Dossiê “Verdade tropical: um percurso de nosso tempo”

Roberto Schwarz

O ensaio que Roberto Schwarz dedicou ao livro Verdade tropical, de Caetano Veloso, desencadeou em 2012 uma série de textos, que são mais ou menos esses.

Defasagem linguística

bilhete da rosângelaNão vejo contradições em ensinar, na educação básica, a compreensão de que uma língua é constituída por inúmeras variedades, sendo uma delas eleita, por critérios sociais e não linguísticos, como a norma-padrão, a ser utilizada em contextos profissionais devido a convenções sociais. Aliás, é fundamental, para se compreender a norma-padrão como um aparelho ideológico, percebê-la como uma entre outras variedades gramaticalmente legítimas, sem que isso signifique abrir mão do conhecimento e do domínio da própria norma-padrão, inclusive como instrumento para transformar a realidade linguística do falante por meio de seu trabalho e de suas intervenções sociais (penso que um médico ou uma diarista podem ser tão eficazes no combate ao preconceito linguístico quanto um professor de ensino básico). Agora, restam poucas dúvidas de que este trabalho exige a atualização do professor quanto às gramáticas descritivas da norma-padrão, que têm sido publicadas nos últimos anos no Brasil, de modo que a norma-padrão não signifique, para o aluno, uma defasagem linguística, digamos assim. Ou seja, quanto menos atualizados estivermos, maior será a distância entre a experiência linguística dos alunos e a norma-padrão vigente. Se, ainda, nos dedicarmos ao ensino de alunos inseridos em grupos sociais muito pouco escolarizados (o que é a regra no ensino público), essa defasagem é praticamente inevitável e acaba revelando com maior força o caráter repressor e excludente da norma-padrão, por mais atualizada que esta seja. Assim, de fato, penso que já podemos começar a abrir mão da tradição gramatical normativa e nos apropriarmos dos olhares dos linguistas que têm produzido suas gramáticas da norma-padrão, com base em corpora consistentes e exaustivos. É um começo, e as práticas, como sempre, estão por se fazer.
(Escrito por solicitação da Bruna Alencar, licencianda no CAp-UFRJ.)

A literatura que vem: o paradigma da crise dos gêneros

Os gêneros e as obras

Quando se propõe o posicionamento sobre a crise dos gêneros, cria-se a expectativa de se saber em que momento histórico o professor vai estabelecer os cortes em relação aos três gêneros clássicos com base em obras da modernidade que mesclam os gêneros, ou também a expectativa de que se estabeleça que os gêneros são instrumentos de classificação das obras e não propriedades delas próprias.

Nesse sentido, espera-se do professor que apresente a situação atual dos gêneros com base em seu próprio cânone ou no cânone mais adequado para essa demonstração – e aí seria “ótimo” tomar como exemplo as Galáxias, de Haroldo de Campos, entre outras obras propícias – e ao mesmo tempo que reconheça que em alguma medida as obras nunca “pertenceram” plenamente aos gêneros. Também costuma entrar no discurso o efeito das novas tecnologias sobre a configuração dos gêneros clássicos.

Penso que a coisa toda funciona assim, entre dois limites: há os que abordam a literatura contemporânea com base no modelo dos três gêneros, e consideram as obras de difícil classificação entre gêneros como resultantes típicas da mescla estilística – esta é uma posição característica de uma determinada crítica paulista e teoricamente inspirada na solução de Emil Staiger, como veremos –, e há os que abordam as obras com base nas noções de fronteira ou dissolução dos gêneros, e consideram as obras de difícil classificação como a demonstração de uma literatura que não se deixa classificar – esta é uma posição característica de uma determinada crítica carioca e teoricamente inspirada na lição do pós-estruturalismo.

De qualquer maneira, os gêneros são uma classificação. E, quanto às classificações, conhecemos a lição chamada Michel Foucault, o qual, no prefácio a As palavras e as coisas (1966), toma de empréstimo a “divisão dos animais” em uma enciclopédia chinesa, conforme relatada por Borges – um desses escritores adequados à abordagem da crise dos gêneros. Podemos aplicar o exercício borgiano à situação dos gêneros e propor que

Os gêneros se dividem em: a) romances; b) romances best seller; c) romances da Companhia das Letras; d) Paulo Coelho; e) prosa experimental; f) prosa poética; g) poemas em prosa; h) Francis Ponge; i) pós-poesia; j) obras de que o Alcir Pécora gosta; l) escritas cênicas; m) sonetos; n) sonetoides; o) poemas visuais; p) poemas cabralinos; q) poemas marginais; r) Ana Cristina Cesar…

Há nessa classificação uma salada de categorias, é certo, que poderiam sugerir ausência de rigor, indistinção entre as categorias de gênero, autor, mercadoria… Mas há, ao mesmo tempo, uma desierarquização das categorias que se verifica na circulação da chamada literatura hoje, e se percebe ora devido às dificuldades de classificação de uma obra, ora na eleição de um poeta como paradigma geracional, ora na produção de uma forma literária que redefine a categoria de gênero… De modo que esta lista representa, como classificação, uma outra espécie de  rigor.

E esse rigor só é possível porque, no campo da literatura – enquanto nomeação moderna e recente de uma atividade que não se encontra com esse nome em contextos clássicos –, não há o “lugar-comum” (cf. Foucault) indispensável à formulação das classificações de objetos heterogêneros, de modo a se constituir, na própria classificação apresentada, que é ela mesma – frise-se – um exemplo entre outros de classificação da situação contemporânea, uma “heterotopia” (cf. Foucault), em virtude das categorias heterogêneas. E, quando afirmo que não há o lugar-comum, quero dizer que o campo da literatura – que inclui o discurso sobre a literatura – se define pela crise, “apostando com isso na força criativa do paradoxo e do ‘mal entendido’”, na formulação de Marcos Siscar, no ensaio “O discurso da crise e a democracia por vir”.

Trata-se, nesse caso, de um olhar que encontra seu rigor ao se posicionar entre os “códigos ordenadores” dos gêneros, que hoje são enunciados principalmente por editoras, prêmios literários, jornalismo literário, e as “reflexões sobre a ordem”, que, como tais, questionarão as ordens instituídas. Assim, ao propor uma outra ordem, singular, ou um exemplo da ordem contemporânea, a classificação que proponho parece dizer respeito a um campo intermediário entre os “códigos ordenadores” e as “reflexões sobre a ordem”, que é o da “experiência nua da ordem e de seus modos de ser”, cuja história e cuja investigação Foucault nomeou “arqueologia”. Nesse caso, se estudariam exemplos, ou casos paradigmáticos, ou seja, representativos de uma reordenação dos códigos.

