Marginália escrita por um grupo de alunos meus de cerca de 16 anos.

Um estranhamento adolescente à escola hoje está em aprender a escrever à mão — quando o celular funciona como prótese desde os anos analfabetos de cada um. Não se engane: é tempo de guerra, de testar a vida sem celular e sobreviver. Um post it e uma bic vão nos salvar? Tampouco.

Papel e caneta oferecem um desvio dos algoritmos. Uma escuta do próprio silêncio, pois o outro, leitor, só vem depois, não é instantâneo. Escrever à mão demora. Enquanto escrevo à mão, eu sou o outro, e o texto não vem à tona como autômato, não se completa nem se corrige por si, vivo na tela e sem mim.

À mão, os suportes são ásperos e opacos, os textos, finitos e feitos por gente. Os textos não são melhores por isso, aliás, ao contrário: tendem a piorar. Escrevendo à mão, a gramática de cada um está nua, desprotegida de corretores, de geradores de texto.

Professores enquanto leem seus alunos quase sempre estão tristes. Recomendo testar a solidariedade diante da pequenez humana. Meus gatos, altivos, não falam nem escrevem, e amam, brincam e descansam.

Uma aula de produção textual que elabore a autoria pode tocar, então, no desamparo de cada um. Quem sou eu sem celular, se pergunta a letra pouco legível de cada adolescente. Que palavra é essa: mundo, minha, vinho? (Essa é minha letra!)

Ninguém tem a própria letra, nem a própria língua, não seria língua nem letra se pertencesse a um. Na língua como na letra, o erro é sempre seu, o acerto é sempre nosso. O nosso a, o nosso b, o nosso c — o alfabeto, uma instituição social, e tudo o que você pode fazer com ele é diferir, ou desviar-se, ou fugir.

O que você chama de “o seu a” é a falta que você faz no nosso alfabeto.

A palavra “gato” escrita por uma criança em processo de alfabetização.