Capa completa do livro de Regina Dalcastagnè.

Passei os últimos quinze dias lendo anotadamente Uma história da literatura brasileira contemporânea: a narrativa, de Regina Dalcastagnè, lançado há poucas semanas. É um livro longo, com pouco mais de seiscentas páginas, e muito rico em dados e informações, como costumam ser os trabalhos da autora. Numa certa perspectiva, é um catálogo de narrativas ficcionais, especialmente a partir dos anos 1970 e até os anos 2020, organizado por temas diversos, que procuram associar de alguma maneira a matéria narrativa às condições de produção das obras. É mais do que isso o livro, mas foi por isso especialmente que a leitura me interessou.

Por exemplo, ao abordar narrativas em que personagens se deslocam pelo espaço, seja migrando internamente pelo Brasil, emigrando para outros países, ou transitando pela cidade em que moram, Regina Dalcastagnè considera os deslocamentos realizados por diversos escritores ou intelectuais em geral, especialmente aqueles que migraram pelo país em busca de oportunidade profissional na área da literatura ou em áreas afins, rumo às grandes capitais do país. Assim, aquela figuração de deslocamentos nos romances pode, em alguns casos, ser percebida como a decantação de uma experiência histórica, que, por outro lado, pode ser interpretada pela ficção.

O livro é valioso especialmente por isso: oferece de bandeja um catálogo de narrativas organizado por temas, por sua vez costurados a processos históricos relevantes para considerar a produção literária recente. Li com curiosidade, atento principalmente aos autores que menos conheço, e também à valoração das obras. São frequentes as estocadas (às vezes com luvas de pelica) em autores consagrados, como Guimarães Rosa ou Clarice Lispector, e são justas, porque reivindicam para a literatura contemporânea olhares ficcionais mais justos ou complexos sobre a realidade de pessoas e populações marginalizadas. E isso, em parte, resulta da diversidade de autoria, progressiva nas últimas décadas. Carolina Maria de Jesus é presença constante pela qualidade que sua obra demonstra (com destaque para o Diário de Bitita) na representação das contradições sociais.

Saí então do livro de Dalcastagnè desejando ler mais autores que li pouco, como José J. Veiga, João Ubaldo Ribeiro, Adriana Lisboa e Maria Valéria Rezende, e gostando de perceber que autores da minha predileção receberam tratamento e análises que fazem jus ao que percebo, como acontece com Ana Paula Maia, Julián Fuks, Paloma Vidal e Sérgio Sant’Anna. Houve também o contrário, autores que amo foram lidos por um viés bastante orientado pela qualidade da representação social, e considerados, por isso, problemáticos em geral, com destaque para Dalton Trevisan. Essa maneira de historiar a produção literária parece, em alguns momentos, produzir situações em que autores cujo estilo e projeto literário me pareciam pouco relevantes receberam tratamento extremamente elogioso, em detrimento de autores com projetos literários que considero muito fortes.

Daí o interesse do livro. Oportunidade de reflexão, para mim, e também de melhor elaboração dos modos de valoração do texto. Sinto muito prazer na relação com o estilo dos autores, e Dalton Trevisan me parece um estilista muito impressionante. Vou gostar de voltar a seus textos para rever a crítica que aparece no livro Regina Dalcastagnè, que não é nova, mas não dourou pílula.

Alguns romances recentes se engrandecem nessa leitura, como Nur na escuridão, de Salim Miguel, Guia afetivo da periferia, de Marcus Faustini, Azul corvo, de Adriana Lisboa, Nihonjin, de Oskar Nakasato, Outros cantos, de Maria Valéria Rezende, Os supridores, de José Falero, ou A solução de dois Estados, de Michel Laub. São obras abordadas sob diferentes ângulos, e aparecem como representações ricas e complexas das contradições sociais.

Alguns capítulos iniciam sumarizando narrativas de obras que se relacionam com o tema a ser desenvolvido, mas logo a paráfrase narrativa é abandonada para iniciar uma análise tipicamente ensaística. Trata-se de uma técnica de redação que se quer isca para a atenção, mas que me gerou mais desconfiança do que solidariedade à escrita. Desejando ler um ensaio, interessado nos argumentos da autora e nas análises, me senti, nesses momentos, um pouco como objeto de um roteiro de entretenimento. Sublinho essa sensação por me sentir leitor de ensaios e estranhar essa ocupação no espaço do ensaio de uma técnica que reconheço frequentemente em séries de TV para streaming.

Uma pena a ausência de índice remissivo. Uma mercadoria que custa mais de 10% do salário mínimo, obra que se deseja de referência nos estudos literários, que cataloga centenas de livros e autores, publicada por uma editora que disputa a vitrine das melhores livrarias não apresenta um recurso editorial típico de ensaios do gênero. Curioso sinal de contenção de despesas ou de desleixo, que entra em contradição mesmo com as ideias defendidas pelo livro. Parecem ser contradições típicas do atual processo de reconhecimento cultural. Não sou bobo e, conforme li, fiz meu índice remissivo capítulo a capítulo. Não são todos os leitores, porém, que contam com esse tempo de leitura.

Agora é acompanhar a recepção do livro nos próximos anos, observando como a disputa por leituras da ficção brasileira contemporânea pode seguir participando da formação da minha biblioteca, dos textos que ofereço nas salas de aula, e da constituição de comunidades de leitores interessadas por experiências de crítica e crise.