(Giorgio Agamben anota que, em latim, o termo para-deigma correspondia à noção de exemplo, o que é muito diferente da noção normativa do senso comum, como se diz que há uma crise dos paradigmas. Interessa ao filósofo que o exemplo seja o objeto singular que é, ao mesmo tempo, representativo de uma categoria, de modo que o paradigma, enquanto exemplo, constitui um elemento do método arqueológico, como é o caso do estado de exceção, paradigma da democracia, ou do enjambement, paradigma do verso.)

Como é o caso dos juízos de Alcir Pécora, que são, a meu ver, um paradigma da literatura contemporânea. Num ensaio que acaba de sair em livro pela editora Iluminuras, organizado pela professora Susana Scramin, “A literatura que não vem”, defendo que Pécora concebe a crítica como o arquivamento da modernidade, no sentido de que cabe ao crítico verificar e esperar o aparecimento de grandes obras – com os valores modernos – para que as eleja e as guarde neste arquivo. Nada impede, segundo o crítico, que não apareçam. Enquanto não aparecem, resta ao leitor crítico a fruição de  uma literatura mascarada:

Poucos autores de literatura contemporânea me dão mais vontade de ler como teóricos tão diferentes entre si como Rorty, Davidson, Cavell, Agamben, Renato Barilli, Perniola, Sloterdijk, Jonathan Lear, Blanchot, Magris, Martha Nussbaum, Boris Groys… […] Fico imaginando se essa não será uma forma de literatura disfarçada. Uma nova máscara da literatura.[1]

O que resta por ser investigado nessa observação é: por que a insistência no disfarce, que guarda um rosto moderno? Por que não uma máscara que se transformasse em rosto? O gênero ensaio, ou a teoria, necessariamente fora da literatura, mantém com ela uma relação de mascaramento, enquanto os gêneros literários constituiriam os rostos da literatura. Qual será o estatuto deste rosto, se ele existe?

“Não sou poeta e estou sem assunto”

Uma das soluções mais adotadas para se pensar os gêneros literários é a proposta de Emil Staiger que, em 1946, em Conceitos fundamentais da Poética, defende não haver obras que pertençam exclusivamente a um gênero, embora haja uma “significação ideal” para cada gênero.

Nossos estudos, ao contrário, levam-nos à conclusão de que qualquer obra autêntica participa em diferentes graus e modos dos três gêneros literários, e de que essa diferença de participação vai explicar a grande multiplicidade de tipos já realizados historicamente.

Restaria pensar qual a necessidade de se manterem as “noções fundamentais” de cada gênero se cada obra se realiza singularmente ao mesclar esses gêneros. Staiger propõe que a seleção deste núcleo ternário dos gêneros se dá por “conveniência terminológica”, o que quer dizer que ele se propõe a compreender a tradição do pensamento acerca dos gêneros e sustentar, a partir dessa compreensão ideal, uma separação entre gêneros e obras, entre as palavras e as coisas que nomeiam.

O problema é que esse horizonte da significação ideal não é tão ideal assim. A estruturação ternária num sistema fechado, para além de refletir uma configuração cristã que não se encontrava entre os gregos, aponta ainda para a simbologia do número três, segundo a qual a repetição de uma repetição só pode configurar um milagre, um acontecimento sobrenatural. Esse ideal não escapa da contingência. Nesse sentido, em vez de rostos os gêneros, para Staiger, são fantasmas das obras, são abstratos, ideais, convenientes.

Assim, a abordagem de Staiger propõe que não há obra que não seja heterogênea quanto aos gêneros, mas ao mesmo tempo propõe a manutenção da categoria ternária do gênero como um horizonte fantasmático. Sinal de que há uma dificuldade especial em se delimitarem os gêneros com base na forma das obras.

Outra estratégia para abordar os gêneros é investigar aqueles que conquistaram alguma autonomia em relação aos três gêneros clássicos, embora devido a essa própria autonomia se desconfie de seu pertencimento ao campo literário. No Brasil, especialmente a crônica, o ensaio e a canção popular. Penso que é fundamental, ao abordar a teoria dos gêneros no contexto brasileiro, considerar um ensaio curto e fundamental de Antonio Candido, chamado “A vida ao rés-do-chão”, cujo começo transcrevo:

A crônica não é um gênero maior. Não se imagina uma literatura feita de grandes cronistas, que lhe dessem o brilho universal dos grandes romancistas, dramaturgos e poetas. Nem se pensaria em atribuir o Prêmio Nobel a um cronista, por melhor que fosse. Portanto, parece mesmo que a crônica é um gênero menor.

Graças a Deus, seria o caso de dizer, porque sendo assim ela fica mais perto de nós. E para muitos pode servir de caminho não apenas para a vida, que ela serve de perto, mas para a literatura.

É o caso de observar que este ensaio opera no horizonte dos três gêneros: “romancistas, dramaturgos e poetas”. A crônica é um quarto elemento, uma perturbação ao esquema, sua excrescência. Sem “brilho universal”, foge ao paradigma da grande literatura. Mas sua marginalidade ao esquema é reconhecida como a sua singularidade: “perto de nós”, “serve de caminho para a literatura”. Subsiste uma ambiguidade, portanto, entre o primeiro e o segundo parágrafos: como gênero literário, ainda que menor, a crônica pertence à literatura; mas como caminho para a literatura, ela não é propriamente literatura.

Ora, um cronista ocupa o espaço no jornal, escreve ritualmente, em número de caracteres determinado… Ele ocupa o espaço da crônica, e, na medida em que o gênero se define pelo espaço tipográfico que ocupa, o que se assinar como crônica passa a ter valor de crônica, a ser lido como crônica. Nesse sentido, na crônica citada pelo próprio Antonio Candido, “Última crônica”, ao Fernando Sabino afirmar “Não sou poeta e estou sem assunto”, o autor demarca o lugar da crônica, definindo-a não como um conjunto de enunciados com uma articulação específica, mas como um lugar de fala, a ser ocupado pelo escritor, ainda que pela recusa a ter assunto ou a ser escritor ou poeta. É nesse sentido, portanto, que proponho a compreensão da categoria de gênero literário: a inscrição, com procedimentos múltiplos, no campo do gênero específico, seja ele a crônica, a poesia, a prosa – e, dentro dela, o romance, o conto… –, o teatro etc.

