Capas dos livros de Ricardo Aleixo que basearam a elaboração da prova

A experiência de escrever avaliações formais para turmas de estudantes no ensino básico participa do cotidiano do professor.

As escolas e redes de ensino atribuem maior ou menor autonomia a seus docentes como autores das avaliações.

Quando a autonomia é menor, entende-se que as avaliações redigidas por docentes que não estão naquela sala de aula são um mecanismo de controle da qualidade pedagógica.

Entendo, por outro lado, que uma avaliação precisa ser elaborada em diálogo com o cotidiano escolar. Assim, um professor toma decisões a respeito de temas abordados, níveis de dificuldade das questões e amplitude dos gabaritos de acordo com o seu conhecimento das turmas e dos estudantes.

Recentemente, escrevi três avaliações formais individuais, as famosas “provas”, baseadas em textos recentes da literatura brasileira.

Gostaria de, nesse primeiro post, apresentar uma prova para turmas de oitavo ano do ensino fundamental, na disciplina de Português, que avaliava a poesia como gênero literário.

Parte da prova foi construída com base na obra do poeta Ricardo Aleixo.

Para isso, selecionei dois textos recentes do poeta: um capítulo do seu livro de memórias Sonhei com o anjo da guarda o resto da noite (2022), no qual compara o ofício de poeta na vida adulta com o comportamento tímido durante a infância; e um poema visual publicado em Diário da encruza (2022), composto por uma única oração.

O contexto dos estudantes é pós-pandêmico, de maneira que a turma viveu o quinto e o sexto anos do ensino fundamental remotamente, e apresentou, no sétimo e no oitavo anos, dificuldades na aprendizagem de conceitos gramaticais e na concentração para a leitura de textos longos.

Segue a sequência dos textos e duas questões comentadas.

“Menino calado” (2022), de Ricardo Aleixo

É contar e ver surgir na cara das pessoas a descrença. Ninguém parece acreditar, e mesmo a mim soa estranha a lembrança de que fui um menino de pouca conversa. Como é possível, se hoje eu ganho a vida com a voz ao vivo, em performances, palestras, cursos e oficinas? Só com as pessoas da minha casa eu trocava umas escassas palavras. Porque amava o silêncio, espécie de segunda pele que me protegia do mundo, na mesma proporção em que me desagradava o contínuo vozerio dos adultos das tribos vizinhas da nossa pequena tribo.

Passei anos seguidos considerando a coisa mais normal do mundo a hipótese de viver para sempre calado, até que, lá por volta dos onze anos, bem no tempo em que aprendi a cantar, no colégio, tornei-me um razoável conversador. Minha irmã me contou, dia desses, que ela e eu conversávamos bastante quando éramos pequenos. Acredito, se é ela quem o diz, mas desconfio que a mana exagera um bocado. Observando-a conversar numa festa, por exemplo, é fácil ver como a palavra lhe sai fácil da boca e de todo o seu rosto tão bonito, ao passo que a mais simples conversação, se não chega a ser algo sofrido, me exige um grande esforço, principalmente se preciso convencer a pessoa com quem falo.

Prefiro escutar, e há mesmo algumas boas almas que me garantem que sou bom nisso. Quando me escutam com atenção e genuíno interesse, demonstro sofrer da típica loquacidade dos tímidos e falo, falo e falo sem parar. Em tais situações, não é raro que eu tente inverter os papéis, passando a fazer perguntas às pessoas. Muitas abdicam desse súbito direito à palavra e me lembram que sou, ali, o poeta, e que portanto devo falar. Mas falar o quê, meus deuses e minhas deusas, se cultivo, como todo poeta, a ilusão de que tudo o que tenho a dizer já está dito nos meus poemas?

ALEIXO, Ricardo. Sonhei com o anjo da guarda o resto da noite: Memórias. São Paulo: Todavia, 2022. p. 70-71.

Na primeira questão, procurei orientar a leitura do texto no sentido de estudantes demonstrarem a compreensão de estratégias discursivas mobilizadas para a narração, sendo elas a comparação e a contradição.

