Não há arte / sem arte

O governador da Bahia, Rui Costa, abriu seu discurso de posse com “um poema que me foi enviado recentemente por um amigo como forma de incentivo”:
Sonhe com aquilo que você quer ser / porque você possui apenas uma vida / e nela só se tem uma chance / de fazer aquilo que quer
A prefeita de Campos, município do Rio de Janeiro, presenteou em novembro de 2014 a filha, eleita deputada federal pelo estado, com uma imitação de Romero Britto.
Quando, diante do gesto de Rosinha Garotinho, penso em Andy Warhol; quando a citação do governador da Bahia é atribuída à Clarice Lispector, aprendo mais que o-que-se-chama-arte não se diz de um objeto, de uma coisa, nem mesmo de um gesto por si mesmo.
Não há arte sem arte, e é por isso que não há saída a não ser, a cada vez que se a faça, destruí-la. Como é que chama o nome disso? Não há arte sem arte não quer dizer que só há arte quando há arte. Antes, quer dizer que, a cada visão (objeto, gesto) em artes visuais a visão lembra que:
Não há arte / sem arte
No enjambement que, por um relance, nega-a.
Para um panorama da obra de Lygia Fagundes Telles
Precisamos falar sobre imagens, Laura Erber

Vamos acompanhar a Laura Erber, que aqui em Precisamos falar sobre imagens (publicado no blog do IMS) escreve que:
A história recente do olhar é também a história do olho ameaçado pelo excesso de visível e pela falta de imagens. A fotografia eloquente, através da qual algo fala, e a fotografia como elemento comprobatório, muda e inibidora do verbo, são apenas dois dos possíveis modos de nos confrontarmos com o visível que nos rodeia. E, ainda assim, talvez não se trate ainda de imagens num sentido mais pleno ou radical, se aceitarmos que a existência de uma imagem depende não tanto de sua capacidade de afirmar o visível, mas de fazer com que o olhar hesite diante daquilo que vê. Daí a situação paradoxal na qual, mesmo em excesso, a imagem, como algo que se destaca do visível, continua a fazer falta.
Tomo como exemplo o Facebook, esse espaço de murmúrios e lamentos, sem entradas ou saídas, jardim de nossos narcisos em flor, pulsões escópicas cotidianas e compulsivos compartilhamentos de links em geral mais eficazes para a sobrevida da informação do que para seu metabolismo. Lugar também do desacordo, do desagravo, da gritaria, da citação e dos gatos. O que poderia ser – e às vezes é – um dispositivo de enlace crítico ou poético entre texto e imagem acaba reduzido ao cacoete da redundância ilustrativa ou da legendagem infinita, preferencialmente sob a forma lapidar do comentário breve. O layout dos murais verticais incentiva, ou pelo menos não impede, o tensionamento de imagens e textos.
[…]
Por outro lado, é ingênuo acreditar que somos capazes de uma experiência puramente visual do visível. Não existe uma tal ilha da pureza sensorial fora da condição mediada da imagem na qual, por bem ou por mal, estamos instalados. Não há como escapar inteiramente dos “aplicativos” que orientam a compreensão de uma imagem, sejam eles os tradicionais guias turísticos, os discursos históricos, as ferramentas conceituais da teoria da arte, a pedagogia museológica ou nossa própria inércia perceptiva.
Roberto Corrêa dos Santos: Clarice Lispector
Esses quatro intelectuais_Callado, Candido, Houaiss, Jobim
Resenha de ‘O clamor de Antígona’, por Carla Rodrigues