Em estado de exceção

A crônica foi aqui definida na “Última crônica”. Se tomarmos a lição de Giorgio Agamben, o verso se define pelo fim do verso. O que desejo sugerir é que não pretendo apresentar a situação histórica dos gêneros, mas considerar que cada gênero parece se definir mais claramente, hoje, quando o autor se inscreve na sua crise, no seu estado de exceção da definição. Assim, reconheço – por traços inclusive extraliterários – um poeta como poeta ainda que ele produza obras em prosa, como o fez Francis Ponge, ou um contista como tal ainda que ele componha também em versos, como o faz Dalton Trevisan, ou um dramaturgo como tal ainda que ele produza prosa de ficção, como fez Samuel Beckett. No caso de a diferença se dar na linguagem, um artista plástico será reconhecido como artista ainda que componha excelentes livros de ficção, como é o caso de Nuno Ramos. Aqui se modifica de artista plástico para artista, mas essa já é outra discussão.

Assim, há um espaço de reconhecimento (nos dois sentidos da palavra, de admiração e de identificação da obra) e, ao mesmo tempo, um processo de desidentificação do gênero, de que é exemplar, por exemplo, a obra de Carlito Azevedo, que começa assumindo a pluralidade das formas poéticas da tradição, sobretudo a do século XX – poemas visuais, simbolistas, sonetos, em prosa, modernistas, marginais etc. – e, com Monodrama, produz uma experimentação de gênero literário (“drama”) e de forma, que produz outra força para o seu projeto.

É quando, de acordo com a imagem que Agamben toma de Simone Weil, o artista começa a voar para baixo. Ou seja, há gêneros, que são instituídos pelos gestos do autor. Quanto Dalton Trevisan, num livro de contos, produz um texto em versos, ele está produzindo, por seu gesto, não um poema, mas um conto em versos. Esse movimento de desidentificação da obra com o gênero ao qual pertence, que produz uma exploração dos limites do gênero – o gênero é concebido em crise – é aquele mesmo que “movimenta” a literatura.

Nesse sentido, será possível formular a hipótese segundo a qual uma obra se inscreve no gênero do qual participa sob um estado de exceção do gênero; ou seja, como participa do gênero pelo gesto do autor, a rigor a obra não contribui, com seus enunciados, para definir o gênero. Assim, não estamos mais nem num contexto clássico no qual nos orientamos pelos parâmetros dos gêneros oferecidos pela tradição, nem mesmo num contexto de vanguardas no qual a experimentação com os gêneros modifica a compreensão que temos de cada um: assim, sabemos que um poema, a rigor, pode não ser composto por versos e ainda assim ser um poema, assim como um conto, a rigor, pode ser composto por versos e ainda assim ser um conto. Talvez seja por isso que Giorgio Agamben tenha proposto que o verso só possa se definir, diante da prosa, por uma exceção como o enjambement. O período pós-vanguarda em que vivemos institui um estado de exceção para a definição dos gêneros. E, segundo a formulação de Walter Benjamin, a tradição dos oprimidos ensina que o estado de exceção é a regra. Reconheço gêneros, mas defino-os por uma assinatura, por um gesto, por uma enunciação.

La ausencia de autorÉ por isso que posso falar de um poema como este (ao lado), do poeta chileno Juan Luis Martinez, sem me espantar que não pareça um poema, ou que se utilize do procedimento criado por Marcel Duchamp de deslocar um objeto encontrado qualquer para o contexto do, neste caso, poema. Gênero: poesia. Não sei se lírico. (Essa é uma discussão a ser feita. Diz-se: gênero lírico, o gênero da poesia.) O poeta copia a ficha de empréstimos do seu livro de título francês, catalogado em uma biblioteca de um instituto de promoção da cultura francesa. Título que se reflete no estado da ficha, vazia, sem leitores, silenciosa, mas um silêncio que se quebra ao trazer à tona esse documento invisível, no qual o livro infame se choca com um código ordenador. O autor dá o testemunho, aqui, do seu livro, de fato publicado em 1976. É este um poema do gênero como crise, em todos os sentidos. Mas sobretudo no sentido de que o lugar de fala do poeta – um lugar de fala no gênero – desloca-se a cada vez que enuncia as obras, e, dessa maneira, é como o princípio da incerteza de Heisenberg, quanto mais luz se lança sobre a partícula mais ela se desloca.

Assim, seja para os gêneros propriamente literários (o lírico, da poesia; o épico, da prosa de ficção; o dramático, do texto cênico), seja para gêneros à margem (a crônica, o ensaio) que reivindiquem literariedade, o estado de exceção é a regra.


[1] “A hipótese da crise (Impasses da literatura contemporânea)”, publicado em 23 de abril de 2011 no caderno Prosa & Verso, do jornal carioca O Globo, como desdobramento do debate, promovido pelo Instituto Moreira Salles e publicado, em vídeo, em 4 de abril de 2011 no blog do instituto.

Bibliografia

Agamben, Giorgio. “Exemplo”. In: A comunidade que vem. Tradução de António Guerreiro. Lisboa: Presença, 1993.

Barbosa, Luiz Guilherme. “A literatura que não vem: crítica literária, narrativa e testemunho nas intervenções de Alcir Pécora”. In: Scramin, Susana (Org.). O contemporâneo na crítica literária. São Paulo: Iluminuras, 2013.

Candido, Antonio. “A vida ao rés-do-chão”. In: Recortes. 3 ed. rev. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2004.

Martinez, Juan Luis. El poeta anónimo (o el eterno presente de Juan Luis Martinez). São Paulo: Cosac Naify, 2012. (Fac-símile)

Pécora, Alcir. “A hipótese da crise (Impasses da literatura contemporânea)”, publicado em 23 de abril de 2011 no caderno Prosa & Verso, do jornal carioca O Globo, como desdobramento do debate, promovido pelo Instituto Moreira Salles e publicado, em vídeo, em 4 de abril de 2011 no blog do instituto.

Staiger, Emil. Conceitos fundamentais da Poética. Tradução de Celeste Aída Galeão. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975.

(Este texto consiste nas anotações que organizaram a prova-aula para professor substituto de Teoria da Literatura na UFRJ, em concurso de janeiro de 2013.)