Enunciado da questão: O texto “Menino calado”, publicado em 2022 e escrito pelo poeta Ricardo Aleixo, pode ser considerado uma crônica que narra o comportamento do autor durante a infância e seus efeitos na vida adulta, como poeta.

Primeiro comando: a) No primeiro parágrafo da crônica, o autor apresenta uma contradição entre a criança que ele foi e o adulto que ele é. Explique que contradição é essa.

Segundo comando: b) No segundo parágrafo, o autor apresenta uma diferença entre seu comportamento e o da irmã. Explique que diferença é essa.

Terceiro comando: c) No terceiro parágrafo, o autor apresenta uma ilusão vivida por todo poeta. Explique que ilusão é essa.

É possível facilmente identificar os trechos do texto que baseiam os comandos da questão.

Por isso, para um estudante de oitavo ano, o desafio não está apenas em identificar o trecho. A partir da releitura, é preciso elaborar uma resposta discursiva parafraseando o trecho em linguagem formal e coerente.

A resposta é avaliada não apenas pela identificação do trecho, mas pela qualidade da sentença elaborada, em relação ao tema e em relação ao estilo do estudante.

Cada resposta discursiva é uma mini-redação, e é avaliada também em aspectos de ortografia e acentuação, formalidade e coesão, entre outros.

Além do texto narrando a timidez na infância, selecionei um poema, também publicado em 2022, construído por um período simples e explorando a visualidade do espaço gráfico.

Trata-se de uma provocação aos poemas em versos rimados tão frequentes na cultura escolar para a infância, de maneira a perturbar o senso comum, às vezes construído com base nas formas tradicionais do poema.

“Tecla tab” (2022), de Ricardo Aleixo

                coloque
                    -se
                      no
          seu
                       lugar
             do outro

ALEIXO, Ricardo. Diário da encruza: Poemas (2015-2022). Salvador: Segundo Selo; lira, 2022. p. 100.

O poema propõe um jogo com a coerência da sentença, tornando indecidível o significado do pronome “seu”, que se refere ao mesmo tempo à segunda e à terceira pessoas, dada a relação ambivalente e contraditória de sentido que estabelece com “do outro”.

Por isso, em lugar de reconhecer elementos formais ou figuras de linguagem que não são essenciais à existência ou ocorrência do poema, como a rima ou a metáfora, propus a atenção à ambiguidade como traço exemplar desse poema, mas não necessariamente de qualquer poema.

Enunciado da questão: O poema “Tecla tab”, publicado em 2022 por Ricardo Aleixo, apresenta uso poético do recurso de tabulação das linhas, presente em teclados de computador com o nome de tecla “Tab”. A sentença formada pelas palavras do poema apresenta sentido ambíguo, ou seja, apresenta dois significados diferentes.

Comando da questão: Explique a ambiguidade presente no poema.

A expectativa de resposta estava na elaboração da ideia de que o “lugar” em que o leitor deve se colocar é, ao mesmo tempo, o seu, leitor, e o do outro.

Mesmo que uma leitura interpretativa possa entender o sujeito e o outro, nesse poema, como categorias em crise, em memória da asserção de Rimbaud (“eu é um outro”), a questão investiga a capacidade de percepção da ambiguidade do texto, que é condição para uma segunda etapa de leitura: a interpretação da subjetividade do texto.

Esses são exemplos de questões que procuram explorar a leitura do texto literário em situação de prova.

O desafio está em elaborar questões facilmente compreendidas pelos estudantes em geral, e que os desafiem a compreender aspectos discursivos do texto.

Isso quer dizer que essas questões não estão preocupadas com o reconhecimento de dados, informações ou significados veiculados pelo texto.

Em vez disso, incentivam atitudes de indagação do texto, provocando a análise estilística (por figuras como contradição, comparação, ambiguidade etc.) e desafiando a elaboração discursiva dessa percepção pelo estudante.