
No começo de A metamorfose, Gregor Samsa se vê como um inseto e não quer aparecer para a família. Trancado no seu quarto, decide abrir a porta apenas quando o gerente da loja de tecidos aparece em casa naquela manhã para investigar sua ausência no trabalho. Antes de abrir a porta, pensa que vai tirar a prova do seu estado ao aparecer para os outros. Se assustá-los, então não deve mesmo sair de casa para trabalhar, mas, se não tiverem medo de seu estado, aí deve se recompor, respirar fundo, e ir de qualquer maneira tomar o trem.
Não assustar o outro por seu próprio estado é, para Samsa, um paradigma da cidadania.
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Ao ler A metamorfose na escola não é difícil perceber que estou diante de inúmeros insetos monstruosos muito amáveis, como Samsa, embora muitas vezes não compreenda o que tentam me dizer, como também acontece com a família de Samsa. O que fazer diante da voz que parece estrangeira?
Até o final da primeira parte de A metamorfose, a voz de Samsa é a única marca de diferença descrita pela família.
Ninguém afirma que se trata de um inseto, mas sim que o que fala é incompreensível. Samsa, de fato, mudou de voz. O gerente afirma, espantado: “Voz de animal!”
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Muito curiosas as portas em A metamorfose. Quando fala pela primeira vez no dia, a voz de Samsa de dentro do quarto pareceu um resmungo rouco qualquer para a família na sala “por causa da porta”. Depois, quando tenta caminhar pela casa e é enxotado de volta para o quarto pelo pai, Samsa deixa uma gosma manchando o portal da entrada de seu quarto. Dormia com a porta trancada, e durante os dias que passam permanece atrás da porta para escutar o que a família conversava. Sem simbolizar nada exatamente, a porta funciona como uma espécie de barreira e também de canal de comunicação entre o inseto monstruoso e sua família.
Comunicar-se com a família pela porta fechada é o que Gregor Samsa faz dia a dia.
No final da história, quando a porta se entreabre e Samsa aparece, ele põe tudo a perder. É perigoso deixar aberta a porta do quarto.
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Por fim, a música. O violino da irmã de Gregor é decisivo para seu destino. Ele não resiste quando a música toca, ele que tanto desejava oferecer com seu trabalho condições para sua irmã se tornar violinista. Ele se abisma quando ela toca na sala para os três inquilinos (sempre três: três capítulos, três empregadas, três inquilinos etc.). Então ele não é um inseto? Como um inseto pode se comover com a música? Ele aparece emocionado na porta do quarto para testemunhar a música da família e os inquilinos avistam aquela monstruosidade, imediatamente quebram o contrato de aluguel e ameaçam processo por insalubridade. Era o fim de Gregor: além de não trabalhar, causava grandes prejuízos à família! Foi a irmã mesmo quem, no dia seguinte, apelou aos pais pela solução final, não era mais possível conviver com “isso”. A “voz de animal” sucumbe pela música da sala. Uma armadilha! E ele não foi astuto.
A música, afinal, transportou Gregor para o seio da família, de onde foi rechaçado. Resistir à música foi o que fez Odisseu, mas não Gregor. E ambos procuravam a família.
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Ele podia ter voado.