A literatura que não vem

Acapa_contemporaneolcir Pécora, no exercício de uma crítica à espera do grande autor, atualmente em extinção, compreende a atividade de escolha e recolha do leitor como um arquivo da modernidade, que se vai montando, peça por peça, sempre que se encontra, ou não, uma obra que se encaixe nele. As peças do arquivo tanto podem existir quanto podem não existir, cabendo à crítica esperar por elas. Penso se não seria possível, diferentemente de Pécora, exercer a crítica como um testemunho da modernidade.[1] Isso quer dizer que a história literária será narrada testemunhando aquilo que, na modernidade, pôde não ser dito (o que é bem diferente de “não pôde ser dito”). Isso quer dizer que, para o crítico narrador, a modernidade é um objeto perdido, intestemunhável em plenitude. Isso quer dizer que o crítico cria uma relação de produção de diferença em relação à modernidade, não estando à espera do retorno ao moderno. Isso quer dizer que a crítica reconhece – porque já é exercida como um testemunho da modernidade – o que resta da literatura. O testemunho é um resto da literatura. Nele, reconhecemos não fragmentos, relíquias da memória cultural, e sim o deslocamento do lugar de fala do narrador para a fronteira ou para fora do campo literário.

A literatura brasileira apresenta momentos privilegiados de observação da mudança do paradigma do arquivo para o paradigma do testemunho. As memórias de Pedro Nava, por exemplo, atravessam a década de 1970 como o lugar em que o modernismo dá adeus à história, pensando a si mesmo pela forma e pela matéria de que se fazem aqueles romances. Lê-se, na série de livros, a crise do arquivo modernista. E a imagem desta crise pode não apenas dar noção da diferença entre memórias e testemunhos, como também da perda de alguma coisa singular que justificaria o estado de exceção da crítica em que Alcir Pécora se vê.

No quarto volume de suas memórias, Beira-mar, publicado em 1978,[2] o narrador, no momento em que, na segunda parte, “Rua da Bahia”, começa a recordar a figura central de Mário de Andrade, anota:

Há trinta e dois anos está morto Mário de Andrade. Vão rareando as fileiras dos que o conheceram em vida e viram como ele era. Assim, uma revisão da sua melhor iconografia e a seleção dentro dela, do mais fiel, não deixa de ser trabalho útil para quem, no futuro, queira ter de sua figura uma ideia mais próxima. (Nava, 2003:211)

Reprodução digital do acervo de Rubens Fernandes Junior, publicada em http://www.iconica.com.br/?p=325, em 29/04/2009, e acessada em 31/10/2011.
Reproduzido do acervo de Rubens Fernandes Junior, publicada em http://www.iconica.com.br/?p=325, em 29/04/2009, e acessada em 31/10/2011.

Quem o conheceu, viu “como ele era”. Não nos enganemos: a seleção do mais fiel não visa a estabelecer os retratos mais anatomicamente parecidos com o dono, e sim separar os retratos (pinturas e fotografias) que interpretam com mais fidelidade a figura de Mário. Tanto é assim que a série de fotografias realizada por Warchavchik (exemplo ao lado) é considerada a mais fiel por representar topograficamente a complexidade da figura do amigo.

É o retrato de um homem em plena forma e sem apresentar certos sinais de magreza forçada e de queda de traços traduzindo regime, moléstia e velhice. Mas que retrato… Dividido por uma horizontal que passasse pela ponta do nariz temos embaixo o queixo voluntarioso e possante dum dionísio sorridente. Já a metade de cima é de uma górgona míope atormentada pelas próprias serpentes. Se fizermos o mesmo jogo com uma vertical, o lado esquerdo é o dum frio e lúcido observador, o olhar agudo e cortante se esgueirando de dentro da deformação habitualmente acarretada pelas lentes dos óculos. A meia boca é irônica e altiva. Mas a metade direita mostra um olha morto de sofredor e mártir enquanto o resto de sua boca tem o heroísmo e a endurância de continuar sorrindo apesar de tudo. (Nava, 2003:212)

O narrador do livro de Nava interpreta a fotografia armando uma ficção que, no entanto, é fiel por ser produzida por alguém que conheceu pessoalmente Mário de Andrade e “viu como ele era”. Trata-se, portanto, de uma ficção verdadeira. A invenção, neste caso, é autônoma, pois, orientada por uma leitura fragmentária e metafórica da fotografia, guarda uma autoridade narrativa, um estatuto de realidade, que só pode ser dado por quem “conheceu em vida” Mário de Andrade. Este paradigma – da ficcionalização autônoma da vida – é considerado em crise pelo narrador (“Vão rareando as fileiras”). O temor apresentado é o de que alguma coisa da personalidade de Mário de Andrade permaneça sem ser dita, sem ser exposta. A sua exposição, apesar disso, está dada como possibilidade para qualquer um que “conheceu em vida” o artista. Na narrativa de testemunho, tudo se passa de outra maneira. Não há o temor de que algo fique por não dito. Teme-se não ter sido capaz de dizer uma experiência que não é dizível em sua plenitude, porque rouba a fala. O embate do testemunho é entre o dizível e o indizível, e não entre o dito e o não dito, como nas memórias de Nava.

No primeiro volume, Baú de ossos (1972),[3] o narrador figura como um puzzle incompleto o processo de composição de suas memórias.

Com mão paciente vamos compondo o puzzle de uma paisagem que é impossível completar porque as peças que faltam deixam buracos nos céus, hiatos nas águas, rombos nos sorrisos, furos nas silhuetas interrompidas e nos peitos que se abrem no vácuo – como vitrais fraturados (onde no burel de um santo vemos – lá fora! – céus profundos, árvores ramalhando ao vento, aviões, nuvens e aves fugindo), como aqueles recortes que suprimem os limites do real e do irreal nas telas oníricas de Salvador Dali. (Nava, 2003:32)

No grande vidro do vitral, a falta de uma peça parece revelar mais sobre o vitral do que uma peça rachada, repleta de ranhuras – como no vidro de Duchamp, como no Edifício Esplendor de Drummond. Não fazemos arquivo da modernidade porque não temos guardada essa peça que falta.

Dos possíveis leitores deste ensaio, faltam poucos anos para que se possa afirmar seguramente que nenhum deles terá conhecido, “em pessoa”, Mário de Andrade. Num trocadilho conceitual, vamos considerá-lo metonímia do Modernismo: nenhum leitor “conheceu em vida” o modernismo e “viu como ele era”. Mas todos são leitores do modernismo, conhecemos o modernismo em obras, não “em pessoa”. Por isso, a relação com o modernismo não é de arquivo, mas de testemunho: não guardamos a possibilidade de dizer o que ainda não foi dito a respeito, mas guardamos a possibilidade de tornar dizível aquilo que pôde não ser dito ali, e daí compor uma narrativa das obras contemporâneas. A diferença pode ser sutil, mas é decisiva. É o próprio Alcir Pécora quem o reconhece, à revelia de si e meio a medo, ao narrativizar um pouco a crítica, expondo o movimento do seu prazer – ao menos da sua “vontade de ler”.

