Autoria, literatura e gramática

Como professor de gramática e produção textual no ensino básico, comumente preciso indicar alterações nos textos dos meus estudantes que podem ser consideradas muito simples por pessoas letradas.

Mas com o tempo aprendi a reconhecer a complexidade de corrigir o texto de um estudante — não basta dizer para alguém que a norma-padrão do português brasileiro preconiza que em geral não se pontue com vírgula o sujeito em relação ao predicado.

É preciso antes de tudo que haja vínculo entre estudante e escola, e confiança pedagógica no professor.

Daí pra frente, a coisa ainda não se resolveu, pois não é nada fácil olhar para o próprio texto e reconhecer ambiguidades ou desacordos com uma norma muitas vezes estranha e desconhecida.

Por isso, reconhecer-se como autor de um discurso falado ou escrito, atravessado por marcas pessoais, e que será lido com atenção e cuidado por leitores, que será escutado pela turma, e não apenas por professores, é um desafio elementar da sala de aula.

E também por isso a literatura, sendo a instituição por excelência da produção de autoria cultural no texto escrito, se torna um campo de trabalho fundamental para o ensino de gramática e produção textual na escola.

Ensino de literatura e novas tecnologias

Nesse mês de janeiro de 2021 foi publicado o primeiro número da Revista Tropel, editada pelo projeto de extensão Pré-vestibular Letras: olhar social integrado e ações de inclusão, da Escola de Letras da UNIRIO.

Entre as mais de 200 páginas da revista, há uma entrevista que concedi ao Daniel Grimoni, e que valeu algumas ideias que eu, na época, em 2019, havia publicado em algum lugar, ou ideias que eu comecei a formular naquela entrevista e se tornaram práticas profissionais.

Selecionei quatro trechos da entrevista para o blog, a entrevista completa está nesse link.

1. Ensino de gramática em diálogo com o Twitter

Esse ano, por exemplo, e desde o ano passado, eu tenho procurado fazer com que o estudo gramatical seja baseado na timeline do Twitter, porque ela me parece um corpus de alta tecnologia sintática.

Como na segunda série do ensino médio a gente estuda morfossintaxe, me parece que ali no Twitter eu encontro frases, principalmente, ou pequenos textos, em que há uma experimentação sintática que dialoga com a coloquialidade e com a experiência linguística da juventude (pelos memes, por inovações lexicais); e ao mesmo tempo, no Twitter, tem textos mais formais, de pessoas públicas, políticos, figuras públicas que estão num registro formal da língua, procurando se adequar à norma-padrão do português brasileiro.

Ali tem as duas coisas, não tem só uma. Então o Twitter tem sido o corpus privilegiado de estudo morfossintático; e assim a gente faz essa passagem, de ler literatura e estudar gramática – são coisas diferentes, embora o texto literário possa trazer à tona questões linguísticas no estilo dos autores; isso sim.

2. Experiência tecnológica e ocupações secundaristas

Até que vieram as ocupações das escolas, e nas ocupações ficou muito claro, pra mim, que a timeline era um espaço de criação da ocupação. Muitas ocupações tinham comissões de trabalho de redes sociais, de comunicação, e elas tinham perfis nas redes sociais, que eram usados não só como divulgação das ocupações, mas pra legitimá-las esteticamente. Paródias, vídeos, jograis, performances filmadas eram postadas como estratégia de defesa, como se fosse uma frente de defesa, como se a poesia estivesse no front das ocupações. E ela não era um a mais das ocupações, ela era um modo de organização delas. Então comecei a perceber como essa subjetividade da timeline participa do processo criativo.

E se eu puder falar mais um aspecto: uma estudante, a Isabella Dias, formulou, na época, a ideia de que as ocupações, segundo ela, seriam uma necessidade geracional, no sentido de que o uso das redes sociais pra pessoas nativas digitais coloca a questão da presença do outro sem mediação tecnológica como um problema. Porque você não pode bloquear o outro estando diante dele, né. Frente a isso, a violência se torna um recurso mais viável, aparentemente, e o trabalho afetivo se torna um trabalho mais evidente, também, para que a violência não ocorra: para que você não precise bloquear o outro quando você não tá mediado por tecnologia na relação com o outro.

