Desde que uma aluna minha de ensino médio me interpelou há quatro anos me perguntando por que nas aulas de literatura não aparecia a literatura feita no mundo inteiro, passei a ler sistematicamente a poesia “antiga” de diversos povos do mundo. Com a pergunta dela eu poderia ter feito diversas coisas, mas escolhi a poesia e também o limiar da escrita como dois sinais de gosto e curiosidade pessoal.

Só que tem outra coisa: como professor de literatura em escolas, me vejo como alguém que deve saber responder bem as perguntas mais simples. Que são as mais difíceis! “Como surgiu a poesia?” “Qual o seu poeta preferido?” “Desde quando se faz poesia?” “Você poderia ler um poema que eu fiz?” “Qual o poema mais bonito que você conhece?” São perguntas típicas de sala de aula, e não respondê-las bem, com o tempo, me pareceu uma boa maneira de perder a atenção dos alunos.

O último livro que li atrás de mais respostas a essas perguntas foi o Poemas da tradição oral trovadoresca da literatura armênia. (Conheci o livro numa recente postagem de Instagram feita por algum colega, já não me lembro quem.) Foi uma leitura reveladora. Isso porque uma das questões que se desenharam para mim nessa busca é a da emergência da escrita nas diversas tradições poéticas do mundo. Até que os gregos antigos registrassem suas canções, por exemplo, diversos povos do mundo já tinham feito isso, a começar pelos sumérios, e depois, pelo menos, acadianos, chineses, egípcios, védicos. Além dos hinos, poemas profanos apareciam já entre chineses e egípcios antes dos gregos. E nem é só uma questão de primazia, mas no mínimo de nuançar o mito fundador da cultura europeia e entender, por exemplo, que o advento e a adoção de sistemas de escrita é uma das condições para o registro na escrita da tradição cancional presente na cultura de qualquer povo humano.

E o caso armênio é singular. A primeira nação a se declarar cristã, no século 4, cunhou um alfabeto original para a sua língua, no século 5, depois de ter usado diversos outros sistemas de escrita dos povos próximos, como o alfabeto grego. Por causa dessa procura pela escrita usando a escrita, conhecemos o autor desse alfabeto: São Mesrobes Mastósio. Mas também por causa da cristianização precoce, não são muitos os registros da tradição cancional no raiar da escrita armênia, já que os cristãos dos primeiros séculos não eram muito chegados a registrar por escrito o que não estivesse de acordo com os preceitos divinos. As Canções de Goghten são um compêndio de poesia oral dos primeiros anos da escrita armênia, cujos cantos remontam a até cerca de 600 antes de Cristo.

Monumento ao Alfabeto Armênio, em Chipre

O reconhecimento da tradição cancional popular armênia no mundo da escrita teve que esperar até o nacionalismo romântico, nos anos 1800, para se consolidar. Quando isso aconteceu, um mito se estabeleceu e engoliu a autoria diversa ao longo dos séculos: a Nahapet Kutchak, morto em 1592, foi atribuída praticamente toda a tradição oral dos cantos documentados. Uma tradição original de poetas populares homens e mulheres, especialmente dedicados a rituais cotidianos, como o lamento durante o velório pelos que morrem, está documentada. Os ashugs, como esses poetas são conhecidos, compunham canções breves chamadas hayrens, e a tradutora para o português, Deise Crespim Pereira, conta que essas canções tradicionais são populares ainda hoje. A matéria das canções guardadas é principalmente a experiência amorosa, lições proverbiais extraídas do cotidiano e a situação longeva de exílio, que marca a cultura. A diáspora armênia é hoje bem mais numerosa do que a população do país, que é de cerca de três milhões de pessoas.

Nos hayrens de amor há uma curiosa fixação pelo seio feminino, que alcança a dramaticidade da “coita” trovadoresca: “Se ela abraça um morto,/ De seu seio ele sai vivo”. Por isso, a associação que a tradutora estabelece entre esses cantos e a categoria do trovadorismo, embora as formas poéticas armênias não pareçam dialogar com o trovadorismo medieval nas demais línguas europeias.

O cristianismo aparece como problema amoroso, como no Hayren 91, em que uma mulher lamenta o amado ter virado monge:

Vieram e trouxeram a notícia:
“Teu amor se tornou um monge”.
Eu fiquei assombrada e aturdida,
Como poderia ele ter se tornado um monge?
Sua pequena boca está habituada à doçura,
Como poderia comer fava?
Seu corpo está acostumado com camisas,
Como poderia vestir-se com mantos?

Apesar de o original apresentar rimas alternadas e regularidade métrica, esta tradução de Deise Crespim Pereira opta por se aproximar da literalidade do texto original. E sobre as rimas é curioso lembrar que elas se estabeleceram nas línguas neolatinas a partir principalmente dos ritos cristãos de Milão, no século 4, que foram baseados nas práticas das igrejas ortodoxas (como é o cristianismo armênio).

A matéria do exílio é uma marca de originalidade dessa tradição, conta a história de um povo e conversa com as migrações contemporâneas, motivadas pelas desigualdades globais. Um meta-hayren justifica-se pelo exílio, identificando na canção uma espécie de terra, de segunda vida nacional:

Sei que você sabe muitos hayrens.
Escolha um e recite,
Conte o incontável
Para este povo estrangeiro que há agora.
Diga palavras suaves
Não fale de tua amargura para os homens.
Você sabe que sou exilado,
Mas o coração no desterro não permanecerá.

Para qualquer pessoa, nomes como “povo” ou “nação” precisam carregar a ideia de uma tradição de poesia, porque assim é entre humanos. Cada grupo que vive cultivando uma língua tem seus poetas que cultivam as “palavras suaves” dessa língua. É preciso imaginar canções onde houver gente, porque assim é.