Poucos autores de literatura contemporânea me dão mais vontade de ler como teóricos tão diferentes entre si como Rorty, Davidson, Cavell, Agamben, Renato Barilli, Perniola, Sloterdijk, Jonathan Lear, Blanchot, Magris, Martha Nussbaum, Boris Groys… […] Fico imaginando se essa não será uma forma de literatura disfarçada. Uma nova máscara da literatura. (Pécora, 2011)

Por que a insistência no disfarce, que guarda um rosto moderno? Por que não uma máscara que se transformasse em rosto?


[1] A diferença entre arquivo e testemunho é pensada pela relação que cada um destes dois conceitos estabelece com a língua e a fala, ao final de O que resta de Auschwitz: “Em oposição ao arquivo, que designa o sistema das relações entre o não-dito e o dito, denominamos testemunho o sistema das relações entre o dentro e o fora da langue, entre o dizível e o não-dizível em toda língua – ou seja, entre uma potência de dizer e a sua existência, entre uma possibilidade e uma impossibilidade de dizer”. (Agamben, 2008:146)

[2] 6 ed. São Paulo: Ateliê Editorial; Giordano, 2003. (Memórias; 4)

[3] 11 ed. São Paulo: Ateliê Editorial; Giordano, 2005. (Memórias)


O trecho citado de Alcir Pécora pertence ao texto: “A hipótese da crise (Impasses da literatura contemporânea)”, publicado em 23 de abril de 2011 no caderno Prosa & Verso, do jornal carioca O Globo, como desdobramento do debate, promovido pelo Instituto Moreira Salles e publicado, em vídeo, em 4 de abril de 2011 no blog do instituto, que reuniu, ao lado de Pécora, Beatriz Resende.

(Trecho do ensaio “A literatura que não vem: crítica literária, narrativa e testemunho nas intervenções de Alcir Pécora”, publicado em 2012 no livro O contemporâneo na crítica literária, organizado pela professora Susana Scramin.)

Poeta do nada

A assinatura de Antonio Cicero, poeta que acaba de lançar seu terceiro livro de poemas, Porventura, é um indício do que lemos em sua obra: a combinação de dois nomes de origem latina e a ausência dos acentos tônicos reverberam as referências à Antiguidade Clássica e a sintaxe rigorosa e equilibrada que encontramos nos seus versos. Mas cada elemento dessa obra é simultaneamente o seu avesso, e a Antiguidade é o que resta da Modernidade, e o equilíbrio dos versos corresponde a uma singular experimentação poética, que pode ser vislumbrada através do trabalho de oficina que a publicação dos seus poemas em revistas e outros livros, além dos ensaios que escreve, torna pública.

PorventuraTemos notícia de versões diferentes dos poemas deste novo livro a partir de uma antologia organizada em 2010 por Alberto Pucheu para a coleção Ciranda da Poesia. Por exemplo, o poema “Muro”, de Porventura, correspondia inteiro à segunda e última estrofe de outro poema, sem título, e em 2010 dizia: “E se o trecho opaco como um muro / valerá nossas noites em claro / e não raro justo o mais obscuro / resplandecerá mais que o mais claro?” Essa quadra rimada em versos de nove sílabas enuncia a possibilidade de o poema se construir pelo trabalho do poeta insone mas se revelar precisamente no trecho mais “opaco” ou “obscuro”. E é o trabalho do poeta, por meio de sua técnica, que celebra nessa versão do poema o contraste entre tonalidades vocálicas ou os choques consonantais, como no caso do primeiro verso, no qual a sequência “opaco como um muro” produz cacofonias por repetição silábica (“opaco como”, “como um muro”) que atrasam a fluidez da leitura. Ou ainda como no último verso, no qual a sequência de sílabas tônicas com a vogal mais aberta (“resplandecerá mais que o mais claro”) espelha a luminosidade do poema resplandecente que, em claro-escuro, contrasta com a sequência em vogal mais fechada do verso anterior (“justo o mais obscuro”).

Parece ser justamente essa assinatura sonora o que o poeta desejou apagar na nova versão do poema, agora intitulado “Muro”, na qual, à exceção do último verso – cuja claridade passa a funcionar mais evidentemente como chave de ouro –, a intencionalidade milimétrica das aliterações e assonâncias não se sustenta: “E se um poema opaco feito muro / te fizer sonhar noites em claro? / E se justo o poema mais obscuro / te resplandecer mais que o mais claro?” Como se percebe, não apenas a música do poema orientou a sua reescritura, mas também o aparecimento de um interlocutor, que modifica fundamentalmente os versos. Pois se antes o poema, resplandecente por si próprio, compensava as noites em claro do poeta madrugador, agora o “poema opaco”, “o mais obscuro”, resplandece o sujeito, e em vez de tirar o seu sono transfigura a sua noite sonhada.

A indecisão desse sujeito é decisiva: poeta ou leitor? Na primeira versão a questão era o trecho obscuro chegar a ser poema e assim resplandecer, conquistando autonomia em relação a seu autor que trabalhou heroicamente em sua produção; na segunda versão a questão passa a ser o efeito que o poema pode produzir com sua obscuridade. De uma versão à outra, lê-se uma fábula do poeta contemporâneo, que, como num palimpsesto, procura apagar o poema moderno e, sobre este, produzir um texto pouco mas decisivamente diferente.

São várias as formas modernas reencenadas nos versos de Cicero. Uma que chama a atenção é a disposição gráfica dos seus poemas, que, desde o primeiro livro e até agora sem exceção, são dispostos centralizados na página. À primeira vista, o desenho simétrico da mancha gráfica joga com a falta de simetria sintática dos versos, às vezes muito fragmentados, e o poema dessa maneira fica formalmente irônico. O melhor exemplo deste jogo ainda é o poema “Sair”, publicado em 2002 no volume A cidade e os livros: “Já o sol, / as cores da terra e o / ar azul – o céu do dia – / mergulharam até a próxima aurora; a / noite está radiante e Deus não / existe nem faz falta.” Este trecho é exemplar do poema inteiro, cujos versos terminam quase sempre em monossílabos, palavras curtíssimas, que dão a impressão de um poema picotado.

