Esse texto resume o que me propus a ensinar a estudantes da segunda série do ensino médio acerca do Romantismo. Como fica evidente, a maior parte do tempo de aula é dispensada para a leitura em grupo do livro literário proposto, que nesse caso foi a novela O véu erguido (1859), de George Eliot, na tradução de Lilian Jenkino. Esse trabalho foi realizado numa escola pública da cidade do Rio de Janeiro durante o primeiro semestre de 2021, em situação de emergência educacional.
O principal objetivo nas aulas de Literatura no ensino médio não precisa ser conhecer “o que é o Romantismo”, mas conhecer as possibilidades que a arte literária oferece para a vida de cada um.
Então, por que se estuda o Romantismo e outros momentos culturais nesse segmento? Porque durante o ensino médio conhecemos a história das possibilidades literárias, com ênfase na cultura brasileira e nos livros clássicos.
Por isso, sugiro a meus alunos que o estudo de Literatura seja dedicado a ler e reler os livros literários propostos, e relacionar essa leitura com a sua experiência de vida e também com os saberes a respeito do momento cultural.
Em relação ao Romantismo, quais são esses saberes? Essa é apenas uma proposta narrativa baseada em textos literários da época e textos críticos em geral, portanto não se deseja aqui propor uma leitura exaustiva do Romantismo para estudantes adolescentes.
Questões de método
Conhecer a cultura brasileira dos séculos anteriores ao nosso implica conhecer diversas culturas que participaram e participam do que podemos chamar de cultura brasileira.
Tendo sido colonizada por Portugal, a cultura brasileira apresenta marcas europeias, que muitas vezes tiveram o efeito de apagar ou diminuir culturas não-europeias que formaram o Brasil, principalmente aquelas de origens africanas e indígenas.
Por isso, é muito importante estudarmos esses momentos culturais valorizando a participação de pessoas negras, indígenas e mulheres, e conhecendo suas práticas de resistência cultural.
Introdução ao Romantismo
O Romantismo foi um momento cultural que marcou a cultura brasileira pós-Independência, em 1822, até a crise do regime imperial escravocrata, a partir de 1870.
Ideias republicanas elaboradas no Iluminismo francês do século XIX, associadas às revoluções burguesas nos países europeus e às independências das colônias europeias nas Américas, entraram em contradição com a realidade social racista da sociedade brasileira, marcada pela escravização das pessoas negras e pelo extermínio dos povos indígenas.
Nesse contexto, diversos intelectuais procuraram reconhecer a “Natureza” brasileira como marca da cultura nacional, valorizando as matas e florestas, e a vida indígena como símbolos de um país bom de se viver e diferente da Europa.
Ao elaborar essa ideia, li com meus alunos um poema de Goethe, poeta romântico alemão. Percebemos como a folha de uma árvore do Extremo Oriente do planeta, a Ginkgo biloba, foi representada por Goethe como símbolo do cosmopolitismo, ou seja, da integração cultural dos povos. Assim, um poeta romântico europeu entendia a literatura como prática de pacificação dos processos de colonização e globalização das culturas.
O Romantismo surge, na Europa, como, entre outras coisas, reflexão sobre as lições políticas da Natureza.
O exílio e a diáspora
No Brasil, a “Canção do exílio”, poema escrito pelo maranhense Gonçalves Dias na década de 1850, é um símbolo do Romantismo.
Nesse poema, a saudade da terra onde passou a infância, sentida durante a estadia de estudos em Portugal, é um sentimento de valorização do Brasil em relação à Europa, descrito com simplicidade e singeleza.
É como se esse poema desse forma a um sentimento de Brasil.
Só que o sentimento do poeta sobre o país está marcado por escolhas, exclusões. Ou seja, se o “exílio” europeu do poeta é símbolo nacional do Brasil, por que não considerar o “exílio” americano dos africanos como símbolo nacional também?
O sequestro de pessoas africanas para trabalhar como escravizadas nas Américas é marca cultural desses continentes. Nas Américas, podemos reconhecer um conjunto de culturas provenientes da África (em todas as áreas da cultura), e isso configura a diáspora africana nas Américas. Na literatura, isso também acontece.
A literatura afro-brasileira
No Romantismo brasileiro, houve dois escritores pioneiros da literatura afro-brasileira: Maria Firmina dos Reis e Luiz Gama.
Uma coisa que é importante saber e guardar sobre as obras desses dois escritores é que eles participaram do que se chama de literatura abolicionista, mas de maneira singular.
Na época, era comum defender a libertação dos escravizados com o argumento de que a liberdade é um direito universal. No entanto, tanto Maria Firmina, no seu romance Úrsula, quanto Luiz Gama, no seu livro de poesia Primeiras trovas burlescas, escreveram contra o racismo sofrido pelos negros no Brasil escravocrata como uma injustiça histórica.
Não era só que todas as pessoas são iguais diante da lei ou diante de Deus, e por isso devem ser livres. Esses dois escritores denunciavam o que se denomina hoje como branquitude, ou seja, eles denunciavam a ideia de que a cultura brasileira defendia a superioridade dos brancos sobre os negros, e não seria uma lei que iria desfazer essa injustiça. É preciso refazer a cultura brasileira para viver numa sociedade antirracista, não basta “cancelar” a escravidão.
Por serem escritores negros e abolicionistas e por terem publicado seus livros em 1859, Maria Firmina dos Reis e Luiz Gama são considerados pioneiros da literatura afro-brasileira.
Povos indígenas e literatura
Outro aspecto muito importante do Romantismo brasileiro diz respeito aos indígenas. Várias obras de literatura (poemas, contos e romances) contaram a história de pessoas indígenas que se apaixonavam por pessoas europeias e tinham filhos juntos. Esses filhos eram o símbolo dos primeiros brasileiros.
Essas obras fazem parte da vertente do Romantismo brasileiro chamada Indianismo. Hoje em dia nós percebemos que os escritores do Indianismo conheciam pouco a vida dos indígenas e inventaram personagens baseados na cultura eurocentrada. Depois do Romantismo, alguns indígenas escreveram livros contando sobre suas vidas e denunciaram o extermínio que sofrem até hoje.
Quando lemos os livros escritos por pessoas indígenas, percebemos a ideia de que a literatura, ao imaginar personagens, tem uma responsabilidade muito grande quando se interessa pela vida de pessoas que são muitas vezes assassinadas. O Indianismo a princípio não interveio na exclusão dos povos indígenas da cultura brasileira. É preciso, antes de tudo, escutar e ler as pessoas indígenas.
















