
Algumas leituras marcantes que já fiz foram fruto de uma estranha liberdade: tempo para ler qualquer coisa. Estranhar um livro lançado, perguntar-se quem escreveu, quem teve essa ideia, aonde essa escrita pode chegar. Foi o que me ocorreu com esse livrinho que achei precioso. Fazer crônica sobre o que acontece na literatura é hoje muito parecido com fazer teoria literária: identificar o que acontece (contra a enxurrada de propaganda travestida de jornalismo ou crítica) é como definir literatura. Os acontecimentos são criados ao serem nomeados.
Nesse ensaio de Pedro Kalil, o que acontece na literatura hoje pode ser considerado a partir da experiência de um leitor. Não parece possível “o” leitor, aquele que lê “tudo”. E nem apenas porque “tudo” é muita coisa, mas também porque uma voz crítica não deve se universalizar. Não que não se permita isso, mas que aparece uma exigência crítica do nosso tempo: um gesto democratizante de entender as circunstâncias de cada voz, de não deixar que uma voz se torne necessária em nome do esquecimento de outras.
Assim, o que Pedro Kalil leu e, a partir disso, elaborou não significa o que a literatura é nem como a literatura está, mas essa assinatura pode nomear o que a literatura está sendo no horizonte da sua experiência de leitura, e a isso considera uma “desmetodologia”: “andarilhar pela literatura atual, um pouco a esmo; ler um livro e depois outro, sem me preocupar com o que vou encontrar; não criar teses a priori; ter o prazer da viagem com os livros […]”. Nesse gesto, o leitor coleciona livros e os empilha, e os reempilha, compondo constelações provisórias que podem revelar, com algum acaso, algumas figuras.
Repete vinte vezes o procedimento: empilha, reempilha, e anota.
Por vinte vezes, Kalil lista determinado conjunto de obras literárias publicadas entre 2010 e 2024, não apenas brasileiras, não apenas em português, que tenha lido e que formam alguma imagem do acontecimento. Assim, “o vocabulário de normatizações e organizações como mote para títulos de livros” (mapas, inventários, instruções, arquivos etc.), o tema da casa, a criação literária a partir de arquivos familiares, a inserção de fotografias de arquivos ou tiradas pelos autores no texto literário, as “ilhas urbanas” territorializando a ficção (bairros, ilhas, periferias, monturos), a experiência do imigrante, a violência de Estado muitas vezes sob iminência de acontecer, a experiência da doença (especialmente, demências e depressões), o tema sensível do suicídio, o luto por vidas anonimizadas, a vida dos animais, a “expansão de contato com outras vidas” como chamamento ético na literatura atual, as subjetividades abjetas (perversos, em geral), “a aparição do atual nos textos” (terrorismo, covid-19, protestos de 2013 etc.), o estilo de repetição/acumulação com efeito de dificuldade, as relações sociais encarando crises intermináveis e agônicas, a canção popular participando da ficção…
Essa enumeração retoma os traços de matéria e forma literárias que são interpretados num livrinho de oitenta páginas que lembra, pelo tema contemporâneo e pelo estilo cheio de subordinações e frases longas, os retratos de época realizados por Flora Süssekind, especialmente em Literatura e vida literária. O gesto de Kalil, no entanto, parece mais generoso, no sentido de procurar compreender o panorama organizado pela experiência de leitor (um panorama paradoxalmente parcial), baseado em alguma convicção que não é polemizada.
Por exemplo, ao identificar “a identidade” como tema recorrente na literatura atual, distingue “os textos bem-sucedidos” como aqueles que colocam o leitor em relação, equivocando a experiência de quem narra. A demanda ética de interesse por personagens “que anteriormente estavam tão escondidos e/ou excluídos” pode alcançar “resultados impressionantes”, quando se atém a “algo tido como cotidiano” ou às relações familiares mais íntimas. Dois exemplos que o ensaio empilha e também li com admiração: Esse cabelo, de Djaimilia Pereira de Almeida, e Amora, de Natália Borges Polesso. Olhando por esse tema, a história da literatura pode mudar também, e romances como Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, se atualizam sob a força dessas obras contemporâneas, que deve ser buscada “não só nas histórias que são contadas”.
Se literatura é literatura, ou seja, se um romance não é a história que o romance conta, mas alguma coisa como a invenção de formas para a experiência, então um leitor de literatura observa algumas repetições nas obras que lê, em temas e procedimentos, e as anota no ensaio. Seu gesto crítico não parece pôr em crise os termos da literatura, tomando como objeto da reflexão a força dos textos. Manter-se no lugar da literatura como no lugar de uma tradição instituída parece dizer alguma coisa in absentia. A operação do autor começa na seleção da leitura (o que leu, o que não leu) ou do comentário (do que leu, o que guardou), e continua na escrita do ensaio.
Para mim, que fui lê-lo, me interessou menos o gosto de Kalil do que o elenco de temas que encontrou e o modo como os elaborou. A crônica, enfim, tomei como mapa, inventário, instrução ou arquivo, mas sem muita autoridade (reconheci especialmente aquela que emana das horas de leitura e reflexão que antecederam a escrita do ensaio). É um ensaio. Quanto ao gosto, me pareceu mais ou menos familiar, ao mesmo tempo em que reconheci ali algumas diferenças de interesse, como a frequentação de textos dramáticos.
Li com o prazer de quem reconhecia um leitor como eu e diferente de mim, e teve o trabalho de elaborar pilhas e pilhas dos livros de uma biblioteca pessoal recente, oferecendo algumas figuras que se formaram nessa experiência com a literatura do nosso tempo.