Por outro lado, se considerarmos rigorosamente o procedimento da centralização dos versos, será preciso atentar para o fato de este procedimento só ser possível ao poeta com o advento do computador pessoal. É o programa de edição de textos do computador que, desde a composição do poema, calcula o posicionamento centralizado do verso simultaneamente à sua própria composição – o que não era possível com a máquina de escrever. A implicação deste gesto simples não é pequena, pois assim a obra de Cicero expõe o meio de produção sem se propor a dominar e incorporar à poesia as técnicas mais avançadas dos programas de produção e edição de textos. Com isso, posiciona-se diante da tradição das vanguardas, assumindo que o experimentalismo hoje não transforma a compreensão consensual do que seja o poema, conforme desenvolve no seu ensaio “Poesia e paisagens urbanas”, de Finalidades sem fim (2005).

A atenção ao processo de escrita dos poemas é abordada na obra de Antonio Cicero tanto em seus ensaios quanto em alguns de seus poemas. Há um trecho em prosa do poeta, publicado no ensaio “Poesia e filosofia”, em 2005, e republicado no livro Poesia e filosofia (que consiste numa ampliação daquele ensaio), em 2012, em que expõe sua atividade de composição:

Há alguns anos comecei a escrever poemas direto no computador. Escrevo um primeiro rascunho e imediatamente começo a avaliá-lo e corrigi-lo. Logo sinto necessidade de ler no papel o que estou escrevendo. (…) Até dar por pronto um poema, já gastei dez, vinte, trinta folhas de papel. Ora, havia coisas escritas nelas; no entanto, nenhuma folha durou mais de alguns minutos antes de tomar o caminho do lixo. Que significa isso? Que a sua permanência não foi muito maior que a de uma fala.

É interessante notar, por este relato, que enquanto não está pronto mesmo a versão impressa do texto é um poema virtual, já que, em processo de composição, as versões dos poemas modificam-se até a sua forma final. Essa noção do poema virtual, ou seja, do texto que está apto a tornar-se um poema mas ainda não o é, aparece em alguns dos poemas da obra de Cicero. Neste novo livro, encontramos um ótimo poema narrativo em que o poeta supõe estar sendo vigiado por um vizinho enquanto, sentado diante do computador, escreve seus versos. Num primeiro momento, tranquiliza-se, pois considera improvável que o vizinho desconfie da natureza de seu trabalho, um poeta ocupado com os próprios versos. No entanto, levanta uma hipótese curiosa, que o põe em pânico: “Mas e se ele, tendo lido / meus lábios, que pronunciam / o que na tela está escrito, / perceber-se desterrado / não só do meu paraíso: / do meu desterro, coitado? / E se ele a tudo atentar / e por inveja e recalque / me der um tiro de lá? / Melhor fechar o blackout.”

Com medo do atentado, fecham-se as cortinas e o poema. Na narrativa que o texto traz, o poeta não chega a finalizar o seu poema, enquanto o poema que lemos se encerra na paranoia do poeta. Trata-se de um jogo de espelhos, no qual o poema escrito é anterior ao poema que se escreve, e que ficou por fazer. A gratuidade do tema deste poema trabalha em prol desta poesia que afirma, como princípio, a falta de fundamento da realidade: “nada sustenta do nada esta terra / nada este ser que sou eu (…) / nada o poema que breve se encerra / e que do nada nasceu”. Ou, conforme elaborou Alberto Pucheu no livro anteriormente citado dedicado a Cicero: “O poema é um quase nada tomado pelo nada da poesia”. Ou ainda conforme a epígrafe de Porventura, de Jean Cocteau, que afirma: “A poesia é indispensável, embora eu não saiba a quê”.

O fato de Cicero encontrar essa afirmação da poesia por meio da valorização da Antiguidade Clássica, e de ser autor de canções populares que tiveram ampla penetração no imaginário brasileiro nas décadas de 1980 e 1990 apenas confirma que a familiaridade com as origens da lírica – que, em seus princípios, acompanhava-se da música – representa, antes de tudo, uma afirmação do lugar da poesia, mesmo que – ou principalmente porque – este lugar seja quase invisível nesta sociedade.

(Publicado no Jornal Rascunho, em março de 2013.)

Em estado de sobrevivência

Solidão continentalA impressão é que João Gilberto Noll escreve sempre o mesmo livro. Ele próprio costuma repetir, em entrevistas, que a voz de seus romances é sempre a de um mesmo personagem, que vem de uma criatura que o habita. Também as ações se passam com frequência em hotéis, aviões, margens de rio, estradas, lamaçais, tudo o que, enfim, transforma e desestabiliza os corpos. Quem já o ouviu lendo passagens de seus livros pode ter notado o tom ambíguo entre exagerado e oco da sua fala, numa música característica baseada no sotaque gaúcho, que alonga e alteia as últimas sílabas da frase. A impostação como que piedosa e comovida, espécie de reza, ganha muita força na voz do narrador que, por razões pouco claras, desamarrou-se do trabalho, da família, da casa – do que enraíza a vida. A outra vida de agora, aquela que é narrada nos livros de Noll, arrasta os corpos dos personagens que, pouco atentos ao curso de suas histórias, escolhem sempre, sim, estar com outro corpo (pessoa, lama ou rio) e experimentar uma incurável solidão.

No caso de seu novo romance, Solidão continental, a metáfora é geográfica. O personagem é professor de língua portuguesa em Chicago, depois está acidentalmente na Cidade do México, vem ao Brasil: o continente americano está desenhado. É semelhante ao personagem que se desvinculou das coisas – o continente que se desvencilhou do outro continente colonizador, como se o curso do indivíduo rememorasse o curso da História, e este rememorasse ainda o curso geológico do próprio continente que se desvencilhou, há centenas de milhões de anos, do outro. O desdobramento geológico da metáfora amplia de uma só vez as dimensões de tempo e espaço em jogo na solidão nomeada pelo título do romance. É na tensão entre esses dois tempos, o da solidão – que parece referir-se ao indivíduo – e o continental, que a narrativa e a História se fazem no romance; assim, ao ler “solidão continental”, leia-se História.

Note-se que narrativa e História, na obra de Noll, se produzem no intervalo entre duas dimensões de tempo. Assim, fruto das tensões lançadas pelo livro, é decisivo que aquilo que mais chame a atenção em seus livros sejam as repetições – o que dá a sensação de ele escrever sempre o mesmo livro. É que este escritor não produz exatamente romances; antes, oferece-nos uma escritura, ou seja, um conjunto de marcas (ritmo, vocabulário, temas, imagens, personagens etc.) repetidas e insistentes que produzem a narrativa em aparente improviso, e representam a História refazendo-a em palavras. É essa autonomia de produção da História por meio da escritura que faz da obra do escritor gaúcho uma que pensa o lugar da literatura e da cultura no contexto pós-colonial.

