
Procurando relacionar os estudos de gramática e literatura no dia a dia da escola, tenho proposto o haicai como aventura estilística. É preciso caminhar para escrever um haicai: não tenho abrido mão dessa decisão que os grandes haicaístas japoneses, como Bashô, tomaram para escrever. E caminhar pela escola já é desafiador! Sair de sala com um grupo de mais de trinta adolescentes, acompanhados por um único professor, não é viável em qualquer escola, com qualquer turma. Foi assim que, na última semana, repeti essa experiência duas vezes na escola onde trabalho, com duas turmas de nono ano de ensino fundamental, ambas com mais de trinta alunos.
A tarefa deles era, organizados em duplas ou trios, “coletar” um haicai pelo pátio da escola onde brotam algumas árvores largas e folhudas, e frequentado por pequenos macacos, e por insetos e pássaros. As aves pelo céu, os animais de passagem pela calçada da rua, a paisagem dos morros do entorno também estavam no nosso roteiro de observação. E as pessoas passantes também. Estávamos há mais de uma semana lendo haicais, especialmente os de Bashô e Alice Ruiz S. E o haicai que elaborariam precisava apresentar, como o haicai da rã de Bashô, apenas um verbo no segundo verso, e nenhum outro nos demais. O tamanho dos versos também importava, e a sequência narrativa em montagem de imagens verso a verso, também.
Tínhamos um método: cada haicai deveria ser apresentado a mim, o professor, antes da versão definitiva, para receber uma crítica. E assim alguma coisa parecia acontecer. Por exemplo:
a folha amarela
dançando no azul
vento arteiro
Esse haicai, que me pareceu um dos mais interessantes do dia, me chegou quase pronto de duas alunas bastante atentas nas aulas. A principal diferença para a versão final estava no terceiro verso: “vento artista”. Na hora, celebrei aquele texto, e desafiei as duas poetas a procurar outra imagem no terceiro verso que fosse menos diretamente associada às cores da folha e do céu, e elas me saíram com a melhor imagem do dia. De repente, o vento era um moleque travesso, saci rodopiando invisível no pátio.
Por exemplo, esse rascunho:
no céu, um avião
um pássaro entre os galhos
o vento
E desafiei o trio a procurar relacionar os versos entre si, já que o pássaro e o avião me pareciam uma imagem falsamente repetida, e saíram com essa tirada:
no céu um avião
um pássaro entre os galhos
do vento
Ah, agora sim! O avião era um pássaro, e a planta voava acima das nuvens, alguma coisa acontecia… Outra dupla se angustiou muito para achar o último verso:
céu azul
três pombos voam
…
Na hora, adorei os “três” pombos! Como no poema de Bandeira, “A realidade e a imagem”, a quantidade de pombos coloca o leitor na cena, numa paisagem particular. Não são “pombos voam”, em quantidade indeterminada e, então, em voo mais abstrato, são “três”, não se trata de qualquer cena. Mas e agora? Propus a eles: o que pode acontecer com esses pombos que pareça fruto da observação e ao mesmo tempo surpreenda? E saíram com uma ótima solução:
céu azul
três pombos voam
acima das nuvens
Nunca tinha visto essa cena! Assim como não vejo sabiás cantando em palmeiras, como na “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias. Pelo menos no subúrbio do Rio de Janeiro, os sabiás que vi cantarem preferiam as mangueiras.
Foram inúmeros os haicais e diversas as questões que eu precisava responder de cara, como professor e leitor crítico dos poemas que estavam sendo feitos naquele momento pelos meus alunos. Depois de pouco mais de uma hora de trabalho com cada grupo, tínhamos um conjunto de dezenas de haicais que eu leria com atenção, e selecionaria para uma plaquete editada como material didático com recursos da escola. É um gesto de reconhecimento da autoria de adolescentes, enquanto vivíamos ali uma experiência com determinado estilo que dependia dos saberes gramaticais: expressões nominais, expressões verbais.
Um dos haicais interessantes se apropriou das onomatopeias que observamos em outros autores, e propôs essa sutileza, com a qual me despeço:
poça quieta
o mosquito nasce
pic! pic!