
Longarinas, o livro de poemas publicado por Ana Maria Vasconcelos em 2024, começa no “fiat” e termina no “feito”. Entre a primeira e a última palavras, o trabalho (arqueológico, erótico, etimológico) de “roer” as linhas de cada texto (“[…] um corpo/ que se recusa/ a acabar”) e deixar em forma de longarinas apenas água: “organizar experiência em linguagem/ é dar de beber ao outro”. Oferece o elementar em poemas des/remontados, serializados em numeração romana como incessantes recomeços, descomeços que, no entanto, apenas contornam o tema/problema, como na parte V de “sair de si”:
um dia alguém disse
eu
pela primeira vez
embora já andasse na terra
há muito tempo
A gênese dos textos acontece em diversos “litorais”: a experiência amorosa, a consulta ao dicionário e leituras diversas, uma foto de família, relações, enfim, entre “pele” e “fenda” das quais o poema se aproxima, mas não encerra. Os versos muitas vezes curtos, as estrofes idem, os fragmentos seriados ibidem, e a leitura, longa. Quem ler rápido o livro não vai poder lê-lo, pois ele está escrito pela montagem e, então, pelos intervalos.
Em “dança”, por exemplo, parece que as formas de dançar são procuradas a cada fragmento do poema, em experiências díspares: queda, aprender novas palavras, conhecer os movimentos do rosto de alguém, lembrar do dia que te conheci, escutar uma canção de Tim Maia. Em nenhum dos fragmentos está a “dança” anunciada no título, que dança entre os fragmentos. Esse é o jogo mais recorrente do livro. Que jogo e por quê?
Uma idiotia funciona como antídoto a quem escreve, uma ciência da linguagem. Ciente da linguagem, quem escreve não sabe de si enquanto não escreve, nem chega a saber depois. Nessa condição, cada começo é um ato de fala que atrapalha o sentido das palavras e, por isso mesmo, escreve-se alguma coisa nos textos. Assim, por exemplo, em “matéria escorregadia”, poema em três fragmentos (poema composto por três poemas?), o corte dos versos e a inserção de uma mínima palavra, quase balbucio (“ao”), escreve alguma coisa pelo jogo de diferença e repetição:
I.
escrever
é redobrar a atenção
olhar o mundo e
encontrar espanto
II.
escrever é
redobrar a atenção
ao olhar o mundo
e encontrar
espanto
Dobrado o texto I, no texto II atenção e olhar são simultâneos, assim como o espanto pode ser lido como um comentário a um encontro intransitivo. De repente, no jogo do texto a enunciação foi descentrada e os sentidos não se estabilizam, menos ainda pelo término do poema, que pode funcionar tanto como comentário à repetição dos textos I e II, quanto como comparação entre ambos os textos e as falas oraculares:
III.
funcionam
do mesmo modo
os oráculos
Li Longarinas experimentando a indeterminação da linguagem, lembrando do ensaio de Marjorie Perloff sobre o tema, e considerando o que um livro como esse pode significar para quem curte poemas no Instagram fixado por significantes que confirmam identidades, juízos morais ou territórios, iscas narcísicas que reconhecem no poema um texto positivo e definidor de humanidades.
Noutro poema, “o sal na língua”, tendo destacado duas palavras que nos dão “uma espécie de chance/ de explodir/ na dor ou/ no seu contrário” (“[…] fisga/ significa tanto arpão/ quanto fenda// assim como presa/ é o dente que fere/ ou o bicho ferido”), a poeta anota:
IV.
(noto que sangro)
Como uma presa? Por uma fenda, menstruada? Mulher e presa foram aproximadas? Ela percebou ou anotou (“noto”)? Não dá no mesmo? Alguém a feriu? O poema tinha começado: “são muitos os modos/ de carregar uma palavra”, e vai terminar: “a transparência das águas/ é todo o seu mistério”.
Nesses poemas de Ana Maria Vasconcelos, um leitor está fisgado pela linguagem, que é a palavra “fisga”. É “presa” dos poemas, que caça e o caçam. Mal consegue reconhecer uma palavra, um verso, um poema, talvez uma pessoa.