
Há, senão nas nuvens, nas outras palavras as palavras que faltam. Que falte a próxima obra (o próximo romance, o próximo poema, que nome tenha), é o que se chama tempo. Ou quando. Que falte a próxima frase, que se chame murmúrio. E se chama silêncio, dizem, não faltar palavras.
Leitor apaixonado de António Lobo Antunes dificilmente passa do título dos seus livros. Passa com dificuldade. A hipnose sintática que há neles os faz obra além da obra. E a série de livros a cada ano ou dois os torna performance além de romances. Eu, que com dificuldade passo do título dos seus livros, anoto sugestões para os próximos, e aguardo. Na desesperança de quem jamais previu exato o título, espero errar em público. Sou leitor.
Este que ama o destino das letras, desde o esforço contra o trocadilho (que chamam de fala) até a desconfiança quanto ao canto delas, o leitor. Como tal, leio, no título que vem, uma obra. Nomes de livros que não se escreveram. Não houvesse um livro não escrito sob cada título, não haveria obra.
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Onde tocar quando o corpo apaga
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Dissertação sobre a insônia
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Não pises nas águas desses rios
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História natural
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Até quando o mar não vem
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A outra morte de Roberto Carlos
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Que fazer do amigo na enseada
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Mel de marimbondos
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Pouco soubemos aonde ir
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Congresso internacional do medo
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De cancro e miragem
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Amar só está quando quer
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Não lê quem
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Aliás são desvalidos
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Não falarei de lêmures
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Diáspora das chuvas
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Quem esteve nu ao longo dos dias
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A lua vem da Ásia
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Fervem os braços da piedade
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De tudo ao meu amor antes
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Cartilha dos navegantes
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Na praça com os gatos da Abissínia
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Quando os orangotangos choram
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O beijo se faz sem mar
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Lamento dos papéis
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P.S. Compus “Títulos salvos nas nuvens” em 2014, e o trabalho foi publicado na Polichinello, n. 16, que o Nilson Oliveira editou em Belém, PA, com um time incrível. Posto hoje, 5 de março de 2026, como notícia da sua morte, aos 83 anos e 32 romances.