Detalhe de taça grega do século V AEC.

Fragmento 5
Arquíloco

ἀσπίδι μὲν Σαΐων τις ἀγάλλεται, ἥν παρὰ θάμνῳ
ἔντος ἀμώμητον κάλλιπον οὐκ ἐθέλων·
αὐτὸν δ’ ἐξεσάωσα· τί μοι μέλει ἀσπὶς ἐκείνη;
ἐρρέτω· ἐξαῦτις κτήσομαι οὐ κακίω.

Um qualquer Cícone reverencia o escudo no mato,
onde deixei sem escolha esse objeto impecável.
Eu me salvei desse jeito. Que importa escudinho que já vai
tarde? Da próxima vez acho um menos pior.

Entre os poetas gregos antigos, a forma da elegia devia parecer perfeitamente imperfeita. As duplas de versos com o primeiro “inteiro” e o segundo mais curto, como se tivesse uma parte faltando, tornava o ritmo manco e, com o tempo, essa forma serviu a temas muito diversos. De qualquer maneira, não estavam entre esses temas os mais elevados, já que o poema em dísticos elegíacos não parece sustentar a voz do verso sempre com o mesmo fôlego, como faziam, por exemplo, os versos homéricos, sempre longos e heroicos. O segundo verso do dístico, assim, era um verso de pé quebrado, que não mantinha o mesmo fôlego e, não raro, comentava com humor o que aparecia no primeiro verso.

A elegia gostava dos temas de quem vivia para cantar, mesmo que chegasse ao canto machucado, enganado ou desarmado. É assim no Fragmento 5 de Arquíloco. A forma da elegia participa da interpretação do texto, que chegou até nós pela citação de diferentes versões dos mesmos versos, que segundo uma provável lorota de Plutarco teria justificado a expulsão do poeta de Esparta. É que esses versos transgridem o heroismo militar, mesmo que imitem a sua marcha heroica. Com o ritmo homérico dos hexâmetros dactílicos, o poeta canta sua salvação anti-heroica, em cadência elegíaca, quebrando um pé dos versos pares e deixando para depois uma eventual vitória na guerra.

Na tradução, procurei imitar Carlos Alberto Nunes, que transpõe para a posição das sílabas acentuadas em português as vogais longas em grego, que fazem o pé chamado dáctilo. A sequência de sílaba forte, seguida de duas fracas, se alcança projetando a rítmica ternária sobre a prosódia da frase em português. Assim, no primeiro verso, as sílabas em negrito seriam pronunciadas com mais intensidade que as demais: “Um qualquer cone reverencia o escudo no mato”. Sempre com exceção do último pé do verso, os demais formam um dáctilo típico.

Compensei no segundo dístico o enjambement perdido na tradução do primeiro, mesclei o estilo elevado com a coloquialidade abrasileirada do “mato” e talvez tenha exagerado na ironia da pergunta, respondendo à dramatização do original que, em tradução mais literal, anota: “Que importa esse escudo? Que se vá!” No jogo de perde e ganha da tradução, ando de mãos dadas com a brincadeira.