Miniaturas de Roberto Burle Marx na sua coleção pessoal

Roberto Burle Marx experimentou o desenho de uma forma que já se tornou inviável. Os jardins que desenhou e esculpiu conversam com monumentos da utopia brasileira, na capital construída do país, em museu de arte moderna, à beira da zona sul carioca. Jardins tropicais (a flora crítica) para passear, contemplar as formas das plantas (como os talipots florescidos em outubro de 2025, suas esculturas póstumas, sessenta anos depois da inauguração do parque), urbanizar-se numa assinatura. As curvas de Niemeyer, as ruas de Lúcio Costa, os painéis de Athos Bulcão, as plantas de Burle Marx: um simpósio dos desenhistas de uma estranha aliança entre o Estado e os donos do Estado para sonhar um Brasil abstrato. Um golpe de vista.

Pintura em cartão atribuída a Roberto Burle Marx

Inaugurar Brasília, e perguntar-se onde moram agora os que a construíram. Não estão no mapa da cidade. A visita guiada pelo Sítio Burle Marx provoca o déjà vu. Um sítio com centenas de milhares de metros quadrados de jardins esculpidos para a residência de um homem quase solitário. Uma casa, uma empresa. “Ele que reformou essa igreja.” Mandou reformar… “Esse lustre de plantas secas ele fez.” E fazia a manutenção mensal? “Tinha uma exigência: seus funcionários deviam se tornar servidores públicos.” Um benfeitor. Basta caminhar pelo sítio de largos jardins para conhecer seu limite preciso nas densas redes de arames cortantes ou nos muros altos de cimento ao lado do portão de entrada. A utopia não chegou ao vizinho, virou patrimônio público.

Jardim aquático do Sítio Burle Marx

A ideia era ligar planta e cimento, oxigênio e gasolina, sítio e escritório, os lados marcados da modernidade. Aí foi magistral, mobilizou uma flora tropical cosmopolita oriunda de diversos continentes, compôs a cores usando verde, verde e verde diferentes, deixou as flores um pouco de lado (a não ser as modernistas, como a Heliconia burle marx), esculpiu jardins com raízes e caules, rochas e totens, convidou passantes brasileiros a atravessar uma forma de pensamento. Caminhar no pensamento parece uma maneira de compreender o convite do jardineiro do Sul Global. Seus jardins urbanizaram desenhos à maneira cubistas, transformados à força das plantas. O paisagismo anexo à arquitetura realizava, no entanto, uma arquitetura sem fim.

Heliconia burle marx no Sítio Burle Marx

No reino da assinatura, foi viver Roberto. Ali no sítio pintou o que podia: toalhas, lençóis, azulejos. Reformou a capela: sua pintura no teto. Consagrada a Santo Antônio da Bica, em nome das águas que animam milhões de plantas do sítio, a capela recebeu no pátio de chegada um totem de Miguel dos Santos encimado por Exu. Distante dos bairros então mais urbanizados da cidade, escolheu viver sozinho, depois com Cesar, cercado por esculturas vivas acomodadas pelo seu desenho, no doce império de si. Pensador queer tropicalista, o jardineiro de Guaratiba experimentou no desenho uma utopia que, no sítio, não era nacional nem popular. Era um negócio pessoal. O recado das plantas como civilidade, intervalo entre casa e rua, eu e outro.

Totem de Miguel dos Santos no Sítio Burle Marx