Sobre O clamor de Antígona: Parentesco entre a vida e a morte, livro de Judith Butler recém-lançado no Brasil, a prof. Carla Rogrigues escreveu um resenha para O Globo:
Livro de Judith Butler revisita Antígona
POR CARLA RODRIGUES
06/12/2014 6:48
RIO — A chegada, ao mercado brasileiro, de “O clamor de Antígona — Parentesco entre a vida e a morte”, de Judith Butler, é uma ótima notícia e, ao mesmo tempo, a constatação de um descompasso. Filósofa consagrada nos estudos de gênero, Butler tinha até então apenas um livro traduzido — “Problemas de gênero — Feminismo e subversão da identidade”, lançado em 2003 pela Civilização Brasileira e esgotado há alguns anos. O descompasso começa a ser reduzido com o lançamento de “O clamor de Antígona”, cuja originalidade da abordagem da tragédia de Sófocles, lida e relida na Filosofia, no Direito e, depois de Lacan, na psicanálise, interessa a estudiosos de diferentes áreas.
Tomada por Butler como alegoria para a crise contemporânea do parentesco, o amor incestuoso da personagem por seu irmão é o ponto de partida para o questionamento do que se pretende chamar de “normalidade familiar”.
Desde a leitura de Hegel, Antígona representava o parentesco em sua forma ideal, a mulher representante da figura familiar e defensora de uma lei singular, que se opõe a Creonte, aceito como representante do Estado e, consequentemente, da única possibilidade de lei universal. Contra esta perspectiva, Butler se insurge afirmando que Antígona, na verdade, representa a deformação e o deslocamento do parentesco, “colocando em crise os regimes reinantes de representação e levantando a questão de quais poderiam ter sido as condições de inteligibilidade que teriam tornado sua vida possível”.
Trata-se, então, de pensar como operam as versões normativas de família e como reconhecer a existência de diferentes arranjos de parentesco, negando a sobreposição de família e parentesco, revendo os discursos que tratam como disfuncionais as famílias sem pai, repensando normas que proíbem a adoção de crianças por casais do mesmo sexo e, sobretudo, reconhecendo que não há base, nem natural, nem cultural, para a estrutura normativa heterossexual e monogâmica das famílias.
A leitura hegeliana para a peça de Sófocles é uma das questões do livro de Butler, filósofa cuja trajetória está, desde seu início, marcada pelo pensamento de Hegel. “O clamor de Antígona” tem ainda dois outros interlocutores: o antropólogo Lévi-Strauss e o psicanalista Jacques Lacan. Do primeiro, ela questiona a centralidade do tabu do incesto nas estruturas elementares de parentesco, seguindo a trilha aberta pela antropóloga feminista Gayle Rubin. Do segundo, ela interroga a representação de Antígona como aquela que se opõe ao campo do simbólico, ao pensar que um dos objetivos da personagem trágica poderia ser indicar “justamente os limites do parentesco”.
Ao apontar o que chama de “cegueira” em relação ao amor de Antígona pelo seu irmão, Butler quer repensar a rede de relações familiares que permitiu delimitar uma fronteira entre o que está dentro e o que está fora da norma e apontar uma possibilidade de pensar num “parentesco futuro que exceda a totalidade estruturalista, um pós-estruturalismo do parentesco”. Com a crítica à abordagem estruturalista, Butler não pretende pôr fim ao parentesco, mas entendê-lo como “um conjunto de acordos socialmente alteráveis, destituído de características estruturais”, de tal forma que o parentesco possa vir a significar “qualquer número de acordos sociais que organizam a reprodução da vida material”.
A originalidade da leitura de Butler está nas formulações políticas contemporâneas que ela faz a partir de Antígona, a fim de pensar em estruturas de famílias em que, quando uma criança diz “mãe”, não espera ser atendida por uma única pessoa, ou quando diz “pai” pode se referir tanto a um homem ausente que nunca conheceu quanto ao que assumiu tal lugar. Por fim, a exigência de repensar as estruturas familiares baseadas em modelos heterossexuais e normativos não são, como se pode pensar à primeira vista, apenas do campo de interesse dos militantes da causa homossexual. Afetam o conjunto da sociedade, dizem respeito a mulheres solteiras que criam seus filhos sozinhas, por exemplo, ou mesmo a famílias recompostas em que o parentesco não consegue mais se organizar nos limites do que foi estabelecido como inteligível. Como exemplo, ela cita comunidades negras norte-americanas nas quais mães, avós, tias e irmãs são responsáveis pelas crianças de famílias descritas como disfuncionais por ausência do pai. Exemplo bastante próximo da realidade brasileira, em que famílias pobres chefiadas por mulheres são identificadas como origem da criminalidade, indicação de que a defesa de certas estruturas familiares não estão destituídas de ideologia.
Carla Rodrigues é professora de Filosofia IFCS/UFRJ, autora, entre outros, de “Duas palavras sobre o feminismo”
O crítico literário Emílio Garrastazu Médici, o subversivo Rubem Fonseca: um tríptico