Assim, a ocupação seria uma demanda geracional por ser o momento em que a convivência se daria entre os colegas de escola sem mediação tecnológica ou dos professores, ou seja, sem mediação: o momento em que a convivência se daria de fato. Isso tudo me mostrou que o trabalho com a internet e a tecnologia participa do dia a dia da escola. Aí a questão é pensar como ele aconteceria na sala de aula, em que pode acontecer de várias maneiras.

3. Uso de livros de ficção em PDF no ensino médio

Então, olha só que curioso: um dos primeiros trabalhos que eu fiz junto com outros colegas professores aqui na escola, esse ano, foi entrevistar todas as categorias da escola pra perguntar sobre seus hábitos de leitura. E a gente descobriu que nem alunos, nem professores, nem funcionários da escola têm significativamente o hábito de leitura digital. Não falando de notícias, ou de textos argumentativos – e sim de livros de ficção. São exceção entre estudantes adolescentes aqueles que dedicam essa leitura aos PDFs. Assim, se eu penso que o PDF em sala de aula é um modo de trabalhar o texto literário, eu necessariamente penso que esse PDF não tá servindo como uma leitura pessoal do aluno, porque a leitura que ele faz pessoalmente é no livro impresso.

Essa questão tem a ver com uma leitura que a gente fez também esse ano, em sala de aula, do Christoph Türcke, um pensador alemão vivo que tem estudado a questão da atenção na cultura contemporânea. E ele pensa justamente nesse sentido, de que a nossa experiência com a cultura digital é uma experiência de destruição da atenção – é uma experiência de produção do que ele chama de uma “cultura do déficit de atenção”. Ele usa ainda um outro termo, que foi traduzido pelo Eduardo Losso como “fornalha” do déficit de atenção, como se a cultura digital produzisse, pela sua fragmentação, sobretudo, pela sua velocidade, mobilidade etc., uma cultura da ansiedade, que é nociva à concentração duradoura sobre um texto único.

4. Currículo de literatura, ocupações secundaristas e poesia contemporânea

A produção de conhecimento dos alunos eu encaro muito como uma produção curricular. O que eu tô chamando de produção curricular? Eles produzem saberes literários e linguísticos que me extrapolam, que eu não conheço, que eu desconheço.

As ocupações secundaristas – essa é uma coisa que tenho repetido – são, pra mim, a leitura mais rigorosa que eu conheço do que é a poesia contemporânea. Não conheço algum ensaio que tenha me revelado com tanta clareza que as poéticas do texto hoje são profundamente vinculadas à produção paródica, performática e metalinguística, digamos assim, dos textos. Então, quando eu pego a obra, por exemplo, da Marília Garcia, que é uma poeta que eu admiro imensamente, com uma obra que tem feito muita diferença no campo da poesia brasileira hoje; ou quando eu pego a obra da Angélica Freitas, pra ficar em dois nomes de gerações mais recentes que são bem representativos, não só pelo que fizeram, mas também pelo que pessoas mais jovens têm feito, dialogando com elas, com suas obras; eu encontro ali Marília Garcia produzindo vídeo-poemas, performando seus poemas na voz, utilizando uma espécie de cinema mudo, por meio de slides, ao apresentá-los, inserindo performativamente um eu no poema, muito frequentemente dialogando de maneira paródica e irônica com a história da poesia.

Nada muito diferente, do ponto de vista dos procedimentos, dos estudantes nas ocupações produzindo os cantos, fazendo paródias do funk, dançando de maneira performática nas ruas esses cantos e propondo a viralização desses vídeos. Ou seja, a relação que eles estavam propondo com o texto literário ali era uma relação muito mais próxima da obra da Marília Garcia do que aquela que geralmente aparece numa aula sobre Machado de Assis, pensando se Machado de Assis foi ou não um escritor realista. Entende?

Então, é nesse sentido que me refiro aos alunos como produtores do currículo. Eles me ensinam sobre gramática postando no Twitter – de fato é onde eu me atualizo gramaticalmente –, porque ali eu compreendo transformações morfossintáticas que lendo as gramáticas contemporâneas eu ainda não encontro, mas lendo os textos deles eu reconheço. Eles ali estão me propondo currículo, porque me propõem problemas na área de saber em que atuo. E quando eu trago um tuíte feito pelos próprios alunos pra sala de aula, de repente a teoria gramatical que é conhecida por eles não cabe na explicação de uma frase que eles mesmos fizeram, da maneira mais espontânea e banal. O mero fato de eu ter relação por rede social com eles ali, naquele contexto, provoca o currículo. Então, nesse sentido, eles são pesquisadores da língua e da literatura.

