
Como suponho qualquer pessoa convencional, prefiro ler os livros que não preciso ler.
Foi assim que cheguei a O prazer censurado: clitóris e pensamento, de Catherine Malabou, que a Ubu lançou em 2024. O livro estava no radar desde que foi publicado por causa do tema (e do tamanho, curtinho): ao que converso com os amigos, minha geração em média começou a lidar com o clitóris depois de adulta, não o imaginava nem o via nem o aprendia naquela cultura pop pouco responsável com as crianças nos anos 1990 ou numa escola supostamente mais liberal em educação sexual.
Quando me interessa o livro, vou atrás do que se escreveu sobre ele, na medida do tempo que tiver para isso. Gosto de perceber a diferença entre o modo como li e as leituras públicas, mais ou menos profissionais. Em meio à enxurrada de textos comentando livros, vou catando uma coisa ou outra que passa e seja interessante.
A tradução por Célia Euvaldo do ensaio de Malabou foi publicada em 2024 e recebeu apenas uma leitura crítica remunerada, publicada na revista Quatro Cinco Um. Malabou concedeu entrevistas para Claudia, Cult e O Globo, e, no mais, o livro foi objeto de notícias: Estado de Minas, Gama, Outras Palavras, PublishNews.
Nas entrevistas, Malabou afirma a contingência do seu trabalho de escrita, lembrando que foi assistindo Ninfomaníana (2013), de Lars Von Trier, e acompanhando a recepção ao filme que o livro começou. Também parece gostar de dizer que escreveu o ensaio para o clitóris ao mesmo tempo que outro sobre o anarquismo, daí que seja o final de O prazer censurado um match entre clitóris e anarquia.
Na resenha, Ligia Gonçalves Diniz propõe que o livro quase não vale a pena ser lido.
Justamente porque se esperaria ouvir mais do corpo, o movimento da argumentação incomoda: ao conduzir quem lê a concluir que o papel mais produtivo desse órgão é simbólico, o livro acaba por mais uma vez mitigar o potencial revolucionário do gozo. Antes de chegar até lá, contudo, a autora traça um percurso que faz valer a leitura. (Aqui.)

Não que ela respondesse a uma resenha, mas imagino Malabou satisfeita com o incômodo produzido por uma argumentação como a sua, com a marca da desconstrução.
O “percurso que faz valer a leitura”, uma revisão bibliográfica interessante do clitóris na filosofia, na psicanálise e no feminismo, informa os leitores do problema que esse órgão provoca para o pensamento, daí a autora elaborar os efeitos do órgão para o pensamento. O ensaio pareceu coerente: é filosófico, mas, talvez, de fato a sua chegada ao Brasil demande uma ginga que perturbasse um pouco a autonomia do pensamento, a filosofia como uma disciplina.

Li O prazer censurado em voz alta, com outra pessoa, em parceria amorosa. Ler assim, que adoro, é interessante de cara, porque convida a uma atenção mais constante, já que a dupla leitora vai comentando as passagens, a começar pelas interjeições: caraca! eita! lá ela! Parece ser, no entanto, menos singular, já que não divago quando desejo, sinto que raciocino mais do que o usual, e procuro uma elaboração comum na conversa.
Os dois leitores são uma figura da distância entre os dois órgãos, marca humana (nos demais mamíferos, o clitóris está inserido na vagina) e, segundo Malabou, feminina. Na distância entre os órgãos a diferença sexual não importa, pois ela diz respeito à diferença entre as genitálias. O que interessa nessa distância é o zoneamento do prazer, a experiência do prazer onde ele não está imaginado pelo falo e, então, pela sua linguagem. Daí o feminino, conceito anárquico, forma clitoridiana do pensamento.
Ler em dupla, assim, encontrando nisso prazer, acende o texto onde ele não falava, silencia onde ele estava evidente, complica o que parecia fácil, dissemina o desentendimento.

A entrevista de Renata Izaal com Malabou para O Globo, o trabalho de Sophia Wallace é citado. Cliteracy é uma série de obras hoterogêneas (instalações, desenhos, esculturas, textos), espécie de frente de luta aberta na poética da artista nova-iorquina, que inclui a redação do verbete de dicionário para o termo cliteracy.
Eu gostei do texto por causa do trocadilho com literacy. Procurei tradução.
O procedimento de composição do termo em inglês, uma mesclagem, reúne clitoris e literacy, com um resultado simples: a introdução do “c” no começo de uma palavra já existente.
Cletramento: mas esse termo não retorna a clitóris. Cliteracia: mas esse termo não se liga o letramento. Grelamento: comunica melhor o sentido geral, mas apenas ecoa letramento.
Como o termo em inglês se vale da semelhança entre clitoris e o termo latino littera, valeria em português chamar pro jogo uma palavra baseada no termo em latim e semelhante a ele, como literatura ou literal. Assim, cliteratura, cliteral.
Era a questão mesma de Malabou: procurar pensamento considerando o clitóris. Seria preciso torcer o pensamento, como para Sophia Wallace, torcer a língua.