n razões pra escrever

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Em maio de 1969, Barthes publicou, no Corriere della Sera, uma lista breve com as suas “Dez razões para escrever”: “não posso dizer por que nem para que se escreve”. Prazer, descentramento, “dom”, reconhecimento, amizade, tarefa (contra)ideológica, injunção de uma distribuição guerreira, fissura do sistema simbólico, sentidos novos, burla do fetiche da Causa. São razões para a imaginação da escrita, em lista para que escrever aconteça a cada vez solicitando o próximo número, imaginando-o. Quantas linhas tem a obra completa de Barthes? Um emaranhado. Alguém, na primeira oficina do ano, disse: me ponho à beira do abismo e depois não sei. Alguém também disse: o limite só se descobre no risco, depois. Daí a riscar o papel, arriscá-lo em lista de razões para escrever, foi ao que os escritores da oficina se lançaram, no começo, na sala de espelhos, com Barthes, Juliana, Mariana, Mel, Danilo, Bruna e Guilherme: um texto coletivo.

n razões pra escrever

 

para usar o alfabeto

porque não tem como falar

para insultar a realidade

registrar conversas

para desbagunçar minha bagunça e bagunçar logo depois

para propor oficinas

se transpassar

para fugir da realidade e ao mesmo tempo permanecer nela

para banalizar o cotidiano

para fazer do nada alguma coisa

Gustavo Silveira Ribeiro lê Alberto Pucheu

Sobre Mais cotidiano que o cotidiano, de Alberto Pucheu, ensaio de Gustavo Silveira Ribeiro:

Mais cotidiano que o cotidiano, nesse sentido, é a exploração de uma fissura no tempo, uma pequena abertura que possibilita a contemplação de zonas inesperadas no fluxo de acontecimentos que, na sua sucessão contínua e tantas vezes invisível, chamamos tempo presente. O agora, para Pucheu, são os rasgos no tecido homogêneo do tempo, interrupções que permitem imaginar, ainda que na brevidade de um instante, aquilo que o mundo guarda como potência e força de criação.

Um teste de brilho e cor

um teste de brilho e corComo, soubesse das letras sujas de um jornal, lê-lo sem cegar? Como, então, desconfiando das letras interessadas de um jornal, endereçar a leitura? Como, ainda, tendo abandonado a oração matinal, salvá-lo sem mais doutrina? Ou então pendurar a página à visitação pública de olhares trabalhadores, como ainda fazê-lo? Talvez dissesse Gabriela Almeida: pintando-o. Talvez dissesse Gabriela Almeida: um teste de brilho e cor. Talvez dissesse Gabriela Almeida: fora do ar. Talvez dissesse Gabriela Almeida: derrubar a programação.

Desculpe o transtorno estamos em obras

Os escritores em oficina estão dedicados a compor seus trabalhos. Estamos em obras. Desculpe o transtorno.

Quando parou para pensar em como se apropriar da matéria textual do jornal, a Gabriela estava ouvindo música. Escutando a sua banda preferida: Engenheiros do Hawaii. E então a música, que naquele momento era a Gabriela, olhou para o jornal e decidiu começar a reescrevê-lo à força da música.

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Foi nascendo assim a ideia de compor clipes gráficos: a página do jornal sendo a matéria para a montagem das cenas-manchetes, das cenas-rasuras, das cenas-grifos.

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E um dos resultados, em rascunho, tateante:

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Morrer com Brás Cubas

Os alunos do ensino médio integrado ao curso técnico de música do Colégio Pedro II, ao lerem o romance de Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas, foram desafiados a imaginar musicalmente trechos do livro. Nesse vídeo, um trecho do capítulo I, “Óbito do autor”, em que o narrador descreve a “orquestra da morte”, foi o escolhido:

Agora, quero morrer tranquilamente, metodicamente, ouvindo os soluços das damas, as falas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão da chácara, e o som estrídulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fora, à porta de um correeiro. Juro-lhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. De certo ponto em diante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-me no peito, com uns ímpetos de vaga marinha, esvaía-se-me a consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e coisa nenhuma.

A música executada em ambos os vídeos é original.

No segundo vídeo, um trecho do capítulo XLV, “Notas”, em que o narrador expõe as notas (muitas delas sonoras) para um capítulo não escrito, serviu de partitura:

Soluços, lágrimas, casa armada, veludo preto nos portais, um homem que veio vestir o cadáver, outro que tomou a medida do caixão, caixão, essa, tocheiros, convites, convidados que entravam. Lentamente, a passo surdo, e apertavam a mão à família, alguns tristes, todos sérios e calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d’água benta, o fechar do caixão a prego e martelo, seis pessoas que o tomam da essa, e o levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos, soluços e novas lágrimas da família, e vão até o coche fúnebre, e o colocam em cima e traspassam e apertam as correias, o rodar do coche, o rodar dos carros, um a um… Isto que parece um simples inventário, eram notas que eu havia tomado para um capítulo triste e vulgar que não escrevo.

Desenhar a escrita

Ana Hatherly
Ana Hatherly

O trabalho de Ana Hatherly se dá entre a linha tipográfica do verso e a linha manuscrita da mão, por isso nunca consegui ver o trabalho de Ana Hatherly, pois se dá entre a linha tipográfica do verso e a linha manuscrita da mão. Algo como “um palimpsesto / feito de interfaces”, conforme definiu, em poema, a imagem. Poema e imagem que, aliás, são um a inter-face do outro. Quando Ana Hatherly morreu eu não sabia que Ana Hatherly havia deixado boa parte de sua obra invisível. Estava há anos encantado pela pulsação pulsional da “mão inteligente” e depois de ler “A idade da escrita – poema-ensaio” para o público particular que são os alunos e pronunciar silabadamente que a escrita “é POR CAUSA DOS OUTROS”, que a nossa é “a IDADE DA ESCRAVATURA DA ESCRITA”, que “Ainda não sabemos pensar de outro modo”, pude aprender algo sobre ser a escrita “sinônimo de imagem” e, assim, poder ser a escrita um modo de, “escrevendo imagens”, desescrever o tempo. Foi assim que aprendi que nunca consegui ver o trabalho de Ana Hatherly, pois o trabalho de Ana Hatherly se dá entre a linha tipográfica do verso e a linha manuscrita da mão, e por isso quando Ana Hatherly morreu eu não sabia que Ana Hatherly havia deixado boa parte de sua obra invisível.

Foi para aprender a ver a obra invisível de Ana Hatherly que propus aos escritores em oficina, no Colégio, desenharem a escrita e, desenhando-a, escreverem alguma imagem. O desaparecimento biográfico de Ana Hatherly legou, em luto, ali, na cena da oficina, o gesto de sua mão. O tempo foi, talvez, desescrito. Foi, para os escritores em oficina, uma possibilidade de escrever.

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Mariana Freitas
João Pedro Rodrigues
João Pedro Rodrigues
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Pedro Teixeira
Luccas Octaviano
Luccas Octaviano
Paulo V. Santana
Paulo V. Santana
Gabriela Almeida
Gabriela Almeida
Alexandre Magalhães
Alexandre Magalhães
Mariana Pereira
Mariana Pereira

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Isabela Gama
Isabela Gama