Fonte dos fragmentos:

GRIMONI, Daniel. Uma leitura passível de ocupação: Entrevista com Luiz Guilherme Ribeiro Barbosa. In: Revista Tropel: Pré-vestibular Letras: olhar social integrado e ações de inclusão (UNIRIO), Edição 1, p. 65-76, Rio de Janeiro, jan. 2021.

Machado de Assis para adolescentes

Desenho de Candido Portinari para O Alienista,
em imagem de divulgação da editora Antofágica

Logo no começo de O Alienista tem uma frase inesquecível, que uma das nossas alunas que está lendo o livro na segunda série do ensino médio destacou.

É uma frase que, talvez, para um leitor adolescente, deixa evidente pela primeira vez a ironia do narrador na construção dos personagens.

É a frase na qual o narrador apresenta os motivos pelos quais o Dr. Simão Bacamarte se casou com D. Evarista. A gente lê: “Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes”.

O médico tinha escolhido a esposa por razões “fisiológicas e anatômicas”. Enuncia-se a lógica do patriarcado (o homem justifica para a família a escolha da mulher como esposa) e a lógica do positivismo científico (se o fim do casamento é a formação da família, logo a produção dos filhos deve ser observada de acordo com a melhora da espécie, sob perspectiva eugenista). E nós rimos dessa caricatura. Rimos de nervoso.

Essa análise, diante de adolescentes, revela não como se deve ler uma frase, mas como se pode ler uma frase: produzindo relações entre texto e cultura. Trata-se de uma leitura sob perspectiva histórica que não basta a si mesma.

Como releitor do texto, considerei estarmos atravessando um lado oposto do problema: durante a pandemia do novo coronavírus, podemos fazer escolhas de acordo com o que preconiza a ciência, a fim de preservar a vida individual e coletiva. Na frase, a perspectiva do médico Simão Bacamarte desumaniza a esposa com base nos conhecimentos científicos da época.

Uma questão aparece, assim, com essa interpretação: como um leigo (o leitor) usa o conhecimento científico depois de ler uma ficção que faz caricatura da ciência?

As diferenças entre a ficção e a realidade movem a leitura, podem apaixonar para além da fantasia de identificação entre leitor e protagonista. Identificar-se com a leitura pode significar o fascínio pelas contradições entre ficção e realidade.

Isso pode significar adolescer: entre a criança e o adulto, a imaginação está em constante teste de realidade.

Trilha sonora de uma pesquisa

Ferreira Gullar foi compositor de diversas canções. Poemas seus foram musicados depois de publicados em livro, ou compôs letras que, depois, se encontraram com melodias.

Em meados de 2020, enquanto me dedicava a ler os arquivos do Jornal do Brasil entre 1956 e 1961, à procura dos poemas, artigos e crônicas de Gullar que reconstituíssem a ideia de uma poesia neoconcreta, me distraí com as letras do poeta.

Foi a trilha sonora de uma pesquisa.

Assim, baseado nas referências preparadas por Antônio Carlos Secchin para o livro Poesia Completa, Teatro e Prosa, publicado em 2008 reunindo parte da obra do poeta maranhense, compus a playlist Ferreira Gullar: Outras vozes na plataforma Spotify.

O resultado é uma lista com 16 das 24 canções, mais ou menos em ordem cronológica de registro, entre as composições enumeradas na edição de 2008 e constantes no acervo da plataforma.

Algumas canções, cujas letras não foram publicadas nos livros de poemas, estão em diálogo com o cancioneiro brasileiro, como é o caso de “Borbulhas de amor”, sucesso na voz de Fagner, enquanto outras revelam aspectos dos poemas pela interpretação que recebem, como é o caso de “Poema obsceno”, transformado em samba por Moacyr Luz.

Ferreira Gullar escreveu, durante sua trajetória, 13 letras para canções. As demais canções, entre as 24 enumeradas em 2008, são poemas que foram musicados. Em 2015, a Rádio Batuta publicou uma seleção de 10 canções com letras de Gullar, feita por Joaquim Ferreira dos Santos (As canções de Ferreira Gullar). Depois, em 2017, o professor Leonardo Davino comentou em seu blog a publicação do livro Cancioneiro, organizado também por Antônio Carlos Secchin, que reuniu as 13 letras do poeta.

