Primeiro rascunho da tradução do poema de Wallace Stevens

Nesses dias, me deparei com a tradução de um pequeno poema de Wallace Stevens que eu não conhecia e fiquei hipnotizado. Os poemas de Wallace Stevens são estranhos, é difícil compor a coerência deles sem a sensação de estar perdendo alguma ou muita coisa na leitura, e ao mesmo tempo lendo-os pareço encontrar um lugar novo de compreensão e imaginação misturadas, que eu não conhecia sem aqueles versos. O pequeno poema que me encontrou nesses dias é desse tipo, e ainda conversa com plantas e árvores, a paisagem vegetal, que me toca especialmente.

Como ando estudando inglês, resolvi tentar a tradução do poema, criando, assim, um modo de lê-lo diferente daquele que encontrei na tradução que li. Acontece que quando fui traduzir, achei difícil decidir pela tradução de uma das palavras, e fui atrás dos comentários aos poemas. Tendo verificado que Paulo Henriques Britto, tradutor de Stevens, não traduziu “In the Carolinas“, o poema que me pegou, e que o tradutor da tradução que eu estava lendo optou pela versão mais inofensiva da palavra em português, me deparei com um enigma, uma tradução aparentemente indecidível, como, na verdade, é toda a tradução, só que mais discretamente.

In the Carolinas

The lilacs wither in the Carolinas.
Already the butterflies flutter above the cabins.
Already the new-born children interpret love
In the voices of mothers.

Timeless mother,
How is it that your aspic nipples
For once vent honey?

The pine-tree sweetens my body.
The white iris beautifie
s me.

O poema foi publicado em 1917 numa revista literária e, depois, em 1923 no livro de estreia de Wallace Stevens, Harmonium. O texto breve faz referência a uma série de plantas que compõem a paisagem das Carolinas (lilases, pinheiro e íris), além de às borboletas, formando um quadro tenso entre flores murchas e plantas de beleza regeneradora. O espanto do poeta, expresso pela pergunta na segunda estrofe, parece resultar do choque entre veneno e remédio, o que mata e o que cura. No tempo sem tempo da mãe, ora ela nutre com mel, ora com alguma outra coisa estranha, que murcha ou envenena.

Essa coisa estranha torna da tradução indecidível. Isso porque o termo “aspic nipples“, de sonoridade sugestiva na aliteração de consoantes oclusivas, p, c, e na assonância da vogal alta aguda, i, nomeia os seios da mãe, caracterizando-os com um termo polissêmico: “aspic“. No dia a dia, esse termo remete a uma receita que não é muito comum no Brasil, uma espécie de gelatina de carne com vegetais, prato principal gelatinoso, como o seio que amamenta, em contraponto com a doçura do mel, que o poeta encontrou nas Carolinas. Mas o termo também remete à lavanda, ou alfazema, espécies de plantas de mesma família, e também a uma espécie de cobra, a víbora.

O espanto do poeta parece se justificar mais pela gelatina de carne do que pela alfazema ou pelo formol, outro significado do termo. Alguns leitores sugerem aí uma referência esquisita à Cleópatra, que encontra a morte depois de deixar uma víbora picar os próprios seios. Dessa maneira, o poema sugere, na contemplação da paisagem e, mesmo, na intromissão da paisagem no poeta (na terceira estrofe), um esquecimento da história, uma sobremesa para humanos. A “mãe sem fim”, por ora, regenera o poeta e seu corpo, nutrindo-o no intervalo da história, do drama, da sobrevivência. Seja gelatina ou víbora, alfazema ou formol, os seios da mãe parecem tranquilizados pelo mel da paisagem das Carolinas.

A tradução, então, não traduz e, por isso, pode ser lida assim: onde se lê “seios de víbora”, leia-se “seios de alfazema”, “tetas de gelatina”, “peitos de formol” etc.

Nas Carolinas

Lilases murcham nas Carolinas.
E borboletas já lépidas sobre cabanas.
E os bebês recém-nascidos já interpretam o amor
Nas vozes das mães.

Mãe sem fim,
Como é que seus seios de víbora
Dessa vez exalam mel?

O pinheiro adocica meu corpo.
A íris branca embeleza-me.