Capa do romance

Durante o mês de março de 2024, o movimento político de extrema-direita no Brasil elegeu o romance O avesso da pele (2020), de Jeferson Tenório, como objeto de ódio.

Embora tenha vindo à tona o argumento de que o vocabulário do livro seja de baixo calão, a tematização da orixalidade dos personagens principais e do racismo exercido pelas polícias certamente determina a escolha do livro como inimigo político.

O fato de o livro ter sido enviado às escolas pelo Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), em momento de governo do Partido dos Trabalhadores (PT), alimenta a perspectiva de conspiração da esquerda.

Por isso, os governos de Paraná, Mato Grosso do Sul e Goiás trabalharam para retirar o romance de suas escolas públicas de ensino médio.

Em dezembro de 2023, propus um trecho do romance em avaliação formal individual para estudantes de primeira série do ensino médio.

Trata-se de um trecho significativo da obra, pois nele aparece o termo do título, “avesso da pele”, como fala do pai ao filho narrador.

As questões que elaborei avaliam a compreensão ou a interpretação do trecho com base nas noções dos elementos da narrativa, de acordo com o currículo proposto para a série.

Certa vez, quando eu tinha nove anos, você me perguntou quem era Deus. Lembro que estávamos caminhando pela rua, procurando uma sombra para descansar. Estava quente, um calor que não era insuportável mas que nos incomodava. Então, quando encontramos um banco embaixo de uma árvore, você olhou para algumas pombas que ciscavam por ali, naquela praça malcuidada, e me perguntou: Pedro, você sabe quem é Deus? E eu não fazia a mínima ideia do que tinha te feito perguntar uma coisa daquelas para um menino de nove anos. Lembro que recém havia terminado de ler um livro sobre vampiros, lendas e histórias de terror. Então, quando você me perguntou quem era Deus, pensei em dizer: não sei. Acontece que você detestava que eu dissesse não sei, você dizia: filho, nunca podemos saber de tudo, mas, olhe, não responda não sei. Diga então que precisa pensar, que precisa de tempo. No entanto, naquele dia, eu não queria pensar. Estava quente e eu só tinha nove anos. Mas eu lembrei do meu livro sobre lendas de terror e respondi que achava que Deus era um fantasma que morava no céu. E, quando eu disse isso, você me olhou com certo espanto, e vi seu rosto se iluminar com alegria. Como se eu tivesse dito a coisa mais importante do mundo. Talvez hoje eu compreenda por que você ficou comovido com aquela resposta. Conforme fui crescendo, suas perguntas foram ficando mais complexas. E confesso que às vezes eu não queria ser profundo. Eu queria apenas brincar e ser como os outros filhos eram com seus pais. No entanto, agora eu sei que você estava me preparando. Você sempre dizia que os negros tinham de lutar, pois o mundo branco havia nos tirado quase tudo e que pensar era o que nos restava. É necessário preservar o avesso, você me disse. Preservar aquilo que ninguém vê. Porque não demora muito e a cor da pele atravessa nosso corpo e determina nosso modo de estar no mundo. E por mais que sua vida seja medida pela cor, por mais que suas atitudes e modos de viver estejam sob esse domínio, você, de alguma forma, tem de preservar algo que não se encaixa nisso, entende? Pois entre músculos, órgãos e veias existe um lugar só seu, isolado e único. E é nesse lugar que estão os afetos. E são esses afetos que nos mantêm vivos. Lembro que você fazia um grande esforço para ser entendido por mim. Eu era pequeno e talvez não tenha compreendido bem o que você queria dizer, mas, a julgar pela água nos seus olhos, me pareceu importante.

TENÓRIO, Jeferson. O avesso da pele. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 60-61.

Considerei que a leitura do trecho pode não ser fácil para cada um dos meus estudantes de primeira série. Por isso, elaborei uma primeira questão de identificação dos personagens.

O fragmento do romance O avesso da pele (2020), de Jeferson Tenório, consiste numa cena ficcional com dois personagens, narrada em primeira pessoa. Descreva os dois personagens representados, considerando a relação deles entre si e suas características pessoais.

Nas respostas, alguns estudantes consideraram que o narrador estava se referindo à mãe, mas a maioria identificou o pai.

Na questão seguinte, aprofundando a compreensão do trecho, propus a identificação dos tempos narrativos representados no trecho.

O trecho apresenta uma narrativa que representa dois tempos diferentes, o presente e o passado. Descreva a situação correspondente a cada momento da narrativa.

a) O que está acontecendo no presente?

b) O que aconteceu no passado?

Nas respostas, o grau de detalhamento variou bastante.

Por fim, solicitei a interpretação do conselho do pai, baseado no termo “avesso”.

No diálogo entre os personagens, um deles argumenta: “É necessário preservar o avesso”. Considerando o tema das relações étnico-raciais desenvolvido na cena narrativa, explique o argumento do personagem ao defender que é necessário preservar o avesso.

Esse tipo de comando demanda calibrar a correção de acordo com as respostas que aparecem.

Usei como critério de correção a exigência de se comentar a pele e seu avesso, ou seja, os dois elementos metafóricos associados à violência e ao afeto, ao exterior e ao interior, ao estereótipo e à singularidade.