Afresco de Pompeia, de cerca de 50 EC.

Em fevereiro, estive na banca de uma defesa de doutorado em poesia brasileira, na UFF. A ótima tese elencava poemas de autoria feminina encontrados em jornais ou revistas de variedades entre 1890 e 1920, apresentando catorze diferentes poetas que tiveram alguma recepção crítica no período. Dessas, algumas são surpreendentes, pois não tinham sido identificadas em pesquisas de referência na área, como os levatamentos de Nelly Novaes Coelho e Zehidé Muzart. Por isso, foi uma leitura muito estimulante, que demonstrou o reconhecimento crítico na época de diversas poetas hoje esquecidas, as quais, confrontadas com seus outros contemporâneos, parecem participar da época assim como eles, embora sem serem hoje lembradas.

No mesmo mês, foi publicada a antologia Inesquecíveis: Quatro séculos de poetas brasileiras, organizada por Ana Rüsche e Lubi Prates, e dedicada in memoriam a Nelly Novaes Coelho e Zehidé Muzart. Das catorze poetas que li na tese, quatro do mesmo período de publicação estão nessa antologia (Josephina Álvares de Azevedo, Narcisa Amália, Auta de Souza e Gilka Machado), outras três, não: Inês Sabino, Ana Aurora Lisboa, Amélia de Oliveira. As mesmas organizadoras já tinham lançado em 2024 a plaquete Cardumes de borboletas: Quatro poetas brasileiras do século XIX, com as exatamente quatro poetas que aparecem tanto na tese quanto na antologia. A plaquete saiu pela coleção Círculo de Poemas, que também publicou o conjunto da obra poética de Maria Firmina dos Reis, em 2024, e de Gilka Machado, em 2025.

Durante a leitura da tese, sublinhei algumas afirmações gerais sobre a história da literatura que remontavam à “Antiguidade” e à autoria feminina de poesia. Em geral, transmitia-se a ideia, baseada em leituras referidas no texto, de que a autoria feminina de poesia teria se consolidado na Europa a partir da primeira revolução industrial e do advento da imprensa, mesmo que a publicação de poesia em periódicos não tivesse aberto caminhos à canonização das obras depois de publicadas em livros, quando chegavam a sê-lo. Mesmo assim, o argumento me soou excessivamente moderno, considerando as tecnologias de imprensa como avanços sociais nas oportunidades de publicação.

Me pareceu importante, por isso, lembrar de uma interminável história da autoria feminina na poesia escrita, mas também nas poéticas da oralidade, que remonta a Enheduana, a primeira pessoa autora de um poema conhecida, que teria vivido há mais de quatro mil anos em Ur, e passa pela famosa Safo, na Grécia dos anos 600 AEC, e pela desconhecida Sulpícia, na Roma do primeiro século antes da Era Comum. Dessas três poetas, já tinha lido com muito interesse as duas primeiras. Aproveitei os estudos para arguir a tese para ler e testar uma tradução de Sulpícia.

Encontrei “as 11 elegias atribuídas por uns e não atribuídas por outros a Sulpícia” traduzidas por João Angelo Oliva Neto, que apresenta a situação da obra, publicada no Corpus Tibullianum, junto a poemas de Tibulo e a outros atribuídos provavelmente a outros autores (aqui). Como a existência de Sulpícia, e mesmo a autoria dos poemas, não é atestada em termos modernos, Oliva Neto propõe compreender a autora Sulpícia como efeito, e não origem dos textos. Além disso, procura seguir uma lição que supôs encontrar nas traduções de Péricles Eugenio da Silva Ramos de elegias clássicas: o dístico elegíaco, formado por um hexâmetro dactílico seguido de um pentâmetro dactílico, foi traduzido por uma sequência de dodecassílabo e decassílabo, ambos acentuados na sexta sílaba.

Esquema simplificado do dístico elegíaco em sílabas longas ( _ ) e breves ( u ).

Das onze elegias que Oliva Neto traduziu, uma me chamou mais a atenção, imaginando a leitura de meus alunos adolescentes. A “Elegia sexta”, também traduzida por uma figura anônima citada por Guilherme Gontijo Flores (aqui), apresenta os efeitos do amor para a fama da poeta, que recebeu-o divinamente, revela-o diretamente, goza-o sob o risco da infâmia. Como Paul Veyne me ensinou no ensaio Elegia erótica romana, o efeito de verdade, proposto nos dois dísticos finais (em que a poeta celebra ter pecado e despreza a máscara social para angariar fama), estabelece a nobreza de quem fala: digna com dignos, indigna com indignos. Assim, procurei traduzir lendo o original e comparando as duas traduções, numa tentativa leiga de leitor de poesia, interessado em transmitir a forma do texto, seguindo a proposta de Oliva Neto para a tradução, em linguagem mais direta e menos erudita que a sua.

Elegia sexta
Sulpícia

Enfim o amor chegou, com pudor foi vestido,
tirasse os véus, seria eu mais famosa.
Tocada por meus dons, Citereia Camenas
conduziu-o e pôs em nosso seio.
Vênus cumpriu promessa: as minhas alegrias
são narradas a quem não teve as suas.
Não envio a ninguém em mensagens cifradas,
para lerem assim o meu amor,
porém faz bem pecar, a máscara da fama
cansa: fui digna só com quem foi digno.

*

Tandem uenit amor, qualem texisse pudori
quam nudasse alicui sit mihi fama magis.
Exorata meis illum Cytherea Camenis
attulit in nostrum deposuitque sinum.
Exsoluit promissa Venus: mea gaudia narret,
dicetur siquis non habuisse sua.
Non ego signatis quicquam mandare tabellis,
ne legat id nemo quam meus ante, uelim,
sed peccasse iuuat, uultus componere famae
taedet: cum digno digna fuisse fera.