
Nihonjin participa a sua maneira desse movimento cultural difuso que faz a crítica da cultura brasileira como entidade nacional, entendendo diferenças culturais internas como irredutíveis a uma conciliação nacional. É o que aparece nos dramas do romance, que se organiza em sete capítulos mais ou menos independentes, que variam o foco narrativo sobre diferentes personagens. O fio é conduzido pela investigação e completado pela imaginação do narrador, que busca no avô, Hideo, a memória familiar que revela ou esconde as histórias do passado. O narrador “vê”, conforme repete, o que o avô não diz, e assim conta as histórias mal contadas da família.
Além dos episódios sobre a vida do avô, acompanhamos também Kimie, que aguardava a neve no cafezal paulista e, por nunca vê-la, sucumbiu ao delírio; Haruo, menino nascido no Brasil, que era o “japonês” para os colegas de escola, eles também filhos de imigrantes, como os italianos, mas integrados à brasilidade; Sumie, que experimentou o dilema entre o casamento tradicional na comunidade japonesa e o desejo por uma história de amor com um gaijin galanteador; e o mesmo Haruo, que, adulto, se supôs livre para debater publicamente a identidade nipo-brasileira em momento de fanatismo político e, por publicar artigo em jornal, se deu muito mal.
Em cada um desses episódios, o desencontro entre a tradição estrangeira e a cultura do lugar, operado por racismo, machismo ou nacionalismo, movimenta um drama pessoal que põe em risco a saúde ou a vida do personagem. Em cada caso, o resultado é que o personagem não é aceito na comunidade japonesa (Sumie e Haruo) ou não permanece vivo (Kimie e Haruo). O Brasil nunca deixa de aparecer como espaço inóspito, o que parece ter motivado uma das restrições de Noemi Jaffe à obra (“aqui a profusão selvagem e lá as quatro estações bem definidas”). Mesmo assim, em cada caso o problema do pertencimento parece complexo, a utopia aparece como destino trágico. Exemplar é o caso da infância de Haruo, quando o pai do menino e a professora da escola rural não alcançam consenso e o destino do menino fica suspenso entre dois discursos incompatíveis, que imaginam o mesmo lugar, a sala de aula, como dois lugares inconciliáveis. Para o pai, seu filho deveria ser tratado como legítimo japonês em situação estrangeira, enquanto para a professora, seu aluno nascido no Brasil era, por isso, brasileiro e deveria ser educado como qualquer outra criança brasileira. Chegaram, então, à conclusão de que o menino era japonês e era brasileiro, e caberia ao menino, durante a vida, elaborar a sua diferença.
No dia seguinte, uma quinta-feira, Hideo extraordinariamente não foi ao cafezal de manhã. Após o café, vestiu a sua melhor roupa e foi à escola se queixar com a professora. Disse-lhe que sabia o que estava escrito na certidão de nascimento, que pelas leis e perante o governo o filho era brasileiro, mas pediu que não lhe dissesse mais isso, que estava criando um grande problema em sua casa. A professora, que era pequena, magra e falava num tom de voz apenas suficientemente audível, não se deixou intimidar pelo modo seguro, quase autoritário de Hideo. Explicou que havia um conflito na sala, que Haruo estava se sentindo excluído, que precisava saber que era tão brasileiro quanto os outros e, além do mais, não poderia deixar de falar na sala de aula sobre a pátria, sobre a patriotismo. Hideo ouviu as explicações da professora em silêncio respeitoso, pois do pai aprendera que quando um falava, outro escutava, mas logo aproveitou uma pausa dela e produziu uma nova argumentação, agora com mais atenção e mais lentamente, porque não era fácil convencer alguém em uma língua de que se conheciam poucas palavras, língua cuja sintaxe era um nó. Disse que ela era professora, e como a professora deveria compreender que Haruo fora educado como um japonês, e que isso era muito mais importante que ter nascido no Brasil, que o filho, além de ter a cara de japonês, fizera-se japonês através da aprendizagem da língua japonesa, que falava melhor que a língua portuguesa, e da cultura japonesa, o que o qualificava como um japonês. Depois acrescentou que Haruo era um menino inquieto, que ele teria dificuldades no convívio com os japoneses da colônia e não se adaptaria ao Japão quando a família retornasse para lá se ela continuasse a insistir que era brasileiro. Disse tudo em voz baixa, mais contida que antes. Sabia que não poderia gritar com a professora, pois ela era uma autoridade, e ele estava no Brasil. Lembrou o ditado japonês: ela entrar na vila, obedeça aos que nela moram. Ela disse que ele deveria se orgulhar do filho, que era inteligente sensível, e por isso saberia com o tempo distinguir entre o que ela lhe ensinava e o que lhe ensinava o pai, pois tinham razão os dois, e Haruo, então, era brasileiro e japonês, mas que ele, o pai, não insistisse em pedir a ela que não lhe dissesse que era brasileiro.
“A professora não entendeu.”
(Nakasato, 2025, p. 56-57)
Ao longo da vida e do século 20, os ideais de Hideo desmoronam. O romance é narrado aos saltos, as histórias abordam momentos significativos para a comunidade japonesa, em décadas diferentes do século. A chegada das famílias ao Brasil e seu deslocamento de trem para as fazendas de café, a adaptação ao trabalho e as migrações internas para São Paulo, a constituição e o desfazimento das famílias tradicionais em base patriarcal silenciadora das mulheres, as organizações culturais da comunidade japonesa, o autoritarismo da Shindo Renmei que assassinou 23 japoneses no estado de São Paulo por admitirem a derrota do país de origem na guerra, até os retornos dos netos ao Japão interessados em oportunidades de trabalho.
Ao fechar o livro, emergiu para mim um drama cultural que pareceu singular no contexto brasileiro. Uma comunidade que se defendeu de xenofobia misturada a racismo, pois o fenótipo japonês parecia a certa cultura popular brasileira inassimilável, à semelhança de migrantes libaneses, e diferentemente de europeus. A atenção aos efeitos desse problema sobre o destino dos personagens marca o romance, que faz dobra na ideia de Brasil para brasileiros integrados à brasilidade, como me sinto.

Referência
NAKASATO, Oscar. Nihonjin. São Paulo: Fósforo, 2025.