Seguindo o padrão de referências de documentos sonoros nos termos da ABNT (NBR 6023:2018), propus a seguinte referenciação para a playlist que preparei:

FERREIRA GULLAR: OUTRAS VOZES. Luiz Guilherme Ribeiro Barbosa (org.). Plataforma: Spotify. 47min. Atualização: 14 ago. 2020. Playlist. Disponível em: https://open.spotify.com/playlist/6LZUvXpxy3nVjjY2EdTe2H. Acesso em: 27 jan. 2021.

Uma ideia de oficina literária para o ensino médio durante a quarentena

 

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Vista de Mogadíscio, cidade somali, publicada no Google Street View em maio de 2019 


Depois de enviar uma resenha do livro 
Minha casa é onde estou, de Igiaba Scego, para meus alunos da segunda série do ensino médio, propus uma oficina literária que pode interessar a professores de Linguagens e Ciências Humanas em geral, pois relaciona Geografia e História, mais diretamente, e Literatura, Línguas Estrangeiras Modernas, Sociologia e Filosofia, mais indiretamente. A proposta foi publicada no site do projeto Conexão Escolas, da TV Escola, e se intitula “Escrever a cidade sem sair de casa”. Começa assim:

 

Quando professores leem literatura não costumam se colocar no lugar dos escritores. A tarefa de ler, ainda mais quando associada ao trabalho, envolve interpretação, que muitos entendem como desvendar sentidos implícitos do livro. Porém, mesmo não sendo escritores, é possível que a gente, professoras e professores, se desloque um pouco e possa se ver como leitores brincantes, ou seja, leitores que podem escrever. Quando, ainda mais, conseguimos levar para a sala de aula esse universo de brincadeiras que o escrever proporciona, temos a oportunidade de conhecer os estudantes como sujeitos, com suas memórias, seus medos e desejos. Foi o que pensei quando li Minha casa é onde estou, da escritora italiana Igiaba Scego.

Igiaba Scego numa escola pública

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Nessa quarentena, em parceria com minha colega de trabalho, professora Cristiane Barbalho, estou investigando como minhas alunas e meus alunos da segunda série do ensino médio leem enquanto a escola suspendeu suas atividades letivas. Entre outras propostas, resolvemos escrever para os estudantes recomendando uma leitura que tenhamos feito nesses últimos três meses de afastamento social. Recomendei, então, o livro de Igiaba Scego, nessa espécie de resenha enviada para as turmas:

No começo de junho, fui ler um livro que eu não tinha exatamente me programado para ler. Às vezes, invento projetos de leitura para mim mesmo. Nem sempre cumpro, mas dessa vez estou conseguindo realizar um deles: ler livros de literaturas africanas traduzidos para o português. Quando estava na graduação, entre 2004 e 2007, estudei literaturas africanas de língua portuguesa, mas nunca tinha parado para ler clássicos africanos em outras línguas, como os do inglês: Tsitsi Dangarembga, Chinua Achebe, Ngugi wa Thiongo’o. Também não tinha lido escritores africanos mais recentes, como Chimamanda Ngozi Adichie. Foi aí que, na segunda semana de junho, topei com o livro de Igiaba Scego (pronuncia-se “Idjiába Chêgo”), Minha casa é onde estou. Topei entre aspas. Eu já tinha comprado o livro no começo do ano, conheci pesquisando autores recentes de literaturas africanas (vocês vão ver o meu engano), estava na fila de leituras. Porém, enquanto estava lendo eu pensei muito em vocês, meus alunos. Por isso, digo que “topei” com esse livro, pois ter pensado nos alunos me fez olhar para ele com outros olhos. OK, mas por que gostei do livro e, além disso, pensei em vocês?

Esse livro curto, que foi publicado no Brasil em 2017, não conta exatamente uma história, narra uma geografia. A cada capítulo, conhecemos um lugar público da cidade de Roma, um teatro, uma praça, uma rua. É um passeio por essa velha cidade que já foi a sede do Império Romano, onde já habitou tanta gente diferente e que guarda boa parte da história da Europa. Acontece que em cada um dos lugares de Roma visitados pelo livro Minha casa é onde estou, Igiaba e sua família viveram cenas inesquecíveis de suas vidas. Mais do que isso, esses lugares de Roma são cenário da vida de uma família de origem somali, na África oriental, que chegou exilada à cidade italiana em 1969, com as memórias e os valores de seu território de origem. É um pequeno livro que traça muitas linhas sobre o mapa da cidade. Igiaba, que escreve em italiano, nasceu em Roma, em 1974 – mulher preta retinta e europeia, revela, com as memórias romanas de sua família, que a África está presente na Europa, que a cidade de Roma é habitada por culturas do mundo, que uma cidade é formada por caminhos que dão em muitos países. Então, eu me enganei no meu objetivo: não li literatura africana, mas, sim, literatura afro-europeia.

