
Lembro da Priscila Branco caloura na Faculdade de Letras da UFRJ e eu, então professor substituto por ali, papeando em grupo, em roda num trailer em frente ao prédio. É uma lembrança de nada, mal consigo retomar o assunto (poesia), só que os livros são contaminados por esse tipo de material, essa massinha de sentido que as timelines também reforçam e armam uma visão da pessoa que escreve.
Então quando a Bianca Garcia me deu para ler o livro da Priscila que tinha editado na Macabéa, eu guardei com essa lembrança e semanas depois li cada poema numa carioca tarde quente de janeiro, aliviado por um ventilador parado direto só em mim. E percebi ali, além dessa espécie de método na feitura do poema (muito disseminado e pouco debatido) curto, narrativo, cotidiano, coloquial e bem-humorado, a matéria da experiência suburbana, que marca diferenças à fonte: a poesia marginal carioca, tipicamente da zona sul da cidade.
Assim, a princípio, é uma espécie de cisma municipal (ou metropolitano) esse no fundo dessa obra, que, na crônica, observo na obra de Luiz Antônio Simas, e na ficção, de Marcelo Moutinho. Quando leio, me interesso especialmente pelo que nele não parece a letra de “Gente humilde”, em que Vinicius de Moraes (e Chico Buarque, que também escreveu) faz um elogio comovido do desamparo da gente do subúrbio, destacando os símbolos reconhecíveis nas fachadas das casas, por quem ali passa de carro ou trem. (Chico compôs apenas os versos: “Pela varanda flores tristes e baldias, como a alegria que não tem onde encostar”, sobre a melodia de Garoto.)
Aí quando leio quem escreve e mora por aqui hoje em dia, como a Bruna Mitrano ou o Marcos Nascimento, ambos da zona oeste (que é diferente da zona norte, que é diferente da baixada, que é diferente de etc.), gosto ali de perceber a experimentação com os imaginários do lugar, que na letra terrível de “Gente humilde” é feito de ausência: “essa gente que vai em frente sem nem ter com quem contar”. No poema que mais gostei do livro da Priscila Branco, sua mãe contava com dona Sandra. O resultado:

Os adjetivos esdrúxulos são interessantes, né. As “línguas impossíveis” e as “plantas fantásticas”, sutis paronomásias, mesmo assim preservam a naturalidade da dicção coloquial, ao passo que sugerem o misticismo entre mulheres no quintal. Não era o caso da criança, que recebia outra energia das adultas (não muito diferente da energia mística): o medo da violência. Por isso, “eu comia tudinho”, verso que rememora e imita, pela simplicidade sintática, pelo diminutivo, a perspectiva da infância.
Eu falei da poesia marginal, mas não estava comentando exatamente esse poema. O caráter anedótico, a tematização do mistério (ainda que irônica), e a estabilidade dos versos sem enjambements anotam a lição especialmente de Adélia Prado, me parece. Digo isso assim como nota pessoal de leitura, que posto experimentando algumas impressões diante de colegas e amigos que possam ler. Quero dizer: li, anotei, procuro transmitir alguma coisa, nem sempre muito elaborada. Coragem…