
É conhecido o vídeo em que Tom Zé explica para Jô Soares e sua plateia a qualidade musical do funk “Atoladinha”, do MC Bola de Fogo, mas pouco conhecida é a elaboração dessa análise num artigo publicado pelo músico de Irará no jornal O Globo.

O funk tinha sido lançado no CD Big Mix vol. 6 do DJ Marlboro no final de 2004. Vestido com o figurino da turnê Estudando a Bossa, obra lançada nos últimos dias de 2007, Tom Zé performa no Programa do Jô, demonstrando que o refrão cantado pelas Foguentas deve ser considerado termo da história musical do Ocidente, encerrando a era cristã e patriarcal do tonalismo iniciada no século IV. Daí a fórmula segundo a qual o refrão de “Atoladinha” pode ser experimentado como um “metarrefrão microtonal e polissemiótico”.
Acontece que a mesma expressão tinha sido usada antes num curioso artigo de Tom Zé publicado no jornal O Globo em maio de 2007 celebrando o álbum Cê, de Caetano Veloso. Ao mesmo tempo em que emulava uma briga com o outro baiano, saudava Cê e sua banda, defendendo que os arranjos elaborados para o show da turnê, intitulada Obra em progresso, estavam em linha com a crise do tonalismo ocidental, cuja culminância era o funk do MC Bola de Fogo, antípoda de Beethoven. No caso de Caetano, a polifonia cromática no conjunto dos instrumentos, em festa roqueira de dissonância tímbrica entre baixo, guitarra, bateria, voz e violão, combinava com o momento musical de radicalidade milenar, provavelmente impulsionado pelo otimismo de começo do século, antes de as crises econômicas e políticas se radicalizarem a partir justamente de 2008.

Em 4 de junho de 2008, Caetano tocou pela primeira vez no palco “Tarado ni você” (no Spotify: aqui), que escuto em meio aos ecos de Tom Zé, mesmo que o compositor, ao comentar a canção, rememore o verão em Salvador, o jogo com a batida desmontada do samba, e o clima de carnaval.
A tara na melodia, além da repetição incessante da palavra “tarado”, é figurada pela subida mínima na altura da voz: um semitom. A forma é a mesma em “Atoladinha”, com a diferença, muito relevante para a leitura de Tom Zé, de que no funk a altura da voz sobe em aproximadamente quartos de tom, por isso o refrão microtonal. Assim, o “transamba” de Caetano traduz para o universo da tonalidade a forma erotizada ensinada ao ouvido pop do momento pelo funk microtonal.
A tara se dissemina pela linguagem, enunciada coloquialissimamente, o que também quer dizer à maneira iorubá: “ni você”. A metátese na preposição “em”, cujos fonemas trocam de lugar (lembre-se que é comum a pronúmcia [ĩ] dessa palavrinha), coincide com a forma iorubá de uma preposição equivalente, “ni”, uma expressão de origem indecidível típica do pretuguês. Enunciado o tema (“tarado ni você”), suas variantes expandem o escopo do afeto, compondo com o som e o sentido jogos líricos: “ni mim”, “no carnaval / nu, carnaval”, “ni tu(do)”, “ni todo mundo nu”. Os jogos entre ni/no/nu, mim/tu e nu/carnaval culminam na síntese utópica ao sul do Equador, para espanto colonizador: a nudez geral. É uma pesquisa da sonoridade da fala coloquial brasileira,1 reverberando os efeitos da neutralização vocálica na pronúncia da preposição “no”. Além do título, o álbum Cê parecia perseguir esses monossílabos típicos da fala, queria cantá-los, como no refrão: “você foi mó rata comigo”, que ecoa difuso um “morra”.
O fecho, que refaz o ciclo sem final da canção, cita em segundo grau a marchinha “Quem sabe, sabe”, de Joel de Almeida e de Carvalhinho, de 1956, que já tinha sido citada em letra e melodia na canção de 1984 gravada por Marina Lima, “Nosso estranho amor”: “deixa eu gostar de”. O “você” que completaria o verso é adiado pela interposição do “tarado”, tema da canção: “deixa eu gostar de (tarado ni) você”, como numa espécie de revelação franca do afeto fingido pelo pedido, “deixa”.
Gosto de imaginar o transamba de Caetano como comentário ao artigo de Tom Zé.
Nota
1 Depois de publicado o post, Lucas Matos observou que a neutralização entre “no” e “nu” pode aparecer também no português europeu.