Até aí tudo bem. Mas por que exatamente eu pensei em vocês? Tá, conhecer Roma pode ser o de menos (mas não é – você conhece?), e conhecer histórias africanas na cidade de Roma já deixa tudo mais interessante. Só que o jeito como o livro é escrito me pareceu empolgante: o estilo de Igiaba Scego parece uma conversa. Ágil, pop e denso, evoca a música de Chico Buarque e Nat King Cole (você conhece esse cara?), homenageia a grande escritora chicana Gloria Anzaldúa (você sabe o que é chicano?), compara culturas da Somália com culturas europeias (você sabe onde fica a Somália?), num vaivém de referências e memórias que está organizado de acordo com lugares de Roma. Assim, você lê um livro que é complexo naquilo que ele narra, mas o vocabulário e o tom do texto desejam que o leitor goste, ou seja, que seja gostoso de ler.

Projetos de poesia e trocas pedagógicas para as escolas em quarentena

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Durante a quarentena contra a pandemia de covid-19, procurei intervir na timeline com textos curtos que pudessem dialogar com estudantes, famílias e professores do ensino básico.

1. Atendendo à convocação feita a professores pelo ótimo projeto Conexão Escolas, da TV Escola, que visa conectar online professores, escolas, estudantes e famílias por meio da troca de notícias e textos, propus um texto que recomenda três, entre tantos, projetos online de poesia que reúnem poetas diversos e de diferentes cidades. Poesia que faz bem para a timeline foi publicado no dia 9 de abril na categoria “Boas práticas” do blog do Conexão Escolas. O texto recomenda os projetos Garganta, de Valeska Torres, Quarentena Poética, do Slam das Minas RJ, e Notícias de outras ilhas, de Tarso de Melo, que acontecem como podcast, no Instagram ou no site da Revista Cult, e podem ensinar sobre como mobilizar uma comunidade de pessoas para ler e escrever.

2. Sobre a complexa situação dos professores de ensino básico durante a quarentena, impelidos a lidar às pressas com tecnologias de ensino a distância durante uma emergência de saúde pública, sublinho um aspecto que tem sido decisivo para mim: a troca de experiências. Nessa quarentena, um pensador tem se destacado na repercussão de sua fala entre comunidades de professores. As ideias de Ailton Krenak, representando saberes capazes de criticar fundamentos da cultura brasileira, se encontram com uma prática de troca de experiências já comum nas salas de professores escolares: narrar “para que o céu não caia”. Narramos, nas salas dos professores, aulas, comportamentos de alunos, memórias de profissão, histórias de vida como estratégia de autoria no espaço escolar. Por isso, propus, no blog da Editora Oficina Raquel, o texto Ler e ensinar nesse futuro do presente,

 

Língua portuguesa passa a ser módulo dos Percursos Educativos

[Matéria reproduzida do Portal do MEC]

Depois do Percurso Educativo de Matemática, a TV Escola, emissora vinculada ao Ministério da Educação, lança nesta quinta, 5, o segundo módulo de aprofundamento de estudos para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), desta vez em língua portuguesa. Plataforma digital desenvolvida para os estudantes que se preparam para o Enem, o Percurso Educativo apresenta todas as questões do exame desde 2012, divididas por conteúdo pedagógico, pelo grau de dificuldade e pela incidência percentual dos temas em todos os exames.

Elaborados por meio de projeto da TV Escola que complementa o programa Hora do Enem, os percursos – em matemática, língua portuguesa e, em breve, nas demais disciplinas – não apenas apresentam o caminho para resolução de exercícios, mas servem de apoio a qualquer pessoa interessada em estudar. Além das questões do Enem, a plataforma oferece links para videoaulas, materiais pedagógicos e múltiplos conteúdos de aprofundamento dos estudos.

