Contra-ato de direitos autorais

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Oswald de Andrade, Serafim Ponte Grande

Assinar contratos de abandono em vez de posse. A impropriedade da autoria de tal maneira organizando cada cláusula, e então o contrato, ele mesmo, vai ruindo em sua autoridade de firmar uma relação justa entre as partes. Mas que partes compactuam num texto onde se lê incessantemente a indecisão de autor a leitor? Ou ainda, acompanhando o rigor de Giorgio Agamben ao tratar da questão: “O autor não está morto, mas pôr-se como autor significa ocupar o lugar de um morto”. As assinaturas do contrato em que, por excesso de rigor e risos, se abandonam os direitos autorais compõem apenas o bando de fantasmas que assombra, desde a escola, os leitores distraídos dos contratos sem cartório. Na escola, assinam-se contratos de abandono. Formar o bando é o ato do qual não há escape, firmar a letra no papel é o contrato que não abandona o bando. Um contra-ato. A máquina de escrever contra-atos de direitos autorais cede, em suas teclas, à força singular dos dedos que, firmando a letra, marcam, na letra, sua ausência. São máquinas contra-atuais os dedos escritores em oficina.

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n razões pra escrever

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Em maio de 1969, Barthes publicou, no Corriere della Sera, uma lista breve com as suas “Dez razões para escrever”: “não posso dizer por que nem para que se escreve”. Prazer, descentramento, “dom”, reconhecimento, amizade, tarefa (contra)ideológica, injunção de uma distribuição guerreira, fissura do sistema simbólico, sentidos novos, burla do fetiche da Causa. São razões para a imaginação da escrita, em lista para que escrever aconteça a cada vez solicitando o próximo número, imaginando-o. Quantas linhas tem a obra completa de Barthes? Um emaranhado. Alguém, na primeira oficina do ano, disse: me ponho à beira do abismo e depois não sei. Alguém também disse: o limite só se descobre no risco, depois. Daí a riscar o papel, arriscá-lo em lista de razões para escrever, foi ao que os escritores da oficina se lançaram, no começo, na sala de espelhos, com Barthes, Juliana, Mariana, Mel, Danilo, Bruna e Guilherme: um texto coletivo.

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para usar o alfabeto

porque não tem como falar

para insultar a realidade

registrar conversas

para desbagunçar minha bagunça e bagunçar logo depois

para propor oficinas

se transpassar

para fugir da realidade e ao mesmo tempo permanecer nela

para banalizar o cotidiano

para fazer do nada alguma coisa

Gustavo Silveira Ribeiro lê Alberto Pucheu

Sobre Mais cotidiano que o cotidiano, de Alberto Pucheu, ensaio de Gustavo Silveira Ribeiro:

Mais cotidiano que o cotidiano, nesse sentido, é a exploração de uma fissura no tempo, uma pequena abertura que possibilita a contemplação de zonas inesperadas no fluxo de acontecimentos que, na sua sucessão contínua e tantas vezes invisível, chamamos tempo presente. O agora, para Pucheu, são os rasgos no tecido homogêneo do tempo, interrupções que permitem imaginar, ainda que na brevidade de um instante, aquilo que o mundo guarda como potência e força de criação.

Um teste de brilho e cor

um teste de brilho e corComo, soubesse das letras sujas de um jornal, lê-lo sem cegar? Como, então, desconfiando das letras interessadas de um jornal, endereçar a leitura? Como, ainda, tendo abandonado a oração matinal, salvá-lo sem mais doutrina? Ou então pendurar a página à visitação pública de olhares trabalhadores, como ainda fazê-lo? Talvez dissesse Gabriela Almeida: pintando-o. Talvez dissesse Gabriela Almeida: um teste de brilho e cor. Talvez dissesse Gabriela Almeida: fora do ar. Talvez dissesse Gabriela Almeida: derrubar a programação.

Desculpe o transtorno estamos em obras

Os escritores em oficina estão dedicados a compor seus trabalhos. Estamos em obras. Desculpe o transtorno.

Quando parou para pensar em como se apropriar da matéria textual do jornal, a Gabriela estava ouvindo música. Escutando a sua banda preferida: Engenheiros do Hawaii. E então a música, que naquele momento era a Gabriela, olhou para o jornal e decidiu começar a reescrevê-lo à força da música.

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Foi nascendo assim a ideia de compor clipes gráficos: a página do jornal sendo a matéria para a montagem das cenas-manchetes, das cenas-rasuras, das cenas-grifos.

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E um dos resultados, em rascunho, tateante:

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Morrer com Brás Cubas

Os alunos do ensino médio integrado ao curso técnico de música do Colégio Pedro II, ao lerem o romance de Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas, foram desafiados a imaginar musicalmente trechos do livro. Nesse vídeo, um trecho do capítulo I, “Óbito do autor”, em que o narrador descreve a “orquestra da morte”, foi o escolhido:

Agora, quero morrer tranquilamente, metodicamente, ouvindo os soluços das damas, as falas baixas dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhorão da chácara, e o som estrídulo de uma navalha que um amolador está afiando lá fora, à porta de um correeiro. Juro-lhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. De certo ponto em diante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-me no peito, com uns ímpetos de vaga marinha, esvaía-se-me a consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo fazia-se-me planta, e pedra, e lodo, e coisa nenhuma.

A música executada em ambos os vídeos é original.

No segundo vídeo, um trecho do capítulo XLV, “Notas”, em que o narrador expõe as notas (muitas delas sonoras) para um capítulo não escrito, serviu de partitura:

Soluços, lágrimas, casa armada, veludo preto nos portais, um homem que veio vestir o cadáver, outro que tomou a medida do caixão, caixão, essa, tocheiros, convites, convidados que entravam. Lentamente, a passo surdo, e apertavam a mão à família, alguns tristes, todos sérios e calados, padre e sacristão, rezas, aspersões d’água benta, o fechar do caixão a prego e martelo, seis pessoas que o tomam da essa, e o levantam, e o descem a custo pela escada, não obstante os gritos, soluços e novas lágrimas da família, e vão até o coche fúnebre, e o colocam em cima e traspassam e apertam as correias, o rodar do coche, o rodar dos carros, um a um… Isto que parece um simples inventário, eram notas que eu havia tomado para um capítulo triste e vulgar que não escrevo.