Acertos
São poços de petróleo a luz negra dos seus olhos
Acertos
Acertos
Acertos
“No Brasil todo mundo é índio, exceto quem não é”
Dois trechos da fala do Eduardo Viveiros de Castro na Flip 2014 que serão utilizados em sala de aula.
Peter Schlemihl

Eu tinha perdido de tal forma o controle que comecei a falar tresloucadamente: dizia que, no fundo, uma sombra não era nada mais do que uma sombra, que se podia viver sem ela e que não valia a pena fazer tal alarido por causa disso. Mas eu sentia muito bem a inconsistência daquilo que dizia e assim interrompi meu discurso sem que o chefe florestal se dignasse a dar-me uma resposta. Acrescentei por fim: “o que se perdeu uma vez, pode-se encontrar de novo em outra ocasião.
(CHAMISSO, Adelbert von. A história maravilhosa de Peter Schlemihl. Tradução de Marcus Vinicius Mazzari. São Paulo: Estação Liberdade, 2003. p. 76.)
Cenas e cortes

A Internet, poucos anos atrás, não combinava tanto com vídeos. E quem tava por fora do circuito de cinemas da Zona Sul da cidade acabava sem ver a metade dos filmes do mundo, ou seja, aqueles que não são produzidos pelos estúdios de Hollywood e às vezes nem falam inglês.
Pois foi assim, sem Internet nem YouTube, que em 2004 e 2005 estive quase todos os fins de semana numa sala escura da Zona Sul da cidade, na ânsia de quem, analfabeto em filmes que não os da Sessão da Tarde ou os Titanic da vida, comia com os olhos as cenas e os cortes durante duas curtas horas. Estava no começo da graduação em Letras, e dividia a vida com uma estudante de arquitetura fascinada desde a infância por filmes de tudo que é tipo. Mas os filmes que mais me tocaram naquele momento eram de um tipo só: indefiníveis para mim.
Lembro de Má Educação, e depois Pedro Almodóvar se tornou lição de qualidade estética. Lembro de Dogville, e depois Lars von Trier se tornou o niilista ao qual teimo em ficar indiferente. Lembro de Elefante, e depois Gus van Sant se tornou o cineasta da juventude num mundo que a mata. Lembro, por fim, de Peixe Grande, e depois Tim Burton se tornou suvenir da infância que não tive, quando não aprendi a pescar grandes peixes a não ser dentro de mim mesmo.
Não sei o quanto esses filmes seguem sendo realmente indefiníveis para mim, mas eles me chegaram num momento da vida muito singular, quando tudo ainda parecia depender somente da minha grande vontade de arte para que as coisas (ah, as coisas, como isso é vago, e isso não diz muita coisa) mudassem. Hoje não. Hoje sou apaixonado pelo cinema do Karin Aïnouz. Pelo cinema do Eduardo Coutinho. Do Wim Wenders, do Werner Herzog. Filmes que machucam, que me deixam sem lugar para percebê-los ou falar, ou sem ter muito o que dizer além da dúvida: eu não sei se gostei, mas isso é foda!
Ou então sou marcado por alguns filmes singulares, como os do extremo oriente, tipo O arco, que narra a estranha história de um homem que vive no seu barco junto com uma linda jovem, que, no entanto, quer descobrir o mundo fora dessa ilha familiar. Um dia, ela toma um bote escondida, liga o motor e segue rumo ao porto, rumo ao mundo. Não tinha visto que ele amarrou o bote a uma corda, e a corda a seu pescoço.
Os filmes são como esse bote. Mas acho que o velho que amarra a corda a seu pescoço também sou eu: se simplesmente cortarmos essa corda, abandonamos o barco e, com ele, uma parte de nós. Resta saber se estamos dispostos a pagar o preço que a arte exige. E o cinema – cenas e cortes – pede o seu preço, e é caro, e é bom.
(Este texto foi provocado pelos alunos que integram o SAT, a Sociedade dos Amigos do Texto que inventamos no Colégio Pedro II de Realengo e se reúne para ver filmes, falar de livros etc.)
O texto mais horripilante de que você é capaz

Provoquei meus alunos do ensino médio a comporem um texto que provocasse o medo mais intenso de que fossem capazes, com base no exemplo de Victor Hugo que, em Os trabalhadores do mar, descreve uma criatura horripilante numa passagem inesquecível traduzida pelo Machado de Assis no calor da hora.
Do resultado, fiz uma colagem. E acho bonito ler os fragmentos como um retrato do imaginário do medo no adolescente de agora, este que está (a)diante de nós com frequência.
*
Não tinha forma, cor ou cheiro, o tal do Amor. Cor de vômito.
Bela, estonteante. Seu guarda-chuva, que agora eu conseguia ver nitidamente, era feito de ossos e escorria sangue esverdeado.
Seu veneno contagia até mesmo os que são de sua espécie se espalhando de forma sutil como o aroma das flores. É conhecida como Mente Humana.
Eis que das sombras – ou quem sabe até da luz – surge uma figura encapuzada. A morte é a certeza do acontecer antes mesmo de se concretizar.
O demônio não era semelhante a nenhum monstro de história de terror cuja aparência é deformada, mas se assemelhava a um homem; contudo, aí acabam as semelhanças.
O amor é um processo químico que ocorre na ínsula, localizada no meio do cérebro. Deve ser considerado um dos mais perigosos tormentos que atingem a população mundial, pois é capaz de ter o controle sobre o nosso corpo e interfere diretamente em nosso dia a dia e pode interferir nas faculdades mentais, gerando um processo de dependência e perda total do controle sobre si.
Olhá-los nos olhos é como encarar a própria morte, neles não há luz, só escuridão e desespero.
*
Vi ontem um bicho na escuridão da cidade.
De sua boca com cor de dor, não saía voz (nunca deixaram que saísse).
O cheiro dele era de guerra, guerra de toda uma vida.
O bicho? Não me viu. Eu? O senti. Como senti a fumaça de seu cachimbo, como senti seu cheiro de guerra diária, como senti que a justiça tem um preço que o pobre não pode pagar.