O percurso de língua portuguesa foi desenvolvido com a curadoria do professor Luiz Guilherme Barbosa, consistindo em um roteiro de estudos dividido em três caminhos – texto, gramática e literatura. As seções foram organizadas com base na Matriz de Referência do Enem, em consonância com a prática curricular da escola brasileira.

O grau de dificuldade de cada questão foi medido especialmente para a elaboração desse percurso educativo. Questões de compreensão textual ou que requerem a aplicação de um conceito ao texto são consideradas fáceis, enquanto as que demandam maior concentração na leitura, mobilizando mais de um texto ou conceito, são consideradas médias. Já as questões que exigem habilidade de leitura ou conhecimento prévio complexos, em geral sob perspectiva interdisciplinar, foram classificadas como difíceis.

Transformação – Para o professor Barbosa, o aprendizado da língua portuguesa e o estímulo à leitura também fundamentam o compromisso da escola em formar pessoas engajadas na transformação do mundo. “Um cidadão letrado deve ser alguém competente para ler, escrever, falar e escutar em diversas situações de comunicação, da mais formal à mais informal”, explica. “Ele conhece os gêneros textuais e também as regras da gramática normativa, mas principalmente é autor de um discurso que procura fazer justiça ao seu desejo e ao desejo do outro, no contexto de uma sociedade democrática. ”

O investimento em leitura é notório na prova do Enem, que praticamente seleciona um novo texto para cada questão da área de linguagens, códigos e suas tecnologias. Textos literários estão muito presentes nas questões, inclusive naquelas que não tratam de conhecimentos de história ou composição relacionada à literatura. Imagens publicitárias, infográficos e tirinhas também testam frequentemente a leitura de elementos não verbais.

Além disso, diversas questões preveem a análise comparada de textos, o que exige do estudante o desenvolvimento de modos de construção argumentativa do material. Assim, além de conhecer algumas regras de funcionamento da gramática do português, é preciso chegar ao Enem sabendo reconhecer estratégias argumentativas, dominando a teoria das funções da linguagem ou compreendendo a formação histórica do português brasileiro.

Questões – As questões referentes ao texto incluem o estudo de gêneros textuais, linguagem não verbal, estratégias argumentativas, funções da linguagem, coesão textual e relações de intertextualidade. As de gramática se debruçam sobre três áreas: norma-padrão, variação linguística e patrimônio linguístico. Por fim, as questões referentes à literatura estão concentradas em duas perspectivas: a história da literatura no Brasil e a organização do texto em função dos gêneros literários.

A história da literatura está organizada de modo a refletir de maneira equilibrada a quantidade de questões referentes a cada momento literário. A literatura do período colonial e a literatura do século 19, com baixa incidência de questões no Enem, reúnem as categorias históricas dos estilos barroco, arcadismo, romantismo, realismo, naturalismo, parnasianismo e simbolismo. A maior parte da prova é centrada nas literaturas dos séculos 20 e 21, que reúnem pré-modernismo, modernismo e literatura contemporânea. Outras questões que não preveem o conhecimento da história literária são organizadas em função do gênero ao qual pertencem os textos objetos propostos: teatro, poesia e narrativa.

Assim como no percurso de matemática, a plataforma de estudos de língua portuguesa pretende tornar mais clara a organização das provas do Enem para que o candidato produza um caminho de estudo condizente com os saberes que são requeridos na resolução das questões. “No fundo, o que está em questão é um outro modo de estudar língua portuguesa, que responda com maior rigor às propostas elaboradas pelos parâmetros e orientações curriculares vigentes, em busca da autonomia do estudante na produção dos saberes”, resume o professor Luiz Guilherme Barbosa.

Clique aqui para conhecer mais sobre os Percursos Educativos.

Assessoria de Comunicação Social

Assassinato de poetas a domicílio

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Dá pra fazer muita coisa com esse título. A Bruna Gonçalves, por exemplo, printou o pixo que apareceu na tela e levou com ela pra oficina literária na escola. Assassinato de poetas a domicílio. O menor conto e o conto menor, conto de escola circulando torto. O canto virado de sereia foi o do conto. A comunidade dos poetas-na-escola diante de Os cem menores contos brasileiros do século, que o Marcelino Freire organizou. Lemos vários, em roda, voz a voz, vis à vis. Depois, a vez de cada um escrever o conto em até 50 letras, cada um escreveu vários. Alguns estão aqui. Foi no dia 7 de julho de 2017 e era uma sexta-feira naquela biblioteca do Colégio Pedro II, no bairro de Realengo. Nenhum poeta à vista.