Por exemplo, o narrador conhece, enquanto dava suas aulas de português nos Estados Unidos, um rapaz chamado Tom que lutara na Guerra do Iraque e pelo qual se sente atraído. O vislumbre desse relacionamento é logo elaborado pelo narrador da seguinte maneira:

Em troca eu ganharia intimidade com um soldado americano que servira na Guerra do Iraque, experiência que jamais teria fora daquela oportunidade. O que ganharia com isso? Quem sabe a confissão de que ele assassinara tantos civis. Eu não precisaria mais pesquisar sobre o assunto. Ouviria o segredo de seu próprio bafo. Eu seria uma nova testemunha da História. E receberia o assunto secreto de um homem igual a mim. Um homem que eu desejara ou desejava ainda, que eu podia apalpar se ele deixasse. Teria o inimigo no meu regaço. E poderia escrever o meu primeiro romance esculpindo a sua figura que naquele bar eu voltava, sim, a desejar inteira.

Tornar-se testemunha da História sem testemunhar os fatos significa retirar do olho e da presença a autoridade da experiência. Não se testemunha um assassinato pela televisão ou apenas por se estar na cena do crime; o testemunho se inscreve no corpo e, por isso, é, no limite, indizível – não há como falar pelo outro que não está mais aqui para falar. A cena do sexo é familiar, nesse sentido, à cena do crime ou da guerra, e não só os poetas o atestam por meio dos inúmeros poemas que fazem do sexo uma batalha, como também porque em ambos os casos o corpo do outro desaparece diante de si e lega a sua falta.

Assim é que a prática de escrever entra em jogo, para além da imagem do narrador do romance que deseja escrever o seu primeiro romance. Parece haver também, nessa possibilidade de escrever, um efeito da História que é atravessado pelo desejo pelo outro. Trata-se de, ao fazer literatura, produzir uma testemunha que não viu. Nesse caso, por não ter visto mas ter testemunhado, a História se produz durante a narrativa. A ficção afirma-se com a produção de um testemunho cego. Desconhecemos o livro que o narrador poderia escrever, como testemunha, mas conhecemos o livro em que ele, narrador, se constitui como testemunha, só que cega.

A História começa a se produzir no lapso dos fatos, como o devaneio dos personagens. É comum que de uma distração ou de uma mentira o personagem passe longo tempo imaginando-se numa situação em que não se encontra. Quando, por exemplo, o narrador chega ao hospital acompanhando um rapaz ferido e desacordado que conhecera em Porto Alegre, deixa-se levar pela resposta mentirosa que dá à moça de branco: “O que ele é do senhor?, a figura perguntou. Sobrinho, respondi, filho do meu irmão mais velho. Ao dizer isso me veio um profundo amor por esse irmão que eu não tinha. Surpreendi-me com o desejo de orar por esse irmão inexistente, eu, um sem-fé, para que ele recebesse a notícia de seu filho com resignação.” Inventa-se a família, com “profundo amor”, assim como é familiar qualquer estranho que encontra ao acaso pela rua. Qualquer contato com outro personagem significa ao mesmo tempo uma localização familiar do outro (é como um filho, é como um sobrinho, é como um irmão) e a iminência do ato sexual sempre procurado. O choque entre a devoração do outro pelo sexo e o afeto familiar torna a identificação da narrativa com o leitor problemática, na medida em que o livro parece irradiar uma vida que não há.

Algumas cenas, nesse sentido, parecem anotações para uma performance. Na passagem mais comovente do livro, o narrador encontra o corpo de Frederico, o rapaz que posteriormente levaria ao hospital por insistência dos passantes, na beira de um rio, ferido e desacordado, e cercado por um grupo de curiosos. Anunciando-se parente do rapaz, pega-lhe o corpo, sobe a ribanceira carregando-o pelos ombros e sai caminhando estrada afora, sem direção. O rapaz ferido. Dia e noite de caminhada. Após o descanso:

Dessa vez escolhi jogar sua parte de cima para a frente do meu corpo. Sua cabeça batia na minha barriga e eu pensava que isso seria apenas por mais um tempo, até que eu decidisse o que fazer com ele. Se bem que eu não conseguia imaginar nenhuma solução que não fosse a de carregá-lo para sempre, por períodos tresnoitados, dias esfaimados, calor, inércia perambulosa, pendor para o abandono.

Andei alguns quilômetros com o garoto no ombro. Meu lado esquerdo começava a doer. O trajeto seria o meu Calvário talvez. Já era madrugada. Eu carregava um atlas no meu ombro, e era difícil acreditar que aquele universo de ossos, músculos, cartilagens, vísceras poderia estar de passagem para um estado de paralisia e desintegração.

Há nessa cena muito da força de se ler João Gilberto Noll. O corpo a corpo entre o andarilho e o doente constitui uma alegoria que representa forças de sobrevivência muito presentes no cotidiano das grandes cidades. O esquecimento, por parte do narrador, da solução de procurar um serviço de saúde é sinal de que o homem se inscreve em outros termos que não os do Humanismo na literatura de Noll. A solução de “carregá-lo para sempre” é simbolicamente comovente pela disponibilidade que demonstra o narrador para sustentar a doença do outro; ao mesmo tempo, é de uma crueldade notável – o que a torna mais comovente, nesse caso – por arriscar a vida do doente, que é cruz e é atlas.

Representa-se, nessa cena, uma beleza indesejável. É também por isso que, por mais distante que seja o seu estilo ao de um texto cênico, os personagens de Noll assemelham-se a atores que representam papéis que todos representamos na vida urbana. Carregar a doença do outro, ser carregado pela gana do outro. Esses personagens são criaturas, como aquelas que aparecem nas pinturas de Iberê Camargo. Segundo a formulação do crítico de arte Ronaldo Brito, as telas de Iberê que pintam ciclistas trazem, de fato, criaturas – como homens que perderam seus traços mais superficiais de humanidade. “Pois toda essa atmosfera sombria, pós-hecatombe, termina prontamente redimida pela intensidade de seu brilho estético – o que quer que ainda sobre de autêntico e positivo na ideia de Beleza encontra-se com certeza aqui.”

