiga é, de outro modo, somente exercício universitário, realçando funções de conjunto do pensamento universitário. A história da poesia é somente, então, uma fuga diante da poesia da história, se entendermos por este termo não a história espetacular dos dirigentes, mas sim a da vida cotidiana, de sua ampliação possível; a história de cada vida individual, de sua realização.

AQUINO, João Emiliano. All the King's men, de Guy Débord. poiesis trabalho & cultura [blog], publicado em janeiro de 2008.

Paul Valéry, Emily Dickinson

A célebre fotografia de Valéry em 1946, por Henri Cartier-Bresson

TEUS PASSOS | Paul Valéry

Em meu silêncio esses teus passos
Soam-me santos, compassados,
E em meu sentir, sem deixar traços,
Prosseguem calmos e calados.

Puro ser, sombra de sons mudos,
Como é suave o teu compasso!
Com que divino dom eu passo
A existir nesses pés desnudos!

Se te ocorrer ao meu escasso
Vazio aplacar o desejo
De ocupar o meu oco espaço
Com o alimento do teu beijo,

Não antecipes a ventura
De ser e não ser teu ex-passo,
Porque eu vivi essa doçura
De exercer meu ser no teu passo.

Poema de Paul Valéry (de Charmes, 1922) traduzido pelo Augusto de Campos, publicado no Musa Rara, com, como sempre, uns versos… como “Prosseguem calmos e calados”, foneticamente clássico, ou “Como é suave o teu compasso!”, que soa bem mais suave do que “Qu’ils sont doux, tes pas retenus !” com seus percussivos, pouco doces “doux, tes pas”.

O poema seguinte é outra tradução de Augusto de Campos, publicada há um ano pela revista Cult, de um poema da Emily Dickinson.

Henri Cartier-Bresson, 1951

[sem título], Emily Dickinson

A minha Vida era uma — Arma —
À Espreita — até que um Dia
Passou o Dono — e Me levou
Em sua companhia —
E agora em Selvas Soberanas —
Caçamos em Terras estranhas —
E sempre que por Ele eu falo
Ressoam as Montanhas —
Sorrio, e a luz cordial que mana
Todo o Vale irradia —
Tal uma face vesuviana
Fluindo de alegria —
E quando à Noite — Ido o Dia —
Eu velo o Sono do meu Mestre —
É mais suave do que Pluma
A Cama que nos resta —
Seu inimigo — é o meu —
Não ousa uma outra vez —
Quem meu Olho-Luz viu
Ou meu Dedo desfez —
Embora eu possa — viver mais
Maior ainda é o Seu poder —
Pois tenho só o de matar,
Sem ter o de — morrer —

Um vídeo no YouTube, um poema de Eucanaã Ferraz, o canto do cometa

FUGA

Escutei o cometa que canta
(no céu-tela de um sítio da web)
passarinho lançando-se doido
doido e cego de pedra e degelo
uma ilíada doida cantasse
de ninguém nenhum fato ou herói
sem sequer uma fibra cardíaca
cuco-meta esquecido do tempo
em mergulho que o tempo não marca
escutei o cadente tenor
pardal pardo de coma difusa
sabiá todo e só matemática
voo esquivo de pauta compacta
e confusa de teclas que nada
executa e no entanto a matéria
manivelas e cordas inventa
e gargantas e teclas descobre
no infinito do palco mais surdo
sem ouvidos e mouco de espírito
a capela e sem uma palavra
o cometa depara seu canto.

(FERRAZ, Eucanaã. Escuta: poemas. São Paulo: Comapnhia das Letras, 2015.)

Segunda parte do poema "Eis", de 'Escuta: poemas'
Segunda parte do poema “Eis”, de ‘Escuta: poemas’