 

– Olá, Sr. Lua! Tudo bem?

– Não.

 

Lógica do capital

Por três horas catou folhas no chão, então lançou-as ao mar.

 

a cada mordida
cuspia os caroços no chão
a cada beijo
um de seus dentes caía

 

– Você me ama?
– Não.

 

Cinco

Um, dois, três, quatro, quatro.

 

Não abriu a porta, moveu o mundo todo em volta.

 

Quando o sol nascer no leste, saberemos que fomos enganados.

 

É isso.

 

Os contos de Assassinato de poetas a domicílio são, respectivamente, de: Juliana Pereira, Gabriela Almeida, Mariana Freitas, Ana Clara Nogueira, Bruna Gonçalves, Alexandre Magalhães, Gabriela Almeida e Gabriel Tomé

 

Bartleby e seus tradutores

 

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Javier Zabala desenha Bartleby

Bárbaro burburinho. Uma professora me contou que jogou fora um livro do Bartleby que ela tinha porque a frase do Bartleby estava mal traduzida. Bartleby é literatura de ocupação. Quando Bartleby ocupa o escritório do advogado, permanecendo nele durante os finais de semana, o narrador se pergunta: “Mas o que ele poderia estar fazendo ali? – copiando?” O que fazem, afinal, os estudantes numa ocupação? A frase do Bartleby ecoa a recusa que as ocupações são, embora haja controvérsias. É, de todo modo, uma frase que enuncia a própria possibilidade da política, e, por isso mesmo, do exercício da cidadania numa sociedade democrática. Esse clássico norte-americano, contemporâneo a outro clássico seu conterrâneo, o conceito de “desobediência civil”, de Henry David Thoureau, pode ser lido como uma espécie de usina de linguagem democrática, já que o gesto bartlebyano produz sempre mais democracia onde, mesmo numa relação de trabalho organizada e instituída, ela (segundo se diz) já se faz presente. Bartleby, precursor das ocupações, encontra agora traduções inéditas para que nessa língua se possa falar mais ou ainda mais alguma coisa que ecoe um burburinho bárbaro como “I would prefer not to”. São traduções produzidas para o Instituto Pierre Menard, já que, por enquanto, não estamos nele. O Instituto Pierre Menard foi imaginado por Enrique Vila-Matas, em Bartleby e companhia: “Instituto Pierre Menard, romance de Roberto Moretti, é ambientado num colégio em que ensinam a dizer ‘não’ a mais de mil propostas, desde a mais disparatada até a mais atraente e difícil de se recusar”. Não foram poucos os alunos que me perguntaram o que aconteceria se eles preferissem não fazer a tradução que propus. Não fui eu quem disse o que aconteceria. Kafka inventou os seus precursores, Bartleby inventará os seus tradutores. “Traduzir é como olhar para a direita e para a esquerda ao mesmo tempo”, escreveu um dos tradutores, o Caio Philipi. Outro tradutor, o Patrick Barboza, observou que um software de tradução não poderia ser muito criativo ao traduzir Bartleby, pois faz “a tradução com base na palavra e não no contexto”. O Google Tradutor propõe: “Eu preferiria não”. O Patrick, que é cego, desejou reivindicar a tradução em contexto, o que me deixa confuso e feliz. Afinal, no contexto da escola e depois da ocupação, a leitura do clássico feita por esses alunos da terceira série do ensino médio responde a que contexto de família, de cidade, de escola, de país, de gramática, de tradução? Tradutores amadores, que paixão moveu cada um? O trabalho com a leitura do texto literário, na inscrição de cada um no texto, é tradução infinita, como o trabalho de Bartleby, no escritório, foi repetir a frase que, a cada vez repetida, “abole o termo sobre o qual incide e que ela recusa, mas também o outro termo que parecia preservar e que se torna impossível”, no modo como a pensou Deleuze. Tradução impossível, a frase de Bartleby produziu tradutores improváveis que, desde a escola, a querem estrangeira e por vir, na iminência de serem lançadas pela janela ou jogadas no lixo, pois a tradução original não vai chegar.

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As traduções foram produzidas por estudantes das turmas 2304 e 2308, da terceira série do ensino médio do Colégio Pedro II, Campus Realengo II, em abril e maio de 2017.