I. O Decreto-Lei 1.077/70, seu trecho inicial, das melhores passagens da crítica literária no século finado, assinada pelo presidente Médici:
CONSIDERANDO que a Constituição da República, no artigo 153, §8 dispõe que não serão toleradas as publicações e exteriorizações contrárias à moral e aos costumes;
CONSIDERANDO que essa norma visa a proteger a instituição da família, preserva-lhe os valôres éticos e assegurar a formação sadia e digna da mocidade;
CONSIDERANDO, todavia, que algumas revistas fazem publicações obscenas e canais de televisão executam programas contrários à moral e aos bons costumes;
CONSIDERANDO que se tem generalizado a divulgação de livros que ofendem frontalmente à moral comum;
CONSIDERANDO que tais publicações e exteriorizações estimulam a licença, insinuam o amor livre e ameaçam destruir os valores morais da sociedade Brasileira;
CONSIDERANDO que o emprêgo dêsses meios de comunicação obedece a um plano subversivo, que põe em risco a segurança nacional.
II. O fragmento de “O campeonato”, conto de Rubem Fonseca do livro então censurado Feliz Ano Novo:
“Eu vou ganhar esse campeonato”, Palor disse depois de breve reflexão. “Você entende que todos os campeonatos buscam apenas preservar a nossa natureza animal? Não podemos deixar de ser um animal. Não somos um inseto! Somos um animal! Ouviram, apostadores? acordem, apostadores! Nós somos animais!”
Olhando para Palor, vi que ele sabia que estava acabando. Esse é o destino de todos, de sangue quente, saber que estão acabando.
“Estamos presenciando”, disse Palor, “o grande instante final da conjunção carnal. O formigueiro nos espera. Você me entende?”
Respondi que entendia.
“O amor está acabando, porque o amor só existe por sermos animais de sangue quente. E hoje estamos finalmente representando o último poético circo da alegria de foder, que tenta opor as vibrações do corpo à ordem e ao progresso, aos coadjuvantes psicoquímicos e aos eletrodomésticos. A vocação do ser humano é ser humano. Não é ser organizado, nem fértil, nem ter o estômago cheio nas horas certas, nem ter como ideal o paraíso de uma placenta infinita.”
Palor ganhou o campeonato. Efetuou quinze conjunções carnais, nas vinte e quatro horas, batendo o seu próprio recorde.

III. O Rubem Fonseca ideólogo da ditadura civil-militar, conforme ensaio do Prof. Luis Alberto Alves, publicado no Dossiê Rubem Fonseca da revista Terceira Margem (PPG Ciência da Literatura/UFRJ):
Nessa mesma época, Rubem Fonseca, conforme dito antes, foi um dos mais destacados diretores do IPES (Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais), exercendo cargos importantes na Direção Executiva – instância máxima do instituto –, além de ter acumulado outras funções de grande relevo, como os setores de publicação e divulgação de projetos. “Eu atuava na área de estudos e divulgação de projetos”, admite o escritor. Ao longo de toda a existência do instituto (1962 a 1972), Fonseca se ausentou por um curto espaço de tempo, não ficando totalmente claro o motivo de seu afastamento. Mas seu nome continuou a figurar em vários documentos, além de ter participado de reuniões da diretoria no ano de 1967, por exemplo. Sem contar que foi, em 26 de março de 1968, reconduzido à diretoria por seus pares em votação unânime. Se não bastasse, Fonseca também é um dos signatários da ata de dissolução do IPES, datada de 29 de março de 1972. A documentação existente (além de depoimentos de ilustres ipesianos) mostra que Rubem Fonseca teve uma participação muito ativa no IPES. Em todo esse período, revelou-se um zeloso dirigente, que se dedicou de corpo e alma à destituição do presidente João Goulart, além de ter colaborado, na qualidade de diretor do instituto, na elaboração do plano de ação do governo ditatorial de Castelo Branco. A redação final dos principais documentos do IPES ficava a cargo de Fonseca, daí a qualidade superior dos textos ressaltada por importantes ipesianos em depoimentos insuspeitos. Chama atenção como essa experiência de uma década tem sido relegada, ao passo que sua curta atuação como comissário de polícia, que durou pouco mais de um ano, é constantemente evocada para explicar enredos e personagens.
Sobre Drummond
Que tenha sido uma conversa sobre a obra do Drummond é o que há de melhor, a meu ver, nesse vídeo que cruza histórias de amizades várias, a mais visível a com o João, ali ao lado. Agora estão aí, o professor-e-crítico, o poeta-e-poeta, a convidar à leitura do Drummond, um poeta que convida a questioná-lo.
Desenhos de Artaud
De 1946, ambos. Desenho para olhar de través (Dessin à regarder de traviole):
Inabilidade sexual de Deus (La maladresse sexuelle de Dieu):
São os desenhos referidos por Jacques Derrida no ensaio Enlouquecer o subjétil (Forcener le subjéctile), de 1986, publicado no livro Artaud: Dessins et portraits, da Gallimard, e publicado em português no livro-de-artistas (assim o chamo) Enlouquecer o subjétil, de 1998 (Ateliê Editorial/Imprensa Oficial/EdUnesp), com intervenções gráficas de Lena Bergstein.
