Na prova de Linguagens do Enem 2023, quatro questões consideraram o poema como objeto de reflexão.
Predominaram fragmentos de poemas, o que não deve ser considerado como exemplo para o trabalho em sala de aula.
As questões abordaram Habilidades da Matriz de Referência Enem relacionadas com a teoria das funções da linguagem, a comparação temática entre diferentes textos e, por fim, a leitura de textos líricos, ou seja, a sua compreensão e análise.
Assim, nem todas as questões que consideram poemas como objeto de reflexão abordam conhecimentos literários. Isso também acontece com a prosa narrativa, e não apenas na prova de Linguagens. A prova de Ciências Humanas do Enem, que apresenta questões de História, Geografia, Filosofia e Sociologia, baseia algumas questões em textos literários.
As questões que abordaram conhecimentos literários a partir da leitura dos poemas avaliaram a representação do sentimento amoroso e o estilo de evocação da memória.
Dois temas, portanto, clássicos da tradição lírica foram analisados em um poema modernista, de Mário de Andrade, e outro contemporâneo, de Ana Martins Marques. Em cada caso, era preciso reconhecer valores afetivos como efeito do estilo dos versos, identificando a representação do cotidiano ou a postura de serenidade das vozes líricas.
O conhecimento da história da literatura brasileira e mesmo a identificação da autoria de Mário de Andrade são úteis, mas não indispensáveis, na solução das questões. Assim, a prova favorece leitores de poesia mais experientes na diversidade de estilos da modernidade literária, e não exclui estudantes que não tenham tido acesso a amplo repertório de poesia e podem, por análise e raciocínio, acertar as duas questões.
Isso quer dizer que a poesia é abordada principalmente em função do gênero lírico, ou seja, como um texto cuja voz (também denominada, na prova, como “eu” ou “sujeito”) representa valores sociais e humanos, em estilo singular e historicamente localizado.
Se, conforme considero nesse blog, a prova do Enem pode funcionar como referência curricular para professores da educação básica, então ela avisa, em 2023, assim como nos anos anteriores, que a poesia contemporânea é a janela para a história da poesia, pois atualiza a tradição lírica. Além disso, a leitura do poema implica não a identificação do estilo de época, mas, sim, a compreensão das representações sociais e humanas dos afetos, que emerge do estilo do texto.
Então, sob essa perspectiva, uma roda de leitura que aprofunde a compreensão de poemas e detalhe seu estilo pode ser muito mais útil para preparar estudantes para a prova do Enem e formá-los como leitores de poesia, do que a apresentação cronológica de poemas canonizados de acordo com determinado estilo de época.
Esses são alguns aspectos curriculares sobre a poesia que a prova de Linguagens do Enem 2023 sugere.