Essa formulação poderia muito bem aplicar-se à obra de Noll. Com a diferença de que, em se tratando de literatura, também a língua entra no jogo dos restos de que fala o crítico de arte. O professor de literatura que protagoniza Solidão continental lida sempre, mesmo quando se encontra no Brasil, com estrangeiros que desejam aprender português. No seu exílio, a língua é o que resta do seu mundo familiar, mas é nela que se representam as experiências estranhas e estrangeiras. Nesse sentido, a língua funciona como uma espécie de sonda que tateia o real e alarga o território pelo qual se move o narrador. Assim é que a História se produz durante a narrativa, pois a língua é instrumento de pesquisa e maquinaria de produção do real a se descobrir em território estrangeiro, em outras línguas, outros corpos, outros países…

(Publicado no Jornal Rascunho, em novembro de 2012.)

Crítica fantasmática

Tempo reencontradoA medida da literatura brasileira foi sempre difícil de estabelecer. A comparação com a literatura europeia foi por muito tempo a fórmula desta medição e a prova de sua inferioridade, até que surgissem autores em prosa e poesia capazes de dar a prova contrária, a começar por Machado de Assis. O reconhecimento das condições socio-históricas da formação nacional e sua influência sobre a produção artística pareceram o caminho para a compreensão da singularidade de uma literatura por vir, e que por fim apareceu ao longo do século XX graças a um elenco de “grandes autores nacionais”.

Quem estabeleceu parâmetros claros para a compreensão desta singularidade foi Antonio Candido, cuja obra de crítica literária se tornou a principal referência para acompanhar a história de nossa literatura através de uma aproximação à realidade brasileira e, em decorrência, da formulação de uma estética potente. Assim, no período de tempo entre a publicação de sua maior obra, a Formação da literatura brasileira, em 1959, e a do ensaio “Dialética da malandragem”, em 1970, enquanto elaborava sua análise das forças sociais atuantes na estrutura das obras literárias e consolidava a visão moderna da literatura lecionando em universidades de São Paulo, Antonio Candido viu surgir toda uma geração de excelentes críticos mais ou menos tributários de sua obra. Em meio a essa geração e, por diversos motivos, destacando-se dela encontrava-se Alexandre Eulalio, um intelectual carioca de formação autodidata que interveio no campo da crítica de maneira extremamente singular.

É possível notar, entre seus melhores colegas de geração, um modo de construir a obra de crítica procurando pôr em tensão as leituras de Antonio Candido com discursos altamente elaborados vindos de fora. Podemos lembrar a importância da obra de Jacques Derrida para Silviano Santiago, da Estilística para Davi Arrigucci Jr., ou do Formalismo Russo e da Estética da Recepção para Luiz Costa Lima. Com essa combinação, esses três críticos, e alguns outros, foram capazes de reler a poesia e a prosa brasileiras, principalmente as do Modernismo, derivando suas leituras em novas teorias para a literatura.

Criou-se assim um campo algo conflituoso de valoração das obras literárias – o que é prova de maturidade do campo – que hoje pode ser claramente verificado no discurso acerca da literatura contemporânea. Há tal desacordo quanto à situação desta literatura, ou mesmo aguda antipatia declarada por ela, que se pode até chegar a pensar num certo esgotamento de um projeto de crítica que busque uma visão sistemática da atividade literária.

Independentemente desta hipótese, a singularidade de Alexandre Eulalio em meio a sua geração parece dizer respeito a essa percepção de que a obra crítica pode se estruturar menos como um romance de formação e mais como um livro de poemas. Nesse sentido, digamos que esse crítico é autor de um “romance”, publicado em 1978 (A aventura brasileira de Blaise Cendrars), e de diversos “poemas”, ou seja, seus ensaios publicados aqui e ali, que foram reunidos em livros póstumos (o autor faleceu em 1988, aos 56 anos) – esgotados – e que são agora republicados no volume Tempo reencontrado: ensaios sobre arte e literatura, com organização e apresentação de Carlos Augusto Calil.

Chama a atenção a multiplicidade que atua nos textos. Por um lado, são diversas as formas críticas que neles encontramos, como retratos das obras de Cornelio Penna e Jorge de Lima – não à toa dois escritores que também foram artistas visuais; um ensaio panorâmico dedicado à arte brasileira no século XIX – no qual a catalogação de diversos artistas menos conhecidos é valorizada; e a série de ensaios dedicada a Esaú e Jacó, o romance de Machado, e/ou ao painel d’O Último Baile, nos quais se observa a argúcia de algumas análises de Eulalio.

Como se vê, além da forma, é muito constante a abordagem comparativa entre arte e literatura. Seu interesse parece recair sempre no que identifica como múltiplo, disperso ou transitório, até mesmo por enfatizar o momento histórico de transição entre o Império e a República, que se mostra decisivo em diversos momentos dos ensaios.

Assim é que esses signos aparecem em passagens como naquela em que destaca a atuação Eduard Hildebrandt, viajante europeu que retratou em aquarelas o Brasil de maneira singular:

Mas condições especiais de permanência não impediram contudo que sensibilidades incandescentes sintonizassem, em imediata captação intuitiva, certa verdade espectral do Brasil, invisível para outros tipos de temperamento. Foi o que Eduard Hildebrandt conseguiu como talvez mais ninguém: transfigurar, à primeira vista, cifras de uma realidade que o fascinado toque pictórico dele acusa de modo dramático. Na sequência admirável de aquarelas que realizou em Santos, no Rio de Janeiro, em Salvador e no Recife, entre março e outubro de 1844, sem que se dê nenhuma perda do registro objetivo, Hildebrandt produz documentos que se situam no limiar da visão. Cenas nas quais, como arrebatados num contínuo poderoso, paisagem e figurantes parecem integrar um mesmo perplexo torvelinho; a mais acesa grafia romântica define os recursos todos de que dispõe a fim de fazer chispear as intensas dissonâncias da atmosfera asfixiante.

Há um compromisso com a história no crítico e em seu objeto (“registro objetivo”) e, ao mesmo tempo, a afirmação de uma “verdade espectral”, que em tudo destoa das verdades estruturais que orientavam o discurso crítico no período de atuação de Alexandre Eulalio.

O caráter fantasmático identificado na presença de uma verdade histórica na obra, à parte o que possa haver de espiritual em sua visão, é o que resta desta crítica como diferença atuante. É este o recurso que, reafirmado hoje, pode impulsionar a presença de múltiplas vozes na crítica literária, cada uma justificada menos por linhagens críticas do que por derivas que, antes de tudo, são fruto da fala de outros, que, calados, permaneceriam espectros.

(Publicado no Jornal Rascunho, em fevereiro de 2013.)