Literatura na escola: missão impossível?

Ficha de Che Guevara nos arquivos do Dops
Ficha de Che Guevara nos arquivos do Dops

Nota de leitura ao ensaio “Literatura na escola – missão impossível?”, do prof. André Bueno

BUENO, André. A vida negada e outros estudos. Rio de Janeiro: 7letras, 2013.

Com base no preceito de Freud, de “educar para a realidade”, André Bueno fundamenta a sua proposta de ensino de literatura numa relação dialética entre literatura e sociedade, na linha da crítica consolidada pela obra de Antonio Candido. Dessa maneira, foge-se a um currículo com conceitos desconectados, pois o aluno é desafiado a compreender o processo de formação cultural no Brasil por meio da literatura. Vencendo os problemas (1) da falta de um sistema letrado forte, (2) da compreensão da literatura como privilégio, (3) da urbanização da cultura popular sem a mediação da cultura letrada e (4) da cultura de massas como referência dos valores culturais na sociedade do espetáculo, o ensaísta propõe que o currículo da literatura na escola incorpore programaticamente as tradições da canção popular e do cinema no Brasil, já que os diálogos entre poesia letrada e poesia de canção, de um lado, e entre narrativas de romances, novelas e contos, e narrativas cinematográficas é fértil em nossa cultura, de outro, contemplam o trabalho com prosa e poesia aberto às formas da cultura de massas, sem, no entanto, abrir mão de uma elaboração crítica das formas.

Machado de Assis: minidossiê

No YouTube, o melhor vídeo que conheço sobre a obra do Machado de Assis é o deste programa Mestres da Literatura, com depoimentos muito inteligentes de professores da USP sobre a obra do autor.

Um site indispensável é o machadodeassis.net, concebido pela Marta de Senna, pesquisadora da Casa de Rui Barbosa. Nele, além de uma revista acadêmica dedicada ao autor, encontram-se os romances e alguns contos de Machado anotados quanto a suas referências, alusões, citações etc. 

No endereço machado.mec.gov.br encontra-se toda a obra para download, em edições preparadas por bibliotecas ou universidades públicas.

Além disso, o Cadernos de Literatura Brasileira dedicado ao Machado de Assis, editado pelo Instituto Moreira Salles, está disponível online.

Um espaço matinal de contrassangue

Maria Gabriela Llansol em Herbais, anos 1980

Por que aceitara eu um Prémio que tantas vezes fazia sangue, a não ser por desejar criar, com tantos outros, e no espaço de nossa Cultura,
um espaço matinal de contra-sangue?
Amigos,
deixai que assim vos chame a todos, para que sejamos todos, neste momento, simplesmente humanos.
É a nossa narrativa deste instante.
Poderá ter-vos parecido estranho que eu tenha situado os meus textos na área do romance. Mas o romance, antes de ser um género literário definido,
não foi, e não continua a ser,
O nome genérico da narratividade?
Peço-vos que patenteia neste ponto de partida:
nós estamos sempre a contar coisas uns aos outros.

Maria Gabriela Llansol
“Para que o romance não morra”. Lisboaleipzig. Porto: Assírio & Alvim, 2014. pp. 126-127

Poema em livro didático

Nessa semana folheei e li trechos de vários livros didáticos de Língua Portuguesa e Literatura para o Ensino Médio.

Me assustei ao encontrar coisas do tipo: o poema do José Paulo Paes sem os dois primeiros versos e com a pontuação esquizofrênica.

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Esse poema costuma aparecer quando se trata de selecionar paródias da “Canção do exílio”, que são por si sós um gênero textual à parte, divertido e inteligente, na poesia do Brasil. 

Entre as paródias posteriores ao Modernismo, esta é das mais significativas: uma redução estrutural de todas as paródias, paródia das paródias, no contexto da onda estruturalista nas universidades.

Daí outro livro decidiu organizar as estrofes em colunas, talvez para ficar mais “bonitinho”, certamente não para economizar espaço.

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Como se  não houvesse diferença à leitura. Nem comento as ilustrações (aquele sofazinho estampado na primeira imagem é de uma falta de imaginação…).

Apesar de acertar os versos, o segundo livro nem por isso acertou o título, que é “Canção de exílio facilitada”. Além de dar margem à exploração da semântica do artigo definido (e da ausência dele), é sobretudo a generalização do exílio pelo título que confere um tom pungente e pessimista ao poema, pois foi justamente no período de virada da década de 1970 que se multiplicaram os exilados políticos da ditadura. O poeta oferece como que um manual poético não apenas às paródias anteriores, como também aos exilados, que não deveriam se comover tanto com a falta do Brasil nos seus aspectos mais confortáveis (“papá”, “maná”, “sofá”) mas sustentados pela “sinhá”. Aos que deixaram o Brasil, que não repetissem a saudade romântica, ela própria alimento do slogan: “Ame-o ou deixe-o”.

O nacionalismo inscreve uma marca puramente negativa no poema de José Paulo Paes, e é pelo menos por isso que exijo que tratem bem o poema, para que a negatividade estética se inscreva na página e não prossiga recalcada na escola.

É um pouco essa vontade de recusar a experiência da leitura o que move intervenções gráficas como essa.

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O poema já surge aos olhos todo anotado, como se não houvesse leitura sem análise, como se a leitura não fosse condição de qualquer compreensão ou verificação da análise e, depois, da interpretação.

Ou ainda preserva-se, numa das coleções mais valorizadas entre professores, uma noção evolutiva da história literária, propondo-se o juízo estético com base em critérios temáticos.

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Enfim, das seis coleções que li, apenas uma mencionava a obra de Sousândrade, o que indica um desafio (entre tantos) aos professores que ousam (será isso mesmo?) abordá-la na escola.

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Como deu para notar, só me ative aos capítulos dedicados à poesia do Romantismo. E se me estendi em detalhes, foi porque são eles que fazem a diferença.

Escrita é

Na primeira reunião para preparar a Oficinada Literária, no Colégio Pedro II, o grupo de alunos fez, a partir de uma proposta oulipiana, esse soneto-emblema do evento, seu primeiro material de divulgação, seu primeiro escafandro textual, seu primeiro afundamento calculado, sua primeira pequena morte, sua primeira catástrofe anunciada.

Um tabaréo

O desenho de Castro Alves chama a atenção pelos traços e pelo tema: romântico na solidão do campo e na corpulência do cavalo (de cabeça pequena) em relação ao homem, realista no estilo nítido com volume arredondado dos traços, na pose das figuras (o olhar fixo do homem nem por isso é profundo à paisagem) e na escolha por representar o homem rústico, ainda que elegante.

"Um tabaréo", sem data, Castro Alves
“Um tabaréo”, sem data, Castro Alves

(Fonte: https://blogdabn.wordpress.com/2012/03/14/165-anos-de-castro-alves-biblioteca-nacional-tem-desenhos-e-rico-acervo-sobre-o-poeta/)

A alma na vértebra, a alma nos rins, a alma nos cotovelos

É de 1810 esse texto do Kleist, “Sobre o teatro de marionetes”, que tem várias traduções para o português, no Brasil e em Portugal, e que faz do centro de gravidade de um corpo a sua alma, como quem trouxesse para o teatro e a dança as consequências de Newton.

kleist

Duas das traduções online: na Revista USP, com introdução de notas de J. Guinsburg, em 1993; na coleção Os Cadernos de Cultura, do MEC, a tradução de Paulo Mendes Campos, de 1952: