No primeiro capítulo da sua Teoria da lírica (2015), Jonathan Culler passeia por nove poemas. De Safo a John Ashbery, passa por Horácio, Petrarca, Goethe, Leopardi, Baudelaire, Lorca e William Carlos Williams. A premissa dele é que a lírica é uma tradição textual autônoma, que prescinde da mimesis tal como ela é compreendida na ficção. Assim, cada poema pode exemplificar o que pode ser a lírica, independentemente da obra reunida do autor (posição de leitura que supõe subjetividade autoral) ou da sedimentação histórica (posição de leitura que supõe que a matéria da lírica é social).
A ideia do capítulo é perseguir como a lírica acontece numa determinada tradição, a Ocidental. (Há outras? O ensaio não desenvolve, mas sugere que sim.) Em vez de observar constantes formais ou procurar traços definidores, Culler sublinha permanências e repetições na tradição oriundas de um acontecimento fundador: a lírica grega. Safo, então, aparece como a primeira forma daquilo que John Ashbery repete dois mil e quinhentos anos depois, e que pode ser parafraseado da seguinte maneira, em linguagem acadêmica:
O texto lírico acontece como um ato de fala complexo, em que o discurso em primeira pessoa se dedica a transformar o texto declaratório num enunciado com traço performativo, ao mesmo tempo em que ritualiza a linguagem por uma série muito variada de recursos de repetição (regularidade métrica ou estrófica, assonâncias ou aliterações, enfim, projeção em geral do eixo de seleção sobre o eixo de combinação).
Cada poema oferece diferentes modos dessa tradição, que, por ser uma tradição, tende a ser também cumulativa. Petrarca, por exemplo, inaugura uma determinada ideia de obra que entende o poeta como sujeito em formação e em estado de aprendizagem, que transmite experiências relativas à duração de uma vida. Essa dimensão biográfica se estabelece na modernidade como traço característico da lírica, mas Culler quer mostrar que se trata de um aspecto circunstancial. Aspecto circunscrito a determinado período histórico, que não inclui a tradição em geral.
Inúmeras poéticas no século 20 procuraram contradizer as formas líricas tradicionais e puseram a nu parâmetros fundamentais, que remontam, nesse exemplário, a Safo. Por isso, ler um poema de John Ashbery, que termina a série de exemplos, é como ler um poema de Safo, e é essa visada de leitura que o primeiro capítulo do livro de Culler procura estabelecer.
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Esta sala
A sala onde entrei era um sonho desta sala.
Óbvio que as pegadas todas no sofá eram minhas.
O retrato oval
de um cachorro era eu novinho.
Alguma coisa cintila, alguma coisa é segredo.
A gente tinha macarrão no almoço todo dia
mas não domingo, quando convenciam uma codorna
a nos servir. Por que conto essas coisas para você?
Você nem está aqui.
This room
The room I entered was a dream of this room.
Surely all those feet on the sofa were mine.
The oval portrait
of a dog was me at an early age.
Something shimmers, something is hushed up.
We had macaroni for lunch every day
except Sunday, when a small quail was induced
to be served to us. Why do I tell you these things?
You are not even here.
Ao ler o poema de Ashbery, Culler pontua que o grau de estranheza do poema em relação à tradição lírica é exacerbado, e explica de maneira fragmentária, como quando destaca o primeiro verso.
“A sala onde entrei era um sonho desta sala.” O leitor é convidado a cair nos jogos de linguagem típicos do autor, e a considerar, por exemplo, que a sala em que se entra no começo do poema é também a estrofe em que se entra, pois “estrofe”, em italiano, “stanza”, é sinônimo de quarto ou cômodo.
E logo ao “ter entrado” nesse quarto o leitor “está” num sonho, e esse jogo entre uma cena passada relatada e uma cena presente vivida é considerado um jogo lírico por excelência, que transforma em acontecimento uma enunciação em primeira pessoa que, a princípio, apenas comentaria o mundo e a vida. Trata-se de um “efeito de presença” típico da lírica, como em Safo, como em Ashbery.
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Fiz essa tradução de Ashbery por não ter encontrado outra, talvez por falta de habilidade de pesquisa. Depois de traduzir, pensei que no fim das contas Culler lê Safo como se estivesse lendo John Ashbery, o que parece muito interessante. O poema pode falar de qualquer coisa e assumir formas textuais muito diversas, mas parecerá lírico em função do modo como ele acontece textualmente. A procura por transformar um comentário numa performance textual tem efeito hiperbólico sobre leitores/ouvintes, que saem do poema, quando ele acontece na recepção, experimentando-se parte de um mundo que não parecia existir naquela configuração antes do poema.
O poema lírico cosmifica a experiência comum, que tende ao caos.
